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#grandesatores #canalviva

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00:00Eu nem sabia o que era ser artista, e minha mãe me matou no nascedor, eu disse, ah, para ser artista tem que ser bonito, tem que ser alto, os dentes bem feitos.
00:24Eu acho que o ator tem que ter uma personalidade, o ator tem que ter uma convicção.
00:30Perdão.
00:34Durante a novela eu tive um embarte com o executivo da Rede do Ovo e eu pedi para sair.
00:47Eu sou de origem pobre, meu pai, quando nós morávamos em São Paulo, ali na Vila Mariana,
00:57a nossa casa era uma casa que ficava num terreno muito grande, que esse terreno, o fundo dos quintais dos sobradinhos da classe média davam para esse terreno.
01:11Meu pai trabalhava como procurador do Carace, que era o cara proprietário disso tudo, e ele ia fazendo a cobrança de aluguéis, esse negócio todo.
01:19A minha tia, irmã da minha mãe que ajudou a criar os filhos, minha mãe teve, minha tia nunca se casou, era operária, empacotadora de pregos do Aramifício Vidal, trabalhou durante 35 anos como empacotadora.
01:33E minha mãe pilotava fogão, pilotava tanque de roupa, porque nesse tempo não existia máquina de lavar.
01:39Então, nesse universo, eu me criei em meio a cabras, em meio a motocicleta do meu pai, em meio que ao ofrendão amigo do meu pai, que se reunia lá no quintal para desmontar a motocicleta,
01:52porque quando tinha esse negócio, o cara tinha que se virar e não tinha peça de reposição, então eles mandavam o torneiro mecânico fazer, eles mesmos montavam, eles mesmos fazer.
02:01Meu pai saia de motocicleta para trabalhar, para fazer essas cobranças.
02:06A pergunta que um dia eu fiz à minha mãe, na cozinha improvisada de madeira que meu avô e meu pai fizeram, e o que tem que fazer para ser artista?
02:16Eu nem sabia o que era ser artista, e minha mãe me matou no nascedor, disse assim, ah, para ser artista tem que ser bonito, tem que ser alto, os dentes bem feitos.
02:27O parâmetro dela era o Rodolfo Valentino, ícone, símbolo sexual da década de 30, 40, se não me engano.
02:35Então, ela me matou porque eu não preencheria nenhum desses requisitos.
02:40O Líbero Miguel, que trabalhou com o Júlio Gouveia na TV Tupi, ia começar uma teledramaturgia na TV Paulista, canal 5, começando com o Dickens, né?
02:51David Copperfield, o Dickens, e precisava então de um ator para fazer o protagonista.
02:57Eu fui levado à casa dele, por um amigo, minha tia acompanhou, e ele chegou para mim, o cara muito alto, o Magno, o Líbero, e disse,
03:07Eu falei, você vai encontrar a cena com a minha mulher? Eu queria que você estudasse o texto.
03:12Você sabe ler? Eu falei, sei. Então, eu falei, não, mas eu tenho que levar para casa para decorar.
03:17Ele falou, não, não, você vai fazer televisão ao vivo, você tem que decorar aqui, eu quero saber se você tem memória boa e tudo.
03:23Decorei, né? Decorei, e ele falou, então agora vamos ensaiar e nós vamos assistir.
03:28E ensaiamos com ela, ela estava na sala, eu entrava, fazia o diálogo com ela, e eles ficaram assistindo a cena, né?
03:35E eu me lembro que ocorreu um incidente durante a cena, que eu esbarrei na mesa e caiu o cinzeiro.
03:40Fica, tá nervoso, né? Mas eu peguei o cinzeiro, botei na mesa de novo e continuei a cena.
03:44Aí ele parou, falou, não precisa fazer mais, você vai fazer a novela comigo? Não o protagonista.
03:49Porque o protagonista não é o tipo que eu quero, você é mais latino, eu preciso ficar mais inglês, né?
03:55E eu trabalhei com ele durante oito anos.
04:00Ilusões Perdidas, no Almanac, na Rede Globo, consta como a primeira novela.
04:07Era Miriam Pires, eu, e eu vim porque eu tinha feito Ilusões Perdidas em São Paulo, ao vivo e diariamente.
04:15Foi inédito, porque para competir com as outras emissoras, eles passaram a fazer diariamente.
04:21Então você recebia o calhamaço de capítulos durante a semana, quer dizer, de segunda a sexta.
04:28E no sábado e domingo você decorava tudo para chegar lá sabendo.
04:32Novembro de 1968, eu vim para o Rio de Janeiro, assinei o primeiro contrato de um ano com a Rede Globo da Televisão.
04:39Com estadia, com passagem aérea, para fazer Verão Vermelho.
04:45E eu fui a casa da Ivani Ribeiro explicar tudo para ela.
04:48Então, olha, eu vou ter que sair.
04:50Muitos colegas meus perguntaram, você vai fazer o que na TV Globo, né?
04:54Eu falei, vou atuar, sou ator, né? Mas eu fui chamado por fora.
04:59O cara lembrou de mim e mandou me chamar em São Paulo para fazer um personagem na novela.
05:06Então, nessa produção, cara, eu virei motorista, eu ajudava, o Marlos, aquele negócio todo.
05:12O Marlos, pega a Kombi, vai pegar o pessoal lá no aeroporto.
05:15E eu fui.
05:16Ia, pegava a Kombi, pesava.
05:18Tanto que o Mário Lago, um dia falou,
05:20eu pensei que você fosse motorista, cara, você é ator.
05:25Grande Mário, né?
05:26E eu tive uma cena com o Jardel, foi emblemática essa cena.
05:30Eu era apaixonado pela filha dele, né?
05:32Meio já malandro carioca e tal.
05:35E a gente podia ter um improviso, podia dizer, e tocar umas coisas e tal.
05:40E uma cena com ele, frontal, o Walter Campos que dirigia.
05:45Eu digo, então, seu Carlos, aí a sua filha e tal, né?
05:48Eu só estou gostando.
05:49Aí, no meio da conversa, ele pegou uma cigarrilha e botou assim na minha boca a cigarrilha.
05:54Aí, não estava marcado isso, entendeu?
05:57Ele estava gravando, botou a cigarrilha.
05:59Eu falei, pô, mas essa é muito boa, seu Carlos.
06:02Hum, beleza.
06:03Acende para mim.
06:04Só pode fazer, seu Carlos.
06:06Aí ele acendeu, né?
06:07Não esperava.
06:08Então, voltando ao nosso assunto.
06:10Eu queria falar sobre a fulana.
06:12Aí terminou a cena, né?
06:14Não parou a cena, né?
06:16Porque eu podia ter tido, pô, mas isso não estava combinado.
06:18Não interessa, cara.
06:19Como o negócio do cinzeiro, né?
06:21Isso.
06:22Então, eu aprendi desde cedo que o erro se incorpora e transforma em acerto.
06:27E eu fui muito reprimido por isso.
06:29Porque existiam autores.
06:31Não no que late de um dia, né?
06:33Pelo contrário.
06:34O Dias viu uma cena com a Maria Claudia no Forol da Barra,
06:37que eu botei até a música de Caetano Veloso ali,
06:39que o cara era todo cheio de gueri-gueri.
06:42Ele viu a cena gravada.
06:45Ele falou, gostei de ver, cara.
06:47Eu vou desenvolver o teu personagem.
06:48Ele desenvolveu.
06:49E eu fui jogado para a grande família.
06:56Então, aí a grande família...
06:57O que que era a grande família?
06:59Eu seria mais um na grande família.
07:00Não.
07:01Eu seria co-protagonista.
07:03E foi na grande família, então, que eu conheci o do Valdena Filho,
07:08o Armando Costa, o Paulo Pontes.
07:12Cadê meu livro de histologia que está em cima da mesa?
07:15Bagunceiros!
07:16Sabotadores!
07:17Anárquicos!
07:18Ai, meu Deus!
07:20Que escândalo é esse, filhotinho queridinho?
07:23Assim você acorda sua sobrininha do coraçãozinho novinho em folhinho que precisa dormir.
07:28Eu já disse que não quero que locomovo os meus objetos pessoais no lugar que eles competem.
07:32Ai, meu Deus do céu!
07:33Sumiu alguma coisa?
07:34Sumiu, né?
07:35Tiraram meu livro de histologia do lugar e jogaram ao léu.
07:37Mas como jogaram, meu Deus do céu?
07:40Não é esse aqui?
07:41É esse?
07:42É, é, é esse aqui.
07:43Então, se fosse uma cobra te mordia.
07:45Mas o lugar dele é aqui.
07:46Aqui é o lugar do meu livro.
07:47Não pode tirar ele daqui.
07:48Agora tá aí, não tá?
07:49Então não cansa a minha beleza, benzinho.
07:52Ah, você não entende, mamãe.
07:53É uma questão de princípio.
07:55Tudo tem que estar no lugar correto, na hora aprazada.
07:57Na ordem mais lógica.
07:59Se não é o caos!
08:00Depois que terminou Grande Família, então eu voltei para as novelas.
08:03Aí, Helena, com adaptação do Gilberto Braga, que era Gilberto Tumces.
08:10Gilberto Tumces era crítico de diato, né?
08:14E ele, então, fez a adaptação de Helena.
08:18É a sua vez de jogar, Estácio.
08:20Sorte no estado do meu lado.
08:21Guinness novamente.
08:22Injustiça divina.
08:23A sorte do lado do desinteresse.
08:24E a mão dobrada.
08:25E eu retornei as uma vez.
08:26Anjo Mal.
08:27Aí, com a Pipita Rodrigues, a gente arrebentou.
08:29Pura.
08:30Aí a gente arrebentou.
08:31Pura.
08:32Aí a gente arrebentou.
08:33Com sucessas.
08:34Pura.
08:35Pura.
08:36Pura.
08:37Pura.
08:38Pura.
08:39Pura.
08:40Pura.
08:41Pura.
08:42Pura.
08:43Pura.
08:44Pura.
08:45Pura.
08:46Pura.
08:47Pura.
08:48Pura.
08:49Pura.
08:50Pura.
08:51Pura.
08:52Pura.
08:53Pura.
08:54Pura.
08:55Pura.
08:56Pura.
08:57Pura.
08:58Pura.
08:59Pura.
09:00Pura.
09:01Pura.
09:02Pura.
09:03Pura.
09:04Mas eu sempre tive sorte, né, com as personagens.
09:06Esse par com a Pepita foi muito legal.
09:10Porque disseram lá atrás, há muito tempo atrás, que eu seria um cara.
09:15Cara, você tem um talento que ou você vai ser muito rico ou vai morrer na miséria.
09:20Felizmente ele não acertou nenhuma coisa nenhuma.
09:22Rico eu não vou ser.
09:24Mas morrer na miséria também não.
09:27Foi afastado de novela por várias razões.
09:29Teve gente que quis me tirar.
09:31Eu me lembro quando eu fiz Roda de Fogo, por exemplo, o tabaco estourou.
09:36O autor não me queria.
09:38Não porque não gostasse de mim.
09:40Eu soube depois que ele queria um ator mais...
09:43Mais numa linguagem popular, mas o come quieto, né.
09:48Mas aí a TV Globo me impôs, porque eu estava contratado.
09:52Não, tem que ser o Osmarco.
09:53Então eu ouvi um zum, zum, zum e tal, aquela coisa toda.
09:55Um comodoro e tal.
09:57Pra mim nada mudou.
09:58Nada mudou mesmo?
09:59Será que tudo vai continuar no meu museu?
10:02Duvido.
10:04Claro que vai.
10:06Cada vez melhor.
10:09Dado, não é?
10:10Eles podem olhar a gente.
10:12Não, não.
10:12Eles estão lá de papo.
10:13Não vão olhar pra gente, não.
10:14E um dia eu sou chamado pra ir à sala do Paulo Biratã.
10:20Foi convocado o diretor da novela.
10:22Vai, vai, cuidado.
10:23Obrigado.
10:23Era o Dênis Carvalho.
10:25O Dênis.
10:28O Lauro César.
10:29As três meninas, né.
10:33Claudio Lencar, que era a grande atração, né.
10:37A patativa, né.
10:40A Inês Galvão, que fazia a do telefone, né.
10:44A Granbel.
10:45E a filha do Daniel Filho, a Carla Daniel.
10:50Falei, bom, eles vão tirar o personagem, né.
10:52Estamos chamando pra dizer que vai esvaziar.
10:55Aí fui pra lá.
10:56Aí, ao contrário.
10:58A reunião era pra dizer, em decorrência do sucesso da personagem,
11:01Estamos aqui pra que o Lauro César crie mais e mais situações,
11:07Desenvolva o máximo e tal.
11:09E pode bater praia e tal.
11:11E aí foi.
11:12Cara, aí foi, meu.
11:15Aí deram, né.
11:16Deram chuteira, neia, calção, bola.
11:20Pode deslocar que vai receber a bola.
11:22Porra, aí eu marquei gol pra cacete.
11:31Eu estudo, porque eu preciso ter um entendimento do que é essa pessoa.
11:40Eu serei advogado de uma personalidade que não é a minha.
11:43Preciso encontrar conjugações da minha personalidade com essa personalidade
11:48e essa que eu não tenho, buscar juntar isso tudo e dar uma personalidade.
11:53Tem certas coisas que um diretor me pede e eu digo assim,
11:57Peraí, mas eu acho que ele não faria isso.
12:02Por quê?
12:03Porque isso foi o argumento, entendeu?
12:05Se ele conseguir me convencer que a personagem faria, eu faço.
12:10No tempo dou.
12:11Eu costumo dizer que o cabeleira era o marginal pela doença, né?
12:15Ele é a lua.
12:18Ele pertence à lua.
12:22E aí ele vai embora, cara.
12:25Que é a morte, né?
12:26É o afastamento, quer dizer, uma visão poética da morte.
12:31Lua, lua, lua, lua, lua, lua.
12:35Eu acho que o ator tem que ter uma personalidade.
12:53E o ator tem que ter uma convicção.
12:55O ator não pode ser título na mão de um diretor.
12:57E um diretor generoso, ele sabe que o ator não é um instrumento.
13:00Não são peças de xadrez que ele move para onde ele quiser, absolutamente.
13:05Eu acho que tanto o diretor como os atores, quando são bons, reescrevem a história, com as suas interpretações.
13:12E é preciso que se entenda isso.
13:13Um diretor, quando ele é confiante nele, e um autor também, você vê o Dias Gomes.
13:19O Dias Gomes, o bem-amado, com a criação do Paulo Gracindo, tomou uma dimensão fantástica.
13:25O próprio Dória, que muitas vezes até eu questionava o gosto artístico dele, mas era um gênio.
13:31Era um gênio que você tinha que respeitar.
13:33Fez muito bem a grande família.
13:35Se essa contribuição é bem-vinda ao espetáculo, por que não?
13:39E eu reagia a pessoas que queriam me cercear.
13:44Queriam me colocar.
13:46Muitas vezes pediram para eu baixar o tom.
13:49Uma vez eu estava num camarim de uma novela,
13:51e entrou um co-diretor, e disse assim,
13:53eu havia quem, desculpa, mas vim aqui encarregado te dar um recado,
13:57pedir para você baixar o tom na novela.
13:59Eu falei, pois então diga quem mandou, que a novela é que tem que subir.
14:02Não sou eu que tenho que baixar a novela, é que tem que subir.
14:07Eu não vou baixar o meu tom.
14:09E se achar por bem que tirar o personagem, pode tirar que não vai ser o primeiro nem o último.
14:13O Luiz disse assim, olha, o Benedito quer que você faça um personagem
14:17que ele começou com o Lima, em Paraíso, e ele quer desenvolver nessa novela.
14:23É um catador de carangueiros, casado com uma mulher muito bonita,
14:27do ano, e nós vamos abordar essa questão da sobrevivência do sertaneiro, simples.
14:37E eu estava estudando Canudos, na Guerra de Canudos,
14:41e eu vi ali a oportunidade de você abordar
14:44essa tragédia do povo brasileiro, na sua luta pela sobrevivência.
14:52Só o que você faz, Tião?
14:55Bota uma rolha no curanchinho da pretinha.
14:57É no fiofó dela, que ela vai ficar entupida,
15:00e não vai colocar ovo nenhum antes da sexta-feira santa.
15:03Ara, Tião Galinha, você pare com essas bobagens.
15:07Tião Galinha?
15:11Até você está me chamando disso agora, mulher.
15:16Não é Tião Galinha, não?
15:17Eu só quero ouvir, do jeito que você vai me chamar,
15:25depois que eu tiver meu diabinho, e lhe botar de princesa.
15:29Princesa?
15:32Você vai me botar doida, isso sim.
15:35Você?
15:38Você vai me chamar de rei?
15:40Só sou rei de maluco.
15:42Isso é o que nós vamos ver.
15:43Durante a novela, eu tive um embate com o executivo da Rede Globo,
15:51e eu pedi para sair.
15:53Pedi para antecipar a morte, o Tião no auge.
15:57Ele ia morrer, mas não sabia como.
16:00E aí eu me lembro que a gente chegou no impasse,
16:05eu digo que eu saio.
16:08Vou embora.
16:08Aí eu falei para o Benedito, o Benedito, você quer que eu te ajude?
16:13Eu falei, não, mata o personagem.
16:14Eu vou embora, vou fazer teatro em São Paulo, fazer Hitler.
16:18Aí, eles botaram o Tião se suicidando.
16:23O Tião é preso, vai lá para a cadeia,
16:27e se mata.
16:29Aí eu falei para o Luiz, Luiz, essa cena não está completa.
16:33Como é que esse personagem, com toda a força, com toda a ingenuidade dele,
16:39com tudo isso, vai se matar do nada?
16:42Não está claro nessa cena por que esse homem se matou.
16:45E ele falou, o que você acha que tem que colocar?
16:47Eu falei, eu quero uma bofetada na minha cara.
16:52Porque eu tinha a história do Mário Lago,
16:55que volta e meia pela polícia jeturista,
16:58era preso, lutava pelo petróleo, essa coisa toda,
17:01o meu dia um policial deu um tapa na cara dele,
17:05o outro colega dele segurou, amor,
17:06você não mata na cara desse homem,
17:09esse homem é um homem indigno,
17:11não mata na cara de um homem indigno,
17:13você mata ele.
17:15Esse não.
17:17Aí ficou um...
17:18Então eu digo, não mata na cara de um homem indigno,
17:23você mata ele.
17:24Então ele fez a cena, corajoso,
17:26comprou a briga comigo.
17:28E aí não tinha o Cércio Terrer fazer o delegado,
17:31e o cara que fazia o Cacereiro não teve coragem de dar o câncer.
17:37E quem deu o tapa foi o cameraman,
17:39incluído.
17:42Então é o momento que eu tinha um questiono,
17:44o cara veio...
17:46Aí botou o câmera embaixo.
17:49Deu o tapa, ele virou.
17:50Não, não, não, não, não, não.
18:20Volta tudo, naquele momento, ele começa a rasgar a camisa, naquele momento, quando volta
18:47a cena na cela, o delegado vai entrar, ele está morto, pendurado ali, com a mão fechada.
18:59Ele abre a mão e disse, pego o bilhete, quem trabalha e mata a fome,
19:17não come o pão de ninguém, mas quem ganha mais do que com, sempre com o pão de alguém.
19:30E encerrou-se a personagem.
19:36Me perdoem, quando eu volto a falar sobre esse assunto, mexe muito comigo.
19:42Eu não fiz nada, eu não fiz nada!
19:58Chama o padre de novo, a minha jornada.
20:04Oh, caramba!
20:09Olha!
20:09E aí
20:14E aí
20:15E aí
20:18E aí
20:20E aí
20:22É muito humilhado, amor.
20:43Eu não vou aguentar, não vou.
21:13Eu nunca minimizei a televisão.
21:24Ah, o teatro, não.
21:26Não.
21:27Se você fizer, meu amigo, e passar por ela, via ela e chegar, ninguém te derruba.
21:40Ninguém.
21:40Só se matar.
21:41Só se der um tempo.
21:44A Fernanda diz, é, matando eles falam a gente, mas ninguém segura.
21:50Se for verdadeiro, meu amigo, ninguém segura.
21:54O prazer é meu.
21:55Leandro é o novo sommelier de quem lhe falei.
21:58É um craque.
21:58Sabe tudo de vinho.
22:00Não, eu estou sempre estudando, pesquisando.
22:03O que é que é isso?
22:04Quando é do jogo.
22:06Celeste tem que escolher uns vinhozinhos pra um jantar lá em casa.
22:09Será que você poderia nos ajudar nesse sentido?
22:11Claro, doutor.
22:11Só me deixa terminar aqui com os turistas.
22:13Também, Roberto, que Leandro podia nos ajudar na degustação.
22:17Vai ficar reto, recheio.
22:18Oxe, mas por que é que eu não pensei nisso antes, minha manguinha?
22:21Claro que pode.
22:22Mas antes eu preciso consultar o patrão dele, porque ele é muito ciumento.
22:26Quando o Vilhamarim, o Zé Luiz Vilhamarim, que aliás é um cara bacana, ele me chamou
22:32e eu estava com a gase da primeira cirurgia, que abriu daqui até aqui, pra tirar esse primeiro
22:39tumor.
22:40E eu falei pra ele assim, ó, eu tenho que fazer uma segunda cirurgia, porque eu estou
22:45esperando, é possível que eu faça a segunda cirurgia, porque eu estou esperando o resultado
22:49da biópsia.
22:50Se der positivo, eu tenho que fazer a segunda cirurgia pra limpar toda a área, né?
22:56E ele falou, não, vai dar certinho.
22:59Vai dar pra você, você vai viajar pra Petrolina, vai gravar em Petrolina, né?
23:05Porque já, a gase só estava, mas estava já praticamente cicatrizada.
23:11E depois você vai ter um intervalo de três meses, olha que beleza, né?
23:16Três meses pra cuidar da tua saúde, pra gravar estúdio.
23:20Quando eu voltei, o resultado foi positivo.
23:24Aí o doutor Gustavo falou, temos que ir pra segunda cirurgia e agora de vez pra limpar
23:29toda a área.
23:30Essa é mais demorada.
23:32Aí fomos pra segunda cirurgia, fiz a segunda cirurgia e fiquei aguardando a radioterapia,
23:38porque como consequência você tem que fazer rádio e químio, né?
23:42Então eu fiz trinta radioterapia, três químios e é aguardando os caras chegarem, entendeu?
23:48Então eu fui pra 53 quilos, porque o grande problema da radioterapia e da químio,
23:55foram três, é que como essa região, ela inibe o paladar, né?
24:00Então você come um mamão, parece que você está engolindo um pedaço de durepó, né?
24:05Então você perde o apetite, você fica inapetente, por isso que você emagrece.
24:08Então você tem que engolir aquilo de qualquer maneira, você quer sobreviver, né?
24:11Então foi muito bem acompanhado e tal, mas eu nem me reconheço ali, eu estava muito
24:17magro lá não.
24:19Estava com 53 quilos ali no avôrez roubado, né?
24:23Descansei umas duas semanas e já estava ensaiando meu pedaço de chão.
24:30Aí quando começou meu pedaço de chão, eu já estava com mais peso, quando terminou
24:35já estava com grilhão, porque o coronel de fato era pesado.
24:39O coronel tinha muita fala, muita emoção, o cara era um Hitler, né?
24:45Tá certo, tá certo, Catarina, não queres brigar, não vamos brigar por conta disso.
24:50Ainda mais hoje, que o Ferdinando desse que estaria voltando pra cá.
24:56E se sair, se diz, se diz, se diz, se diz, se diz, se diz, se diz, se diz, se diz,
24:59daqui a pouquinho, tá encontrando por cá.
25:01E eu não vejo a hora dele chegar, Catarina, que hoje até quase que eu disse na fuça
25:07daquele prefeitinho da Zanta de Meia Tijela, que o reinado dele vai acabar por essas bandas
25:14dele e de qualquer outro que o Pedro Farcão e ele apoiar nas próximas eleições.
25:22Quando o Nandinho chegar com o diploma dele de doutor, eu quero mandar emordurar a cidade
25:26da Zanta pendurar nessa parede pra que todo mundo fique sabendo que dentro dessa casa
25:32tem um doutor advogado.
25:35Nós estamos, na vida, nós estamos aqui num processo dialético de ida pra frente.
25:43É bom viver? É bom viver.
25:45Mas tem um momento de morrer? Tem um momento de morrer.
25:49Não que eu vá me dar um tiro na cabeça e até posso querer dar.
25:52E dá, como o Valmoro fez.
25:54E o Valmoro fez conscientemente.
25:55Estou de saco cheio, não quero mais, não acredito e vou-me embora.
26:03É um direito que o cara tem.
26:06Não é verdade?
26:07É um direito dele, porra.
26:09Ah, suicídio.
26:10Não julgue.
26:10Porque qual de nós, em algum momento da vida, não pensou que eu quero morrer?
26:17E aí outra coisa te leva, eu quero viver.
26:19Pois então, eu achei que se chegou esse momento, se desse metade, ou ainda no acompanhamento,
26:26fosse pra cima ou fosse pra baixo, eu procuraria fazer da minha vida o melhor possível,
26:31tá tudo bem, deixar pra quem fica.
26:32Minha mulher, minha filha, são as minhas parceiras e as pessoas ligadas a mim.
26:40Agora, cara, eu tenho certeza que eu encararia legal.
26:43Isso tudo me deu muita força pra compreender a importância e a desimportância da nossa
26:49trajetória.
26:50Isso me deu muita força também pra entender o que vale e o que não vale.
26:54O que é fútil e o que não é fútil.
26:55E o privilégio que eu tenho de ser uma profissão desde criança, que eu posso trabalhar e até
27:01atuar com esses sentimentos todos.
27:04O da morte, o da vida, o da canalice, o do virtuosismo.
27:09E eu quero ser tudo isso, porque eu tenho tudo isso dentro de mim.
27:13E o ser humano, quando ele tem a conjugação dessas forças todas, sem negar nenhuma, ele
27:17se transforma em um ser humano legal.
27:19O ser ator pra mim é mergulhar no âmago, na alma, na profundeza, no infinito das possibilidades,
27:35das potencialidades humanas, para que a gente possa extrair drama, comédia, tragicomédia,
27:43fantomima, circo e todas as manifestações artísticas teatrais, da trajetória universal
27:58da humanidade.
28:01Olá.
28:04Pra quem?
28:06Ou sei?
28:10Ouça.
28:12Ouça.
28:14Ouça.
28:14Ouça.
28:15Ouça.
28:15Ouça.
28:16Ouça.
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