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00:00Eu queria ser um oscarito na vida, eu não gosto de sofrer com o personagem não, a vida é pra ser
00:19curtida como eu sou, meu bom vinhozinho, de vez em quando um Scottzinho em On The Rocks, a minha
00:26comidinha. Tem muito jovem que fala, como é que eu faço entrar na Globo? Eu falo, pela
00:30porta, sempre. Se for pela parede, bate a cabeça. E hoje que eu faço essa chamada revisão da
00:38minha própria vida, eu tenho consciência que sempre foi o que eu quis fazer, me comunicar.
00:46Nós somos de uma família paulista, do interior paulista, uma família tipicamente paulista.
00:52Minha mãe já estava casada com meu pai, a esta altura, no interior de São Paulo, casamento,
00:58tudo, na fase de encomendar o Toninho, que sou eu. E curiosamente, eu vinha nascer no Paraná.
01:12Nossa, como é que você conseguiu isso? É Dona Maria Antônia, minha querida mãe.
01:18Nossa Senhora, mamãe aí com 19 aninhos e eu com 1 aninho. Nossa Senhora, olha que foto linda.
01:28A mãe é uma mulher muito bonita, uma mulher que lutou e me criou com muita determinação.
01:36Mas eu era muito menininho,
01:42molequinho, uns 3 para 4 anos, e aí acontece a separação do casal.
01:48Naquela altura existia a figura civil do desquite, né?
01:52Que felizmente virou o divórcio anos e anos depois.
01:57Mas era complicado para uma mulher ser apontada como desquitada, né?
02:03Mas ela felizmente teve o grande apoio dos irmãos, meus tios queridos, e de minha avó querida,
02:09mãe dela, a avó Dodô. E ali foi muito importante esse apoio dessa pequena família.
02:16Eu sou de uma geração formada pelo cinema, claro com a influência do cinema americano muito forte.
02:23E depois na década já dos anos 1960 até 1970, entra o cinema europeu com muita força na minha vida.
02:31Mas naquele início eu era um grande fã de Oscarito.
02:36Eu ia na matinê com dois cruzeiros, que era uma nota amarela com o Duque de Caxias, a foto dele.
02:43E atrás era amarelada, que minha avó me dava, dava para a matinê, para o lanche,
02:49eu ainda voltava com troco, eu não gastava tudo não.
02:52Não, vou juntar para a semana que vem.
02:54Eu saia do cinema e saia, meu Deus do céu, muito bem você, meu amor.
03:01Ficava imitando o Oscarito, toscamente, como uma criança de 8 anos.
03:08E chegava em casa, a vovó gostou do filme, como é que era o filme?
03:12Eu falei, vovó, eu pedi e começava a fazer para ela.
03:15Eu queria ser um Oscarito na vida, a bem da verdade.
03:19Posso dizer isso e não volto atrás, né?
03:23Eu comecei a fazer parte de grupos de teatro amador na própria escola.
03:27Num dia, numa tarde de quarta-feira, no ano de 1963, final do ano, final do ano,
03:37já estava de férias na escola, eu vejo um programa na TV Tupi de São Paulo,
03:44que era escrito, dirigido por Ribeiro Filho.
03:48Falando, estamos convocando novos atores para o Novos em Foco.
03:52O nome do programa é que havia segundas, quartas e sextas.
03:55E eu, atrevidamente, fui lá.
03:58Eu fiz e fui tão bem.
04:00Claro que eu fiquei de boca seca, nervoso, suado,
04:04não tinha ar-condicionado nos estúdios naquela época.
04:08Tudo aconteceu.
04:09Mas eu dei o texto e eu acreditei.
04:12E na quarta, eu volto na quarta.
04:14Até que Cassiano Gabos Mendes, que era o nosso diretor, o geral, o artístico,
04:18me viu lá e falou, esse moleque faz um teste com ele lá para a novela do Durst,
04:23o Walter Jorge Durst, direção do Geraldo Vietro, outro grande que já também nos deixou grande diretor.
04:30O Sr. Ribeiro falou, olha, tudo assim,
04:35ó garoto, o nosso diretor acha que você pode fazer um teste aí,
04:40tem uma novela boa que vai começar com o Valor Chagas, com a Jorge Agumid, com o Juca de Oliveira, com a Vida Alves.
04:46Eu falei, nossa, é? E fui lá.
04:49O senhor acha que vai dar certo?
04:51Ele falou, não, vai dar, vai dar, vai dar, vai lá.
04:53Faz o teste.
04:54Mas, se o que acontecer não dá certo, você volta para o nosso programa.
04:58E deu certo.
04:59Eu ganhei o teste, ganhei a personagem, me registraram em carteira,
05:03e aí a vida seguiu.
05:06E aí veio o teatro com Plínio Marcos, e aí a arte passou a me sustentar.
05:12Emblemática e significativa figura Geraldo Vietro.
05:16Um autor que escrevia durante o dia e às vezes à madrugada, à noite e à madrugada,
05:21e durante o dia ia dirigir as cenas que ele havia escrito.
05:25Algumas ele criava na hora.
05:30E o preço que eu devo pagar? Qual é?
05:32Tiago, você já tem idade suficiente para entender certas coisas?
05:43Começa a produzir novelas que quem tem uma memória acima dos 50 anos deve se lembrar.
05:49Novelas como Os Rebeldes, novelas como Nino Italianinho com Chupa de Oliveira,
05:55como Antônio Maria com Grande, Sérgio Cardoso.
06:00Muito prazer, senhor. Igualmente.
06:01Como tem passado, senhora?
06:02Bem, obrigada.
06:03Tudo bem, Beto?
06:04Tudo bem, Cristão?
06:05Gustavo?
06:06Pois não?
06:07Faça-nos um favor.
06:08Glorinha e Otávio estão lá na cozinha.
06:10Vai chamá-los, por favor.
06:12Então, Antônio Maria realmente dispara meu nome.
06:15E aí, o que Lima Duarte sempre dizia pra mim.
06:18Os 5 primeiros anos são os mais difíceis, tem que se aprumar na carreira,
06:22ser reconhecido, receber convites e tal.
06:25Depois vem a afirmação do seu nome.
06:28Você já está reconhecido, vai ter que receber convites e tal.
06:31Depois de uns 10 anos vem a consolidação do seu nome, se o seu trabalho foi bom.
06:37Atenção, se ele foi bom, se ele foi criterioso, se você fez teatro também, etc, etc.
06:44E tudo isso eu cumpri.
06:46As pessoas pensam que cai do céu, né?
06:48Tem muito jovem que fala, como é que eu faço eu entrar na Globo?
06:51Eu falo, pela porta.
06:52Sempre.
06:53Se for pela parede, bate a cabeça.
06:55Aí todos dão risada, eu falo, mas eu falo certo.
06:58É pela porta, mas o que vai levar você a entrar por aquelas portas é o seu trabalho,
07:04o seu critério, a sua dedicação não é assim, por acaso, né?
07:10Mas aí quando acontece uma novela na Tupi chamada Ídolo de Pano, de Teixeira Filho...
07:17Eu mandei que internassem ela lá e ela...
07:19Realmente foi um sucesso.
07:21Bom, o negócio é o seguinte, eu conversei com o delegado e com o investigador
07:24e eles disseram que se ela não abrir inquérito e como não houve testemunhas realmente,
07:29a polícia pode colocar uma pedra em cima disso como se nada tivesse acontecido.
07:32E eu vou passar como eu tenho atropelado essa moça.
07:35Não, mas a polícia não vai dar andamento.
07:36Mas eu vou, porque eu estou sendo acusado de uma coisa que eu não fiz.
07:39Senhora, pra que complicar as coisas ainda mais?
07:42Ainda mais por quê?
07:44Você sabe por quê, né?
07:46A Globo já tinha feito uma sondagem a minha pessoa, mas eu tinha ainda contrato lá,
07:51tinha dúvidas, dois filhos, mulher, em casa.
07:55Falei, mas como é que eu vou mudar pro Rio de Janeiro desse jeito?
07:57Eu tinha outras preocupações que eu sempre tive.
07:59Aí aconteceu a Globo na minha vida, aí o resto é história, né?
08:04Aí eu vim pra uma empresa que tem uma estrutura tão forte, tão consciente do que faz,
08:10tão determinada no que faz e com a mão de obra brasileira.
08:14E lá estou, há 39 anos.
08:17Diga! Diga-se o que eu estou correndo pra pedir socorro pro Papai Rico!
08:22Me responda!
08:23O que é isso, Lacho?
08:24Espera, o que você está fazendo? O que é isso?
08:26Nada.
08:28Eu estou devolvendo a ele tudo o que ele comprou com o bendito dinheiro dele.
08:32Se eu pudesse, eu vomitava a comida que ele comprou com o dinheiro dele.
08:35Não fale assim! Não faça isso!
08:37Reviravolta na minha carreira, a partir do astro, você não só acerta na mosca,
08:44como a mosca me acertou também.
08:47Fez a palavra.
08:48Os funcionários todos estão aqui e eu...
08:52O que significa isso?
08:54Fala, vai.
08:56Meus anjos da guarda disseram, é por aqui teu caminho.
09:05E estavam certos.
09:07Eu...
09:08Aí o Márcio Rayala virou uma...
09:10Realmente, aí uma solidificação absoluta da minha carreira
09:13pra nunca mais ter parado.
09:15Felizmente.
09:17Dr. Márcio Rayala...
09:33Eu adoro o ócio, porque o ócio me é muito criativo.
09:42E é no ócio que às vezes aparecem grandes ideias, né?
09:46E eu estava entrando no banco, no Jardim Botânico, num determinado banco,
09:52na mesa do gerente estava o saudoso Walter Arancini.
09:55Olha, me perdoem, às vezes eu uso muito a expressão saudoso, porque é de saudade mesmo.
10:00Aí tem saudade de pessoas assim, tão brilhantes, criativas, de intelecto lá em cima, né?
10:08Eu tenho muitas saudades.
10:10E o Arancini estava ali cuidando da sua vida bancária.
10:15E eu entrei e falei, oba, tudo bom, compadre?
10:18E assim, ei.
10:21E fiz isso assim.
10:23Eu corri para a fila, fiquei ali com coisas que eu tinha que ver no caixa.
10:30Fiz uma olhada assim e falou, depois quero falar com você.
10:39Fiz o que eu tinha que fazer.
10:40Walter, ele está lá ainda com a sua história lá com o gerente.
10:45Fala, Voltão.
10:46Ele levantou e falou, você já viu o Grande Sertão Vereza?
10:50Eu li, mas isso eu li há tanto tempo.
10:53Por quê?
10:54Porque eu estou para fazer.
10:55Ah, eu li que você vai fazer, né?
10:57Bacana, belo projeto.
10:58Ele falou, pois é.
11:01Quero que você faça o Riobaldo.
11:02Você está maluco?
11:04Não tenho nada a ver.
11:05Não tenho físico de erro, não tenho nada.
11:07Assim mesmo.
11:08Ele falou assim, como você é ignorante, hein?
11:10Que coisa assim para mim?
11:12Vocês estão com aquela ideia que tudo é Lampião Maria Bonita?
11:14Tem um fogo, um fogo do dedo sujeigando meu coração.
11:23Ou sinto amor para o Diadolim.
11:28Sinto amor para que zoio.
11:34Amor de cavalo doido.
11:36Amor endemoniado.
11:39Amor para um homem.
11:41Os amigos dizem que eu sou muito zen para viver.
11:48Eu estou repetindo coisas que eles dizem.
11:50Eu não sou zen.
11:51Eu tenho preocupações na vida.
11:53Opa!
11:54Precupações, inseguranças, incertezas, dúvidas, tristezas, dor de dente, encravada.
12:01Tenho tudo isso, gente.
12:02Só que eu encontrei dentro da própria vida uma definição do que é viver e conviver.
12:13Viver é sobreviver.
12:16É trabalhar.
12:18É não olhar para a vida de terceiros.
12:21Não me interessa quem ama quem, quem deixou quem, quem passou a namorar quem,
12:26quem, com o perdão da boa expressão, quem come quem, quem dá para quem.
12:30Eu não me interessa.
12:33Eu não tenho o dedo apontado para o que é certo e errado.
12:37Acho que as pessoas têm que viver suas vidas, suas opções religiosas, sexuais.
12:43Isto chama-se civilidade.
12:46Civilização é isso.
12:48Ela tem que ser exercida com liberdade.
12:52Claro que liberdade implica em, dois pontos, respeito ao próximo.
12:56Ela termina onde começa a liberdade de terceiros, não é?
13:01Então é uma linha muito tênue que se chama civilização e civilidade, ética e estética.
13:09Elas andam de mãos dadas.
13:10O grego não inventou isso à toa.
13:12A minha carreira, ela vem, ela vem impregnada desses, dessas personagens que foram me surpreendendo.
13:18Para mim, o público é determinante.
13:21É o fundamental na minha vida.
13:24É para ele que eu trabalho, bem ou mal, com mais ou menos intensidade, ele quem vai julgar.
13:30Eu olho o quê?
13:32Repercussão na rua, pessoas que falam comigo, observação de familiares, de netos, da minha companheira.
13:40É o meu norte, é o público.
13:42Eu nunca fui um ator, e ainda não sou e não serei, de ficar ligando para autor.
13:57Eu até nas reuniões iniciais de elenco, eu digo, olha, não vou te ligar, não vou te mandar e-mail, não vou fazer nada disso.
14:04E tenho grandes amigos, queridos amigos, mas como autores, né?
14:10Eu não vou fazer isso, não quero te incomodar.
14:16Me surpreenda.
14:18Por parte de pai, ele é meu irmão.
14:21Assim como aquela menina, a Débora.
14:23Ela é minha irmã por parte de pai.
14:31Ele é teu irmão por parte de pai.
14:35E por parte de mãe.
14:40O Vítor também é meu filho.
14:50O fundo dos momentos mais importantes, sem dúvida, nessa tal de solidificação de nome e continuar imprimindo meu nome,
14:58o público vendo já outra nuance minha após o astro, após pai-herói, etc.
15:04E aí nasce uma grande amizade com o Manuel Carlos, meu compadre, meu querido companheiro, um querido amigo,
15:13Bete, sua esposa, os filhos, né?
15:16Eu sou padrinho de um, inclusive.
15:19Mas a nossa amizade, ela é aquela que não precisa estar se vendo a cada 20 minutos.
15:24Aliás, grandes amigos, eu acho que devem ser assim, né?
15:28Mas quando se encontram, é com muito calor, com fervor, com dedicação, com respeito.
15:34Que é o que eu tenho, mas não é que tu é um homem que tem o meu respeito pra toda a vida.
15:39Silvio de Abreu, querido companheiro, entre outras novelas que ele foi fazendo, ele me propõe no início,
15:44final de 89, ele fala comigo sobre uma novela, uma ideia que ele tinha, que se chamou Rainha da Sucata.
15:51E ele queria reunir Regina Duarte e eu numa novela.
15:55Meu amigo, aí acontece um outro enorme sucesso em nossas vidas, né?
16:01Deixa eu retribuir, retribuir aquele amor que você me deu.
16:07E eu, cego, cruel, mau caráter,
16:11fui egoísta demais pra não perceber.
16:19Deixa me educar.
16:26Por favor.
16:31E aí, comecei a fazer muita novela com o Silvio também, né?
16:46Com o Silvio fiz Sucata, A Próxima Vítima, Torre de Babel, Belíssima, Passione, Filhas da Mãe.
16:55Ai, que surpresa boa.
17:04Você veio aqui, meu filho, me procurar.
17:06Meu Deus.
17:08A senhora foi me visitar na casa minha, em Toscana.
17:12É.
17:13É justo que eu faça uma visita também, não?
17:17Torre de Babel é uma novela inesquecível.
17:19Na época, muito se dizia que a novela foi modificada porque o Tony Ramos não podia ser maldoso.
17:26A imagem dele, não, o público tá reagindo mal.
17:30Na psique da minha personagem, negativa.
17:33Nada foi mudado, foi tudo certinho.
17:38Não!
17:39Não!
17:39Eu não deixo de citar, talvez o mais belo, o último capítulo que eu já fiz em uma novela, que foi na Cabocla.
17:58Uma novela do Benedito Rui Barbosa, o último capítulo é primoroso.
18:01Se um dia, chegando onde eu sei, estão querendo me levar, e eu me esquecer de onde eu vim.
18:13Eu não gosto de sofrer com o personagem, não.
18:15Eu vou me cansar com a personagem.
18:18Porque exige de mim atenção, decoreba, etc.
18:23Mas a minha vida continua.
18:25A vida é pra ser curtida como eu sou, né?
18:27Meu bom vinhozinho, de vez em quando um escotezinho em On The Rocks, a minha comidinha, meus amigos, os netos, a família como um todo, não é?
18:38As viagens quando possível.
18:40Criei meus filhos com muita determinação.
18:43Lamentei muitos e muitas vezes que em reuniões de pais e mestres eu nunca podia.
18:49A Elidiane tava lá firme, mas só que depois, no dia seguinte, no café da manhã, eu dizia
18:53Mais uma vez o papai não pôde ir, mas saibam que eu tô sabendo tudo, mamãe já falou, vocês sabem, a minha vida é essa.
19:00Ah, cega, pai, tá tudo certo, tá tudo certo, a gente sabe, ué.
19:03Ué, o papai tá, a profissão dele é isso e tal.
19:07Não, tá tudo certo, um beijo aqui, um beijo acolá, e assim é até hoje.
19:11Os netos nós somos normais, mas não ficamos aqui.
19:13Você já viu meu neto, ou a minha neta?
19:15Isso eu não faço, não faço, eu quero que eles tenham sua individualidade.
19:20E sei também, se fizer uma manhazinha boba, nha, nha, nha, nha, nha, nha, nha, nha, nha, nha, nha, nha.
19:26Eu falo, velho.
19:28Falo e digo, opa, ficou louco?
19:32Ou, está doida a menina?
19:34O papai não levante a mão contra ele.
19:36Esse é um momento pra mim.
19:37Olha o seu papai.
19:39Nossa senhora, esse é um momento muito bonito.
19:41Nós fizemos de primeira, não houve emenda, houve muito ensaio,
19:46pra que os câmeras, eram quatro câmeras,
19:48principalmente aquela do detalhe, quando o chicote cai.
19:51Houve muito ensaio pra que não se perdesse nada.
19:53Senhores, tá tudo ok, os atores estão prontos.
19:57E foi de primeira, foi lindo, foi lindo.
20:11Mas quando chegou nessa cena, engraçado, né?
20:21Porque passa um filme, passa os primeiros momentos meus na tupi com eles.
20:27São atores que ouvem, que dão dicas e que ouvem, ouvindo.
20:35Não ouvem esperando a deixa.
20:37Há uma diferença muito tênue nisso.
20:40Ouvir a deixa pra sair falando e ouvir e entender as entrelinhas do que ouviram.
20:49Grandes atores têm que ser assim.
20:51Necessariamente têm que ser assim.
20:54O ator, pra bem da verdade, ele tem que ser assim.
20:57Um ator, ele tem uma...
21:02Ele tem um compromisso com personagens.
21:05E esses personagens são os mais diferentes possíveis.
21:10Você precisa, no caso de ter uma companheira,
21:13você precisa ter uma companheira de uma compreensão hercúlea.
21:19Tem que ser de uma força muito grande.
21:23Pra poder suportar toda essa carga que advém da tua exposição pública.
21:30E a Lidiane tem isso de sobra.
21:33Nós somos casados há 45 anos, indo pra 46.
21:38E é uma vida.
21:42Mas uma vida de amor.
21:44É uma equação de primeiro grau muito simples.
21:47Olhar pra ela, quando eu olho, às vezes, no momento que você tá relax, quietinho no canto.
21:53Vendo ali uma planta da casa da gente, batendo papo, ou então os netos por ali.
22:02Você olha pra tua parceira, dá um olho, dá aquele olho inesperado.
22:07E constatar que companheira você tem.
22:11E constatar que amor você tem por essa mulher.
22:15E amor é algo que não se explica.
22:19Amor não é só a paixão efêmera.
22:22Porque essa, como diz a palavra, acaba.
22:27O amor é algo muito maior.
22:29O amor tem silêncios.
22:32O amor tem observação, tem reflexão.
22:35O amor tem respeito.
22:37Muito respeito.
22:39Pela relação, pelo indivíduo.
22:41Então, ela é fundamental na minha vida.
22:46Não há um texto, nos últimos 45 anos e meio, que ela não leu antes de todo mundo.
22:53Realmente, o Rebu foi um momento novo pra mim.
22:59Porque muitos diziam assim,
23:00Ah, mas ele é o anti-herói, ele é isso, ele é aquilo.
23:03Não sei se ele é vilão, que ele é.
23:04Eu disse na época, ele é um vilão, sim.
23:08É um vilão.
23:08É que as pessoas se acostumam muito com aquela vilania clássica.
23:12Que eu até prefiro não fazer.
23:14Aquela que, eu sou maldoso.
23:17Sabe, essa eu não acredito muito.
23:20Eu não gosto, pelo menos.
23:22Porque ou você é vilão por uma...
23:23Informação com a sua amante?
23:25Uma psicopatia.
23:27Você é um psicopata, um sociopata.
23:30Ou você se torna um vilão por interesses escusos.
23:33Ou você, às vezes, é até vilão, sem querer.
23:36E no caso do Carlos Braga, esse belo personagem que eu tive em minhas mãos,
23:41Sem dúvida, ele era um vilão...
23:44Você já foi bem mais...
23:45E gozíssimo.
23:46O mínimo que eu posso dizer.
23:48Foi uma bela releitura do Jorge,
23:50Essa direção brilhante do querido...
23:54Com todas as promessas que eu fiz.
23:55É bom você responder a mais, muito mais.
23:58Aquela dupla dinâmica...
24:00Vai fazer uma delação à justiça.
24:04E eu preciso saber o que é que tem naqueles malditos papéis do dossiê.
24:08Será que eu estou sendo claro com você?
24:10Para eu poder me defender, precisa saber antes o que é que tem lá.
24:13Você me desculpa, Braga.
24:14Não tem sido tão eficiente assim, tá?
24:16Você vai lamentar...
24:18Presta bem atenção.
24:21Você vai lamentar...
24:23Se não conseguir aquilo que eu quero.
24:28Você entendeu agora, rapaz?
24:32Não tenho medo de você, Braga.
24:33Opa!
24:33E hoje que eu faço essa chamada revisão da minha própria vida,
24:39Eu tenho consciência que sempre foi o que eu quis fazer.
24:42Me comunicar, não é?
24:44Sempre fui um homem muito reservado, muito quieto, muito caladão.
24:47Não confundi isso com uma timidez excessiva.
24:51Não, uma timidez normal.
24:52Eu chego em um ambiente onde eu não conheço a ninguém.
24:55Eu não vou sair contando piadas, que eu adoro contá-las.
24:58Eu não vou sair por aí falando...
25:00Ah, como é que está?
25:01Oi, meu irmão!
25:02Quanto tempo?
25:03Pô, isso seria uma mentira minha, né?
25:06Definitivamente, eu estou em paz comigo,
25:08Porque uma coisa eu não tenho no meu vocabulário.
25:12Inveja.
25:13Soberba.
25:14Querer aquilo que não é meu.
25:18E jamais pisei em terreno que não fosse meu,
25:22Para grandear novos caminhos e pegar aquilo que não era meu.
25:28Então eu durmo muito tranquilo.
25:31Muito.
25:31E se eu vejo um jovem ator numa bela cena, pergunte a ele, se eu telefono.
25:37Rapaz, eu estou aqui.
25:38Rapaz, eu estou emocionado com a tua cena.
25:40Eu faço isso com todos os meus companheiros.
25:42Ainda hoje.
25:44Até minha companheira dizer,
25:47Mas você, né?
25:48É o mesmo de sempre.
25:49Falei, ótimo.
25:51Seria o mesmo de sempre até o final dos meus dias.
25:53Ser ator é ter disciplina,
25:57Convicção daquilo que quer mesmo fazer.
25:59Não basta o dom,
26:01Tem que ter também a vocação.
26:03Ser ator é, antes de mais nada,
26:05Aquele que respeita a quem o assiste.
26:07É o mesmo de sempre até o final dos meus dias.
26:12É o mesmo de sempre até o final dos meus dias.
26:14É o mesmo de sempre até o final dos meus dias.
26:24É o mesmo de sempre até o final dos meus dias.
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