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TVTranscrição
00:00Música
00:00Como é que eu não vou gastar 5 reais pra me inscrever no curso de teatro?
00:16Eu preciso ir e sair correndo?
00:17Eu disse, não quero mais fazer isso, que agonia, quanta câmera, não sei pra onde eu olho.
00:22Até hoje eu construo os personagens na diversidade e na intuição.
00:25Eu sou muito reverente aos atores mais velhos.
00:28Eu respeito muito, gosto de escutar, gosto de conversar.
00:34Fui criado por uma mulher chamada Helenita, que a gente chama de Dindinha.
00:38Hoje em dia ela tem 90 anos de idade.
00:41Num bairro humilde de Salvador, chamado Federação.
00:45Depois fui pro Garcia, que é um bairro do lado.
00:47Minha mãe é empregada doméstica, meu pai é operador de máquinas do polo petroquímico.
00:52Essa mulher, ela é a primeira familiar que sai de São Francisco do Conde,
00:58Reconcavo Baiano, e vem pra Salvador.
01:01E desde a geração do meu pai, ela trazia os sobrinhos pra morarem na casa dela,
01:07pra ter uma educação melhor.
01:08Melhor porque no interior da Bahia, nesse lugar de onde minha família vem, Ilha de Pati,
01:14a escola ia somente até a quarta série.
01:16Só que ela intuitivamente é uma mulher que nunca teve filhos, mas intuitivamente ela é uma grande educadora.
01:25E isso virou costume, tanto é que meu pai e meus tios foram criados por ela,
01:29eu e meus primos fomos criados por ela,
01:32e minha filhada de 15 anos agora ainda mora na casa dela e é educada por ela.
01:36E a infância foi com essa mulher, com regras rígidas.
01:40A gente não brincava na rua, a brincadeira era no quintal dela,
01:44que por um lado pode parecer uma prisão, mas por outro, na verdade, eu acho que era libertador,
01:48porque era morar num lugar onde o que eu tinha era imaginação e uma árvore.
01:54Então acho que isso também acaba alimentando o universo artístico, né?
01:57E lá a gente inventava de tudo, principalmente porque eu não tinha um teatari, né?
02:03Não tinha um videogame.
02:04Então as brincadeiras que a gente brincava era o artesanal, né?
02:08Na minha infância eu já fazia teatro.
02:11Primeiro, como um monte de gente conta, era pra curar a timidez.
02:16Porque pra mim era muito mais fácil fazer um poema, um versinho e falar numa festa do dia das mães
02:22do que chegar em casa e dizer que eu amava a minha mãe.
02:25Depois, uma filha da diretora do colégio trabalhava na TV Itapuã, uma TV local,
02:31e viu que eu era uma criança meio esperta, meio desinibida pras artes na escola
02:35e me levou pra TV Itapuã pra ser a criança que conversava com o Papai Noel
02:39ou então num especial de fim de ano fazer algum esquete.
02:43Inclusive tem um esquete que eu fiz com um ator chamado Mário Gusmão,
02:47que é um ator importantíssimo na história do teatro baiano.
02:51Primeiro ator negro a entrar numa faculdade de teatro.
02:54E foi o primeiro ator com quem eu contracenei num especial de fim de ano da TV Itapuã.
03:00O especial se chamava O Menino e o Velho.
03:03E curiosamente esse ator que me apadriou, que abriu a minha primeira porta pra atuação,
03:10antes dele morrer, o último trabalho dele em vida foi feito comigo também.
03:13A gente fez uma montagem de Zumbi dos Palmares, onde eu era zumbi e ele era gangazumba,
03:18morreu um pouco depois.
03:19Então o comecinho foi isso.
03:21Todo o meu começo tinha esse conceito de facilitar uma comunicação e uma compreensão
03:30de quem eu sou e do mundo em que eu vivo.
03:35E isso eu acho que é muito determinante, sabe?
03:38Porque eu acho que até hoje eu continuo com essa semente.
03:41Claro que várias coisas mudaram, aprendi outras coisas, tenho outros desejos além desse.
03:45Mas esse princípio ainda tá aqui e de vez em quando ele me chama aqui.
03:51Não sei se é aqui ou aqui.
03:52Mas de vez em quando ele chama.
03:581994.
03:59O Bando Teatro Oludum entra na minha vida.
04:01Essa história é até bacana de contar.
04:04Porque a inscrição custava 5 reais pra fazer oficina de teatro.
04:10Era o dinheiro do lanche, né?
04:11O colégio ficava numa ladeira e nós seis saímos pra inscrição.
04:18Aí quando chegou na ladeira eu falei,
04:19Ah, não vou gastar meu dinheiro não pra fazer esse curso.
04:23Não quero não.
04:24Aí desisti e voltei pro colégio.
04:26Os meninos continuaram subindo pra pegar o ônibus.
04:31De repente, quando eu tava no colégio, me deu uma doidice.
04:33Eu falei, não gente, como é que eu não vou gastar 5 reais pra me inscrever no curso de teatro?
04:36Eu preciso ir.
04:37Aí saí correndo.
04:39Fui, desci a ladeira.
04:40Eles tinham subido, desci a ladeira.
04:41Corri, corri, corri.
04:42Peguei o mesmo ônibus que eles tinham pego.
04:43Aí consegui entrar.
04:44Eles falaram, o que você tá fazendo aqui, louco?
04:46Falei, não, vou lá ver o que é.
04:48Me inscrevi.
04:48Comecei a fazer esse curso que durava uma semana.
04:52E fiquei enlouquecido com aquilo que eu vi.
04:55Um teatro vigoroso.
04:57Um teatro onde eu me via representado.
05:01Isso era muito importante pra mim.
05:02Principalmente porque a referência de teatro que eu tinha era outra.
05:05Eu me sentia representado.
05:07Sentia que ali eu poderia potencializar o meu talento.
05:12Porque lá tinha curso de canto, de dança, de música, de interpretação, de graça.
05:20Aí eu quis muito aquilo.
05:22Tanto é que na audição eu perdi.
05:26Porque a fase eliminatória era a dança.
05:29E isso Márcio Meirelles e Chica Carelli, diretores do bando, contam.
05:33Eu nem lembro dessa história, mas eles contam.
05:35Então na eliminatória de dança, eles viram que eu não dançava nada e me tiravam.
05:39A gente vinha dançando numa reta assim e eles me tiravam.
05:42Só que eu fingia que não entendia e voltava pro fim da fila.
05:45Aí eles falaram, vamos deixar ele só por causa da cara de pau.
05:48E me deixaram ficar.
05:49Eu fui passando de música, de interpretação.
05:51E acabei passando pra um grupo de teatro chamado Parque São Bartolomeu.
05:57Que não era o bando de teatro Lodum.
05:59Era um grupo pra adolescentes.
06:03Porque eu tinha 15 anos nessa época.
06:05E comecei a frequentar o grupo.
06:07Só que me dava uma irritação profunda com as temáticas debatidas.
06:12Eu tinha 15 anos, mas toda vez que eu começava um exercício de improviso.
06:16E o assunto era...
06:17Meu pai não me deixou chegar em casa tarde.
06:20A minha namorada fez não sei o que.
06:23As temáticas normais de um adolescente.
06:24Eu achava aquilo uma perda de tempo.
06:28Aí eu disse, ó...
06:29Eu não quero ficar nesse grupo.
06:31Mas me deixa ficar de ouvinte no bando.
06:34Me deixa ficar como se fosse um estagiário.
06:36Pra ver o trabalho de vocês.
06:37Porque eu não me identifiquei muito com o que tá rolando aqui.
06:41Só que aí fui.
06:42Aí naturalmente na cara de pau.
06:44Ao invés de ficar de ouvinte, aí ia carregar o instrumento.
06:46Eu fazia as coisas, ficava bem proativo.
06:48E acabei ingressando no bando com 15 anos de idade.
06:52Então eu trabalhava como técnico em patologia e fazia teatro à noite.
06:56Em 2000, o João Falcão me convida pra fazer a máquina.
07:00Tive muito medo.
07:03Neguei três vezes.
07:05Aí Wagner fez uma coisa linda.
07:06Ele foi.
07:07Saiu de Pernambuco.
07:08Foi pra Salvador me encontrar.
07:10Quando já tinha terminado a temporada do bando pelo Nordeste.
07:18E me chamou pra uma conversa.
07:19Falou.
07:20Tá louco.
07:21Vamos experimentar outras coisas.
07:24Vamos arriscar.
07:25Vamos sair daqui.
07:27O João Falcão é ótimo.
07:28Eu tô ensaiando com ele já há dois meses.
07:30Aí eu falei.
07:30Mas tá louco.
07:30Vai estrear daqui a um mês.
07:31O espetáculo.
07:32Não tenho.
07:32Não tenho.
07:33Mas ele falou.
07:33Vai.
07:34Liga pra ele agora e pede pra você fazer.
07:36Aí eu falei.
07:37Mas vou dormir aonde?
07:37Ele falou.
07:38No mesmo quarto.
07:38A gente dorme no mesmo lugar.
07:40Aí liguei.
07:41Pedi pra fazer.
07:42Inverteu-se o papel.
07:43E aí fui pra Pernambuco.
07:44Num apartamento lá morávamos num quarto João Falcão, Adriana Falcão e as filhas e os dois cachorros.
07:53No outro quarto Vladimir Brista, Wagner e eu, sendo que era uma cama de solteiro, um edredom e um colchonete.
08:01Vlad ficava na cama de solteiro porque ele tava com o braço quebrado e tinha que dormir melhor.
08:04E o colchonete, o edredom, eu e Wagner revezávamos.
08:07Nesse ano, eu fiz o teste pra O Homem do Ano, O Homem que Copiava, Madame Satã, Karandiru e As Três Marias.
08:18E ainda tinha feito o teste pra Cidade de Deus e Uma Onda no Ar e não pude fazer por outros motivos.
08:27Mas tem uma cara, tem um pensamento, tem um momento do cinema, quando eu cito esses sete primeiros filmes que eu tive próximo,
08:36que eu acho que é muito determinante, né, que diz muita coisa, que é um período de uma reflexão cultural e histórica
08:42e a gente tava no lugar certo na hora certa.
08:46Foi isso.
08:46E quando tira samba é novidade, quer no morro ou na cidade, ele sempre foi o bamba, as morenas do lugar, vivem a se lamentar
08:59por saber que ele não quer se apaixonar por mulher.
09:06O Pastores da Noite foi a minha primeira experiência na TV, mas era um pouco assustador, era muito diferente
09:12de tudo que eu já tinha vivido. Chegar ali no Projac, teve uma parte que a gente filmou na Bahia
09:20e que era muito mais confortável, muito mais parecida com o cinema, num outro ritmo.
09:26Quando chegou no Rio de Janeiro, que entrou naquele ritmo louco de televisão, eu fiquei doido, eu disse,
09:30meu Deus do céu, eu não sei fazer isso não. E praticamente desisti. Eu disse, não quero mais fazer isso.
09:35Que agonia, quanta câmera, não sei pra onde eu olho. Aí você tá atuando aqui, acende uma luz vermelha ali.
09:40Será que eu olho pra onde acendeu? Fiquei doidinho, doidinho. Ali, contracenei pela primeira vez.
09:47Tive contato pela primeira vez com Milton Gonçalves e Fernanda Montenegro, que são duas grandes inspirações.
09:57Que bestagem é essa?
09:58É verdade, ele casou com mulherão batuta, uns colchão que debenza.
10:03Uma daquela até eu casava. Uma santa de andor.
10:06Milton, primeiro que ele era muito mais moleque do que eu achei que seria.
10:09E é bacana ver isso, é lindo ver isso.
10:14Sempre muito disposto a ensinar, a passar algum ensinamento.
10:19Politizado.
10:20Me chama pra essa luta.
10:24Os papos no camarim com ele
10:25são sempre grandes esquetes,
10:28porque ele vai de uma piada safada
10:30a uma frase pungente política.
10:34E ver isso nele
10:36me ensinou muito a como lidar com a profissão
10:41e com as minhas aspirações políticas e sociais.
10:45Milton, pra mim, é um outro pai.
10:47Eu sou muito reverente
10:49aos atores mais velhos.
10:51Eu respeito muito, gosto de escutar, gosto de conversar.
10:53Ali tem lições e aprendizados
10:55que você não vai conseguir em outro lugar
11:00se não conversando com eles
11:01ou assistindo do jeito que eles estão trabalhando.
11:03Hoje em dia eu consigo me controlar mais.
11:05não assisto tanto na hora que estou fazendo a cena.
11:08Mas sempre que posso,
11:09puxo algum papo,
11:11pergunto alguma coisa,
11:11porque eu acho que é aí que a gente aprende.
11:24Como a minha formação de ator
11:27é diversa e intuitiva,
11:31até hoje eu construo os personagens
11:33na diversidade e na intuição.
11:36Cada trabalho que eu vou fazer
11:37eu invento um jeito novo
11:39de acessar o personagem.
11:42E sempre estou muito aberto
11:44às outras propostas.
11:46Brincar com vocês.
11:48Deixar correr solto o que a gente quiser.
11:51Sexo frágil.
11:52João Falcão dirigindo.
11:54João Falcão dirigindo.
11:55Aí foi divertido.
11:56Tinha uma proteção de estar no meio dos amigos,
11:58então a televisão se tornou um pouco mais confortável.
12:02Tinha humor,
12:03que é uma coisa que eu adoro fazer.
12:05Humor com amigos.
12:08E ali eu vivi alguns personagens
12:13que até hoje eu sinto falta.
12:14Você vai cair!
12:21Eu não vou cair.
12:22Eu vou pular.
12:23Cobras e Lagartos.
12:24Primeira experiência com novela.
12:27Foguinho.
12:30Maravilhoso.
12:31Difícil no início.
12:33Mas depois,
12:35pela primeira vez,
12:36eu me senti confortável fazendo televisão.
12:38O texto do João Emanuel Carneiro.
12:40é...
12:42brilhante.
12:43Ei,
12:44namorado ou princesa?
12:45Chega, mané!
12:46É isso!
12:48Ô, gatinha!
12:49É isso!
12:50Metida com esse popozão assim?
12:52Naquele momento foi possível
12:53fazer uma preparação absolutamente lúdica,
12:57é...
12:57inspirada
12:58na energia
13:00de dois personagens
13:02que eu
13:05gosto muito
13:06e não sabia se um dia poderia acessar.
13:08Tá indo pra onde,
13:09quer acompanhar?
13:10Hum!
13:12Era a cabíria.
13:15Quando eu vi o Foguinho,
13:16eu disse,
13:16pô,
13:17o olhar desse cara tem que ser o olhar da cabíria,
13:19tem um olhar de inocência,
13:20tem um olhar do...
13:21do excluído,
13:23tem um olhar que tem que pedir amor o tempo todo.
13:27É...
13:27Dois,
13:28no Charlie Chaplin,
13:30que parece até uma piada.
13:31Aquele bigode louro,
13:32ele surgiu porque eu fiquei assistindo os filmes do Chaplin
13:34e eu falei,
13:35ah,
13:35vou fazer o meu Chaplin.
13:36um Chaplin é um rosto branco com um bigode preto,
13:39eu vou fazer um rosto negro com um bigode louro.
13:47É que eu acho que mudou a percepção do público infantil pra comigo.
13:55É um público que eu não tinha muito acesso,
13:56e falo isso porque é um público que eu gosto de trabalhar,
13:59enfim,
13:59escrevi livro infantil,
14:00escrevo peças de teatro infantil,
14:02mas naquele momento ali
14:03do Cobras e Lagartos,
14:06era muito bacana ver a maneira com que as crianças me olhavam.
14:09Além do mais num país como esse,
14:11onde as nossas referências infantis
14:13não têm essa cara aqui,
14:15isso foi um prêmio.
14:16Tá sabendo, né?
14:17Eu vou te contar metade da sua diária por causa disso aqui.
14:20Ô pai!
14:20Desse jeito, sabe quanto é pra pagar o que você me deve?
14:22Nunca, Foguinho, nunca!
14:23Ô paizinho, não faz isso comigo não, pelo amor de Deus!
14:26Bora, menino!
14:26O Opaiol foi um reencontro com as minhas origens,
14:32com a maneira de trabalhar do bando,
14:34com uma espontaneidade que eu não estava conseguindo,
14:38não estava conseguindo não,
14:39que eu não estava tendo oportunidade de exercitar tanto.
14:42Primeira semana foi uma dificuldade, né?
14:43Porque encontrar todo mundo ali afiado,
14:45e eu ter que reencontrar aquele registro,
14:48mas foi bom porque depois encontrei e vi que essa origem aí não se perde mais.
14:51Duas caras, Agnaldo Silva,
15:05novela das oito,
15:07que é uma expectativa maior,
15:09mais pessoas assistem, mais cobranças tem,
15:13e fazendo aquele herói do povo, né?
15:16Era um menino da favela,
15:18que tinha aspirações políticas
15:20e que se apaixonou por uma moça do asfalto.
15:24Ó, você sabe que até doía no meu peito,
15:26às vezes, a saudade,
15:27tanta saudade, tanta saudade,
15:28que doía, doía, doía.
15:29Eu também, eu também fiquei,
15:30meu coração ficou aqui com vocês o tempo todo.
15:34Eu te amo, amor.
15:38Eu tenho muito orgulho da nossa família, viu?
15:42Insensato Coração.
15:43Pois é, André Gurgel,
15:45um outro anti-herói,
15:46esse foi o primeiro personagem
15:48que eu coloquei o pé...
15:51Desculpa, André.
15:52Eu acho que você não entendeu muito.
15:55Quase na vilania.
15:56Eu quero contratar você pra trabalhar pra mim.
16:02Você acha mesmo que eu seria capaz
16:03de dispensar o Aquiles
16:05pra trabalhar pra um iniciante?
16:09Lado a lado,
16:11tem um carinho imenso por essa novela.
16:13muita paixão.
16:15Acho que é uma novela histórica,
16:17acho que...
16:19Quando se for fazer alguma coisa
16:20contando...
16:23Esse período da história do Brasil,
16:25lado a lado é a maior referência,
16:26tem que ser alguma coisa daí pra frente.
16:28Porque o lado a lado
16:28deu um passo além
16:29em contar esse heroísmo,
16:31essa batalha do povo negro,
16:33essa...
16:34maneira do Rio de Janeiro
16:36se descrever,
16:37aquele período ali da Belle Époque,
16:39onde estava se fundando
16:40uma cultura brasileira,
16:41carioca,
16:42né?
16:43Onde tinha uma parte da população
16:45que dizia bonjour
16:46e queria ser francês,
16:49e outra parte da população
16:50brasileira,
16:52tão brasileira quanto esse
16:53que diziam bonjour,
16:54que estava ali querendo somente
16:55ter onde morar
16:55e ter um espaço ser respeitado
16:57e não ser mais discriminado.
16:58E aí eu tinha proposto
17:17ao Canal Brasil
17:18um programa
17:19pra apresentar
17:20e o canal disse
17:21eu acho que você
17:22antes tinha que exercitar
17:23e dirigir outras coisas,
17:24por que você não faz
17:25um retrato dos brasileiros?
17:26Um mini documentário
17:27sobre alguém
17:28que você admire
17:29ou queira conhecer.
17:30Aí eu falei
17:30que eu quero fazer
17:30sobre o Zózimo Bulbú.
17:32Aí fiz esse retrato dos brasileiros
17:33sobre o Zózimo
17:34pra conhecer
17:35e entender
17:36um pouco
17:37quem foi esse grande artista,
17:38esse grande pensador,
17:40esse grande pensador do cinema,
17:41grande pensador das causas negras.
17:44Eu beijo de garoto,
17:45minha mãe,
17:47meu pai,
17:50ex-vizinho,
17:51dizia,
17:53esse garoto
17:54é muito arteiro.
17:58E ele lá
17:59no dia da gravação
18:01desse documentário
18:01me disse uma frase
18:02que ficou na minha cabeça
18:03pra sempre.
18:05No fim da entrevista
18:06ele falou
18:07isso aqui
18:08que esse rapaz
18:08aí do seu lado
18:09tá na mão
18:09tava se referindo
18:11à câmera
18:11isso aí é uma arma.
18:14Use.
18:17Use.
18:18Aí eu fiquei meio zonso
18:19assim e falei
18:20caramba.
18:22E a partir daí
18:22realmente comecei a usar
18:23e é daí que nasce
18:24espelho também.
18:26O meu programa
18:27de entrevistas
18:28é uma arma.
18:30É uma arma
18:31pra fazer o quê?
18:32Pra revelar
18:32um outro Brasil
18:33que nem sempre
18:33tá na televisão.
18:35Eu sempre tive
18:35essa coisa
18:36de buscar
18:37essa visão mais ampla
18:38da...
18:39Enfim,
18:40não ficar só olhando
18:41pro básico, sabe?
18:42Isso acho que ajudou
18:43assim bastante.
18:44E foi fundamental
18:45assim na minha formação
18:46mesmo.
18:47Eu...
18:48Em casa
18:49a gente
18:49no café da manhã
18:51no almoço
18:51a gente discutia
18:52as notícias
18:53e tal.
18:54Linhas entre linhas
18:55de jornais.
18:56Meu pai me ensinou
18:57essa parada clássica.
18:58Quando o jornal
18:58tá falando isso
18:59ele quer dizer
18:59até isso aqui
19:00que tá dizendo.
19:01Isso aqui, isso aqui,
19:02isso aqui, isso aqui.
19:03Isso aqui, preste atenção.
19:04Ah, beleza.
19:06Isso.
19:06Tem um projeto
19:07de leitura
19:08em Salvador
19:09chamado
19:09Ler é Poder.
19:11No princípio
19:11era um projeto
19:12onde
19:13nós
19:15abrimos
19:16quatro centros
19:17de leitura
19:18em quatro comunidades
19:18de Salvador
19:19com livros doados
19:21com serviço voluntário
19:22pra catalogar os livros
19:24serviço voluntário
19:25de estudantes
19:26da faculdade
19:27Jorge Amado
19:28que iam
19:29em alguns dias
19:30da semana
19:30pra fazer rodas
19:31de leitura
19:32e atividades
19:32de leitura
19:33com a generosidade
19:34de alguns autores
19:35que quando iam
19:36pra Salvador
19:37ao invés
19:38de lançar o livro
19:39somente no maior shopping
19:40da cidade
19:41ia também lá
19:42pro meio da comunidade
19:43pra lançar o livro
19:44e bater um papo
19:45com as crianças
19:45daquele lugar
19:46e assim
19:47fundou-se
19:48foi fundado
19:49o Ler é Poder.
19:50Pô, a leitura
19:51foi quem mais me transformou
19:53foi onde eu mais aprendi
19:54como eu não tive
19:55acesso a uma faculdade
19:56de teatro
19:57por exemplo
19:57não tive possibilidade
19:59de fazer
20:00a quantidade de livros
20:01de teatro
20:02que eu li
20:02foi o que me deu
20:03a formação
20:04ainda sinto falta
20:05de ler muitos autores
20:06e conhecer muitas coisas
20:07mas estou aqui
20:08é muito engraçado
20:09que eu até hoje
20:10tenho assim
20:10um livro do lado da cama
20:11um livro no banheiro
20:12um livro no carro
20:13um livro na mochila
20:13tudo pela metade
20:15vou lendo um pouquinho
20:16às vezes eu misturo as histórias
20:17agora eu acho que eu preciso
20:19achar uma estratégia
20:20de ler temas diferentes
20:21eu tenho que ler biografia
20:22romance
20:22para não misturar tanto
20:23mas gosto muito de ler
20:26e é engraçado
20:29que os amigos já sabem disso
20:30é o presente que eu mais ganho
20:31inclusive estou sempre atrasado
20:33porque é tanto livro
20:33que eu ganho
20:34que eu não estou conseguindo
20:35acompanhar
20:36embaixador do Unicef
20:38desde 2009
20:39a relação com o Unicef
20:43já tinha começado
20:43em 2007
20:44eles não me falaram
20:45que era com o intuito
20:47de ser embaixador
20:47mas eles perceberam
20:48que eu tinha
20:49afinidade com as questões
20:52do Unicef
20:53e me fizeram esse convite
20:54para mim
20:56é uma grande honra
20:58poder representar
20:59e falar
21:00em prol dos direitos
21:03das crianças
21:03é um aprendizado
21:05porque cada atividade
21:06que o Unicef me leva
21:08para fazer
21:09eu saio um pouco
21:11mais transformado
21:12e eu já tive
21:13desde a oportunidade
21:14de ir numa tribo indígena
21:15para falar sobre
21:16o uso de camisinha
21:17de preservativo
21:18até de ir num encontro
21:20de jovens
21:21vivendo com AIDS
21:21e esses encontros
21:24sempre me deixam
21:25muito motivado
21:26a continuar
21:27representando
21:28o Unicef
21:29e os direitos
21:29das crianças
21:30a geração Brasil
21:31vem para me trazer
21:32de volta a comédia
21:33que eu não fazia
21:33muito tempo em televisão
21:34estava vindo
21:36de outros projetos
21:37e outros trabalhos
21:38e a Isabel
21:40e o Felipe
21:41vinham do Cheio de Charme
21:44uma novela que eu adorei
21:45que Thaís fez
21:47e quando eles convidaram
21:47eu fiquei animadíssimo
21:48em poder trabalhar com eles
21:49o contexto deles
21:50e me divertir um pouco
21:52e assim foi
21:53foi um ano muito divertido
21:54a sua situação
21:56é um pouco melhor
21:57mas você ainda vai ter que pagar
22:00pelos crimes que cometeu
22:01conheci a Thaís
22:03na época que ela fazia
22:03da Cor do Pecado
22:04eu fazia Sexo Frágil
22:05a gente estava
22:07em estúdios próximos
22:08é uma atriz
22:08que eu admirava
22:09há muito tempo
22:10quando eu vi
22:11Thaís fazendo
22:13a Elza Soares
22:13no Garrincha
22:14eu falei
22:15caramba
22:15olha que bacana
22:16que atriz
22:17e tinha uma grande
22:19identificação
22:20com a artista
22:20que ela era
22:21e a gente se conheceu
22:23nessa época
22:23e a gente se conheceu
22:25na vida
22:26namoramos
22:27e casamos
22:28a gente veio trabalhar
22:29inclusive junto
22:29um ano depois
22:30que foi o Cobras e Lagartos
22:31e é uma grande parceira
22:34a gente completa agora
22:3510 anos de casados
22:37e continuo admirando ela
22:40inclusive admirando
22:41a reinvenção
22:42eu acho que Thaís
22:43faz alguns anos
22:44ela se reinventou
22:46como atriz
22:46amadureceu
22:47conquistou novas coisas
22:49é bom ser casado
22:50com uma atriz
22:51por isso também
22:52porque você acompanha
22:53o processo criativo
22:53se inspira
22:54oferece alguma coisa
22:55e tem assuntos semelhantes
22:59para conversar
22:59na hora de jantar
23:00mas meu filho
23:02primeiro dá muito medo
23:05primeiro filho principalmente
23:06medo não ter trabalho
23:09medo não saber criar
23:10medo não ser pai
23:11depois ele mesmo
23:12vai te ensinando
23:13e João é um cara
23:15que acho que está crescendo
23:16muito maneiro
23:16ele é um carinha
23:18muito legal mesmo
23:19profissionalmente
23:20acho que ele
23:22mudou a minha maneira
23:24de abordar
23:25as minhas produções
23:26para criança
23:27observando o que ele gosta
23:29os meus textos novos
23:31os que eu estou escrevendo agora
23:32é como se eu tivesse
23:34um laboratório em casa
23:35eu acho que
23:37artisticamente
23:39antes de João nascer
23:42eu escrevia
23:42para a criança
23:43que eu fui
23:44agora eu escrevo
23:45para a criança
23:46que ele é
23:46mais um agora
23:47Maria Antônia
23:48muito bem-vindo
23:49em boa hora
23:49acho que talvez
23:50o sucesso
23:51no meu caso
23:52tenha transformado
23:52mais a percepção
23:53que as pessoas
23:54têm sobre mim
23:55sobre o meu trabalho
23:56e isso aí
23:57para o bem
23:58e para o mal
23:58tem gente que acha
23:59que te conhece
23:59acha que você é uma coisa
24:00tem umas fofocas
24:01que aparecem
24:01que dizem
24:02outro dia apareceu
24:03minha mãe
24:03coitada
24:04falecida já
24:05há 12 anos
24:05que estava
24:06abandonada
24:07num bairro de Salvador
24:08que eu larguei ela lá
24:09acontece desde esse tipo
24:10de coisa
24:11até você ter sua voz
24:13escutada
24:13você falar
24:14de várias questões
24:15você conseguir levar
24:17o espectador
24:18para ver um programa
24:19como espelho
24:20para uma peça de teatro
24:21que você faça
24:21o sucesso
24:22no meu caso
24:24possibilitou isso
24:25na minha rotina
24:26mudou muito pouco
24:28porque as pessoas
24:29com quem eu convivo
24:29são as mesmas de sempre
24:31claro que entram
24:32novos amigos
24:32mas eu procuro manter
24:34essa
24:35esse cotidiano
24:37porque eu acho que
24:39o ator já vive
24:40tanto
24:41no mundo da fantasia
24:43numa redoma
24:43de proteção
24:44que se você não
24:45mantiver
24:46os seus valores
24:47primordiais
24:48no meu caso
24:49relação com família
24:50relação com amigos
24:52hábitos
24:53do dia a dia
24:54se você não mantiver isso
24:56você
24:58corre um sério risco
24:59essa profissão
25:01tem riscos também
25:02não é só ganhar roupa
25:03de graça não
25:04tem risco também
25:05risco de você
25:08ficar deslumbrado
25:09vaidoso
25:10e se acreditar
25:11alguma coisa
25:11quando a gente
25:13está sempre em transformação
25:14a gente na verdade
25:14não é nada
25:15a gente é
25:16hoje agora
25:16aqui
25:17esse momento
25:17o risco
25:20de enquanto
25:20profissional
25:21ficar convivendo
25:23só nesse universo
25:24artístico
25:24e não olhar o mundo
25:25que na verdade
25:26é a nossa grande
25:27inspiração
25:28eu gosto muito
25:31de olhar o outro
25:32eu não gosto tanto
25:33de ser olhado
25:33porque é isso
25:34que vai me inspirar
25:35para eu fazer
25:35o meu trabalho
25:36acho que eu sou
25:38um ator privilegiado
25:39que consegui fazer
25:40uma grande diversidade
25:42de personagens
25:43de transitar
25:45por estilos
25:46de conhecer
25:48pessoas incríveis
25:49de trabalhar
25:49com pessoas
25:50que eu admiro
25:51tenho uma família
25:53que eu amo
25:54vivo da minha profissão
25:58importante dizer isso
26:00num país
26:01com tantos talentos
26:02e que nem sempre
26:02são vistos
26:03e não tem oportunidade
26:04de trabalhar constantemente
26:05eu vivo da minha profissão
26:07então eu sou realizado sim
26:09sou sim
26:10e agradeço muito a Deus
26:11a Xangô
26:12por isso
26:13ser ator
26:16é
26:16estar em movimento
26:19estar atento
26:20pelo menos tentar
26:22e aí
26:27a Xangô
26:28a Xangô
26:30Legenda Adriana Zanotto
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