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TVTranscrição
00:00Minha família sempre soube da importância da arte na construção do ser humano.
00:12Isso pra mim é muito importante, o teatro não é do ator, o teatro é um veículo de alguma coisa maior que passa.
00:19Se eu não gosto, não adianta. Ninguém me diverte dizendo que gostou se eu não gostei.
00:24Me deixa a sensação de vitória. É esse caso de amor com o público, com o personagem aqui.
00:35Eu sou o Matheus Solano Schenker Carneiro da Cunha.
00:39Nasci em Brasília, mas falo pro povo que eu sou carioca, porque eu fiquei muito pouco tempo lá e eu me criei muito aqui.
00:45Meu pai é diplomata, então por isso estávamos em Brasília, porque eu seria carioca da gelo.
00:50Tanto meu pai quanto minha mãe são cariocas. Fiquei lá pouco tempo, menos de um ano.
00:56Fomos para os Estados Unidos, depois Portugal. Meus pais se separaram e vim para o Rio com quatro anos.
01:00E aqui me formei como gente.
01:03O fato do meu pai ser diplomata me levou a lugares muito... que talvez eu não fosse, caso vontade.
01:10Eu fui para o Peru, eu fui para o Paraguai, eu fui para Portugal mais vezes.
01:14Cheguei a morar em Brasília depois, com 11 anos, uma experiência para ficar um pouco com meu pai também.
01:22E o que mais? República Dominicana, agora ele está na Cidade do México.
01:26Então isso foi muito bacana. Eu acho que foi muito formador da minha pessoa também.
01:29Não me considero uma pessoa internacional, sou brasileiro mesmo, mas despertou desde pequeno em mim, com certeza, uma curiosidade sobre outros costumes.
01:43Como outras pessoas em outros lugares se portam e tal.
01:47E acho que isso foi muito importante para mim.
01:48Eu cheguei a frequentar muito a sinagoga, sempre a sinagoga do Newton Bonder.
01:54Então, assim como minha mãe, eu costumo dizer que eu sou judeu do Bonder.
01:58No sentido que ele tem uma visão muito mais... não sei que adjetivo usar, mas talvez contemporânea do judaísmo.
02:06Tentando trazer para o que a gente vive hoje, citando coisas, é claro, que estão no Talmud, que estão na Torá.
02:12Mas fazendo uma relação com as relações que a gente mantém uns com os outros hoje em dia.
02:16E isso sempre também foi construtor, eu acho, da pessoa que eu sou hoje e tal.
02:22Não o judaísmo em si, mas a visão lançada em cima do judaísmo pelo Rabino Newton Bonder.
02:27A arte começou a aparecer desde sempre na minha vida.
02:30Tanto minha mãe quanto meu pai sempre me levaram muito a teatro, a concertos.
02:34Meu pai é músico também, além de diplomata.
02:37Então ele toca lá o piano dele, já tocou violoncelo, clarinete.
02:40E gosta muito da música clássica.
02:42É um cara, a gente pode dizer que é um erudito até certo ponto.
02:45Então sempre me mostrou, me sentou na cadeira para ouvir uma passagem de violino de determinado concerto.
02:52E às vezes eu falava, meu Deus, vamos lá e tal.
02:54Ele ia e fazia e com afinação e tal.
02:58E sempre, então alguma coisa que mesmo que nem sempre me causasse uma paixão imediata.
03:05Tem muita coisa que eu devo hoje a ter ouvido, a ter sido, às vezes até forçado a ir para um concerto ou coisa parecida.
03:17Então desde sempre a arte esteve presente na minha vida.
03:21E a partir de certa idade, acho que da pré-adolescência, eu comecei a fazer cursinho de teatro e tal.
03:25Já na infância já minha mãe botou.
03:28Porque minha família sempre soube da importância da arte na construção do ser humano.
03:32Isso para mim é muito importante.
03:34Eu acho que faz toda a diferença quando eu vou começar a lançar um olhar sobre um personagem.
03:41Eu sei do poder, do tamanho que a arte tem ou era para ter na vida de cada pessoa.
03:47Eu sempre fui muito palhaço, muito extrovertido também.
03:49Tem isso também.
03:50Então fui canalizando, acho que a pessoa que eu era também, acho que um pouco também psicologicamente da necessidade da aprovação do outro.
04:01Enfim, juntou tudo no mesmo saco e eu acho que aí o teatro se encaixou como uma luva mesmo.
04:07Então eu devo muito, muito a essa paciência, principalmente da minha mãe, que era quem estava do meu lado todo dia.
04:13Para esperar que na hora certa tudo desse certo.
04:19E foi muito tempo depois que eu consegui sair de casa com os meus próprios meios.
04:24A televisão acabou acontecendo e graças a Deus aconteceu.
04:31Mas a minha vontade sempre foi ser um bom, um grande ator de teatro.
04:37E para isso o mínimo que eu tinha que fazer era estudar.
04:42Muita experiência, eu precisava de experiência.
04:44E outra, eu queria fazer uma faculdade que eu gostasse.
04:48Eu tinha que fazer uma faculdade.
04:49Cheguei a falar, não, vou fazer teatro, fazer uma coisa amadora e tal.
04:53Aos poucos eu vou conhecendo as pessoas, lobby aqui, conhecendo aqui e tal.
04:57É um meio também.
04:58Eu lembro da Riane Moschini, quando eu estive lá no Soleil, falando que o teatro é como um passarinho.
05:04De vez em quando, ele vem num momento muito raro em cena, ele pousa no seu ombro.
05:10A primeira coisa que o ator quer fazer é pegar aquele passarinho, botar numa gaiola e prender e ficar com ele para cima.
05:15Mas só de ele pensar em fazer isso, o passarinho já está longe e o ator perdeu.
05:23Só de pensar na possibilidade de ter aquilo, porque o teatro não é do ator.
05:27O ator é um veículo, é alguma coisa maior que passa.
05:30O teatro é sagrado, é alguma coisa que acontece e não pertence a ninguém.
05:38Então, eu sou desse lugar aí.
05:40Eu gosto de estudar, eu gosto de saber o que eu quero com aquele personagem.
05:44Mas eu gosto de estar solto também em cena.
05:46O trabalho do ator de estar no olho de quem está contracionando com você.
05:50A partir do que aquele cara vai te dizer, que você vai reagir dessa ou daquela forma.
05:54Se você prepara uma forma de reagir, você não está vivo, você não está no presente, enfim.
06:02Eu admiro muita gente por muitas coisas diferentes.
06:05E às vezes por trabalhar com a pessoa, às vezes simplesmente porque eu assisto desde pequeno.
06:11Então, entrar na televisão foi uma coisa muito doida.
06:13Porque de repente você está no meio do Fagundes, da Natália Timber, da Natália do Vale.
06:22E até de pessoas que você admira no teatro, que você nunca imaginou que ia trabalhar.
06:26Muito menos na televisão.
06:28Eu lembro muito.
06:29Eu lembro que novela não era uma coisa...
06:32Minha mãe não queria que a gente visse quando a gente era criança.
06:35E pelas cenas que poderiam ter de violência e por ficar na frente da televisão.
06:39E às vezes a gente ia assistir, então, no escondido.
06:44Que rei sou eu, eu assisti todo escondido.
06:47E foi uma novela incrível.
06:50A possibilidade de ter Vessos da Minha Vida foi uma possibilidade financeira.
06:53Porque eu vejo, gente, vai ano, volta ano e cadê que eu ganho dinheiro com essa profissão?
06:57E fiz o vídeo de apresentação, digamos assim, lá na Rede Globo.
07:04E isso foi, isso eu fiz, sei lá, final da década de 90.
07:10Quando é início de 2000, eu tô fazendo essa primeira peça profissional, o homem que era sábado.
07:15E aí me vem um produtor de elenco e fala, olha, aquele teu teste lá nem entrou no banco.
07:19Pô, não entrou, mas eu fiz isso há três anos atrás.
07:23Por que ninguém me ligou e falou, assim funciona, né?
07:26Ficou bom ou não ficou bom? Você não é bom.
07:29E ele viu que eu era bom na peça.
07:31Ele falou, volte e faça outro.
07:33Fiz o vídeo.
07:35E aí fui sendo chamado pra pequenas participações.
07:43Boa noite.
07:45Boa noite.
07:46Meu nome é Deuzimar.
07:51Cadê a bebezinha?
07:52Eu fiz muita comédia, muito programa de comédia e algumas participações em novelas.
08:00Meu pai já acertou tudo.
08:02A gente vai de carro até a fronteira do Paraguai e de lá fica mais fácil.
08:05O Estúdio Angel foi a primeira participação.
08:10Foi o meu primeiro contato com câmera, foi o Estúdio Angel.
08:14Pintei o cabelo, era pra ficar louro.
08:16Fiquei, sei lá, suquita.
08:18Cabelo era aqui.
08:18E o lente azul, né?
08:21Ele era louro de olho azul.
08:22Era a minha cara, tirando que era louro de olho azul.
08:25E foi um trabalho muito importante.
08:27Um trabalho que eu gosto de rever.
08:29Eu falo, caramba,
08:29Eu vejo o meu esforço, o meu amor ali pelo que eu faço e tal.
08:33Minha tentativa de fazer aquilo bem e tal.
08:36E foi muito bem, bem recebido.
08:37Tanto que entrou num DVD depois e tal.
08:39Ficou legal.
08:40Era o Linha Direta Justiça, né?
08:42Que era um Linha Direta histórico, falando do caso do Estúdio Angel,
08:47fazendo o Stuart, brutalmente assassinado pelo regime militar.
08:51Depois me chamaram pro teste do Ronaldo Bôscoli,
09:07porque o Rodrigo Lombardi, que ia fazer o Ronaldo Bôscoli,
09:10foi chamado pra fazer o Rádio.
09:12Foi um grande personagem dele em Caminho das Índias.
09:14Ronaldo Bôscoli.
09:14Contra a Senando Mônica, Juliana Paz.
09:16Foi o que me lançou pro grande...
09:18Eu não quero atender, já falo com jornalistas hoje.
09:20Eu falo que eu sou compositor também, que é pra ela me atender,
09:22que eu não levo nem 10 minutos.
09:24Ele insiste. Diz que também é compositor...
09:26Eu não digo. Eu sou, pô.
09:28Ele insiste?
09:30Então manda o segurança colocar ele pra correr.
09:33Não, minha filha, dá isso daqui.
09:34Alô, Maísa? Alô, Maísa?
09:36Maísa, me dá 10 minutos, por favor.
09:38Hoje eu não falo com mais ninguém.
09:40Alô?
09:43Com comentários incríveis.
09:45Depois, pessoas que tinham conhecido como é que você fez aquele gesto.
09:48era do Bosco, você foi, correu atrás daqui.
09:51Não, não.
09:52O gesto é meu.
09:53Meio acabando um pouco com as expectativas das pessoas.
09:57Mas eu acho que tinha muita saudade também.
09:59Eu entendendo mais ou menos como é que o cara era,
10:02se portava diante de si e do outro.
10:04O que faltava na minha interpretação,
10:08as pessoas encaixavam na memória também, sabe?
10:10Tem muito disso, né?
10:11Metade do que é um papel, metade é o que o ator propõe,
10:15metade é como o espectador também aprende aquilo, né?
10:18Ele tem que ter identificação com aquilo que ele está vendo.
10:21E, enfim, cada um vai aprender aquilo de uma forma diferente.
10:25Você ainda vai comer na minha mão.
10:29Uma coisa muito interessante, minha mulher me falou depois do Bôscoli.
10:34Minha mulher falou, ah, você é um ator de composição, né?
10:37Eu não gostei nada de ouvir aquilo.
10:39E como é que um ator que gosta tanto de estar no presente,
10:43vai gostar de ouvir que ele é um ator de composição?
10:45Ou seja, um ator que, na minha cabeça,
10:47o que ela estava dizendo é que eu era um ator que preparava tudo.
10:51Deixava tudo preparado para estar em cena
10:53e aí agir de determinada forma.
10:56Mas não era isso que ela estava querendo dizer.
10:57Ou era isso também.
10:59O que eu acabei entendendo é que eu jogava nos dois times um pouco.
11:04Eu gosto muito de composição,
11:06de inventar gestos e coisas que caracterizem aquele personagem.
11:10Mas eu gosto também, da mesma forma, eu gosto de estar no presente.
11:17Então o segredo, no meu caso, é estar com todas essas preparações bem apertadas
11:24e depois me jogar ali dentro.
11:26A partir daqui, eu tenho que encaixar aqui, botar a mão aqui, o braço aqui.
11:30E a partir daqui, eu converso com você.
11:32E aí eu posso improvisar, isso pode virar outra coisa.
11:36Eu lembro que no próprio, enquanto eu estava fazendo uma isa,
11:39fumando um atrás do outro, cigarro, muito cigarro,
11:42o Jaime falou, se preocupa não, lá no Talkback,
11:46se preocupa não que na novela não vou deixar você fumar não.
11:49O coração começou a se...
11:50Novela, que novela?
11:52Falei, pô, pode botar na novela, para a sua novela, vamos estourar junto e tal.
11:58Caramba!
11:58Então agora eu entrei.
12:00Porque até então, muitos anos se passaram, eu estava fazendo participações.
12:03Já tinha feito a minissérie JK, já tinha feito até uma participação na minissérie
12:09Um Só Coração, que contava os 50 anos da história de São Paulo.
12:14E muitas participações.
12:16Mas, pô, depois de uma minissérie, uma novela, um personagem numa novela, seria o primeiro.
12:22E aí não foi o primeiro, foi o primeiro e o segundo, porque eram os gêmeos.
12:25Eram dois personagens, então às vezes eu recebia cinco laudas de texto, que era eu, comigo mesmo, falando.
12:34Então eu tinha que decorar aquilo tudo, não tinha respiro.
12:37Eu disse que viria aqui, falaria com o doutor Moretti,
12:40e pediria o seu afastamento do acompanhamento clínico da Luciana.
12:43Até para evitar que essa situação tenha desdobramentos mais graves.
12:46E às vezes eu tinha brigas comigo mesmo, eu tinha um ponto contando.
12:49Um, dois, três, quatro, e cinco, e seis, e sete, oito, nove, dez, foge.
12:55Só que no outro, quando eu virava para lá, era um, dois, três, quatro, cinco, seis, e sete.
13:00Era o contrário, com um tempo a mais.
13:03Era uma bagunça.
13:05E eu aprendi muito.
13:06Aprendi muito por causa disso, pela complexidade de fazer gêmeos, fazer duas pessoas na mesma tela.
13:13E aprendi muito porque eu tive uma grande companheira de cena, que foi a Aline Moraes, que me ensinou muito também.
13:17Peraí, ajudo sim, só se você me der um beijinho.
13:20Peraí.
13:22Aí o Valsir surge, e aí eu engato três novelas com o Valsir, né?
13:28Morde a Sopra, Gabriela e Amor à Vida.
13:33Morde a Sopra me veio primeiro a oportunidade de fazer uma coisa mais cômica, né?
13:39Depois eu fui ver que ele era o único personagem dramático dentro de uma palhaçada.
13:43Um personagem maluquíssimo.
13:46É um encontro mais importante da minha vida, gente.
13:49Eu consegui ter um cientista, e perdeu o grande amor da vida dele.
13:51Vai para o Japão, porque soube que estavam construindo robôs que eram androides parecifícios.
13:57Então ele manda, tenta recriar essa mulher, junto com as memórias e todas as coisas e tal.
14:02Não, espera aí, você disse que você pode me ajudar.
14:05Como?
14:06Quem é você?
14:08Meu cartão.
14:09Eu estou hospedado aqui nesse hotel, mais tarde a gente conversa, tá?
14:12Mas olha, eu garanto que eu posso te ajudar.
14:14Sai, até logo, até logo.
14:18Preciso gostar, eu preciso gostar.
14:20Às vezes todo mundo...
14:20Pô, adorei aquela cena, não gostei não.
14:23Pô, mas eu adorei, tá todo mundo falando que gostou.
14:25É, não adianta.
14:27Se eu não gosto, não adianta.
14:29Ninguém me diverte dizendo que gostou se eu não gostei.
14:32Para mim, o fundamental é eu me surpre...
14:35É mais do que eu gostar, é eu me surpreender.
14:37Falar, go!
14:40Sabe?
14:41Caramba, é...
14:43Nem eu esperava ver isso no meu olho ou ter essa reação.
14:48Bom, então vamos ver que outro autor vai me chegar.
14:58Chegou o Valsir de novo com uma proposta de recusar a fazer Mundinho Falcão em Gabriela.
15:04Tive o primeiro grande bate com Antônio Fagundes.
15:08É muito legal fazer época, né?
15:10Você que é ator, você bota aqueles ternos, você bota sobretudo suspensório, eu adoro suspensório,
15:19sempre que a gente usa suspensório, o máximo suspensório, a calça em cima do rigo e as outras coisas.
15:27Ah, não, a gravata.
15:28Ué, mas a gravata não é aqui embaixo, não.
15:30Nessa época a gravata era aqui em cima e tal, e não era assim.
15:33Você tinha um negócio de depender que o Vanderlei sempre tinha aqui no negócio.
15:38E as abutuaduras e tal, então vestir o personagem, você realmente vestir o personagem.
15:45E se o cabro ousasse, seria posto pra fora, ponta a pé.
15:50Coronel Ramiro Bastos, até agora eu ouvi quieto e respeito a sua idade.
15:54Mas por favor, não me ofenda.
15:56Não tenho tanto direito a estar aqui quanto o senhor.
15:58Tem, não.
16:00Pode-me ser forasteiro.
16:03É que nem o vento, que vem, passa e vai embora.
16:07Eu sou como a terra onde se planta o cacau.
16:11Eu sou daqui.
16:13Mas me sede lugar nenhum.
16:16Engana-se, coronel.
16:19Eu vim pra fincar raízes.
16:21A verdade é que minha intenção no início, ainda levantando bandeira, né,
16:26era de só fazer teatro e conseguir ir pelo alcance e pela profundidade,
16:32por tudo que o teatro pode abarcar e que a rapidez da televisão não chega.
16:36Mas, no fim das contas, cara,
16:42esse último personagem que eu fiz, o Félix, agora,
16:45ele conseguiu uma coisa que eu anteriormente achava que só conseguiria com o teatro.
16:50Ou o público se propor a pensar sobre coisas que ele não pensaria.
16:54Uma coisa que eu achei que só a profundidade ou a complexidade de um texto teatral
17:00ou de uma boa apresentação teatral, e por estar no presente, e por falar,
17:04e por descascar mais a cebola, digamos assim, eu conseguiria chegar.
17:10Quando eu vi que foi na televisão que eu consegui mexer com o público nesse lugar,
17:16de rever paradigmas, de se colocar no lugar do personagem,
17:20pensar o que eu faria no lugar dele e tal,
17:22e caramba, esse veículo não é poderoso só como entretenimento, não.
17:26Realmente, se eu me colocar de coração, e eu me coloco de coração nos personagens,
17:32eu posso...
17:34fazer o público...
17:38refletir, não só se divertir.
17:41Um personagem que é inédito para o próprio Valsir,
17:45para o Maurinho Mendoza, para a Rede Globo,
17:47todo mundo.
17:50Um vilão que é homossexual, que está dentro do armário,
17:54que quer esconder aquilo da família,
17:56e que comete um crime atroz no primeiro capítulo.
18:09Então, dar credibilidade a ele foi um grande, um grande, um grande desafio
18:14que eu e o Maurinho pegamos na mão.
18:18E, primeiro, ele começou muito sério,
18:22e aí depois o Wolf falou, não, solta franga nesse personagem aí.
18:27E foi muito importante ele ter partido do sério para depois soltar franga,
18:31porque aí todo o humor dele vinha, na verdade,
18:35recheado da amargura, da maldade e tal.
18:38Todo o humor dele era para denegrir o outro.
18:40Foi muito importante, eu acho, para a sociedade também ver.
18:43Pô, quem é que está no armário?
18:44É o gay ou é aquele que não reconhece a diferença?
18:47É as particularidades de cada um e não aceita.
18:51E, ó, é o nosso público, a público que a gente tem que conquistar.
18:54Ah, é?
18:54Interessante.
18:56Fácil.
18:57Hã?
18:57Eu não queria falar onde, mas é que está fácil.
18:59Eu acho que eu tenho um charme especial que vai atrair mais clientes.
19:02Não, o que atrai clientes é salsicha.
19:04Não é o seu charme, tá?
19:06Vamos fazer o seguinte, olha, eu vou fazer o hot dog e você fica com o truco.
19:09Ah, que isso?
19:10Não, não, não, não, não, não, não, não, não, não.
19:11O beijo foi muito especial porque foi uma coisa que derivou do público.
19:16É.
19:16É, primeiro da paixão do público pelo Félix e depois da paixão do público pelo casal que aconteceu.
19:23Nico e Félix.
19:25Mais um pouquinho, né?
19:26O Nico virou a mocinha, né?
19:29E o Félix virou um herói.
19:30Nico e Félix não eram para ser um casal no início inédito.
19:33Tinha um triângulo com o Heron e a Mariles.
19:37E, de determinado momento, eu lembro do dia que o Maurinho Mendoza chegou para mim e falou,
19:43olha, essa cena aqui a gente está experimentando para ver o que o público vai achar desses dois personagens juntos.
19:49Em determinado momento, o público começou, mas eu beijo, vai ter beijo, não vai ter beijo.
19:55Um público que era um público gay, inicialmente, foi virando um público hétero também.
20:03E mais do que o público hétero, o público preconceituoso.
20:06E mais do que o público preconceituoso, o público que sabia que era preconceituoso e que era preconceituoso.
20:11O público preconceituoso somos todos.
20:14Félix, eu não vivo sem você.
20:19Eu amo e você, você me cabe nele.
20:24Mas o público, assumidamente preconceituoso, começava.
20:34Não, eu não gosto de ninguém, não.
20:35Mas eu quero esses dois juntos.
20:37Como é que é isso, né?
20:39Meu orgulho maior é de ter entrado no coração das pessoas e feito...
20:45As pessoas, sem eu pedir ou sem ninguém falar, desejarem que essas duas figuras do mesmo sexo se beijassem e concretizassem essa história de amor.
20:58Mas arrisco dizer que a cena mais incrível e a grande e o que eu bato palmas de pé para o Valsir é a última cena.
21:05Quando chegou a última cena, eu falei, meu Deus, como é que ele vai fazer essa última cena?
21:08Eu vou contar a história da novela toda?
21:10E não.
21:12Sabe, pai?
21:14Eu te amo.
21:16Eu te amo.
21:17E o pai vira-se para o filho e fala, eu também te amo.
21:22Meu filho, chamando o Félix de filho pela primeira vez na novela.
21:27Eu te amo.
21:28Eu também te amo.
21:47Meu filho.
21:50Toda a ideia.
21:52Porque a novela inteira, ele chamou Félix, não faz isso.
21:55Félix, Félix.
21:56Félix, não sei o que.
21:57Para de ficar na boca, Félix, Félix, Félix, Félix.
21:59E no final, o Fagundes, que é um monstro, que chega lá e fala, qual o texto hoje?
22:06Ah, tá bom.
22:07Vamos lá, então.
22:07Vamos lá.
22:09E se emociona e faz tudo.
22:12Um craque, né?
22:14Fala, eu também te amo, meu filho.
22:19E aí eu não sabia como não chorar, né?
22:23Estava muito, muito emocionado.
22:26Vamos lá.
22:53Principalmente o que mais me deixa a sensação de vitória é esse caso de amor com o público
23:04que o personagem teve.
23:05Paula e Flora são fundamentais também, da mesma forma como o teatro é fundamental
23:11para o meu trabalho na televisão e em outros meios, Paula, como minha mulher, também é
23:16fundamental para eu ser o ator que eu sou hoje.
23:20Me traz também, puxa, eu acho um pouco essa pipa que vai voar muito ao Léo, que é uma
23:30grande companheira, além de ser uma atriz que eu admiro muito, então a gente tem uma
23:35parceria aí que eu acho que transcende o papai e mamãe, vai um pouco além, e aí vem Flora
23:43que dá sentido também, acho que um filho é o que mais pode, pelo menos na minha experiência,
23:52dar um sentido para a vida.
23:53Ah, tá bom, então eu nasci, cresci e agora para dar tudo para essa menina, para essa menina
23:59agora crescer saudável e tal, dar um sentido um pouco para essa loucura, quem sou eu onde
24:04vou, para onde eu vou, para onde eu vim, então as duas foram, são e sempre serão fundamentais
24:12para mim como ator e também para minha paz, né?
24:15vida, e paz, feliz, e tudo.
24:20O que eu espero da vida é continuar gerúndio, né?
24:22É o meu sentido de continuar indo, continuar gerando, continuar sendo, sempre diferente,
24:29sempre me reinventando, mas sempre do presente, mas o presente eu gosto do Só Sei Que Nada
24:35Sei, do Sócrates, e gosto de imaginar o presente como Deus Supremo.
24:40Eu citei uma coisa que é bacana, as pessoas falam, ah, no meu tempo, seu tempo é agora.
24:46Calma a boca, o tempo é agora, é o que você está vivendo agora, o tempo passou, já é,
24:51até que virá, quem sabe.
24:53Então, se eu puder, o máximo possível, dentro e fora de cena, estar no presente, estar em contato,
25:01e o presente não só com a folhinha que está caindo agora na minha frente, mas quem eu
25:06quero ser agora, melhor.
25:09Ser ator é reinventar o ser humano, colocar ele como espelho na frente do espectador,
25:24um pouco espelhar, refletir e, se possível, atuar também na cabeça do espectador, de quem
25:34está assistindo, espelhar, identificar, um pouco disso tudo.
25:37E aí
25:39E aí
25:40E aí
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