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#grandesatores #canalviva

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TV
Transcrição
00:00Música
00:00Todo homem que trabalhava em teatro era homossexual e toda mulher era destinada a ser puta.
00:18Eu não gosto do que é linear, eu tenho um pouco de céu e de inferno dentro de mim.
00:23Eu quero ir até o final da minha vida lutando para fazer o melhor.
00:27Música
00:28Eu sou aquariano, tenho 81 anos de idade, gostaria de ter menos, mas enfim, tenho de profissão 60 e tantos, 65, 60.
00:42Eu comecei muito jovem, comecei fazendo rádio profissionalmente já lá em Curitiba, aos 15 anos.
00:49Então é a partir daí que se conta.
00:50Eu participava daqueles programas, eu cantava, eu... de calouros e de...
00:58Tinha um programa chamado Programa da Farinha Alegria, eu ganhava pilhas e pilhas de latas de farinha como prêmio.
01:05E eu sempre estava lá em primeiro lugar, cantava direitinho e tal, agradava.
01:11Começou assim.
01:12Depois eu passei a fazer, fiz um teste para uma emissora de Curitiba que começou a fazer rádio teatro local.
01:18E eu passei.
01:19Ficava sempre assimilando como as pessoas faziam e tal, era um ouvinte especial.
01:24Não apenas com a finalidade de me divertir com os capítulos que eram apresentados, mas também com uma outra, de assimilar alguma coisa assim, que eu, no fundo, talvez já soubesse que queria ser isso.
01:38Eu passei em primeiro lugar.
01:40E eu sabia tudo.
01:41Eu, quando eu recebi um script, pela primeira vez, um script que eu só ouvia, mas que eu olhei e digo, ah, é feito assim.
01:47Entende?
01:48Com as observações de contrarregragem, com os atores falando, os diálogos, as rubricas todas.
01:54Eu digo, ah, mas é muito fácil, fazer mais fácil do que repetir como eu repetia.
01:59E na hora eu comecei a fazer rádio teatro.
02:02E há 19 anos eu queria o seguinte, eu queria ir embora de Curitiba.
02:07Então, eu, como eu lia muito e colecionava as críticas das revistas populares da época, o Cruzeiro, etc.
02:13Eu sabia de todo o movimento teatral no Rio, todo o movimento teatral de São Paulo.
02:18E eu disse, meu Deus, é lá.
02:20São nesses grandes centros que a gente pode fazer alguma coisa aqui.
02:23Eu vou ficar destinado a ensinar os outros aquilo que eu nem sei.
02:27Eu digo, agora eu tenho que fazer um curso particular, tenho que me tornar autodidata.
02:31Eu passei, então, a estudar, estudar, estudar.
02:34Uma coisa assim, profundamente solitária, que eu aconselho, sim, a quem não pode fazer de outra forma,
02:38mas que, sinceramente, para mim, era um desgaste, porque eu sabia que eu poderia estar aprendendo aquilo tudo em conjunto.
02:45No entanto, eu, somente eu, individualmente, nas horas mais remotas, assim, da noite,
02:53estava lá eu lá, a minha janela era a última que apagava em Curitiba,
02:57e estudando, estudando, estudando, passando para os meus amigos, alguns deles assimilando,
03:02outros faziam apenas por uma demonstração pura e simples.
03:04Ainda não tinham se dirigido para que lado, não sabiam ainda para que lado iam.
03:10Arranjei, acabei fazendo um teatro em Curitiba.
03:12Isso tudo foi me dando uma versatilidade, comecei a fazer tudo o que era necessário.
03:16Cada peça que vinha não tinha o ator para fazer, eu tentava fazer.
03:19Ia por aqui, ia por lá.
03:21Fiz também um curso de psicologia, isso me ajudou demais,
03:24porque eu passei também a entender que não era só retirar da vida pura e simplesmente,
03:29era acrescentar tudo aquilo que a vida te oferecia.
03:31O teatro era uma cópia evidente da vida, então eu precisava ter esse estofo intelectual
03:38e ao mesmo tempo prático para poder desenvolver.
03:40Eu digo, um dia isso vai dar certo para mim.
03:42Os meus pais eram contra.
03:45Meu pai tinha temor de que eu me desvirtuasse sexualmente
03:50e me transformasse em, ficasse sendo um homossexual,
03:55e que todo homem que trabalhava em teatro era homossexual
03:58e toda mulher era predestinada a ser puta.
04:01Então, como é que ia fazer, né?
04:03Isso não seria bom para uma família.
04:05Não seria bom para ele, uma família muito humilde,
04:08mas uma família que primava, assim, por dar para os seus filhos um canudinho qualquer que fosse,
04:13nem que fosse depois ficar pendurado na parede.
04:15E a partir daí, então, para mim foi destinado a escolher um...
04:19que curso eu faria, que profissão eu teria, além da minha.
04:23Então, a profissão que seria, mais tarde, B, mas que para ele seria A.
04:29Aí eu vi que a advocacia era um grande teatro,
04:32de que ser um advogado e depender de um júri e se apresentar daquela maneira,
04:36defendendo o réu, acusando, sei lá, como promotor ou advogado,
04:40seria uma manifestação artística equivalente àquilo que realmente eu queria.
04:44Então, eu fiz o curso de Direito, passei no vestibular, fiz o curso todo, todo não.
04:50Fiz apenas cinco anos, os dois primeiros meses, depois não fiz.
04:54E daí eu fui trabalhar num circo.
04:57E eu, então, me senti cada vez mais envolvido por essa chantagem sentimental
05:01dessas famílias italianas, que são... essas chantagem são terríveis.
05:05As mães são muito, assim, sanguíneas e apegadas demais aos filhos.
05:10E lá eu fiquei, fiquei, fiquei só saindo de Curitiba, então, aos 30 anos.
05:14Eu cheguei aqui no dia 31 de março de 1964.
05:18Eu notei que havia um corredor polonês, assim, com soldados, um lado, de outro, etc.
05:26E as pessoas passando por ele.
05:28Eu falei, mas deve ser alguma coisa, uma pessoa importante que deve estar chegando aqui.
05:32Eu não sou, porque ninguém me conhece.
05:34E fomos embora.
05:35Eu vim junto com uma amiga minha que fazia comigo uma dupla.
05:38O nome dela era Odelaide Rodrigues.
05:40Nós fazíamos uma dupla muito afinada.
05:43Ela era uma comediante excelente, muito parecida com a Dersi.
05:47E viemos para o Rio.
05:51Aí, nesse dia, eu falei a elas, olha, nós estamos na Ambulina Rá Nacional.
05:55Chegamos duas horas da tarde, duas e meia lá.
05:57Dali, saímos de lá.
05:59Achei muito estranho.
06:00Jorge Veiga falando num canto.
06:02Mário Lago no outro, que depois eu já conhecia.
06:05Eu reconheci imediatamente.
06:06Havia uma certa perturbação.
06:09Mas o que está havendo aqui?
06:11Eu sabia que, politicamente, o país estava passando por uma situação difícil.
06:16Mas eu não sabia que ia chegar um fato definitivo.
06:19Como foi a instauração da Revolução.
06:23Saímos de lá meia hora.
06:24Depois tinham prendido todo mundo dentro da Rádio Nacional.
06:26E a gente andando pela Avenida Rio Branco.
06:28Quando cheguei aqui, na Cinelândia, eu vi que os estudantes todos que estavam num muro que tinha magiando, assim, o Palácio Monro.
06:35Passam um carro, assim, com os militares, assim, e um ruído estranho.
06:39Tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá.
06:40O que é isso?
06:41Isso é metralhadora.
06:43E o pessoal todo caindo para trás do muro, para se safar, evidentemente.
06:47Então, assim, pedi para ela, tira o sapato e vamos embora para a pensão.
06:52A gente tinha ficado numa pensão aqui na rua do Catete, ali.
06:57Atravessamos todo aquele passeio, que não tinha grade, não tinha nada ainda, correndo.
07:02Quando cheguei no Catete, tinha um porteiro lá com um radinho.
07:05Eu me sentei ao lado dele, eu vi tudo e estava vendo o que estava acontecendo.
07:08Era uma transmissão direta da Uni, aqui na Praia do Flamengo, que eu fui lá, vi.
07:14Eu tive a oportunidade de ver alguém sendo morto, com uma bandeira do Brasil, pegando fogo,
07:20caindo do lado de cima, etc e tal.
07:22Pronto.
07:23Cheguei nesse clima onde tudo estava mudando e eu também resolvi que a minha vida ia mudar.
07:28Eu entrei na Rede Globo de Televisão dois meses após a inauguração dela.
07:33E a primeira coisa que eu fiz na Rede Globo de Televisão foi rua da matriz de um...
07:41Eu sempre esqueço o nome dele, que é uma injustiça.
07:45Hélio Tis.
07:46O Hélio Tis era um jornalista e era um escritor da Rádio Globo.
07:50E a Rádio Globo também se fixou de princípio em quem trabalhava no Globo,
07:56que era do Dr. Roberto, e na própria emissora.
07:58Então as pessoas estavam por ali, formando um tipo de um casting e o que seria o necessário
08:06para botar a TV no ar.
08:08E A Rua da Matriz foi a primeira série feita pela Globo.
08:12E foi aí que eu estreiei.
08:13E a Janete Clare, esposa do Dias Gomes, foi me assistir no Teatro Opinião,
08:18onde eu estava substituindo o Emiliano Queiroz numa peça chamada
08:21Doutor Getúlio, Sua Vida, Sua Glória.
08:23E quando ela achou o meu trabalho muito divergente,
08:28porque eu fazia uma hora uma coisa, outra hora outra, etc., gostou de mim.
08:31E disse assim, eu vou lhe dar uma oportunidade, na próxima vez,
08:34eu vou lhe dar uma oportunidade, uma novela minha.
08:36Digo, ah, muito obrigado.
08:37Eu acreditei, mas fiquei em dúvida, porque achava que as pessoas eram tão impenetráveis.
08:42Não a conhecia profundamente, como mais tarde tive o prazer de conhecer,
08:46e ao marido também, ao Dias, de quem eu fui ator durante anos e anos.
08:51E dela também, até quando deu.
08:54E não é de ver que um dia aparece no meu endereço onde eu estava,
08:59uma comunicação para eu dar um pulinho na Globo,
09:01eu fui lá e tinha um papel escrito especialmente para mim.
09:05Foi como eu entrei em Passo dos Ventos,
09:08depois como eu entrei em Rosa Rebelde, também novelas dela,
09:12e depois como eu entrei em uma novela assinada pela Estela Calderon,
09:17que nada mais era do que o Dias Gomes, que era perseguido pelo regime,
09:20e que o doutor Roberto Marinho foi o único jeito que ele achou de colocá-lo
09:24para escrever com um pseudônimo.
09:27Então, optou-se por Estela Calderon.
09:30E a novela era uma adaptação do Dias Gomes,
09:34A Ponte dos Suspíos.
09:35Eu acho que foi o primeiro personagem com essa característica homossexual
09:40dentro da TV brasileira.
09:43Mas era muito mais que isso,
09:45porque as novelas do Dias, elas sempre eram um comentário
09:49ao regime, ao modo de vida das pessoas,
09:54de uma importância sociológica extraordinária.
09:58Ele era um grande autor.
10:01Ele era um autor que hoje em dia eu quase não vejo.
10:03Nós, atores, nos negávamos a jogar fora os capítulos,
10:07tirar apenas a parte que trabalhávamos e jogar fora.
10:10Eu tinha pilhas e pilhas dos capítulos escritos,
10:14porque eram primorosos.
10:15Eram como as peças dele.
10:17Nós nos entregávamos, eram os capítulos,
10:21e a gente via o que ele havia escrito para cada um.
10:23Ele conhecia cada um dos intérpretes,
10:25ele conhecia cada um dos personagens.
10:27E nesse aprofundamento, era fantástico para nós, atores,
10:30porque a nossa contribuição é ainda maior,
10:33o resultado do trabalho crescia de uma forma extraordinária.
10:36O doutor Baltazar tinha uma compulsão.
10:40Ele cortava o capelo das mulheres,
10:42e depois botava esse fetiche,
10:46ele colocava atrás do guarda-roupa onde ele morava,
10:48olha a tesourinha que ele sempre usava.
10:51Ele era uma figura proeminente,
10:52ele era um professor de universidade.
10:54e feito respeitado, ele tem uma família também, tradicional.
11:00E na intimidade, ele era uma pessoa completamente devassa.
11:03Boa noite.
11:04Dava vazão aos seus instintos.
11:08Adorava fazer esse papel,
11:10um papel difícil,
11:12fantástico, assim, na sua concepção,
11:15e requeria do ator um controle absoluto.
11:20A mim me agradava muito, um grande desafio.
11:21É um dos personagens que eu acho mais importantes
11:24que eu tenha feito dentro.
11:39Eu não era um rapaz bonito,
11:40não tinha atributos físicos absolutamente,
11:43era uma coisa muito descuidada até,
11:44porque naquela época não tinha essa história que hoje tem,
11:47de demonstrações exacerbadas
11:51e de busca ininterrupta do aspecto exterior,
11:57que na verdade eu acho que não é uma perda de tempo,
12:00porque é interessante ver as pessoas desenvolvidas, etc.
12:04Mas eu ainda sou muito mais a favor do intelecto,
12:07que é uma coisa que a mim me parece hoje
12:09um tanto quanto abandonada.
12:10Foi Arthur da Távola que fez,
12:21a meu respeito, uma das melhores críticas.
12:24Ele me colocou como um ator
12:27que priorizava os anti-heróis.
12:35Eu acho que é por aí o meu trabalho.
12:36Pedir ao piloto para sobrevoar a cidade
12:39assim que eu chegasse,
12:40causar mais efeito e deu certo.
12:43Agora a ideia não foi minha não,
12:45foi do meu assessor de marketing,
12:47se eu só encampei a ideia.
12:49Eu gosto muito das pessoas de fazer,
12:52de mostrar o lado negativo da vida,
12:57sabe?
12:59Ver por que essas pessoas chegaram ao ponto tal
13:03entre uma pessoa milionária, etc.
13:08Eu prefiro até o ponto em que ele se tornou
13:12e como se tornou.
13:17É isso que mais me agrada,
13:19é isso que mais me desafia.
13:21Eu gosto de mexer nos passados
13:26devidamente constituídos e transformá-los.
13:30Eu não gosto do que é linear.
13:34A inauguração vai ser no dia 15,
13:36dia do aniversário da morte do Roque.
13:38Vai ter uma festa danada aqui, né?
13:40É?
13:40É, até o governador ficou de via.
13:42Bom, nesse caso, então, é melhor mandar fazer
13:44mais algumas medalhinhas, né?
13:46Podia também fazer umas miniaturas aí da estátua.
13:49Pode, não é, senhor prefeito?
13:50Claro que pode, mas não esquece o nosso trato.
13:53Saramandá é um outro tipo de trabalho, né?
13:56Aquele homem que não dormia nunca,
13:57mas que significava também
13:58todo um processo revolucionário, né?
14:01Os velórios não entraram assim por entrar.
14:04Tudo era subretíssimo.
14:05A gente tinha que mandar mensagens.
14:06Foram 20 anos de...
14:09em que nós ficamos praticamente asfixiados.
14:12E de uma criatividade incrível,
14:14porque os autores, atores, produtores, diretores,
14:18enfim, tinham que usar de subterfúgios
14:20para poder enviar aquilo que realmente queriam para o público.
14:24E o público captava tranquilamente isso.
14:28Esse professor Aristóbulo, ele era muito importante.
14:31Ele não era só um lobisomem de Saramandá.
14:33Ele, politicamente, tinha um significado muito grande.
14:37Era o povo adormecido, era o povo,
14:39era o país que dormia.
14:41Não era só ele, não, que procurava os velórios
14:43para não conseguir dormir.
14:45Você quase meia-noite, eu tenho que ir embora.
14:46Você prometeu.
14:48E se eu não deixar você sair?
14:49Não, não, mas eu tenho que ir.
14:50Eu tenho que ir.
14:50Você prometeu que ia me deixar sair.
14:52Mas você vai ter coragem, menina.
14:53Não, mas quem disse?
14:54Não vai ter coragem.
14:55Quem não vai ter coragem?
14:56Não, olha, faz o seguinte.
14:58Amanhã eu volto, daí eu fico bastante.
15:00Não, não, não façam isso.
15:02Não, não, não deixem sair.
15:03Não, não, não deixem sair.
15:03Não, não tem que fugir.
15:04Olha a chave.
15:07Se eu tivesse que mudar meu nome,
15:09eu teria que me chamar Nonô Correia.
15:10Porque até hoje, 30 anos após,
15:13as pessoas me falam dessa novela.
15:15Ah, porque eu tinha um pai que era assim.
15:18Ah, porque eu quando era criança
15:19via os papéis que você fazia.
15:21Uma penetração incrível de uma novela
15:24que foi às seis horas,
15:25uma novela modesta,
15:26seis horas da tarde,
15:28e que parecia um horário nobre.
15:31Repetida depois, uma vez ou outra.
15:32Isso me levou para o exterior.
15:33Eu fui para Portugal por causa dessa novela.
15:35Fui para o Canadá.
15:36Fui para todos os lugares
15:36onde havia colônias brasileiras.
15:38Estavam interessados em me conhecer.
15:40Eu sempre tinha que fazer um monólogo qualquer
15:42do Nonô,
15:45para justificar a minha ida, etc.
15:47E para compensar também
15:48o prazer que eles sentiam
15:50em ver o personagem que eu fazia.
15:52O que eu ganhei verdadeiramente nessa novela
15:54foi uma úlcera, não é?
15:56Eu liguei para Ivani,
15:58Ivani, pelo amor de Deus,
16:01diminui o meu papel.
16:04Eu não consigo,
16:05eu não estou conseguindo mais,
16:06eu estou cansadíssimo.
16:08tire algumas cenas minhas.
16:10Eu estou em todas as horas,
16:12em todos os momentos.
16:14E havia algumas cenas
16:14que eram as externas,
16:16que eram feitas em Teresópolis.
16:17Eu adorava ir para Teresópolis.
16:19E quando eu ia para lá,
16:20parecia um outro mundo.
16:22E o meu estresse era tão grande,
16:23eu esquecia tudo aqui.
16:24Não podia nem ouvir falar
16:25no estúdio da Globo.
16:27Ia lá e gravava
16:28quanto tempo ficasse e tudo mais.
16:30Depois ela não vai me tirar de lá.
16:32Tirou das externas
16:32e me deixou no estúdio.
16:34Continuou a tragédia da minha vida,
16:36mas depois reposto.
16:37passei a fazer,
16:39o personagem saiu mais às ruas,
16:40etc.
16:41E deu para fazer.
16:42Mas eu sempre digo,
16:44nada vem de graça.
16:45Você ganha um papel,
16:46você ganha uma penetração pública
16:48extraordinária,
16:50todos gostando do que você faz,
16:51mas alguma coisa
16:52resulta para você.
16:54Para mim ficou uma úlcera
16:55que demorou um tempinho
16:56para curar.
16:57Eu até pedirei
16:59do seu nonô.
17:02Eu toco corneta
17:03e o seu nonô
17:03enche o saco.
17:04Eu não me respeito
17:06com o seu pai,
17:06ouvi bem?
17:07Oi, pai.
17:08Pisei na bola.
17:09Você é um insolente,
17:10sabia?
17:10Pai, seu nonô,
17:11paz.
17:12E para de deboche.
17:13Pai, é que eu não tenho
17:14saco de ficar ouvindo.
17:15E essa expressão,
17:15eu já estou cansado
17:16de dizer para você não usar
17:17essa expressão cafajesta
17:18aqui dentro de casa,
17:19principalmente na frente
17:20da sua irmã.
17:21Isso aqui é uma casa
17:22de família,
17:22ouviu bem,
17:23seu tomás?
17:23Sai da minha frente!
17:26Ô, seu nonô,
17:27você acaba tendo um treco.
17:29A favorita é uma coisa curiosa,
17:31uma novela curiosa.
17:32Eu tinha feito um estente,
17:34porque,
17:36sem mais nem menos,
17:37ia entrar no cinema,
17:38eu recebia um telefonema
17:39do meu médico.
17:40Você acabou de fazer
17:41um exame lá
17:42que eu mandei da garota,
17:43pois é, fiz.
17:44Será que você não podia
17:45dar um pulinho aqui
17:45no meu consultório?
17:47Digo, eu vou ver um filme aqui,
17:49amanhã não dá, não?
17:50Não, deixa o cinema,
17:51vem cá,
17:51eu preciso falar muito com você.
17:52Aí eu fui lá.
17:54Eu cheguei lá e ele disse assim,
17:54você está com 95
17:56da carótida esquerda entupida.
17:59Então, entupida, né?
18:01E eu,
18:02o que tem que fazer?
18:03Vamos ter que botar um estente.
18:04Eu coloquei um estente
18:05e estava em um período assim,
18:08evidentemente,
18:09de descanso,
18:10sem fazer nada.
18:12Quando foi me oferecida
18:14esse papel na Globo, né?
18:16Ali, precisamos de você,
18:17o Ricardo Altenso ligou para mim,
18:19para fazer um personagem
18:20na favorita,
18:21expliquei a ele.
18:22Olha, eu estou aqui,
18:25em todo caso,
18:25manda para mim
18:26um personagem,
18:28etc e tal.
18:29Aí ele mandou
18:2918 capítulos prontos
18:31e eu observei que
18:34no script,
18:36na sinopse,
18:39era
18:40Silveirinha
18:41mordou.
18:45Não tinha mais nada.
18:45aí, como eu não tinha participado
18:49das reuniões de elenco
18:51nem nada
18:51e já ia começar a gravar
18:52na semana que vem,
18:54eu liguei para lá,
18:55disse,
18:55que raio de papel é esse
18:57que só diz sim, não, sim, não?
18:58E só tem uma cena
18:59no capítulo 14,
19:02que também não diz muita coisa.
19:07O que é isso?
19:07Por que veio para mim?
19:09É porque ninguém quis fazer,
19:11eu digo,
19:11ninguém quis fazer,
19:12agora eu sou obrigado a fazer?
19:13Não, você que não é obrigado,
19:14eu apenas estou te convidando,
19:15se quiser fazer,
19:17vamos para a Argentina,
19:18para onde?
19:20Para a Argentina.
19:20mas a Argentina,
19:23a Argentina já é uma boa pedida.
19:26Ganhando pontinhos
19:27para conquistar o Zé Bob,
19:28que é isso?
19:30E se metendo com gente perigosa?
19:31Você mesmo me disse
19:32que essa mulher,
19:33essa tal de diva,
19:34é da pesada.
19:36E tudo isso para quê?
19:37Para fazer uma média
19:38com o Zé Bob?
19:39Que é isso?
19:40Vira essa página.
19:41Você não tem que estar
19:42se humilhando por ele, não,
19:43ele não gosta de você.
19:44Sabe que o assunto dele
19:45é um só,
19:46é a dona tela.
19:48Ele não vai gostar
19:49nunca de você
19:50como gostou dela.
19:51Valsir, eu acho um dos,
19:53posso dizer assim,
19:55dramaturgos,
19:56assim, conceituadíssimos
19:57dentro da emissora
19:58e de muita qualidade,
20:00muita imaginação.
20:01Amor à Vida
20:01é uma novela, assim,
20:02extremamente corajosa.
20:04Criou tabus,
20:05desfez tabus incríveis
20:06e escrita por ele,
20:09assumida por ele.
20:11Aplaudo, Valsir.
20:12Ah, sim, sim,
20:13a noite que passamos juntos
20:14pela primeira vez.
20:16Um tratamento muito delicado
20:18por parte do diretor do Maulim.
20:21Uma contribuição extraordinária
20:24da Natália,
20:25essa atriz
20:25e colega maravilhosa.
20:28E o respeito
20:30pelo trabalho dos dois.
20:32Uma cena difícil de fazer
20:34porque
20:34a situação poderia ser
20:37ridicularizada,
20:38mas não foi.
20:40Fizemos com
20:41sabedoria.
20:42Há tanto tempo
20:46não durmo ao lado
20:47de um homem.
20:50Foi bom?
20:55Está sendo muito bom.
21:00É pra você.
21:04Foi bom.
21:07Muito bom.
21:07Tem pessoas que
21:10reprovavam, claro.
21:12Outros não.
21:14Outros eram mais
21:15condescendentes,
21:17talvez.
21:18Mais realistas,
21:19talvez.
21:20E conversavam.
21:22Ah, eu também acho
21:23dessa maneira.
21:23Eu sou assim,
21:24está acabado e pronto.
21:25Não me interessa.
21:26A minha vida é a minha vida
21:27e acabou.
21:28E é assim que tem que ser.
21:31Se você começa
21:32a dar muita atenção
21:33aos outros,
21:34ao que os outros
21:34acham que você deveria ser,
21:36você não se constitui nada.
21:37nem nada.
21:39É você.
21:40Tem uma hora
21:40que você tem que ser egoísta.
21:41Tem que pensar,
21:42eu quero ser isto.
21:43Eu quero ser assim.
21:45Fim.
21:49Eu te amo, Bernardo.
21:57Eu te amo, eu te amo.
21:58Eu tenho um pouco de céu
22:07e de inferno dentro de mim.
22:09Aliás, como todo mundo tem,
22:10depende da hora,
22:11eu aciono o inferno
22:12do céu.
22:13Não sou,
22:14eu não tenho
22:14nenhuma religião definida,
22:16embora a minha família,
22:17eu tivesse sido criado,
22:18minha família toda católica,
22:21mas eu não,
22:22eu respeito todas
22:23as que conduzem a Deus.
22:24a minha religião
22:25é baseada em energias
22:27positivas e negativas.
22:29Agora,
22:30estamos aqui
22:30conversando
22:31uma energia positiva
22:33no ar.
22:33Se alguém chegar
22:34com uma má notícia,
22:35instala-se uma negatividade.
22:37Eu acredito só nisso,
22:39em tudo,
22:40nos comportamentos humanos,
22:41nas relações,
22:43no trabalho,
22:43em tudo, enfim.
22:45Há uma negatividade
22:46e há uma positividade.
22:47E aí reside
22:48uma série
22:50de problemas éticos
22:51onde você não deve
22:52ultrapassar nunca
22:53os seus limites
22:54para que as outras pessoas
22:56não se sintam constrangidas
22:57e vice-versa.
22:58E dessa troca
22:59dá para viver muito bem,
23:01respeitando o próximo,
23:02amando as pessoas,
23:04amando o que você faz,
23:05dividindo.
23:08Essa, em síntese,
23:09é a minha forma de ser.
23:11O meu recurso
23:11terminantemente
23:12é trabalhar
23:12para aquelas velhinhas.
23:13Só elas lembram de você.
23:15Imagina,
23:15eu trabalhar amanhã
23:17num chá de caridade.
23:19Logo eu,
23:20logo eu que
23:22fiz o teatro municipal
23:24me aplaudir
23:25durante 15 minutos de pé.
23:26Eu não me detenho
23:28muito em idade, não.
23:32Você,
23:34não é que eu queira
23:34ser jovenzinho
23:36nem nada,
23:37mas eu vou de acordo
23:37com as forças que eu tenho.
23:39Eu hoje estou dando
23:40essa entrevista aqui,
23:41mas eu
23:41há pouco estava pensando
23:43que amanhã vai ter uma festa.
23:45E eu vou lá,
23:45e eu vou dançar,
23:46e eu vou ficar
23:47até a hora que der.
23:49Sabe?
23:49Não fica assim,
23:50ah, porque tem que tomar
23:50o remédio das oito,
23:51tomo antes.
23:53Ou não tomo naquele dia,
23:54ou tomo depois.
23:55Faço as minhas disciplinas, né?
23:56Mas eu levo a vida assim
23:58sem pensar.
23:59Eu não...
24:00Ó,
24:01a minha filosofia,
24:03que também acho que serve
24:04para esse tipo
24:04de entrevista
24:06que nós estamos tendo,
24:08eu acho que pensar
24:10no futuro
24:11é muito pertencioso
24:13da parte da gente.
24:15Porque,
24:16ainda hoje,
24:17vindo para cá,
24:18eu estava falando
24:18sobre a vida
24:19e a morte.
24:21Tem vida,
24:21tem esperança.
24:23Cada minuto,
24:25cada segundo
24:25da minha vida
24:26é vivido
24:27intensamente,
24:29dentro da intensidade
24:30possível,
24:31não é?
24:32Mas é assim
24:33que eu vivo.
24:34E assim eu vivo
24:35muito bem.
24:36E o passar
24:37dos anos,
24:38eu não sinto.
24:39Eu sinto o passar
24:39dos dias,
24:41das horas
24:41que eu vivo.
24:45Consequências
24:45que o tempo traz?
24:47Não.
24:48Consequências
24:48que o presente
24:49me dá.
24:50De um pé
24:51que não funciona direito,
24:52de um andar
24:53que já não é mais o mesmo,
24:54do cabelo
24:55que você foi embora,
24:56tudo bem.
24:57Mas está indo.
24:58Outras coisas
24:59estão acontecendo.
25:01Então,
25:01é a vida.
25:02Graças a Deus
25:03estou vivo.
25:04Graças a Deus
25:05quero viver,
25:06quero absorver
25:06da vida tudo.
25:08Eu vejo assim.
25:10E eu acho que
25:10a partir do momento
25:11que você tem
25:12a cabeça cheia,
25:13ela não vira
25:14uma oficina do diabo.
25:16A não ser que você queira.
25:17Não é?
25:18E por que não ter,
25:19de repente,
25:20um diabinho também
25:21dentro de você?
25:22Alguma coisa
25:23sempre há.
25:23Onde é a fumaça,
25:24fogo.
25:25E a vida é assim.
25:27É uma fumaça eterna.
25:28Eu quero ir até
25:29o final da minha vida
25:30lutando para fazer o melhor.
25:32E,
25:33às vezes,
25:33conseguindo alguma coisa
25:35ou não.
25:36Sei que o melhor
25:37do melhor
25:37jamais conseguirei.
25:38mas eu vou tentar
25:40até o fim.
25:43Ser ator
25:44é ignorar as contas
25:45do final do mês.
25:46o final do mês.
26:16Amém.
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