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#canalviva #grandesatores

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Transcrição
00:00Era o meu destino ser cuidado pelas mulheres, eu acho que eu fiquei muito mal acostumado.
00:17Eu entrei numa crise e eu falei, eu não quero só ser modelo, eu queria trabalhar com outras coisas.
00:23Eu sabia que eu estava aceitando aquele desafio, porque eu sou muito corajoso, porque se você tem medo, você realmente não faz aquilo.
00:32Quando você imagina que amanhã você pode morrer, o hoje tem que ser cheio de amor, tem que ser cheio de verdade.
00:42Eu nasci em Birigui, eu sou um caipira do interior mesmo, tive uma infância muito rica.
00:48A que eu devo muito, parte do meu trabalho, é essa magia que eu vivia na infância.
00:54Eu cresci com o pé no chão mesmo, sou filho de fazendeiros, na roça mesmo, aquela coisa bem rústica.
01:01Eu cresci pisando no chão com muitas crianças, brincando muito no meio da natureza.
01:08Isso mexeu demais com aquele elemento que hoje em dia eu uso muito, que é a magia que a gente encontra,
01:16aquele mundo todo interno que a gente vai trabalhar como ator, eu busco muito na minha infância.
01:21Porque eu tive uma infância abençoada, linda mesmo, livre, feliz.
01:27Isso é minha matéria-prima, não tenho dúvida.
01:29A primeira que eu vou buscar, assim, nos meus trabalhos.
01:33Eu sou de uma família de muita mulher.
01:36Então eu cresci, primeiro, sendo muito mimado pelas mulheres, porque além da minha família ter muita mulher,
01:41minhas vizinhas todas eram mulheres, impressionante.
01:43Era meu destino ser cuidado pelas mulheres, eu acho que eu fiquei muito mal acostumado.
01:48Todos os meus amigos falam isso, que eu sou muito mal acostumado mesmo,
01:51porque eu tenho essa facilidade do trato com a mulher.
01:55Eu tenho muitas amigas, eu fico amigo mesmo de verdade das mulheres.
01:59Eu tenho uma relação muito legal de acesso, assim.
02:04Eu, de uma certa forma, acho que eu pude entender a alma feminina,
02:07mas acho sempre muito difícil de entender a mulher e a gente vai ser sempre uma briga.
02:10O homem vai tentar entender a mulher, a mulher vai tentar entender o homem.
02:13Mas, de uma certa forma, eu acho que eu tive um acesso muito legal, assim.
02:18Eu fui criado com a energia feminina, né, com a coisa da sensibilidade.
02:22Mais do que ser um machão, né, eu sou de família italiana, que tem um pouco também essa coisa do macho.
02:28Mas eu acho muito bacana eu ter me sido criado com essa coisa do feminino,
02:33da sensibilidade.
02:35E eu acho que isso no meu trabalho me ajuda muito, porque o meu trabalho exige muito que eu lide com a minha sensibilidade.
02:42Eu saí de Birigui e fui para São Paulo para estudar.
02:45Eu sempre soube, desde muito pequeno, que eu ia ganhar a cidade grande.
02:49Ao contrário de toda a minha família, que é meio enraizada lá, né,
02:52que todo mundo tem muito medo de sair daquele pequeno universo,
02:56eu já queria ganhar o mundo.
02:57Eu queria ganhar...
02:57Começar por São Paulo, depois o mundo e conquistar as grandes cidades e as grandes oportunidades.
03:04Então, minha grande deixa foi aos 18 anos, quando eu saí para fazer Direito na PUC.
03:09Era a grande desculpa que eu precisava.
03:11Depois eu descobri que era desculpa mesmo, porque, embora eu tenha terminado a faculdade de Direito,
03:16não era exatamente o que eu queria fazer.
03:17E nesse tempo que eu estudei, eu também comecei a trabalhar como modelo paralelo.
03:24Faltava muita faculdade, mas também foi me abrindo muita cabeça para esse lado artístico.
03:29Comecei a me interessar muito pela questão estética, o trabalho dos fotógrafos.
03:35E, embora não tenha nada a ver com o ator, já estava aquela sementinha dentro de mim, assim, sendo trabalhada.
03:41Aliás, essa sementinha eu já estava desde muito criança, porque eu fiz teatro.
03:45Eu era muito um agitador quando um moleque dessa parte de teatro na minha cidade.
03:50Eu fazia teatro na escola, pedia para a diretora ceder o teatro para eu fazer a peça para a escola inteira assistir.
03:55Fazia em casa no final do ano, para a vizinhança toda.
03:59Tinha um grupo na cidade também que eu organizava.
04:03Eu era muito ativo, desde muito moleque.
04:05Só que isso, depois da adolescência, ficou meio que para trás.
04:09Aí eu me empenhei em estudar, uma profissão mais séria de advogado.
04:15Na minha cabeça nunca passava que podia trabalhar na televisão ou ser um ator profissional.
04:19Quando eu desisti do direito, porque eu já vi que não era a minha parada, não era ser diplomata, não era o que eu queria mesmo,
04:27eu consegui realizar essa vontade através da profissão de modelo.
04:31Aí eu realmente ganhei o mundo.
04:34Fui trabalhar em boa parte do mundo, Japão, Itália, França, Estados Unidos.
04:40E eu fui conhecendo boa parte do mundo e fui abrir a minha cabeça.
04:43E foi muito importante essa fase, como descoberta, como deixar de ser o menino medroso lá do interior também e desbravar um pouco.
04:53Eu morava absolutamente sozinho, vivia sozinho, pagava minhas contas sozinho, tinha que sobreviver naquela loucura toda.
05:00Isso me fez amadurecer bastante, me fez entender das relações, me fez trocar muita coisa boa com gente de todas as culturas, aprender línguas.
05:10Acho que isso foi um grande começo para essa grande formação que é, que precisa o ator.
05:16A transição de modelo para ator se deu através, como sempre, através de uma crise, né?
05:24Eu entrei numa crise e eu falei, eu não quero só ser modelo, eu queria trabalhar com outras coisas.
05:31O modelo estava me incomodando naquela coisa de você trabalhar só com o corpo.
05:36Eu achava que eu tinha mais coisas dentro que não estavam sendo pedidas na profissão de modelo.
05:42e que eu estava achando que eu estava emburrecendo também, porque eu viajava demais, não tinha tempo para estudar, para fixar num lugar.
05:52E eu comecei a sentir que tinha muita coisa dentro de mim amortecida, que eu não estava trabalhando.
05:56Comecei a me dar uma grande aflição.
05:59Eu realmente entrei numa crise enorme e queria parar num lugar para estudar e estudar para ser ator.
06:05A única coisa que me vinha, a única possibilidade que eu tinha de encontrar um novo caminho seria o do ator mesmo,
06:11que era a minha grande vontade desde moleque.
06:16E, bom, enfim, eu entrei numa crise durante seis meses, parei de viajar um pouco,
06:20mas aí também começou a acabar a grana, porque essa profissão exige que você viaje.
06:25Eu entrei numa super crise e nesse tempo conheci um grande amor, que foi a Marília Gabriela,
06:31conheci ela em Paris e meio que casei.
06:34E aí acabou que seis meses depois, nessa crise toda, recebi um chacoalhão dela enorme, que ela falou,
06:42eu acho que você não é só isso mesmo, só modelo, você tem muita coisa dentro de você que você pode trabalhar.
06:47E ela por si só é uma mulher tão extraordinária, cheia de tantos talentos, que por si só estar com ela já era um chacoalhão enorme.
06:55Ela já é um exemplo maravilhoso para eu seguir, de buscar outras coisas, de lutar por outras coisas.
07:03Acabei voltando para o Brasil e casei e comecei a estudar para ser ator.
07:09Então, a minha transição foi aí.
07:10Eu comecei a fazer cursos, ainda trabalhando como modelo, mas já fazendo cursos.
07:16Aí, muito cara de pau, eu fui atrás de um grupo profissional de teatro, que é o Teatro de Vertigem,
07:19que é um grupo que eu adoro, que fazia umas oficinas.
07:22Eu deixei muito claro que eu queria aprender, que eu tinha um prazer enorme de descobrir aquela profissão,
07:28que eu estava muito afim de dar o sangue.
07:30E acabei pegando e fiz um lindo trabalho com eles.
07:33Era um trabalho de pesquisa mesmo do grupo teatral, um grupo muito sério de São Paulo.
07:39E acabei ficando muito feliz lá dentro.
07:42E um dia, um dos atores de lá falou, olha, ele está precisando de um...
07:45O Zé Celso, o Martinez Correia, está fazendo um teste,
07:48que ele precisa substituir um ator que vai sair na peça Cacilda.
07:52Era uma peça que eu já tinha assistido, tinha ficado enlouquecido.
07:54Uma das coisas mais lindas que eu vi até hoje.
07:57E aí, eu fui fazer esse teste.
07:59Falei, claro que eu quero.
08:01Acabou que o Zé Celso ficou me dirigindo durante seis horas.
08:06E eu fiquei louco pelo Teatro Oficina, pelo Zé Celso,
08:10que é a figura mais emblemática que a gente tem do teatro.
08:13É tão importante.
08:14Eu já acompanhava o trabalho dele.
08:16Já tinha uma noção muito grande do que era.
08:18Estreei em Porto Alegre, num festival, Porto Alegre em Sena,
08:22com a peça Cacilda, na direção do Zé Celso.
08:25Acho que não podia ser melhor, assim.
08:26Foi um êxtase, eu lembro.
08:28Me deu a certeza de que eu tinha achado a minha profissão.
08:33Ali eu lembro, falei, cara, é isso que eu quero fazer para o resto da vida.
08:35Ele me chamou para a próxima peça, que era o Boca de Ouro.
08:39Aí até que alguém da Globo, um produtor, que foi Luiz Antônio,
08:44foi me assistir no Boca de Ouro e me chamou no final e falou,
08:49olha, eu trabalho na Globo e tem uma novela que está pintando aí
08:53e você é total perfil para fazer esse personagem.
08:58E eu gostaria que você fizesse o teste.
09:00Eu estava super ocupado, eu ia viajar em seguida.
09:03Eu realmente não tinha muito data.
09:04O teste era no Rio, eu estava em São Paulo.
09:06E aí eu falei para ele, olha, eu na verdade não tenho muito interesse em fazer televisão.
09:11Eu descobri minha praia, é o teatro.
09:14Eu nem assisto televisão, não tenho nem televisão em casa, para você ter uma ideia.
09:17Eu tinha uma época realmente que eu não assistia mais televisão.
09:20E não era uma coisa que me movia.
09:22Eu nunca tinha pensado em mandar meu material para a Globo, nada disso.
09:26E ele falou, olha só, é a sua cara esse personagem.
09:29Eu acho que você devia pelo menos fazer o teste para ver qual que é.
09:31Eu falei, mas como que é?
09:33Aí ele falou assim, ah, é para ser o par da Vera Fischer.
09:36Eu falei, oi?
09:38Eu vou fazer teste, né, para trabalhar com a Vera.
09:40Acabei indo para o Rio de Janeiro, fiz o teste e fui viajar.
09:44E fui tirar umas férias para a Austrália.
09:48Eu lembro que foi até muito longe, fui para a Austrália.
09:50E quando eu voltei, eu recebi o telefone do Ricardo, Ricardo Waddington,
09:55falando, olha só, o Manuel Carlos adorou você.
09:58Ele falou que o papel é seu.
10:00E eu fiquei maluco.
10:02Eu falei assim, você tem certeza, Ricardo?
10:04Eu nunca fiz nada na televisão.
10:06Eu estou estreando agora no teatro.
10:09Eu falei, você tem certeza?
10:10Ele falou, claro que não.
10:11Eu estou muito inseguro.
10:13Mas o Manuel Carlos quer.
10:14Então, realmente, eu devo muito ao Manuel Carlos na minha entrada na televisão.
10:18Como é teu nome?
10:20Edu.
10:21Eduardo?
10:22É, mas me chamam mais de Edu.
10:24Só minha tia, quando briga comigo, é que me chama de Eduardo.
10:26Hoje, por exemplo, é capaz dela perguntar, o que aconteceu com o seu carro, Eduardo?
10:32Mesma coisa que com o meu filho Fred.
10:34Desde pequenininho, quando eu fico zangada com ele, eu chamo ele de Frederico.
10:38Era no final de 99 para 2000, eu estrei Laços de Família,
10:41que veio a ser uma novela incrível, uma das mais lindas do Manuel Carlos.
10:45E foi desumano para mim.
10:46Foi desumano, no sentido de que eu sofri muito, porque eu era o meu maior crítico.
10:51Então, eu assistia e eu via que estava insuficiente.
10:54Eu sabia que eu podia aprender e fazer muito melhor.
10:57Mas, diante do que tinha, era o que eu podia oferecer, diante daquela loucura toda.
11:03Sem a experiência.
11:04Então, eu sofri muito, sim.
11:05Mas foi um ano intenso na minha vida.
11:07E eu gosto de coisas intensas, de uma certa forma.
11:09Eu sou corajoso.
11:11Eu sabia que eu estava aceitando aquele desafio, porque eu sou muito corajoso.
11:15Porque se você tem medo, você realmente não faz aquilo.
11:19Ah, tá bom, tia. Chega.
11:21Depois eu me explico para ela.
11:22E aí, por que você se irrita comigo?
11:24Eu não estou irritado com você, tia.
11:26Estou cansado.
11:26Tive um domingo infernal.
11:28Vou ter que comprar outro carro, esperar que me entregue.
11:30É final de ano.
11:31Claro que só vão me entregar outro em janeiro, sei lá que dia.
11:33Enfim, vou ter que mudar meus planos.
11:34Eu trabalhei de cara com a Marieta Severo, com a Vera Fischer, né?
11:39E elas foram muito parceiras.
11:40Eu acho que elas sacaram o que eu queria aprender.
11:44E elas tiveram muita paciência.
11:45E foram queridas colegas de trabalho que eu amo muito até hoje.
11:50E assim foi, assim.
11:52Por mais que eu tenha sido muito verde no começo,
11:54eu continuei recebendo propostas, assim.
11:56A minha segunda novela foi com o Silvio de Abreu,
12:00que veio a ser um grande parceiro meu, né?
12:04O Silvio, eu realmente devo muita coisa a ele.
12:07Ele foi o que mais apostou em mim, em termos de acreditar no meu trabalho,
12:11de deixar eu me desenvolver em outras áreas que talvez as pessoas não conseguiam visualizar muito.
12:16É um pai artístico pra mim.
12:18Deu ligar pra ele, me consultar.
12:21Falei, o que você acha?
12:22Eu fazer isso.
12:23E ele vai me assistir no teatro.
12:25Ele é realmente uma pessoa que eu respeito muito.
12:27Tenho o maior prazer.
12:28Eu falo, cara, se você me chamar, eu aceito de olho fechado.
12:30Quando o Silvio me chamou pra fazer o Pascal,
12:32eu estava pronto pra brincar muito com esse personagem.
12:36Foi a primeira vez que eu senti o que era você cair nas graças mesmo, da massa.
12:41A mãe tem razão aí, viu, Giovanni?
12:43Não é pra ficar vindo aqui mesmo, não.
12:44Que vai acabar dando problema.
12:45Que problema?
12:46Ô mãe, até você não tem problema.
12:49Oi, tá vendo?
12:50É isso que dá, ficar ouvindo gente ignorante.
12:52Peraí, peraí, peraí.
12:53O que que é isso, meu?
12:54Tá me tirando?
12:55Vai ficar aqui me ofendendo, meu trabalho não, entendeu?
12:57Vai lá, cuidado dos preços, vai.
12:59Vai, faz aqui, faz aqui.
13:00Porque até então era muita mulherada que vinha e falava,
13:02ai, como você é lindo, talara.
13:04E nessa novela, muitos homens chegavam e falavam,
13:06cara, como eu me divirto com você.
13:08Porque era o universo da borracharia, dos homens mesmo, né?
13:11E aí, foi a primeira vez que eu senti que o meu trabalho estava sendo, de uma certa forma, reconhecido, no sentido de ter a comunicação mesmo, de verdade.
13:20Que não era por eu ser bonitinho, nada.
13:23Porque eu estava fazendo as pessoas rirem.
13:25Toda vez que eu fazia par romântico, eu tive muita sorte de ser atriz que eu consegui ficar muito encantado por elas.
13:43Porque eu acho que, de uma certa forma, você precisa ser encantado pelo seu par romântico, né?
13:47Você não precisa misturar e ter um romance de verdade.
13:50Mas você precisa achar elementos que te encantem, para você poder ser verdadeiro e mostrar a relação, né?
13:57E eu realmente me encantei por todas as minhas parceiras.
14:00E, na verdade, várias outras ficaram, né?
14:14Como a Giovanna Antonelli também, que foi a que eu mais fiz par romântico até hoje.
14:19O mais trabalho foi com a Giovanna Antonelli.
14:20Mas a Thais Araújo também, Priscila Fantin.
14:24Todas, na verdade, é até difícil de citar, né?
14:28Todas.
14:28Mariana Chimenez, que depois eu fiz duas vezes também.
14:32Virou-se uma relação de carinho.
14:35É, sabe que o toque que eu te dei foi legal, né, Mariana?
14:37Foi, foi.
14:38A velha ficou impressionada quando você não aceitou o calabouca dela.
14:41Quer valer?
14:42Foi, foi. Beleza!
14:45Tem tanto respeito pela Glória.
14:48E aí, fazer par romântico para ela, para mim, era difícil.
14:52E, porque, engraçado, eu não tenho muito pudor com nada, essa coisa de fazer romance,
14:57de fazer cenas de sexo, de beijar.
15:00Mas com a Glória eu tive.
15:02Porque eu tinha muito respeito.
15:04Era um respeito, uma paixão artística por ela, assim, que eu não sei te descrever.
15:10É um sentimento tão forte que parece que eu vou explodir.
15:16Fala, Mano Bento.
15:17Não chora, não.
15:18Fala.
15:20Você ainda não notou?
15:26Você não percebeu?
15:27Que eu estou completamente apaixonada por você.
15:34Você não percebeu que eu te amo?
15:38Muito.
15:38Esperança foi parecido com uma continuação de Terra Nostra, sem ser uma continuação, na verdade.
15:52Então, não foi uma novela que estourou tanto quanto Terra Nostra.
15:56Mas, para mim, é um dos trabalhos mais marcantes que eu fiz.
16:00Em primeiro lugar, eu adoro o texto do Benedito Rui Barbosa, né?
16:03Eu acho que ele escreve com muita sensibilidade.
16:06E foi outra novela muito difícil também, que teve muitos problemas.
16:09O Benedito acabou saindo no meio, entrou o Val C. Carrasco para escrever.
16:13Tinha todas as dificuldades do mundo.
16:16Eu lembro, mas ainda assim, eu acho que a gente fez um lindo trabalho.
16:19Eu me orgulho demais quando eu vejo.
16:22E é impossível não falar dessa novela sem dizer o tanto que eu aprendi com o Luiz Fernando Carvalho.
16:29E o tanto que eu virei fã desse diretor, que é um artista dos maiores, né?
16:35Ele falou, olha, eu olhei, andei vendo a sua cena.
17:05Quando você estreou, eu acho que você realmente muito verde.
17:08Mas eu vejo uma chama muito bonita de um ator aí dentro.
17:12E eu quero trabalhar esse ator.
17:14Isso, ouvir dele essas palavras me deu, nossa, me deu um alento, assim, para a minha profissão, sabe?
17:22Eu estreei sendo considerado um galã e sendo um mocinho, bonito.
17:28E tem sido assim, pela minha carreira.
17:31Acho que as pessoas esperam que você esteja sempre, seja o galã, o príncipe, ou sei lá o quê.
17:37Tem um preço isso tudo, né?
17:39Eu acho que tem uma cobrança muito grande.
17:40E eu senti, obviamente, toda essa cobrança.
17:43Eu trabalho de domingo a domingo.
17:44E é um trabalho de exposição, de coragem, de você dar a cara a tapa mesmo.
17:51Cada trabalho você tem que se expor, mostrar as suas fragilidades, mostrar o que você ganhou de conhecimento para estar ali.
17:59É um trabalho cruel, de uma certa forma, e exige empenho e coragem.
18:04Então, quem não tem essa vocação para ralar mesmo, eu acho que é expelido em algum momento.
18:10E aí, eu acho que entra realmente a vocação.
18:12Você tem que gostar da profissão em si, não do que ela te traz, que é uma enganação, né?
18:20Esse falso glamour, ou todas as facilidades que a profissão te traz, ou a fama, que parece que é legal.
18:26Eu acho que, na verdade, o legal é a profissão mesmo.
18:31O resto nem é tão legal assim.
18:32A beleza do trabalho do ator é você fazer um trabalho de pesquisa do ser humano, né?
18:37Para você fazer um personagem, você tem que entender daquele personagem.
18:41Você tem que entender as nuances do ser humano.
18:43E para você poder fazê-lo bem, você tem que descobrir dentro de você quem você é de verdade,
18:49para poder emprestar as suas coisas ao personagem, acessar o que precisa ser acessado para passar a verdade.
18:55Então, é um trabalho lindo de pesquisa, de autoconhecimento, de pesquisa do ser humano.
18:59Para mim, essa é a maior beleza dessa profissão.
19:03Você enche meu coração de orgulho, moleque.
19:05E para falar em coração, olha aqui, olha, põe a mão nele aqui.
19:09Ele é novo, mas não é de ferro, não.
19:13Parabéns, filho.
19:14Obrigada, pai.
19:17Foi bem difícil fazer esse discurso, porque ainda tem muitas dúvidas sobre a vida.
19:25Olha, que ótimo, porque a gente sempre tem que ficar buscando respostas.
19:28Eu, por exemplo, tenho uma questão que fica assim, ó, me martelando a cabeça.
19:32Qual é?
19:33Sabe o que é, filho? Você é feliz?
19:35Ah, pai, é simboli.
19:37A mamãe me disse que nem tem outro descapatório.
19:39Tem que ser feliz.
19:40É verdade.
19:40Porque nós nascemos com felicidade.
19:42É isso aí, garoto.
19:44A Cor do Pecado foi uma novela também que...
19:48Que prazer em fazer.
19:49Era a primeira novela do João Emanuel,
19:52João Emanuel, né, Carneiro,
19:53que é um escritor maravilhoso que veio, né, pra ficar e pra ocupar o cargo realmente dos maiores mesmo,
20:01porque ele é genial.
20:02E era uma novela linda, que tinha uma proposta maravilhosa e um desafio muito grande pra mim, né,
20:07que eu fazia gêmeos.
20:09E ao mesmo tempo, o casal principal era interracial.
20:11E todo mundo, às vezes, fala, será que vai dar certo?
20:15E a gente ficou tão feliz que deu muito certo.
20:19Olha, você me desculpa, viu se eu tô falando um pouco demais, mas é que...
20:23Essa faladeira é assim mesmo.
20:25Eu tava adorando ouvir você falar.
20:28Você ainda não disse que vai querer?
20:29Não, não tô procurando nada em especial.
20:32Na verdade, eu estudo sobre elas.
20:34Você é cientista?
20:35Perfeito.
20:36Eu sou botânico.
20:37Depois de ter feito Belíssima, né, com o Silvio,
20:39o próximo trabalho ele me chamou também, que era Passione,
20:42que foi outro trabalho que eu amei,
20:44que eu fiz o Fred, que era esse vilão.
20:47De novo, o Silvio apostando em mim,
20:49num personagem que ninguém pensou muito.
20:51Esse personagem foi muito difícil de fazer.
20:53Eu realmente não dava pra chegar lá sem ter estudado muito.
20:57Era um personagem com muitas camadas, assim.
21:00Ele falava, mas não queria dizer aquilo.
21:02Então, isso é muito difícil pro ator, né?
21:06E a senhora quer me pagar um ótimo advogado?
21:09É.
21:11É esse o acordo.
21:13Se você me disser exatamente o que eu quero saber,
21:17eu contrato um excelente advogado pra cuidar da sua causa.
21:25Muito interessante.
21:27E o que a senhora quer saber?
21:30Eu sei que você matou o Saulo.
21:31Eu não matou o seu filho.
21:34Deixa eu terminar.
21:36Não acabei.
21:36Voltar a trabalhar depois de tudo que eu tinha passado foi muito especial.
21:44Num personagem lindo que o Silvio me propôs.
21:47Um personagem realmente muito humano, verdadeiro, engraçado e cheio de vida e muito físico.
21:54Pra mim foi um grande desafio.
21:55Eu tava super debilitado fisicamente.
21:57E eu lembro que no hospital, já recebendo os capítulos do Silvio de Abril,
22:02eu era no momento de menor energia da minha vida.
22:06Eu lia os capítulos.
22:08Eu cansava só de ler.
22:09Eu falei, meu Deus, esse personagem não para quieto, né?
22:12Era um personagem que pulava da lancha, explodia a moto e corria do cachorro, subia na árvore, pulava, não sei o quê.
22:17E eu no hospital, eu falei, meu Deus do céu, mas eu vou ficar bom pra fazer esse personagem.
22:23Eu tinha perdido a vitória e eu tava completamente sem chão.
22:28Aí de repente você surgiu correndo lá na vila, tão jovem, tão feliz, tão lindo.
22:36O que mais eu podia querer dar vida naquele momento, não é?
22:41Depois eu me comovi muito com a sua sinceridade, com a sua simplicidade.
22:47E você retribuiu.
22:50Você me fez tão feliz, não?
22:52Tão feliz.
22:54Eu nunca me senti tão desejada, tão amada.
22:59Você sabe que eu te amei de verdade, né, Roberta?
23:03Você me fez tão bem.
23:06Você cuidou de mim como ninguém tinha cuidado antes.
23:09Viver depois de toda essa minha doença, meu tratamento,
23:13Eu acho que eu vim com mais força ainda.
23:17Impressionante.
23:18Porque eu fui buscar uma força que talvez eu até desconhecesse.
23:22Eu sabia que eu era um cara que tinha uma força como todo mundo tem, né?
23:26Mas eu fui olhar de perto uma força que realmente eu não tinha a dimensão.
23:33Durante o meu tratamento, eu tive a perda do meu pai também.
23:36Então, eu estava lidando com a presença da morte na minha vida.
23:41Eu estava encarando de frente a morte.
23:43E encarando a morte do meu pai.
23:45Então, foi um grande aprendizado.
23:48Quanto mais cedo a gente começa a entender e a encarar
23:51Essa certeza que a gente tem que um dia a gente vai morrer, né?
23:55Isso é fato.
23:56Mas não, as pessoas, a maioria lidam com isso como se realmente não fosse acontecer.
24:03Como se a morte não estivesse presente.
24:05E eu acho muito bacana a morte estar presente.
24:07A possibilidade da morte.
24:09Porque aí, quando você imagina que amanhã você pode morrer,
24:13O hoje tem que ser cheio de amor, tem que ser cheio de verdade.
24:18Tem que ser intenso.
24:19Tem que ser vivido o presente de uma forma, realmente, como se não houvesse amanhã.
24:25Então, essa experiência, no fim das contas,
24:28Que todo mundo achava que era muito dolorosa,
24:31Não foi dolorosa para mim.
24:32A morte do meu pai foi uma coisa das mais lindas, na verdade,
24:35Porque eu passei uma experiência linda.
24:37Meu pai morreu nos meus braços.
24:38E eu que sempre tive um certo medo de passar por isso.
24:42Nunca tinha perdido ninguém.
24:43Entendi essa passagem como uma forma muito natural.
24:46Entendi que ele tinha que ir mesmo.
24:48E comecei a sentir meu pai mais perto do que nunca.
24:52Meu pai sempre morou no interior.
24:54E eu ficava na cidade grande.
24:55E agora eu sinto ele o tempo todo aqui do meu lado.
24:58Acho que a morte não é o fim de nada.
25:00Eu quero ter prazer na vida.
25:02Eu quero viver com tranquilidade.
25:04Então, cada trabalho tem que se encaixar também
25:07Com a necessidade de estar feliz também.
25:14De estar tendo prazer.
25:18E aí, quando você tem isso, acontece que o resultado é maravilhoso.
25:21Geralmente é maravilhoso o resultado.
25:23Quando você não está tão preocupado e deixa viver o dia a dia e está lá inteiro,
25:29Acaba sendo um maravilhoso o resultado.
25:32Então, é isso que eu espero.
25:33Viver com tranquilidade, com prazer e que eu possa fazer trabalhos que valham a pena e que, mais que tudo, que me façam um ser humano melhor, um artista melhor e que eu possa trocar muita coisa boa com as pessoas.
25:48Ser ator é pesquisar a alma, buscar a essência do ser humano, entender o que é viver, entender de si mesmo, entender das possibilidades que é viver.
26:07E o ator, ele tem essa possibilidade de viver todas as almas, mas pra isso ele precisa entender, entender como são as almas, como são os personagens, como é o ser humano.
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