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#grandesatores #canalviva

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Transcrição
00:00E meu pai chegou, eu estava lá, meu pai rolou pra mim e falou assim,
00:17Tchau, estou indo embora. Eu não entendi nada, porque eu tinha 6 anos de idade.
00:22E ele foi embora. Eu fui vê-lo 30 anos depois.
00:26Eu me lembro que um dia eu estava lá, veio o Luiz Carlos Prestes e me abraçou.
00:30E disse, o nosso mensageiro era menino, eu não tinha a menor noção do que era aquilo.
00:34A Globo trouxe todo mundo pra ela.
00:37E falam, e é verdade, uma frase do Dr. Roberto.
00:41Deixe que dos meus comunistas cuido eu.
00:43Como você está? O que é? O que é? O que é?
00:46Você quer eu ir lá com você? Eu vou lá.
00:49Você disse isso e eu disse isso. O que você acha disso?
00:53Estou brincando.
00:54Eu nasci numa cidade pequenininha, mais próxima de São Paulo do que da capital de Minas,
01:03uma cidadezinha chamada Monte Santo.
01:05Eu nasci no dia 9 de dezembro de 1933.
01:10Mas meu pai não me registrou no mês de dezembro e quando passava de 15 dias, pagava-se multa.
01:20E naquela época, quando se falava pagar multa, era também prender.
01:24E meu pai ficou apavorado.
01:27Aí quando foi me registrar, foi no dia 9 de janeiro, então foi o dia que eu passei.
01:34Foi o dia que foi registrado como meu dia de nascimento.
01:37Antigamente, tinha o nome do calendário e o meu nome era um nome meio estranho e ele esqueceu também.
01:46Aí quando ele chegou lá, tinha um menino no muro e ele perguntou, como é seu nome, menino?
01:50E imagino que o menino tenha dito, meu nome é Milton.
01:53E ele falou assim, Milton, é isso que eu vou registrar.
01:56Por isso que eu passei a ser Milton.
01:58Há 3, 4 anos, meus pais foram para São Paulo em busca de uma melhoria,
02:02porque meu pai e minha mãe eram catadores de café.
02:05Vocês não imaginam o que era ser catador de café nos anos 30.
02:10Porque tem muita cobra.
02:13Lá naquela época, ela tinha muita cobra, tinha muito bicho.
02:16E era muito exaustivo colher café mão a mão, pé a pé.
02:23Era muito difícil.
02:24Quando eu tinha 6 anos de idade, lá em São Paulo,
02:28eu tomava conta de uma quitandinha, que antigamente tinha isso,
02:32não é de um português, e meu pai chegou, eu estava lá,
02:37meu pai olhou para mim e falou assim,
02:39tchau, estou indo embora.
02:40Eu não entendi nada, porque eu tinha 6 anos de idade.
02:43E ele foi embora.
02:45Eu fui vê-lo 30 anos depois.
02:48Já casado com o meu filho Maurício.
02:51E ele não me reconheceu, porque eu fui com o meu irmão.
02:54Ele tinha que assinar uns documentos para mim.
02:57Naquela época era de esquite, não era divórcio, era de esquite.
03:01Então, tinha uma papelada.
03:02E eu fui com o meu irmão, porque eu queria vê-lo.
03:05Eu não queria que ele me reconhecesse.
03:08Eu queria que ele não fosse tão rude como ele foi com o meu tio Pedro.
03:12Porque quando o meu tio Pedro falou assim,
03:14não lembra desse aqui?
03:15Ele olhou e falou assim, não sei quem era, não quero saber quem era, não.
03:18Aí meu tio insistiu, olha bem para ele, veja se você não se lembra dele.
03:22Não quero saber, não.
03:23Aí meu tio falou para ele, ele é seu filho mais velho, que era eu.
03:28Aí ele me olhou.
03:30Ah, você é humilde.
03:33Ah, me disseram que você mora no Rio de Janeiro.
03:35É sim.
03:37Ah, que bom.
03:38Me disseram que você tem um filho.
03:39Que é o Maurício, meu filho, que também é ator.
03:41Diga, tenho um filho, sim senhor.
03:43Aí ele pediu, me dá o seu endereço que eu quero ir lá visitar na sua casa.
03:48Aí eu disse para ele, não, não vou dar o meu endereço,
03:51porque eu não quero que o senhor entre na minha casa.
03:54Não quero o senhor perto da minha família.
03:58E a partir daí nunca mais eu ouvi.
04:00Guido Delpique era o nome dele.
04:01Eu quero homenageá-lo porque ele foi responsável por muitas coisas na minha vida.
04:06O Guido Delpique, o senhor Guido Delpique,
04:09ele, fui trabalhar com ele na farmácia, aprendi a fazer coisas,
04:14aprendi a dar injeção,
04:15aquelas coisas todas que antigamente não tinham essa especialidade.
04:18E ali depois eu fui trabalhar numa gráfica,
04:22nesta gráfica eu era impressor, minervista,
04:24eu fazia de um tudo.
04:26E um belo dia chegou o Leonel Cogan,
04:29Leonel Cogan,
04:30para fazer um ingresso,
04:32para imprimir um ingresso para um grupo,
04:34para um espetáculo teatral.
04:36E eu ia muito ao cinema desde menino,
04:38porque minha mãe me incentivava a ir ao cinema.
04:42E eu ia muito.
04:42O meu sonho era,
04:44o meu sonho não,
04:45a minha vida era cinema,
04:46era ver imagens.
04:47Naquele tempo tinha três filmes em série,
04:50tinha jornal nacional,
04:51tinha tudo.
04:53E lá,
04:56quando o Leonel Cogan levou esta coisa,
04:59que eu era acostumado em cinema,
05:01eu não me lembro se fui eu quem imprimiu o convite,
05:05mas eu peguei e falei,
05:05o que é isso?
05:06O Leonel Cogan disse,
05:08isso aqui é um convite para uma peça de teatro,
05:11uma peça,
05:13foi lá,
05:13aí eu peguei e falei,
05:15ah, eu quero ver.
05:16E aí eu vi o espetáculo,
05:17que era a mão do macaco.
05:19Estou falando tudo isso porque está aqui.
05:20Sei lá,
05:21uma semana depois,
05:22o Leonel voltou e perguntou para mim,
05:24você gostou do que você viu?
05:26E eu, muito metido,
05:28disse, gostei,
05:29e mais,
05:31eu sei fazer aquilo que eu vi lá.
05:33O Egídio Hécio,
05:35eu faço questão de dizer,
05:36o Egídio Hécio me chamou
05:37para fazer parte do grupo de teatro dele.
05:40Então,
05:41com ele,
05:41eu aprendi contra a regragem,
05:43eu aprendi iluminação,
05:45eu aprendi cenografia,
05:46eu aprendi uma série de coisas
05:48que eu tinha ânsia de aprender
05:51para mudar a minha vida.
05:53Eu quero mudar,
05:54eu quero mudar,
05:55eu quero mudar.
05:56Você vê como é a vida,
05:57depois de morto,
05:57ele volta aqui para me devolver
05:59a alegria de viver.
06:01Então,
06:01vamos aproveitar a alegria de viver.
06:03Vamos lá,
06:03vamos lá.
06:04Diga-me qual é o verdadeiro,
06:05qual é?
06:06Vale cheirar,
06:07vale cheirar.
06:07Vale cheirar.
06:08Então,
06:08eu vou fazer que nem cachorro de caçador.
06:12É esse,
06:12não precisa nem cheirar,
06:13esse é aquele.
06:13É aquele ali.
06:14Como é que você soube?
06:16O verniz está freio.
06:18Eu sempre tive esta noção
06:20de justiça social.
06:23Eu sempre tive,
06:24do meu lado,
06:24na minha cabeça,
06:25no meu coração,
06:26respeito ao trabalhador.
06:28Eu sempre tive,
06:29dentro de mim,
06:30respeito a qualquer cidadão,
06:32a qualquer pessoa,
06:33que merece o nosso respeito.
06:36Independente de cometer
06:37alguns deslizes,
06:39nós temos que respeitá-los
06:40como cidadão.
06:41Óbvio que,
06:42na vida real,
06:44a gente,
06:44às vezes,
06:44perde as estribeiras,
06:46mas a lição
06:47estava aqui na minha cabeça.
06:48Então,
06:49tudo isso me dava,
06:50não armas,
06:51mas me dava elementos
06:52para eu participar
06:54do Teatro de Arena
06:55de São Paulo,
06:56com as suas propostas
06:57de um espetáculo diferenciado
06:59do grande teatro
07:00que se fazia em São Paulo,
07:01inubitavelmente,
07:02um belo teatro,
07:03que era o Teatro TBC,
07:05Teatro Brasileiro de Comédias.
07:06Tive influências
07:07na minha vida artística,
07:09Eugênio Kuznet.
07:10Era um homem que sabia
07:11de Stanislavski,
07:12de cor e salteado.
07:14Eugênio Kuznet,
07:15um homem que,
07:16com aquele sotaque dele
07:17de russo,
07:18você acreditava
07:19que ele era um cara
07:20do morro no Rio de Janeiro.
07:22Nós, negros,
07:23sabíamos exatamente
07:24onde ir,
07:24onde caminhar
07:25e onde não ir,
07:26onde não podia ir.
07:27Uma vez aqui
07:29com o meu filho
07:31e amigos deles,
07:33amigos dele,
07:34eles estavam falando
07:35que quando eles
07:37viam uma rádio patrulha,
07:39um carro policial,
07:40eles ficavam,
07:41mesmo não tendo cometido
07:43nenhum delito,
07:44eles tinham
07:45um certo receio.
07:47Andando numa rua,
07:48se tivesse alguém
07:49na frente,
07:49eles diminuíam o passo.
07:51Se tivesse atrás,
07:52ele acelerava o passo.
07:54Se tivesse mulher,
07:55então,
07:55a confusão
07:56era muito maior.
07:57Agora,
07:58dez anos,
07:59quinze anos,
07:59eles falaram isso.
08:00É o mesmo sentimento
08:01que eu tinha
08:02quando eu tinha
08:02meus dez,
08:03doze,
08:03treze,
08:04quatorze anos.
08:05Um belo dia,
08:06nos anos 58,
08:07a gente caiu
08:08nesta cidade
08:09maravilhosa.
08:11Foi a primeira vez
08:12que eu fui a um bar
08:14ali no posto 1
08:15e o garçom perguntou,
08:17quer tomar um chope?
08:19Claro que eu quero.
08:20Então,
08:20senta aqui,
08:21senta aqui com a gente,
08:22senta aqui.
08:22Isso,
08:23a mim,
08:24que era todo
08:25problemático
08:27com a questão
08:27do preconceito,
08:28do desrespeito,
08:29o medo
08:30da autoridade,
08:32não é que mudou,
08:33mas mexeu comigo.
08:35Eu posso ir
08:35em algum lugar
08:36que eu sou convidado
08:37para sentar
08:38e foi lá
08:38que aconteceu.
08:39Pai,
08:39não é verdade,
08:40falo do fundo
08:41do meu coração,
08:42do fundo
08:42do meu coração,
08:43mas o senhor,
08:44pai,
08:45o senhor estava
08:45ótimo,
08:47pai.
08:47Eu estou na Rede Globo
08:59de televisão,
09:01eu dirigi,
09:03eu ganhei prêmios,
09:04eu viajei,
09:05a Globo me mandou
09:06para vários lugares
09:07que eu jamais imaginei
09:08que iria,
09:09eu fui representando
09:10a TV Globo
09:11e eu sempre tive
09:13uma relação
09:13de respeito
09:14com a TV Globo.
09:15No dia 1º de fevereiro
09:17eu assinei
09:18meu contrato
09:19e em fevereiro
09:20recebi
09:21meu primeiro salário
09:22na empresa.
09:23Era 500 cruzeiros,
09:24que para mim
09:25era dinheiro
09:25que não acabava mais
09:26e a minha mulher
09:27dizendo,
09:27vamos casar,
09:28vamos casar.
09:28Eu dizia,
09:29calma,
09:29a gente vai se casar,
09:30a gente já se namorava.
09:32Quem me levou
09:32para a TV Globo
09:33foi Otávio Graça Mello,
09:35sogro da Marília
09:36e a Marília
09:37fez a Rosinha do Sobrano.
09:39Essa,
09:39essa?
09:40É aquele lá sou eu,
09:41não é?
09:42É, sou eu?
09:42Estou meio branquinho ali.
09:45Não, estou brincando.
09:47Com os irmãos Coragem
09:48a gente colocou
09:49num outro patamar
09:51a discussão de racial
09:52em que era a Suzana
09:54muito bonita
09:56e o Milton Gonçalves
09:58desse lado aqui
09:59sendo homem,
10:00marido e mulher
10:02tendo o Tarciso
10:04Claudio Márcio
10:05e o Claudio Cavalcante
10:06como os irmãos
10:08em busca de uma justiça
10:10com relação
10:12com relação
10:12a posse da terra
10:13ao respeito,
10:14enfim.
10:15Obrigado, João.
10:17Lá pra frente,
10:18já tinha feito
10:19com o Daniel
10:19direções,
10:20tinha dirigido
10:21programas de humor,
10:22etc, etc, etc.
10:23Dirigia programas de humor.
10:25Nesta coisa
10:26eu fazia o personagem
10:27e ao mesmo tempo
10:29era diretor
10:30era o segundo diretor
10:32do Daniel.
10:34Após o Daniel
10:35era eu
10:35que dirigia
10:36nos momentos
10:37eu fazia as externas
10:38e o Daniel sempre dizia
10:40mas como é que você conseguiu
10:41essa imagem?
10:41Era sorte.
10:42e no septuagésimo,
10:46sexuagésimo capítulo,
10:48sexuagésimo capítulo,
10:50o Daniel falou assim,
10:51tô indo embora,
10:52tchau.
10:53Me deu
10:53o que a gente cortava
10:55antes, né?
10:56Falou assim,
10:57a mesa é sua,
10:58tô indo embora.
10:59Apertou no toque
10:59o beck,
11:00daqui pra frente,
11:01não só mais o diretor
11:02geral do Irmãos Coragem,
11:04o diretor passa a ser
11:05o Milton Gonçalves.
11:06Boa sorte, Milton,
11:07e até logo.
11:07Aí a gente começa
11:10a tremer,
11:11porque era uma novela
11:12de sucesso,
11:13de sucesso incrível.
11:15E aí eu apertei,
11:16aí ele foi embora,
11:17eu apertei o toque
11:19e falei,
11:20olha,
11:20a partir de hoje
11:21sou eu o diretor
11:22e eu prometo
11:23que vou errar
11:24muito pouco no corte,
11:25porque nós fazíamos
11:26o corte antigamente,
11:27era o diretor que fazia.
11:29E foi uma luta
11:30grande,
11:31claro,
11:31a gente teve
11:32alguns
11:33escorregos,
11:35umas derrapadas
11:37que não era com relação
11:38à qualidade do programa,
11:39mas era com relação
11:40à autoridade
11:41e o conhecimento,
11:42que muita gente achava
11:43que eu tinha aprendido
11:45a arte de representar
11:47e de dirigir
11:48na TV Globo,
11:49não foi,
11:49foi no teatro,
11:50foi no teatro
11:51com muito sacrifício,
11:52com muita leitura,
11:53com muita busca
11:55do conhecimento.
11:56Então,
11:57era uma coisa
11:58que tinha que convencer
11:59as pessoas
12:00que eu era capaz disso
12:01ou daquilo.
12:02Claro que tivemos
12:03alguns conflitos,
12:04mas eu acho que
12:05eu segurei bem
12:06os conflitos
12:07e fomos
12:08até o final.
12:09Foi a novela
12:10mais longa
12:11da Globo
12:11até hoje.
12:13Oi, gente!
12:14Oi!
12:17Pra que que você está
12:17fazendo aqui?
12:18Me dá uma olhada
12:18na festa aí, né?
12:19Ô, festa!
12:23Vem acima.
12:24A cima ficou lá
12:25tomando conta
12:25do velho lá.
12:26Eu fui ao Dias Gomes
12:28e disse pra ele,
12:30Dias,
12:31eu gostaria
12:32de fazer
12:33uma personagem
12:34que não fosse esse
12:35com a camisa
12:36assim,
12:36caipira,
12:37que mal sabe falar,
12:38mal sabe se expressar.
12:40Eu gostaria
12:40de fazer alguma coisa,
12:41um personagem
12:42que fosse mais relevante.
12:44Não é relevante,
12:45mas que fosse mais elegante,
12:46a palavra é essa.
12:47Que fosse mais elegante.
12:49Porque tudo
12:49que eu tinha feito
12:50até ali,
12:50eu gosto demais
12:51até hoje.
12:53Isso está ligado,
12:54você não me perguntou,
12:55mas eu vou falar,
12:56isso está ligado
12:56à minha maneira
12:58de integração
12:59sem humilhação,
13:01da questão do negro
13:01no Brasil,
13:02que me incomoda
13:03muito,
13:04muito, muito.
13:05Então eu fui ao Dias
13:07e ele disse,
13:07não, é a Janete
13:08que vai escrever.
13:09E a Janete me deu
13:10um dos melhores presentes
13:11que eu poderia ter
13:12na minha vida,
13:13que foi o doutor
13:14Percival,
13:16que era um médico
13:17com curso
13:18de, sei lá,
13:19Harvard,
13:20mas não sei o quê,
13:21mas não sei o quê,
13:21mas não sei o quê,
13:22um super médico,
13:23que fez um senhor sucesso
13:25e foi um espanto
13:27de se mostrar
13:28um personagem
13:29deste valor
13:32e deste impacto
13:34foi o doutor Percival.
13:36E também não sei
13:37se o problema
13:38está em você.
13:40Mas que droga,
13:41não sabe nada,
13:42mas que,
13:43que escuta,
13:43que espécie de médico
13:44você não sei,
13:45não sei,
13:46só sabe dizer não sei,
13:47não sei isso,
13:48não sei aquilo,
13:48não sei nada.
13:50Oh, então fecha
13:50esse espilucro aqui
13:51de uma vez,
13:52olha aí,
13:52pega esse diploma
13:53e joga tudo no lixo.
13:55Oh, vai fazer
13:55outra coisa na vida?
13:57Mas eu não sei
13:58fazer outra coisa.
13:59Isso é que é pior.
14:01Para mim foi uma,
14:03foi um passo
14:04muito positivo
14:06na questão de,
14:08de,
14:09de,
14:09de brigar
14:10contra o preconceito,
14:12o desrespeito,
14:12a humilhação
14:13de todos.
14:15Foi muito bom.
14:25Quem tem fé,
14:28voa.
14:29Era isso.
14:31Régis Cardoso.
14:34E,
14:34até hoje,
14:36quando eu vejo,
14:37eu fico meio,
14:39não é meio,
14:39não é,
14:40fico tocado inteiro.
14:42Não é?
14:42Que eu saio,
14:43e voando,
14:50que é o desejo
14:50do homem este.
14:51O voar
14:52da novela
14:53é o salto
14:54qualitativo
14:55da humanidade,
14:56é o salto
14:57do bem
14:58para aqueles
14:59que são mais pobres.
15:00Aqui a nossa história
15:05para,
15:06pois tudo que sabemos
15:07daí em diante
15:08é de ouvir fontar.
15:10Não que a gente
15:11não acredite,
15:12pois se você for
15:13a suburbira
15:14vai ver que lá
15:14ninguém me ocupa.
15:30Nós,
15:33não só eu,
15:34mas nós,
15:35nós,
15:36nós,
15:36e muita gente.
15:37A Globo
15:37foi a emissora
15:39que amparou
15:40todos aqueles
15:42que foram perseguidos
15:43na época dura
15:45de repressão
15:47política e ideológica.
15:49A Globo
15:49trouxe todo mundo
15:51para ela.
15:52E falam,
15:52e é verdade,
15:53uma frase
15:54do Dr. Roberto,
15:55deixe que dos meus
15:56comunistas
15:57cuido eu.
15:59Talvez ele não tenha
15:59falado assim,
16:01mas ele deixou
16:01bem claro
16:02que era para não
16:03mexer com eles.
16:04Com esse sentimentalismo
16:06não dá.
16:09Tem que ter raiva
16:11da humanidade.
16:14Tem que ter ódio.
16:29nonô alegria
16:31das gringas.
16:36Era isso,
16:37né?
16:37Essa coisa que,
16:38às vezes,
16:38na minha cabeça,
16:40claro que isso foi
16:41novela,
16:42isso me incomoda
16:43um pouco
16:43porque reduz
16:45o negro
16:46ao falo
16:47enorme
16:48e invencível.
16:50Não é isso.
16:50Nós temos cabeça,
16:51inteligência,
16:52sentimento,
16:54nós temos ideias,
16:56nós temos
16:56ideologias políticas,
16:58nós temos tudo.
16:59Não somos só
17:00um falo
17:01rígido,
17:03matando de prazer
17:05a gringa
17:06ou quem quer que seja.
17:07Não somos só isso.
17:08Nós somos brasileiros.
17:10Nós somos 52%
17:12da população
17:13deste país.
17:15E não somos tratados
17:16como tal,
17:1752%
17:18da população
17:19deste país.
17:19É só ir no IBGE
17:20que eles confirmam
17:22isso.
17:23E não me venha
17:24com esse negócio,
17:24mas negro,
17:25negro é muito pouco,
17:26o resto é negro.
17:28Quem não é branco,
17:29o negro é.
17:30A Beatriz Lira
17:31foi com quem
17:32fiz um...
17:35Nós éramos marido
17:35e mulher,
17:36não éramos amigados,
17:37não éramos namorados,
17:38não éramos amantes,
17:39não éramos...
17:39Éramos casados
17:40com os filhos,
17:42Lauro Corona
17:42e a Lídia Bronde.
17:44Eram os meus enteados.
17:46A Lídia se formou,
17:47está em São Paulo,
17:49mulher do Cássio,
17:50Cássio,
17:51da Vos Mendes.
17:51E ela
17:54sofreu muita pressão também.
17:57Muita pressão.
17:59E um belo dia,
17:59já era casado
18:00com a minha mulher.
18:01Um belo dia,
18:02as pessoas,
18:03alguns negros,
18:04falaram,
18:04ah, você está casado
18:05com ela,
18:06mas não beija na boca.
18:08E eu contei para ela isso.
18:09E outros,
18:10ah, mas não é isso,
18:12como é que pode ser?
18:13Sabe essa coisa,
18:13essa coisa de preconceito,
18:15essa coisa de menor.
18:17eu não estou preocupado
18:19se a minha mulher
18:20é branca, negra, amarela,
18:21azul, roxa.
18:23Eu estou preocupado
18:23se a minha mulher
18:24é aquela que gosta de mim
18:25e eu gosto
18:26e nós somos um par
18:28maravilhoso.
18:31Então nós
18:32nós entramos na sala
18:34com
18:34qual a música
18:36que a gente pode...
18:37Nós escolhemos a música,
18:39né?
18:39Claro.
18:40Aquela, né?
18:42Tcharadadá.
18:44Tcharadadá.
18:46Tcharadadá.
18:47Nessa novela
18:57do Baila Comigo
18:59era um casal.
19:01A gente não sabe
19:02quem escreveu,
19:03mas algumas pessoas
19:04das poucas cartas
19:05que a gente recebe,
19:06umas diziam,
19:07é, ele está lá com ela,
19:08mas a branca
19:09não beija ele na boca.
19:11E um belo dia
19:12eu falei para ela,
19:14ela disse,
19:14ah, é?
19:15Então está o quê?
19:16Na cena seguinte,
19:17ou sei lá,
19:17na semana seguinte,
19:18não me lembro,
19:20a gente ficou,
19:20claro que editaram,
19:22né?
19:23A gente ficou, sei lá,
19:24uns dez minutos
19:24se beijando, né?
19:26Boca a boca,
19:27ai, ai, ai, ai,
19:28ui, ui, ui, ui,
19:29ai, ai, ai, ai, ai, ai.
19:30A grande construção
19:31é antes.
19:33Quando você chega
19:34no palco,
19:34na frente da câmera,
19:35na frente da tela,
19:36da máquina de filmar,
19:38ou sei lá,
19:39onde for,
19:39você já construiu
19:40o seu personagem.
19:42O ruim,
19:43às vezes,
19:44não é sempre,
19:45o ruim,
19:45às vezes,
19:46é você passar semanas
19:48construindo o seu personagem
19:50e que te condiciona
19:52com atitudes,
19:53posturas físicas,
19:54inclusive,
19:55e de repente,
19:56vem alguém e diz,
19:56ah, está tudo errado.
19:58O que acontece?
20:00Não tem a delicadeza
20:01de ouvir,
20:02durante dez minutos,
20:04ou quinze minutos,
20:05aquilo que você estudou
20:06meses e meses e meses.
20:09E quando não estudou
20:10meses e meses,
20:11você revive aquilo
20:13que você lá atrás já fez.
20:16Então, dirigir
20:18é muito difícil.
20:20Agora, se o diretor
20:21é tranquilo,
20:22tudo bem.
20:23Agora, se ele é
20:23ditatorial,
20:25é complicado.
20:26Se ele está com pressa
20:27de fazer a cena
20:28e não perder mais cinco minutos,
20:30no início,
20:31que é para você firmar
20:32posturas,
20:33como falar,
20:34como dizer,
20:34como olhar,
20:35como receber,
20:36como...
20:37Se você for olhar
20:38no mapa,
20:38é tudo muito parecido,
20:40mas cada um tem
20:41uma especificidade.
20:42Vamos ver quando
20:43essa carne preta
20:44e velha
20:45começar a sangrar.
20:50Bate.
20:53Bate,
20:53feito um grito.
20:57Bate até esses braços
20:58frutos cansar.
21:00Eu fui indicado
21:01para o Prêmio M Internacional
21:03por um personagem
21:04que era curto,
21:05mas que durante toda a novela
21:07se lembrava dele.
21:09Não tinha como se lembrar.
21:11Você precisa saber
21:13de um segredo
21:16que é para você
21:19não botar coisa
21:21na sua cabeça
21:22que vai machucar
21:26seu coração.
21:28antes de entrar
21:29tem que falar com ela
21:29com a Suza
21:30Sarando
21:30porque a gente
21:31vai apresentar junto.
21:33Então,
21:33alguém me levou.
21:34Olá,
21:34olá,
21:35está tudo bem?
21:35Como está?
21:36Como está?
21:37Como está?
21:37Como está?
21:38Como está?
21:39Você e eu?
21:40Eu vou lá,
21:41eu vou lá.
21:42Você disse isso
21:43e eu disse isso.
21:45O que você acha
21:45de isso?
21:46Estou brincando.
21:48Aí ela ficou rindo,
21:50aí falamos,
21:51conversamos,
21:52e ela falou,
21:53falou, falou, falou.
21:54Aí depois,
21:54na hora que nos apresentamos,
21:55eu acrescentei mais umas besterias também,
21:58se a gente não aproveitar esse momento,
22:00nunca mais ele se apresenta.
22:02E foi bacana,
22:03foi muito bacana.
22:04Suza Sarando,
22:05muito educada,
22:07muito gentil,
22:08e a produção toda ficou feliz e tal.
22:10Ladies and gentlemen,
22:12Milton Consalves.
22:21E eu gosto muito,
22:22faz algum tempo que eu não vou.
22:23Eu sinto saudades,
22:24eu sinto saudades.
22:25de Nova York.
22:27Eu tenho habilidade para línguas,
22:28eu posso não ter para outras coisas.
22:30Para línguas,
22:30eu gosto muito.
22:31Eu falo um pouco disso.
22:32Eu vou para a Itália,
22:32me viro bem.
22:33Vou para a França,
22:34me viro bem.
22:35Vou para a Inglaterra,
22:37me viro bem.
22:38Vou para os Estados Unidos,
22:39me viro muito bem.
22:41Algum problema, filho?
22:43Eu vim trazer o seu almoço.
22:45Eu acho que eu vi você discutindo com ele.
22:47Ele te desrespeitou, foi isso?
22:50Não, de jeito nenhum.
22:52Seu Afonso,
22:52eu não tratei a sua filha
22:54com a atenção que devia,
22:55mas é que eu estava atarefado aqui
22:55com o redemoinho da nuca
22:56do doutor Nicolau
22:57e eu fiquei atarefado
22:58com o redemoinho do doutor Nicolau.
23:00Vai, vai.
23:04Foi só um mal entendido, pai.
23:06Eu fui pai da Camila
23:08no lado a lado,
23:09no insensato coração
23:10era pai do Lázaro Ramos
23:12e na favorita,
23:13era o pai da Thaís Araújo.
23:18Obviamente, é um prazer
23:20incomensurável trabalhar com eles.
23:23De repente, ele não gostou do seu projeto,
23:25sua proposta cultural.
23:28Você sabe muito bem
23:29que pode pressionar essa gente
23:30para aprovar isso.
23:31300 mil reais
23:34para financiar
23:35uma presepada ridícula?
23:37Quando eu, Milton,
23:39entro numa novela
23:40em que se fala da escravidão,
23:42eu fico com a língua queimando
23:44porque eu acho
23:45que a gente deve falar
23:46da nossa contemporaneidade,
23:48não é como lá.
23:49Eu não sou mais escravo.
23:51Eu não sou negro tu.
23:53Eu sou negro sim, senhor.
23:55Entendeu?
23:55Quando você faz uma novela de escravo,
23:57fica aquela coisa de
23:59nhozinho, nhonão,
24:00nhozinho,
24:01aquela coisa que estava falando
24:03eu passo sempre.
24:04Entendeu?
24:04Chega, chega, chega.
24:06Isso já está no passado.
24:07Mas é um trabalho artístico,
24:09então eu faço com muito,
24:11mas com muito prazer mesmo.
24:14Meu neto é um amor de criança
24:16com toda a peraltice de criança.
24:19Mas eu posso dizer aqui
24:21com toda a certeza,
24:24com absoluta certeza,
24:25que a educação dele vem sendo realizada com a melhor qualidade pelo meu filho Maurício,
24:35pela mulher dele, a Tânia, são pais ideais e estão dando ao Israel, Pacheco Gonçalves,
24:45a melhor oportunidade de ter um futuro de sapiência e de mais armado para as armadilhas
24:54que estão aí na frente da gente, não só para negros, mas para brancos também,
25:00mas de busca do conhecimento, de busca do saber e ficar feliz com o saber, com a busca
25:06e cada vez melhorar mais aquilo que é a nossa vida eterna que dura 60, 70, 80 anos.
25:16Minha filha Alda está neste momento, eu tenho que elogiá-la, claro que eu tenho,
25:21é uma estudiosa, está aí no teu terceiro ou quarto MBA, sempre estudando, sempre buscando o saber.
25:29Enquanto eu ia buscar o ouro, a minha mulher Alda dava para eles as portas do saber
25:39e os obrigava a ler, a estudar, todos eles têm uma biblioteca muito boa, com conhecimento,
25:47não é só a biblioteca com livro lá não, são livros lidos e eles sabem, discutir com eles é perda de tempo,
25:55porque eles sabem os três.
25:57O Maurício é doutor em literatura, eu não estou exibindo meus filhos, estou dizendo que eles são,
26:01o Maurício é doutor em literatura, está escrevendo, agora feito um louco,
26:08a Alda está no seu terceiro ou quarto MBA, todos eles têm terceiro grau,
26:14a Catarina é designer, é a que menos quer, mas ela tem a empresinha dela,
26:20a empresinha é a minha, a dela é a empresa, tem a empresa dela de designer,
26:27e está muito bem, tem lá as sócias dela, elas estão encaminhadas,
26:32e é o que eu gostaria honestamente para a grande maioria desse país.
26:36Ser ator para mim é mais do que simplesmente ser ator e dar autógrafos,
26:41ser ator para mim é um serviço social, ser ator para mim,
26:46para mim é mostrar que é capaz de vencer as dificuldades e as barreiras,
26:51ser ator para mim é você inventar uma vida ruim e que de repente se torna boa,
26:58ser ator para mim significa mostrar para o espectador que a felicidade não está tão longe,
27:06que a calma não está tão longe, que o respeito está tão longe,
27:11ser ator para mim, para mim e meu, é uma forma de lutar pela minha etnia,
27:17de mostrar que nós somos capazes, tanto na humildade quanto na arrogância,
27:24de nós mostrarmos que nós somos capazes de realizar,
27:28que nós somos capazes de um dia, quem sabe, contar a nossa história de fato e de verdade.
27:34Como ator, como ator, o que mais me apraz é fazer uma cena em que eu deixe claro que a esperança é possível,
27:45que o desejo de melhorar, de salto qualitativo é factível, é realizável, isso para mim é ser ator.
27:53Eu estou com o coração cheio de fé, eu já te disse mulher,
27:59quem tem fé, boa.
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