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00:00Em Minas era férias, brincadeira, sair de casa sem hora para voltar.
00:18Mas eu falei alguma coisa com você sobre o galivão?
00:20Falei assim, não, o que é?
00:22Falei, pô, abre a porta que eu estou chegando.
00:24O que era bacana dessa história é que eu tive a chance de trabalhar com figuras inesquecíveis
00:28e que me ensinaram muito sem saber.
00:30Mas o meu processo íntimo é muito, muito, muito solitário.
00:36Meus pais são mineiros, mas eu nasci no Rio de Janeiro por circunstância.
00:41Meu pai veio trabalhar no Rio muito cedo.
00:44Voltou em Minas, casou-se com a minha mãe e trouxe ela de volta.
00:47Trouxe ela para o Rio.
00:48E eu acabei nascendo aqui, na verdade, sou carioca.
00:51Mas sangue mineiro das duas partes, fui criado 50% aqui, 50% no Rio.
00:55Tecnicamente, eu sou carioca, mas não dá realmente para dizer se eu sou mineiro ou carioca.
01:02As pessoas confundem muito, mas eu nasci no Rio de Janeiro.
01:05A minha memória de infância, o que eu carrego hoje para a minha vida,
01:10os pequenos prazeres que eu tenho, que eu fiz questão de recriar,
01:14reproduzir para os meus filhos do que eu tive na minha infância,
01:17são prazeres que vêm de Minas.
01:19Minas é o cheiro do curral, é uma sensação de fogão a lenha aceso,
01:24feijão na panela, uma goiabada, cascão com queijo Minas.
01:30É soltar pipa, correr descalço, jogar bola descalço, na rua, no meio fio.
01:35Fazer a pipa, fazer a serol, fazer a brincadeira acontecer.
01:41Então, a minha referência é Minas.
01:46É um pouco essa coisa que o Rio de Janeiro significava a responsabilidade, a escola, o horário.
01:52E Minas era férias, brincadeira, sair de casa sem hora para voltar, sem preocupação de nada.
02:00Então, Minas era o sinônimo de coisa boa e o Rio era sinônimo de compromisso,
02:04de acordar cedo, treinar.
02:08Então, é uma referência muito gostosa.
02:12Até hoje eu trago isso para mim.
02:13A minha vida é pontuada com essa memória afetiva que eu tenho de Minas.
02:19Eu nadei muitos anos, nadei mesmo.
02:23Me lembro de moleque, 3 anos de idade, usar na piscina.
02:27Nadei até os 18, 19, num processo de começar a parar e até terminar de verdade.
02:33Mas parei porque em algum momento a coisa ou ficava séria de verdade
02:38ou eu ia por um caminho tradicional, estudar a faculdade, uma profissão.
02:44E foi pelo que eu optei.
02:48Mas boa parte da minha vida eu passei dentro da piscina.
02:54O que me trouxe um convívio com o esporte que é indelével.
03:00Meu hobby é o esporte.
03:04Adoro qualquer que seja.
03:07Então, os anos de natação me deram um pouco essa relação estreita que eu tenho com o esporte.
03:14Um pouco de disciplina para a vida.
03:18Aprender a lidar em equipe.
03:19Aprender a respeitar o indivíduo dentro de um todo.
03:24Aprender a jogar com esse mecanismo da troca.
03:28De se doar ao máximo em nome de um grupo.
03:32Perder, ganhar.
03:33A arte surge de uma forma bastante inexplicável.
03:41Bastante inesperada mesmo.
03:43Eu fui fazer teatro porque eu queria ser gerente de banco.
03:46E eu sempre fui um adolescente tímido.
03:49E eu achava que através da escola de teatro eu ia resolver esse problema para lidar com o público.
03:53De alguma forma.
03:55Então, eu passei dois anos fazendo um curso.
03:58Um curso de interpretação.
03:59Não necessariamente para teatro, mas para TV também.
04:04Lidando um pouco com essa ideia de resolver a minha timidez.
04:07Resolver a questão do meu tamanho.
04:09Porque em algum momento eu ia precisar lidar com o público.
04:13E foram dois anos, dois anos e algum tempo.
04:17De um processo que em nenhum momento passava pela possibilidade mínima que fosse de virar ator.
04:26Em algum momento eu fui obrigado a fazer uma escolha.
04:29Eu tinha arranjado um emprego em uma empresa de cartão de crédito.
04:33E a TV Globo me convidou para fazer uma série.
04:37Na época era uma alhação.
04:39E eu tive que fazer essa escolha.
04:41Acabei optando por fazer a televisão.
04:45Eu não sei bem porquê.
04:46Acho que porque, claro, era muito mais atrativo fazer um trabalho na televisão
04:50do que sentar para atender telefone em uma empresa de cartão de crédito.
04:54Mas era a única razão.
04:56Foi uma escolha, uma intuição juvenil.
05:01Eu tinha 18 anos.
05:02E eu achava que podia ser mais divertido.
05:05E aí eu descobri em cena o amor que eu tenho pelo que eu faço hoje.
05:12O prazer que eu tenho de estar contando histórias.
05:17Eu me lembro perfeitamente que no dia de chegar para gravar, aquilo tudo era um procedimento normal.
05:24Mas quando eu fiz a minha primeira cena, quando aquilo acabou, quando o cara gritou corta,
05:30eu tive uma sensação exata do que eu queria fazer na minha vida.
05:33Eu entrei no estúdio para o teste e tinha uns 40 caras, 48 caras.
05:40E eu falei, pô, isso não vai dar certo.
05:45Eu vou-me embora.
05:46O que eu estou fazendo aqui?
05:49Eu não sei bem a razão de ter pensado isso.
05:52Mas aí eu lembro que eu voltei para o carro.
05:55Eu falei, ah, vamos embora.
05:56Isso não é muita gente.
05:59E aí no carro eu falei, pô, eu já estou aqui.
06:02Vem um pouco a coisa do esporte, né?
06:03Assim, nunca desisti de nada.
06:05Sempre foi, tudo foi muito batalhado.
06:09Eu sempre tive coragem.
06:13E não era propriamente covardia o que tinha acontecido.
06:15Era uma coisa prática.
06:16Aquilo tudo para mim era, será?
06:19Ainda era um será?
06:20Ainda era uma interrogação.
06:22Eu falei, não, quer saber?
06:22Eu vou voltar.
06:23Eu vou voltar.
06:24Aí eu voltei e comecei a circular pelas pessoas que estavam ali.
06:29E eu me lembro de ter a sensação de...
06:31Eu falei, pô, mas esses caras são tão frágeis ou mais frágeis quanto que eu.
06:39E aí eu falei, eu vou fazer esse teste, eu vou fazer esse teste, eu vou passar.
06:44E aí eu me lembro que o diretor, era o Wolf Maier, o diretor reuniu os atores todos, os meninos, a equipe.
06:51A Glória Pérez estava no estúdio, a produtora de elenco.
06:54E falou uma meia-doze de coisa, o personagem assim, assim, assado, tal, tal, tal.
06:59Quem vai fazer primeiro?
07:00Eu levantei a mão imediatamente.
07:01Não, eu quero fazer primeiro.
07:02Aí eu comecei o teste completamente gaguejando.
07:06Ele falou, não, não, não, tudo bem.
07:07Começa de novo.
07:08Aí eu fui uma terceira vez e fui, fui, fui até o finalzinho.
07:11Eu tinha que ir no finalzinho.
07:12Eu me esqueci do texto por algum momento.
07:14Ele falou, não, não, não, tudo bem.
07:15Tá ótimo, tudo certo.
07:17Não precisa se preocupar.
07:19Tá bacana.
07:20Obrigado.
07:22E aí eu saí.
07:23E aí veio o segundo.
07:24E eu esperei os 48 testes ao longo do dia inteiro.
07:28Aquilo era 8 horas da manhã.
07:30Eu fui sair da Cinedia, era quase 9 e meia da noite, 10 horas da noite.
07:34E aí quando era uma dada hora assim, eles se reuniram todo mundo.
07:39Disseram, olha, a gente vai falar três nomes e os três nomes vão ficar.
07:43Os outros podem ir embora, muito obrigado e tal.
07:45E eu estava entre os três.
07:46E eu me lembro que eu voltei para o estúdio.
07:48E o câmera, na época que fez o teste, me chamou, viu a situação.
07:53Ele, não sei por que cargas d'água ele fez aquilo, mas foi muito bacana.
07:56Ele me chamou no canto e falou assim, olha, fica tranquilo, porque o seu teste foi unânime.
08:03Todo mundo votou no seu teste.
08:06Eles só estão fazendo isso por desencargo de consciência.
08:09Mas fica tranquilo, vai lá e faz o teu testezinho, diz o teu texto que está tudo certo.
08:13Vai dar tudo certo, boa sorte.
08:15E aquilo me deu uma certa tranquilizada, assim.
08:19Falei, pô, que legal.
08:20Fui lá, fiz a segunda vez e imediatamente eu passei e tal.
08:25Então o processo foi um pouco esse.
08:26Ah, vai me dizer que você não quer andar de carro a um rabo de peixe com a Marilyn Monroe do seu lado?
08:32Vestir as roupas que o Marlon Branduzzi no dia seguinte todo mundo copia?
08:35Almoçar com a Janet Leigh?
08:40Alô?
08:41Rita Hayward?
08:42Ô Rita, hoje não dá.
08:44Rita, eu estou cansado.
08:46Amanhã você me liga, tá bom?
08:47Tchau.
08:47A gente filmava na Herbert Richard, na usina, na Tijuca.
08:52E eu morava na Tijuca, eu morava ali na Gabismo.
08:55E aí era meio do caminho entre a usina e o Rio Cumprido.
08:59Então eu voltava de van com o Mário Lagos.
09:01Eles davam carona pro Mário, eu pegava a caroinha, saltava na esquina, ia a pé pra casa.
09:05E eu voltava de van conversando com o Mário Lagos, com 19 anos.
09:08Tentando entender tudo aquilo.
09:13Mas o que era bacana dessa história é que eu tive a chance de trabalhar com figuras inesquecíveis
09:18e que me ensinaram muito sem saber.
09:21Como eu não tive escola, eu não tive um processo acadêmico,
09:29eu descobri que o meu único caminho, a minha salvação, era observar esses caras.
09:34Então eu chegava horas antes do meu horário no Projac,
09:39porque eu via no roteiro que o Mário Lagos ia gravar,
09:42que o Paulo ia gravar, que o Guilherme Caranho ia gravar.
09:45Então eu gravava quarta e sexta, mas eu ia todo dia pro Projac.
09:50E eu ficava, observava esses caras entrando no Projac.
09:55Eu ficava na porta, eles entram por ali, eles falam com as pessoas,
09:58eles trocam de roupa agora, agora come.
10:01Não, agora não fala nada, agora se concentra.
10:03Agora é hora de passar o texto.
10:05Eu ficava observando o comportamento no local de trabalho até.
10:08Eu me lembro de estar fazendo a novela das seis,
10:12O Pecado Capital,
10:14e quando chegou no estúdio um boato de que a Globo ia fazer a novela do século.
10:19Era a dupla do Pantanal, novela que a Machete tinha exibido,
10:22o Jaime Monjardim e o Benedito Rui Barbosa,
10:24um elenco maravilhoso, o Fagundes, o Raul Cortez, a Ana Paula.
10:27E eu lembro de ter pensado, pô, que legal seria e tal, novela, novela do século.
10:35E aí um dia, saindo do estúdio mais cedo, eu tive a ideia de procurar a produção.
10:40Falei, bom, deixa eu ver o que é isso.
10:44E aí eu fui batendo nas produções no Projac.
10:46Falei, o que é a novela das oito? A próxima novela das oito?
10:48Ah, é ali no tal.
10:49Eles me indicaram, quando eu entrei na produção, eles estavam de mudança.
10:53Tinha umas pessoas botando umas caixas na mesa, ajeitando a sala.
10:57E aí, coincidentemente, tinha a produtora de elenco, a Mariana Lou,
11:01que estava chegando ali com a caixa dela.
11:03E eu falei, boa tarde, é aqui que é a próxima novela das oito?
11:07Ah, é? Falei, pô, eu queria falar com a produtora de elenco.
11:10Ela falou, sou eu.
11:11Falei, ah, muito prazer, eu sou o Tiago, faço aqui a novela das seis.
11:13Ah, eu sei quem você é e tal.
11:15Falei, então, eu queria vir dizer que eu adoraria fazer a novela
11:20e se tiver algum teste pra mim, eu quero fazer.
11:23Aí ela ficou me olhando assim, mas eu já falei de você pro diretor da novela.
11:28Falei, ah, é, que legal, é, pro pai da Ana Paula.
11:31E pensei assim, não precisa tanto.
11:34Não precisava tanto, eu queria só fazer a novela,
11:36era um personagem qualquer, tava bacana.
11:39E aí eu falei, ah, bacana, eu fiquei pensando e...
11:42E aí eu falei, bom, que legal, então tá, então, tá.
11:46Não, a gente vai te procurar.
11:47Falei, tudo bem.
11:48E me mandar de volta pra nossa Itália?
11:51Per causa de aquela história do anarquismo?
11:54Sim, minha amiga, per causa de aquela história.
11:57Sim, mas eu não sou mais anarquista.
11:59Mas quem faz a fama, o seu Mateu deita na cama, não me vê?
12:03Sim, veram.
12:04Mais tarde, anos depois, a Mariana ficou minha amiga.
12:07E aí a gente conversando, ela me contou que imediatamente ela pegou o telefone
12:11e ligou pro Jaime e falou, olha, você lembra aquele cara que eu te falei?
12:14Pois é, o cara entrou aqui e pediu pra fazer o teste,
12:17o cara tá afim, o cara é legal, papapá.
12:19Ela fez um baita lobby, né?
12:21E eu me lembro que o Jaime tava há muito tempo procurando um ator pra fazer o personagem,
12:28que era de fato o protagonista.
12:29e ele não encontrava uma pessoa que ele achasse que dava pra fazer e tudo mais.
12:34E quando eu fui fazer o teste, de novo eu fui cedo
12:38e tinha alguns atores marcados pra fazer naquele dia.
12:44Eu me lembro de fazer o teste, o Jaime tava falando no telefone celular, assim.
12:48Aí de repente ele parou e falou, não, não, começa de novo.
12:51E aí eu fiz o teste de novo, quando eu terminei eu tava dentro da novela.
12:54A reação do Jaime foi uma reação de, achei alguém, né?
13:00Então ele veio falar comigo, você fala italiano?
13:02Eu falei, não, mas eu aprendo que é uma maravilha.
13:05E aí ele, ele, ele, ele, ele, ele, ele, ele, ele, no final do dia me ligou,
13:10e falou, olha, vamos fazer, etc.
13:12E naquele momento eu, eu tinha certeza que a minha carreira mudaria.
13:18Eu tinha certeza que aquele era o grande momento do que vinha acontecendo até então.
13:22Eu falei, não, porque a partir daqui não tem mais volta.
13:35O meu processo é, até hoje, é muito intuitivo.
13:39A minha construção é basicamente o que tá no texto.
13:43Basicamente eu procuro investigar no texto o que o personagem se revela.
13:49Ele tá, pra mim, tá tudo ali.
13:52Então é um processo muito investigativo.
13:54Se exige algum aspecto técnico, eu vou em busca disso.
13:58Me disponibilizo pra esse processo de laboratório técnico.
14:02Mas basicamente as minhas referências são bibliográficas, filmográficas e o texto.
14:09E uma certa cara de pau pra imaginar como aquilo pode ser.
14:13Desculpa-se um pouco, Matheus, que eu vou te servir um pouquinho.
14:18Estão atrás de mim, senhor Francesco.
14:21Mas aqui você pode ficar sossegado e que ninguém vai te achar, não é?
14:25Justo agora que vai acontecer isso comigo, eu tava trabalhando.
14:29Juntando dinheiro pra comprar um pedacinho de chão.
14:33E o santo Juliano tava me ajudando tanto.
14:37Guarda, senhor Francesco, e eu nem sei como eu fui me metendo com essa história da anarquísima, capiche?
14:41Meu capisco, você tava revoltado, né?
14:46Você, senhor.
14:47Pois é, não, esse rótulo de galã nunca me preocupou, assim.
14:52Nunca foi uma coisa contra a qual eu me dispusesse a lutar.
14:56Não preciso resolver, desmistificar isso, tirar esse rótulo de galã, lutar contra isso.
15:02Não, meu trabalho sempre foi contar as histórias dos meus personagens.
15:06Eu adoro os heróis, como eu falei.
15:07Eu não tenho nenhuma intenção de me preocupar em negar esses personagens.
15:13É muito importante ter cautela, é claro.
15:16E as pessoas associam muito também ao fato da beleza, de...
15:20Eu não sei até que ponto o rótulo significa isso, ou isso faz parte do rótulo.
15:25Mas também não é uma coisa com a qual eu me preocupo.
15:28Eu pretendo ficar feio pra deixar de ser galã.
15:30Eu também não pretendo ficar mais bonito pra ser mais galã.
15:33Eu não me preocupo mesmo.
15:35Não afeta o meu comportamento diante do meu trabalho.
15:39Bom, eu...
15:40Eu preciso ir.
15:42Até lá.
15:49Em 2003, três anos depois, o Jaime me liga e diz assim, olha, tem um trabalho pra você aqui,
15:54um personagem que eu acho que você vai fazer super bem.
15:57Eu falei, é, Jaime, pô, que legal, meio assim, né?
15:59Meio, será?
16:00Que personagem é ele?
16:02Ele falou, você conhece o Giuseppe Garibaldi?
16:04Aí eu...
16:05Eu falei, pô, você tá brincando.
16:07Ele falou assim, não, por quê, meu?
16:08Ele disse, eu te contei alguma coisa, eu falei alguma coisa com você sobre o Garibaldi?
16:13Ele falou assim, não, o que que é?
16:14Eu falei, pô, abre a porta que eu tô chegando.
16:17Aí eu fui pro Projac, sentei na mesa dele e falei, cara, meu hobby é a vida do cara.
16:22Ele falou, você tá brincando?
16:23Eu falei, não, eu estudo a vida do Garibaldi há quatro anos.
16:27E aí eu comecei a contar tudo pra ele.
16:29Ele ficou assim, cara, que maravilha.
16:30Eu falei, bom, aí eu fui.
16:32E foi muito prazeroso, porque você imagina, você ter um hobby
16:36e poder contar essa história pras pessoas com essa possibilidade que a televisão oferece
16:45de chegar pra todo o país e pra fora do país até.
16:49E poder dizer, olha, esse foi um cara que passou por aqui e fez isso assim, assim, sabe?
16:55Então é um prazer que eu tive, indescritível.
16:58O Capitão Rodrigo foi outro momento muito especial da minha carreira.
17:19E eu decidi pedir pro Jaime pra me enfiar lá no sul.
17:24Eu fui pra lá, fiquei uns 15 dias enfiado no mato com pessoas da fronteira, com aquela gente de lá.
17:30E em cada um deles tinha um Capitão Rodrigo, tinha um pedacinho do Capitão Rodrigo.
17:34E eu consegui começar a amarrar as minhas ideias sobre o personagem.
17:40Agora vamos, minha prenda.
17:43Finalmente.
17:44É um personagem assustador, é impressionante como alguns personagens têm um nível de desafio pra você
18:06que é muito amedrontador, é opressivo.
18:11É como se fosse um dedo na cara mesmo, assim, de dizer, e aí?
18:17E aí? Como é que você vai resolver isso aí?
18:19E você fica, cara.
18:21Mas o Capitão é um pouco isso.
18:24Eu sou muito pouco conformado com o meu lugar, assim, com as coisas que eu já fiz.
18:32Eu fico sempre achando que eu preciso descobrir novas coisas, novas maneiras de fazer, novos caminhos.
18:38personagens que talvez eu não fizesse.
18:43Um pouco a minha busca com os meus espetáculos hoje no teatro, assim, é um pouco essa necessidade
18:49que eu tenho de me inquietar, de me mexer, de me manter exposto pra mim mesmo, primeiro
18:57e pro público de um modo geral.
18:59Então, assim, eu fico achando que eu tenho muita coisa pra fazer ainda, eu tenho certeza disso.
19:04Essa insegurança da profissão não me pega porque eu acho que essa inquietação me defende da acomodação.
19:16Mas, ao mesmo tempo, tem essa coisa do tempo, né?
19:20E o tempo passa e os personagens vão mudando.
19:23Então, se você perguntar o que você espera, o que você acha, eu acho que eu vou envelhecer
19:28e os meus personagens vão envelhecer junto comigo e é assim que eu quero estar.
19:32A governanta disse que a faxineira foi limpar a estante.
19:35Você me prometeu que nenhuma recordação dessa maldita família não tinha ficado dentro dessa casa.
19:40Me desculpe, padrinho, deve ter caído direto de um livro.
19:42Eu acho que a gente tem uma crise grande de caneta na dramaturgia brasileira, no cinema, na TV, no teatro.
19:51Mas a verdade é que a gente fica na expectativa de descobrir um talento da altura do Dias Gomes,
20:01da altura do Benedito, do Manuel, do Manuel Carlos, da altura do Gilberto.
20:06A gente fica querendo que essa geração retorne, de alguma forma, através dessa renovação que chega.
20:14E tem gente muito boa, tem gente muito boa.
20:18A Thelma e a Duca fizeram uma novela que, para mim, é uma das coisas mais legais dos últimos anos na televisão,
20:23que foi o Cordeiro Encantado, que eu fiz o primeiro capítulo, uma participação rápida.
20:27Vi, eu lia a novela e eu dizia para o Ricardo Waddington e para a Mora, eu dizia,
20:31cara, eu quero fazer essa novela.
20:32Vocês me chamaram para fazer cinco cenas, é uma participação rápida, mas eu quero fazer toda.
20:37Me bota no final, eu volto de alguma forma, porque a novela, no papel, era uma baita novela.
20:43Eu li os capítulos, parece que eu estava lendo um livro, um romance.
20:46Volte, lute! Vamos! Vamos todos, lutem comigo! Vamos, covardes! Volte!
20:53Se você me convidar para uma festa e eu entrar num salão, onde o que está acontecendo é uma coisa absolutamente distante,
21:05uma coisa que me envolva direto, a minha imediata reação é entrar e vir pelo cantinho e sentar de um modo que ninguém vai me ver.
21:15Isso é um resquício de um procedimento juvenil que eu tinha.
21:17Eu puxava a cordinha do ônibus sentado, porque eu achava que se eu levantasse, as pessoas iam me olhar.
21:22Então, eu tinha o braço comprido, né?
21:24Então, eu puxava sentado, o ônibus parava, eu levantava e descia.
21:28Então, essa era um pouco o tipo da timidez que eu tinha.
21:32Não era propriamente um trauma, mas era uma timidez juvenil.
21:37E que eu trago, sim, na minha personalidade.
21:39Tenho isso, sim, na minha vida, no meu dia a dia.
21:42O que acontece é que esses 16 anos me levaram a me comportar de uma forma que eu escondo isso, de alguma maneira.
21:50Eu me defendo disso.
21:52Não chego a ser um personagem de mim mesmo, acho que não é isso.
21:55Eu descobri uma maneira de lidar com essa timidez.
22:00E, em muitos momentos, eu gosto.
22:01Eu gosto de me perceber sendo observado.
22:07Claro que me incomodo também, mas a timidez já ficou num segundo momento.
22:14Mas, cotidianamente, nas ações mais simples, como entrar num restaurante, como entrar numa festa,
22:21como caminhar na rua, como pegar um ônibus, como pegar um...
22:26Situações na padaria, me pego com um procedimento de...
22:31Se eu pudesse não ser notado, era melhor.
22:35Então, eu acho que ainda tem.
22:36Eu nunca permiti que a minha família entrasse completamente na intimidade do meu trabalho.
22:46Até hoje é assim com os meus filhos, né?
22:48Eu trago eles, mas tem um limite que eu não permito.
22:55Nem que eu queira.
22:56Eu acho que eu nunca aprendi a permitir.
22:58E eu aprendi a não permitir com os meus pais, com a minha irmã,
23:02que sempre participaram, mas sempre participaram um pouco à margem.
23:05Assim, eu nunca trouxe pra dentro das grandes questões do meu trabalho.
23:11Das grandes decisões, das minhas grandes escolhas.
23:15O destino da minha carreira pertence a mim, sempre pertenceu.
23:21Eu sempre direcionei as minhas coisas de um modo quase que solitário mesmo.
23:27Eu tenho um jeito de fazer muito solitário.
23:30Você perguntou na maneira como eu trabalho, como eu compor os meus personagens.
23:33E agora me deu um pouco essa ideia, assim, eu sou muito solitário no meu processo.
23:41É claro que esse processo é finalizado com o jogo, né?
23:45O jogo entre o ator em cena, entre o diretor, entre a equipe, entre o elenco, de modo geral.
23:50Mas o meu processo íntimo é muito, muito, muito solitário.
23:54E eu acho que eu blindei um pouquinho a minha profissão em relação à minha família.
23:59Uma vez doido, sempre doido.
24:02E tem mais uma coisa, o Kaique é um irresponsável.
24:04É meu sócio no hospital que nós herdamos do meu pai, mas prefere viajar pelo mundo ao invés de trabalhar.
24:08Você sabe disso.
24:09Eu tenho três filhos hoje.
24:11Isso é maravilhoso.
24:15Eu venho de uma família de gente muito simples, de gente do interior, de gente que nunca teve de mais nem de menos.
24:25E eu acho que essa é um pouco a ideia que gira em torno do que a gente constrói, eu e Vanessa.
24:31E é uma maravilha.
24:32É um acontecimento transformador na vida de qualquer pessoa.
24:41E fazendo uma relação com o meu trabalho, um ator é um profissional melhor a cada dia que passa.
24:52Porque eu acho que a experiência acumulada, ela sedimenta e te dá recurso para contar as histórias que a gente acaba contando.
25:01Então, eu acho que se você imaginar que a paternidade é um processo transformador muito poderoso,
25:09eu sou um ator mais poderoso, sou um ator mais interessante depois do meu primeiro, do meu segundo, do meu terceiro filho.
25:16Eu acho que sou feliz sim.
25:18Eu faço uma coisa que eu me proponho a fazer.
25:22Eu tenho muita energia para me dedicar a isso.
25:25Tenho uma família incrível, tenho amigos incríveis.
25:28É que as pessoas passaram séculos tentando definir essa palavra.
25:38Filósofos inúmeros tentando dizer para a gente o que é a felicidade.
25:43Talvez nunca tenha sido respondido.
25:44É claro que isso não é pleno, é claro que isso não é 100%.
25:47Mas eu sou muito feliz, eu sou um aventurado, eu sou um abençoado.
25:55Tenho o privilégio de ter coisas maravilhosas na minha vida.
25:59Eu não tenho o direito de achar que eu não sou feliz.
26:01Eu sou muito feliz.
26:04Ser ator para mim é fazer pão.
26:06Mas eu trabalho mesmo com meu pai nas coisas dele, negócios.
26:10E eu também adoro o rio.
26:12Adoro fotografar o que aparece na minha frente.
26:14Vem muito aqui ao Corcovado.
26:16Eu converso com os turistas, falo sobre a cidade, sobre o rio.
26:19E eu também adoro a cidade, sobre a cidade, sobre a cidade, sobre a cidade.
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