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#grandesatores #canalviva

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Transcrição
00:00As pessoas, elas não queriam admitir que eu pudesse ser ator, né?
00:19A cumplicidade com as pessoas era uma coisa tão importante, tão bonita, tão forte, tão visceral.
00:28Nós somos um casal forte, não um casal da televisão, mas um casal, por tudo.
00:35Talvez eu seja realmente emblemático, digamos assim, né?
00:45Minha família é Pereira de Magalhães, então nós somos aparentados de Tiradentes, descendentes de Tiradentes.
00:54Não sei exatamente como, em que momento. Deve ter sido há muito tempo, foi há muito tempo atrás.
01:01E não existe uma memória disso.
01:04Talvez se perguntar, se se estudar, talvez chegue-se à conclusão de que...
01:13Do grau de parentesco existente entre nós.
01:19Eu sou muito brasileiro, por parte de pai, por parte de mãe, eu sou muito brasileiro.
01:26Muito índio, muito negro, como todo o povo brasileiro.
01:31Muito branco, muito paulista.
01:37Minha família de São Paulo, família de minha mãe, família de meu pai do sul de Minas.
01:43E família de minha mãe, muito numerosa.
01:50Nenhum ator.
01:51O único artista na minha família era meu avô, que tocava violina.
01:58Na verdade, eu não pensava muito bem em ser ator.
02:03E ser ator era uma profissão, assim, meio de...
02:06Poucas pessoas e donos de uma arte muito especial.
02:12Eu nunca pensei que eu chegasse a ser ator, trabalhar como ator e viver de ser ator.
02:22Mas aconteceu, eu ganhei prêmio, fui convidado, fiz teatro amador e comecei a trabalhar.
02:30E gostei muito de ser ator.
02:34Muitos dos atores, dos velhos atores como eu, eles têm nomes de 13 letras.
02:41Era uma superstição generalizada.
02:47Eu tenho 13 letras, minha mulher tem 13 letras e muitos outros atores.
02:53Tenho 13 letras no nome.
02:55E eu peguei Tarcísio, que é meu nome, e Meira, que não deixa de ser meu nome,
03:00porque é o nome da família de minha mãe.
03:03E adotei o Meira, porque meu nome, na verdade, é muito comprido, meio problemático.
03:08Não é fácil de guardar, basta Tarcísio, que já é um nome difícil.
03:15Se eu pusesse um sobrenome complicado, então ia complicar mais a coisa.
03:19E pus o nome curto, que é o meu próprio nome, da família de minha mãe.
03:24As pessoas, elas não queriam admitir que eu pudesse ser ator.
03:31Um galã, um cara que faz papéis românticos, não poderia ser um ator.
03:38Então as pessoas faziam, falavam galã, Tarcísio de Meira, com um certo quê de desprezo.
03:51E isso me aborreceu sempre muito.
03:56Sempre me aborreci muito com isso, muito mesmo.
03:58Mas, tudo bem.
04:02Eu quero dizer que os papéis de galã, os papéis românticos, são os mais difíceis de fazer.
04:11Porque são papéis nos quais você não tem muito aonde se pegar.
04:17São personagens que existem muito mais porque eles são românticos, eles são apaixonados.
04:22Eles não têm muitas outras características que os diferenciem de outros personagens.
04:30Eles são apaixonados, ingênuos, geralmente bobos.
04:37Então, fazer um galã é muito difícil.
04:41É mais difícil do que fazer um outro personagem qualquer.
04:48Mas, tudo bem.
04:49Não guardo mágoas disso.
04:54Hoje em dia, os galãs, os que fazem papéis românticos,
04:58aliás, ninguém faz mais papel romântico.
05:00Eu não vejo mais muito romance na televisão.
05:05Eu acho que as pessoas não amam mais.
05:09A primeira coisa que eu fiz em televisão foi Noites Brancas de Dostoiévski.
05:13Eu fiz um pequeno papel.
05:15Um papel de um bêbago.
05:17Importuno.
05:18Eu atacava a Berta Zemel.
05:25Não gostei nada de ter feito.
05:28Depois, mais tarde, me convidaram.
05:31E eu já fazia teatro.
05:36Então, achei muito bom.
05:38E comecei a gostar de televisão, apesar do improviso, da pressa, da invenção.
05:44E fazia um teleteatro ao vivo.
05:47Era muito bom.
05:49Na TV Tupi e na TV Record.
05:52Depois eu acendei contrato com a TV Tupi.
05:54Mas, inclusive, na Record, com o Nilton Travesso.
05:59O Nilton Travesso, praticamente, foi o introdutor.
06:03O meu rei-introdutor na televisão.
06:05Foi muito bom.
06:07E fazia uns teleteatros ao vivo.
06:11Imagine peças complicadíssimas.
06:13A gente fazia ao vivo.
06:14Trocava de roupa.
06:16Vestia uma roupa por cima da outra.
06:17Ia tirando.
06:18Era uma, sabe, adrenalina toda ali.
06:26Porque eram, sei lá quantas, centenas de milhares de pessoas te assistindo.
06:32Não eram milhões, mas eram centenas de milhares.
06:34Teleteatro ia à noite, tarde da noite, 10, 11, meia-noite.
06:40Não era todo mundo podia ver.
06:41Mas foi uma experiência muito boa e, ao mesmo tempo, sabe, diferente.
06:50A primeira novela foi 25499 Ocupado.
06:54Esse era o número do telefone do Teatro Cultura Artística, que é onde estava a TV Excelsior,
06:58que é onde nós fizemos a primeira novela.
07:01A novela era uma coisa, assim, que até nós não queríamos fazer.
07:05Porque era uma historinha meia michureca, historinha que não queria dizer nada, historinha romântica.
07:15Era uma novela curta para que se tentasse fazer alguma coisa e visse a reação do público, né?
07:22A reação foi extraordinária mesmo.
07:24O público adorou.
07:26O Ibope subiu de 7% para 37% ou 40%.
07:30Assim, em 30 dias.
07:32Nunca nós poderíamos imaginar que houvesse tanta gente que se apaixonasse tanto por uma novela,
07:40gostasse tanto de ver uma novela.
07:41E as outras novelas que vieram depois, vieram vindo muito bem e conquistando o público, cada vez mais público.
07:49Eu sempre fui muito louco.
07:52Eu sempre fui muito aventureiro, sabe?
07:55Eu não sei, eu intuí que a Excelsior não iria mais tão bem quanto vinha vindo até então.
08:01Eu intuí.
08:03Eu achei que a Excelsior estava num ponto de decadência, talvez.
08:11E foi muito oportuno o convite que eu recebi da Globo.
08:16Se você quer saber, eu vim ganhando menos na Globo do que o que eu ganhava na Excelsior.
08:19A cumplicidade com as pessoas era uma coisa tão importante, tão bonita, tão forte, tão visceral
08:30que o resto...
08:33Ora, o resto...
08:35O importante era essa ligação com o público.
08:40Eu estava trabalhando para isso, não estava trabalhando para ganhar dinheiro.
08:43E a Globo, por outro lado, estava aí vestindo, criando, fazendo coisas, né?
08:50Tudo bem.
08:50Em determinado momento, eu passei a ganhar melhor.
08:53E eu sou um ator, graças a Deus, bem remunerado.
08:59João Coragem foi o personagem talvez mais importante da televisão brasileira
09:05porque desencadeou uma série de comportamentos com relação à novela.
09:12Começa que foi a primeira novela que os homens viam, porque era uma novela de aventura.
09:17E era um personagem fantástico, né?
09:21Ele tinha uma dimensão maravilhosa, João Coragem.
09:23Um homem muito simples, muito rústico, mas de um grande coração e de um grande poder.
09:29Era um homem forte, poderoso.
09:34Era um líder no campo.
09:39Eu gostei muito de ter feito o João Coragem.
09:41Eu vou te falar uma coisa.
09:43Ainda hoje, 40 anos depois, eu acho, mais um pouco, 40 e tantos,
09:51ainda tem gente que chega e fala,
09:53Oh, João Coragem aí!
09:54Enquanto os velhinhos lá falam, Oh, João Coragem!
09:57Olha isso incrível, né?
09:59O personagem que calou fundo as pessoas.
10:02Não tem nenhuma dúvida.
10:05Não tem mesmo.
10:08Esse aqui é o diamante do João Coragem.
10:11Puxa vida!
10:17Quantas coisas ruins essa desgramada me fez passar.
10:22A cidade de Coroado, que era a cidade onde se passava a ação toda de Mons Coragem,
10:28onde hoje é o Barachop.
10:32Vem comigo!
10:33Vamos lá!
10:34Vem!
10:34É incrível, mas eu andava a cavalo na Avenida das Américas,
10:40como se fosse uma estradinha do interior de Goiás.
10:42Janete, ela escrevia muito bem, não só a trama que ela desenvolveu,
10:50mas os personagens dela, eram personagens muito bonitos, muito fortes, muito vigorosos, né?
10:57E as mulheres, muito meninas, muito bonitas, muito...
11:04As mulheres eram o que os homens gostariam de encontrar.
11:07E os homens eram o que as mulheres gostariam de encontrar.
11:11Eu juro por Deus, eu não quero mais saber, não quero mais meter na sua vida,
11:14mas você tem que sujeitar aí comigo lá no hospital de Belo Horizonte
11:17e fazer a tal da operação com o doutor Rafael.
11:22Essa não, nego.
11:24A Glória eu conheci num teleteatro na TV Tupi.
11:27Nós nos tornamos amigos e com o tempo viemos a nos casar.
11:35É muito bom quando você trabalhar com uma boa atriz.
11:38O ator se sente bem amparado, bem escorado,
11:41quando ele está com uma boa atriz,
11:43porque o nosso trabalho é um trabalho de troca.
11:48E olha, guarda bem uma coisa.
11:52Para você ficar livre aqui da mamãezinha,
11:55só matando, viu?
11:57Então, se você dá um chute para lá
12:00e você recebe um chute de lá,
12:04você tem que responder com um chute à altura daquele que você recebeu
12:07e ela com outro chute à altura do que recebeu.
12:10Então, uma coisa vai muito bem quando a pessoa sabe chutar.
12:15E a Glória sabe chutar muito bem.
12:19Ela é uma ótima jogadora.
12:22É uma grande atriz.
12:24Eu sempre gostei muito de trabalhar com a minha mulher.
12:26Você quer fazer um favor, Marta?
12:28Aô, e que você é o irresponsável completo?
12:30Olha, não fala assim do pai deles, olha as crianças.
12:33Com mais cinemas, nociados, braços...
12:36Mas isso é uma loucura!
12:37Você vai acabar manchando o sofá do seu avô.
12:39Mas será que já não basta os jornais terem apelidado o shopping de Tony Babel?
12:43Você está querendo o quê?
12:44Que a cidade inteira fique contra o empreendimento?
12:46Que a gente vire a piada de São Paulo?
12:47As pessoas têm muito carinho pelo casal.
12:53Nós somos um casal forte.
12:56Não um casal da televisão, mas um casal.
12:58Um casal forte, porque é muito raro um casal perdurar como um casal, tanto tempo quanto nós.
13:11Nós estamos casados há mais de 50 anos.
13:15Fizemos boas de ouro no ano passado.
13:16São poucos os casais que, ainda mais trabalhando na mesma profissão, porque geralmente concorrem um com o outro.
13:30Há momentos em que um faz mais sucesso, momentos em que o outro faz mais sucesso.
13:34É difícil conciliar isso.
13:37Para outras pessoas, para nós, nunca houve a menor dificuldade, o menor problema.
13:41Quando você faz televisão, você faz televisão ali.
13:56As pessoas têm que olhar e têm que ver através do brilho do teu olhar,
14:02através de um pequeno tremor nos teus olhos, tem que ver o personagem.
14:08O momento que ele está passando, a trajetória dele naquele momento, o que está acontecendo com ele naquele momento.
14:16Muito mais do que através das palavras.
14:19Então, o conceito de um ator na televisão é uma coisa muito, sabe, muito indefinitiva.
14:27Você não pode definir um ator, um grande ator, uma coisa, nada.
14:31O importante, realmente, na televisão é você passar a verdade do teu personagem.
14:40E você tem que acreditar nele.
14:41Se você não acreditar nele, o público não vai acreditar em você.
14:46E não vai acreditar na novela.
14:49Eu acho que quando você cria personagens, um autor cria personagens, ele cria personagens bons, fortes.
15:04E se ele fizer isso com inteligência, com brilho, sabe, com força,
15:10Basta isso. Basta fazer os personagens.
15:14Porque no momento que você coloca esses personagens juntos, eles desencadeiam uma história.
15:21Que vem a propósito da existência real deles.
15:24Não é uma coisa inventada.
15:25Os personagens não ficam ao sabor dos acontecimentos que o autor trama.
15:29O autor trama acontecimentos como uma decorrência do vigor desses personagens.
15:36Eu acho isso uma coisa muito boa de se pensar a respeito.
15:48Eu tenho visto muitas novelas que têm acontecimentos, coisas desencadeadas por outras,
15:57mas que não têm personagens com sustância.
16:02Eu não tenho de falar.
16:03Fala lá na fazenda.
16:04Não tem sustância.
16:06Não tem verdade, vigor.
16:12É urgente.
16:15Posso saber o que está acontecendo?
16:18O personagem de Roda de Fogo foi um personagem muito importante para mim.
16:21Eu gosto muito daquele personagem.
16:24Ele fez muito sucesso fora do Brasil.
16:26Alô?
16:28É Renato Villar. Eu quero falar com o Mário Liberato.
16:33Alô, Mário. É Renato. O que há? Recebi seu recado.
16:35O Capitão Rodrigo, do Tempo e o Vento.
16:39O Capitão Rodrigo é o macho brasileiro.
16:44É o homem que todo homem gostaria de ser.
16:46E é o homem que toda mulher gostaria de ter.
16:56Rodrigo, meu Capitão, é quem valeu nossa vida?
16:59Antônio Dias foi ótimo personagem.
17:14O Mauro César Muniz.
17:15O Mauro escreveu muito bem.
17:18Foi uma novela muito, muito boa.
17:21E...
17:22Um trabalho difícil.
17:25Acho que foi a última novela, branco e preto.
17:28Depois nós só fizemos colorido.
17:29Hoje em dia as pessoas fazem novela cinza.
17:33A novela não é mais colorida, né?
17:35O desquite é a única solução.
17:38É, eu sei disso há muito tempo.
17:42Mas eu não tinha coragem para enfrentar isso de frente.
17:46Agora você me humilhou demais.
17:48E como é que nós vamos fazer?
17:58Eu não sei como é que as pessoas possam gostar de uma novela
18:02quando elas não veem a cara do ator, da atriz.
18:08Eu acho que você tem que ver.
18:10Não interessa se é verdadeiro, se não é.
18:11Se aqui tem um spot ou aqui tem um abajur, a janela está para lá.
18:15Eu acho tudo isso muito secundário.
18:17A luz tem que servir ao drama, né?
18:21Tem que ser tão real quanto possível, mas tem que servir ao drama.
18:25Não pode desservir.
18:27E como é que pode um ator passar alguma verdade
18:33se as pessoas não veem a sua cara?
18:37Isso acontece muito nas novelas hoje em dia.
18:39E deixaram de ser coloridas.
18:42Nossa, foi tão difícil fazer uma televisão colorida, meu Deus.
18:46Tão difícil, né?
18:49Apanhamos tanto com as intensidades das luzes, das cores.
18:54Foi tão difícil chegar a esse equilíbrio que nós temos hoje em dia.
18:58Nenhum ator jamais terá decorado tanto quanto eu.
19:15Porque eu decorei muito, meu Deus.
19:18Eu não sei como ainda tenho neurônios na minha cabeça.
19:21Eles devem estar todos assim, meio cansados, meio...
19:24O Hermógenes era...
19:33Ele era exatamente o anti-herói.
19:40Ele era um maldito, era um urso, né?
19:44Foi um trabalho difícil, mas foi um trabalho muito bonito.
19:50Eu gostei muito de ter feito.
19:51Balaçou não se perde quando estravia.
19:56Quem conhece o sertão dá valor.
20:00Jagonçage é.
20:02Onde Deus faz a mira, o diabo aperta o gatilho.
20:07O que era do sexo foi diferente.
20:15Eu te confesso que eu tive até medo.
20:17O Silvio, ele sabe muito bem disso.
20:19Eu tive medo de fazer, porque era uma comédia.
20:21Era um personagem assim, meio caricato e tal.
20:24E eu vinha fazendo personagens diferentes, né?
20:28Personagens...
20:29Meio épicos, assim, heróicos, né?
20:35Então, eu falei, é uma guinada muito grande, né?
20:40Fiquei com medo de fazer.
20:41Mas fiz e gostei de ter feito.
20:43O resultado ficou bom.
20:45Tu tá vendo que tá na contramão?
20:46Eu tô na minha mão, ele vim de contra mim.
20:48Como calma?
20:48Tá vendo que ele tá me ofendendo?
20:49Não dá para tirar uma carteira de motorista, dona Maria do tanque.
20:52Foi!
20:52Vamos, tanque!
20:59Favorita foi muito bom.
21:02Gostei muito de ter feito.
21:04O personagem que eu fiz era muito gostoso.
21:06Me deu um grande prazer.
21:08Ah, bonitinha, por acaso.
21:11Tem algum compromisso para hoje à noite?
21:15Nem para hoje, nem para amanhã, nem para depois.
21:18Então me reserve todas as horas de hoje, de amanhã,
21:24de todos os dias, de todos os meses, de todos os anos, de nossa vida.
21:37Está reservado.
21:45Eu tenho momentos de solidão e de grande prazer.
21:50Por exemplo, eu vim a fazer na Amazônia há 40 anos.
21:54Eu falei, eu sou um pouco vintureiro.
22:00E há 40 anos atrás, as coisas eram muito inóspitas.
22:06Sabe, um pouco...
22:07Um pouco difíceis demais.
22:12Enfrentei grandes dificuldades lá.
22:16E não havia a preocupação ecológica que existe hoje em dia.
22:21Com toda razão, e tem que existir mesmo.
22:24Então as pessoas desmatavam impunemente.
22:28É uma coisa de doido.
22:31Eu sempre mantive a regra do jogo.
22:36Então se você olhar de Belém até Paragominas, que está a 300 quilômetros de Belém,
22:42existe uma mancha verde lá, que é a minha fazenda.
22:48Eu estou cercado de assentamentos, ou não existe uma árvore mais.
22:53Lugar nenhum existe mata.
22:54Eu mantenho a minha mata.
22:57De vez em quando, quando eu quero um momento de paz real, de paz, de reflexão,
23:02de volta pra mim mesmo, eu vou pra mata.
23:04Vou pra mata, fico lá, ouvi uns passarinhos.
23:09E se você entra na mata e fica sozinho, pega uma trilha qualquer, de repente você começa
23:18a ouvir o barulho dos insetos.
23:21É incrível, mas é.
23:23O barulho deles, assim, trazendo uma folhinha, fazendo uma coisinha.
23:27Então você se integra à natureza.
23:31Por tudo.
23:32Talvez eu seja realmente emblemático, digamos assim, né?
23:39Por todo o meu passado e por tudo por que a televisão passou.
23:49Lá na frente, Thelma.
23:51Avise que eu estou aqui.
23:53Não quero surpresas.
23:55Nem sustos, nem choros, nada de cenas.
23:58Detesto cenas.
24:00Estou com quase 80.
24:02É ano a beça.
24:05E é muito ruim.
24:06Porque você chega mais perto do fim, né?
24:09A cada dia você está chegando mais perto do fim.
24:12Eu não sei quando é que vai ser.
24:14Um dia vai ser.
24:15E quando for, será.
24:18Não me assusta.
24:20Mas é chato.
24:21Eu gosto muito de viver.
24:22Eu amo a vida.
24:23Eu amo as pessoas.
24:24Eu gosto das pessoas.
24:26Eu gosto dos homens.
24:27Eu gosto das mulheres.
24:28Eu gosto das coisas.
24:29Dos bichos.
24:30Eu gosto de tudo.
24:31Eu sou uma pessoa que gosta muito da vida.
24:35E sair da vida...
24:37O que quer dizer?
24:41Eu sou...
24:42Eu sou um ignorante.
24:46Eu sou agnóstico.
24:47Eu não sei realmente.
24:50E não me atrevo a refletir sobre isso.
24:52Porque nunca vou chegar a uma conclusão.
24:55Você só sabe quando você acredita.
24:58Quando você tem fé em alguma coisa.
25:00Eu careço de fé.
25:01Eu acredito vendo.
25:06E como não posso ver.
25:08Não posso entender.
25:10Eu prefiro não pensar a respeito.
25:13Mas é meio chato você ir se despedindo da vida.
25:17E quando você vai merecendo, você começa a se despedir.
25:20É meio chato isso.
25:21É uma carreira corrida.
25:27Mas é uma carreira que me deu muitas alegrias.
25:32E que me deu especialmente essa...
25:37Essa intimidade com as pessoas.
25:41Não há lugar onde eu vá que as pessoas não sejam carinhosas comigo.
25:45E com minha mulher.
25:47Isso não tem dinheiro que pague.
25:50Não tem.
25:51Não é mesmo.
25:54Eu tenho milhões de amigos.
25:56Milhões.
25:58Acho que pouca gente tem tantos amigos.
26:00Eu tenho.
26:04Isso é muito bom.
26:08Eu sou ator há muitos anos.
26:10Quer dizer, trabalho como ator há muitos anos.
26:13Eu acho que o ator não é meramente aquele que fala bem no teatro, que recita, coloca a sua voz lá e fala para o público lá longe.
26:25Não sei o que, não sei o que, e tem uma bela voz.
26:28Não.
26:29Sabe?
26:29Um ator é aquele que acredita verdadeiramente no personagem que ele está fazendo.
26:38E procura mostrá-lo com as suas verdades ao público.
26:43E convencer o público da sua existência.
26:48E como ver o público com as emoções pelas quais ele passa.
26:55Se ele convencer, se ele for suficientemente loucoaz, eu acho que ele estará cumprindo o seu papel de ator.
27:09Isso é ser um ator, eu acho.
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