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00:00A disciplina, digamos que é uma coisa básica para o ator e ele tem que ter.
00:18Eu estava com 16 para 17 anos, já tinha feito alguma coisa no teatro mador, teatro estudantil.
00:25Eu levei uns 8, 10 anos para conseguir entrar na televisão, tentando.
00:31Antigamente participava mais, porque ele acompanhava mais intensamente a história daqueles poucos personagens.
00:41Eu fui para São Paulo muito pequeno, fui para São Paulo com 6, 7 anos e fiquei lá, me formei lá.
00:49A minha adolescência foi lá, comecei a fazer teatro lá.
00:52Então, por isso que as pessoas pensam que eu sou paulista.
00:55Mas eu nasci no Lebron, Carioca da Gema.
01:01Minha primeira experiência teatral foi com a ciência dos cardeais.
01:05Na verdade, era uma aula de português.
01:08O nosso professor, em vez de dar aula normal, ele resolveu montar uma peça para explicar para nós o que eram versos alexandrinos.
01:18O Júlio Dantas tinha escrito a peça em versos alexandrinos, que era o dodeca sílabos e tal.
01:25Então, me pediu para a classe escolher três alunos lá para fazerem e nós fomos escolhidos.
01:33O outro cardeal, o português, virou neurologista e o francês virou economista.
01:39O único que foi para o teatro fui eu.
01:42O cardeal tinha 67 anos, eu tinha 12, né?
01:47Eu, outro dia, morri de rir me lembrando como eu fazia.
01:51Aquele cardeal de 67 anos parecia um velho de 200, né?
01:57Porque imagina, eu tinha 12.
01:59Hoje eu estou com 65, eu acho que não faria daquele jeito.
02:04A minha mãe tinha essa mania, uma mania deliciosa.
02:08Ela era aquele público que todo sábado ia ao teatro e eu ficava esperando ela voltar.
02:14Ela voltava e ela me contava a peça inteira com detalhes.
02:17Então, eu lembrava do Pagador de Promessas como se eu tivesse visto.
02:21E não era, era a lembrança da narrativa da minha mãe que ficou isso também.
02:26Deve ter ajudado bastante, né?
02:28na minha vontade, na minha formação artística aí.
02:32Porque eu vi, através dos olhos da minha mãe, muitos espetáculos que eu não tinha condições de ver.
02:38E como ela era um público interessado, um público que gostava muito de teatro,
02:44então ela me passava essa emoção de uma plateia atenta,
02:50uma plateia deslumbrada com o que tinha acabado de ver.
02:55E, naturalmente, eu fiquei com essa vontade, né?
03:00Talvez de deslumbrar as pessoas também, né?
03:04Algumas pessoas dentro do colégio estavam querendo montar um grupo de teatro.
03:09Aí vieram me procurar e eu me interessei.
03:14Mas era tudo assim...
03:15Na verdade, eu continuava estudando.
03:17Eu não tinha ainda na cabeça que eu ia seguir uma carreira de ator.
03:21Nós montamos um grupo e chamamos um diretor profissional para dirigir esse grupo.
03:28Isso foi mais ou menos em 1964.
03:30E nós montamos um brecht em 1964.
03:34E, naturalmente, o espetáculo foi proibido.
03:38Aí nós ficamos famosos dentro do colégio, quase fomos expulsos, né?
03:43Aí o colégio proibiu a gente de fazer teatro lá dentro.
03:47Mas esse grupo, por causa dessa proibição, acabou se unindo.
03:51E nós fizemos, então, montamos um grupo amador.
03:54Aí montamos duas peças.
03:57Uma do Martins Pena e outra do Onil.
04:02E fomos para um festival de teatro amador.
04:06Aí ganhamos sete prêmios nesse festival.
04:08Aí o colégio abriu as portas novamente.
04:10Quando eu vi, eu estava fazendo teatro infantil no Arena.
04:13Fiz teatro infantil durante um ou dois anos no Arena.
04:18E aí a turma do Arena me viu.
04:21Acabei indo para o elenco permanente do Arena.
04:24E quando eu percebi, eu estava com 16 para 17 anos.
04:29Já tinha feito alguma coisa no teatro amador, teatro estudantil.
04:35E quando eu percebi, eu estava profissional.
04:36Desde que eu comecei a fazer teatro, eu sempre achei que era muito importante
04:41num país com as dimensões continentais, como o Brasil,
04:45que a gente tivesse um veículo, que a gente fizesse parte de um veículo
04:49que se comunicasse com um número maior de pessoas.
04:53Eu fazia teatro no teatro de Arena.
04:55O teatro de Arena era um teatro que tinha 100, 150 lugares.
04:59Você fazia um ano de temporada lá e tinha 10 mil espectadores.
05:04Eu achava importante que o ator fosse conhecido,
05:09até para poder trazer mais gente para o teatro,
05:13para poder trazer mais gente para discutir.
05:15O teatro de Arena discutia a realidade brasileira.
05:18O teatro de Arena tinha uma preocupação política,
05:20de atuação política muito forte.
05:23E eu não via sentido em fazer isso para um círculo limitado de pessoas.
05:27E, para isso, eu achava que o ator tinha que ser conhecido.
05:31E ser conhecido era fazer televisão.
05:33Eu levei, mesmo assim, eu levei uns 8, 10 anos para conseguir entrar na televisão tentando.
05:40Eu sempre quis.
05:40Eu me lembro que naquela turma lá, particularmente a turma do teatro de Arena,
05:46eles torciam o nariz para a televisão, porque a televisão era se vender o sistema,
05:50a televisão era tudo de ruim, o capitalismo.
05:54Então, o teatro, que era a resistência, e depois com a ditadura, isso ficou mais claro ainda,
06:01porque era de lá que surgiam as ideias contra o sistema e tal.
06:07E eu sempre briguei com eles todos, porque eu dizia que não, que a gente tinha que fazer televisão.
06:11No fim, todos acabaram fazendo.
06:13Mas o único que fez com convicção fui eu.
06:16E eu fiz algumas coisas antes, mas, realmente, conhecido, eu fiquei conhecido com Mulheres de Areia.
06:22Era um personagem pequeno, que tinha uma trama paralela na novela,
06:27mas que acabou fazendo tanto sucesso ali dentro daquela estrutura,
06:32que ela teve que... ela dividiu, ela fez quase duas novelas.
06:35Uma era a nossa trama e a outra era a trama principal.
06:39A bebê está sentindo falta da casa dela, é natural.
06:43Você ajudou muita gente, viu?
06:45Calma, pé na estrada, senão você vai perder o trem.
06:47Vamos, vamos, vamos.
06:53Olha só, quem veio se despedir.
06:58Tinha uma economia de fita naquela época, a tupi,
07:01então você gravava de dia, ia para o ar, no dia seguinte aquela fita ia para o futebol, né?
07:08Então ficou muito pouca coisa dessa época da TV Tupi.
07:12Mas o machão, o machão também era da Ivani.
07:15Não é!
07:16Mas é só brincadeira, Petrúquio.
07:18Que é isso, Santuza?
07:19Esse negócio de noivado não é assim não, minha filha.
07:21Escuta, será que você não percebeu que a Catarina está espalhando esse noivado com o Mário
07:25só para irritar você?
07:26É, por que ela ia fazer uma coisa dessa?
07:28E fez um estrondoso sucesso.
07:31A quarta novela maior de duração da história da telenovela brasileira
07:36teve 375 capítulos.
07:42Saramandai, que foi a minha primeira novela na Globo,
07:46com a direção do Avancine, que foi um trabalho maravilhoso.
07:50E aí eu nunca mais saí, estou há 38 anos na Globo.
07:55Seu prefeito, eu estou aqui à sua espera.
07:57Se eu soubesse, eu tinha vindo mais cedo.
07:59Eu sempre chego cedinho.
08:01Hoje é que eu resolvi pernear, perneando por aí nesse perneamento que faz parte do ofício de prefeito.
08:08Eu acho que o senhor já avaliou por que é que eu estou aqui.
08:12Não tenho a menor ideia, doutor.
08:15Ninguém seria capaz de entender isso, o que é uma censura, com tanta força, quanto um ator.
08:22É a comunicação dele, tudo pelo qual ele se preparou a vida inteira para fazer, é violentamente seccionado.
08:35Essa comunicação com o público não permitida é uma violência muito grande.
08:42Despedido de casada.
08:43Foi logo depois, foi logo depois.
08:46Era com a Regina Duarte, foi o primeiro par que eu fiz com a Regina.
08:53E era uma novela que falava de divórcio.
08:56Imagina, a censura não permitia se falar de divórcio.
09:00A censura sempre é uma coisa burra, né?
09:02Mas eles proibiram integralmente mesmo a novela.
09:07Era um casal que se separava e a briga era divorciar ou não divorciar, se era possível, se não era.
09:15E tinham as sessões de psicanálise.
09:17Era uma novela interessante do Walter Jorge Dustin.
09:21Nós chegamos a gravar 20 e tantos capítulos e a censura foi total.
09:29Proibiu a novela.
09:30Mas pra que me assustar assim logo de manhã, Estela?
09:34Se a gente me fazia começar o dia...
09:35Desculpe.
09:36Ah, desculpe.
09:39Vai, eu tô atrasado.
09:42Mas já não tinha a gente conversa, tá?
09:46Tá?
09:47O Dancindês foi a minha primeira novela no horário das oito.
09:51O Cacá era uma espécie de alter ego do Gilberto.
09:54Não, o Gilberto estudou pra diplomacia, ele falava diversas línguas, ele, enfim, a relação dele com a mãe tava meio colocada ali na novela.
10:07Então era uma espécie de alter ego dele.
10:10Foi muito, muito bom eu fazer aquele personagem sabendo que podia ser o autor, né?
10:18É, foi muito divertido também.
10:21E a novela, nossa, foi realmente, foi muito sucesso.
10:25Qual é? Vai chamar a polícia porque eu atropelei um vinho ao lado que não sabe onde ando?
10:29Grandfino desgraçado!
10:31Amante criado!
10:32Se fosse um cachorro de raça, você vinha salvar, não vinha?
10:36Quer sair da frente pra eu passar?
10:37Que realmente era um personagem masculino forte.
10:43Foi quase uma reivindicação minha que eu dizia pra ele assim, faz uma Maria pra mim que eu faço o Mário, né?
10:49Me dá uma mulher aí que eu faço, porque os seus personagens são muito fortes, elas têm, os personagens femininos, né?
10:56Elas têm atitude, elas têm poder, elas são cheias de opinião.
11:03Então, que ótimo, né? Eu acho maravilhoso isso.
11:06Mas você diz que não sabe escrever pra homem, é só mudar o nome, né?
11:09Ele dizia que não sabia escrever pra homem.
11:12E aí a gente conversando, você tem que escrever um personagem pra mim, tem que escrever um personagem pra mim.
11:17Desde que eu vi essa garota pela primeira vez, não consigo tirar da cabeça.
11:21Eu vim pra cá num rompante, a figura dela no altar, né?
11:26Calma, Felipe, vai casar com um funcionário teu.
11:29Não era o teu ingênuo, você tem cancha suficiente pra um dia andir uma obra.
11:33Vai ser hoje.
11:34Por que você tá falando?
11:35Você ouviu muito bem o que eu tô dizendo.
11:36Eu quero essa garota antes dele.
11:39Eu tenho direito.
11:40Calma, Felipe era o dele, e a garota tá bom.
11:42A novela teve alguns problemas, né?
11:45De aceitação do público, e ele foi obrigado a mudar um pouco a estrutura do personagem e tal,
11:52mas ele guardou aquilo, a novela inteira, no final eu falo,
11:56ó, não, ele não é assim, não, como vocês queriam que ele fosse, ele é como eu quero.
12:01Eu acho que foi o autor com quem eu mais trabalhei na televisão foi o Gilberto.
12:06Eu devo ter feito umas seis ou sete novelas pra ele, eu nunca parei pra contar.
12:10Impossível.
12:12Impossível eu ter me formado em medicina, ter feito mestrado nos Estados Unidos,
12:17doutorado na França, com babaca do meu pai, não botando nenhuma grana na minha mão.
12:22E a chata da minha mãe me empurrando qualquer jaburu rico de São Paulo pra eu fazer um casamento de conveniência.
12:28Impossível é na minha idade.
12:29Eu tenho internacionalmente o nome que eu tenho, a posição que eu tenho.
12:35Eu posso tudo.
12:36O trabalho do ator, ele é basicamente isso.
12:40E observar não quer dizer só ficar observando.
12:43Observar quer dizer ler bons livros, ver bons filmes, acompanhar o trabalho dos colegas em teatro,
12:50boas peças de teatro, ouvir boa música, se preencher, digamos assim,
12:59de coisas que possam te ajudar um dia.
13:01Mesmo que você não saiba quando, você um dia vai usar isso.
13:05Então a observação inclui viver, inclui prestar atenção na vida, prestar atenção nas coisas ao seu redor.
13:14A disciplina, digamos, que é uma coisa básica pro ator e ele tem que ter.
13:19Aqueles que acham que o ator é indisciplinado é porque talvez não tenham conhecido atores.
13:25Porque as pessoas que não são disciplinadas não conseguem ser bons atores.
13:31Então a disciplina, digamos, que é uma característica básica.
13:35A outra é o interesse.
13:38Realmente, o interesse diferencia um ator do outro.
13:42Um ator mais interessado, ele vai refletir no seu trabalho esse interesse pro público.
13:49E o público, naturalmente, talvez se interesse mais pelo trabalho dele do que por um outro.
13:55E a paixão, a paixão sem paixão não dá, porque é difícil.
13:58É complicado.
13:59É uma profissão que exige muito da pessoa fisicamente, emocionalmente,
14:07em termos de predisposição, em termos de estudo.
14:11Eu estou falando sempre do ator sério, né?
14:16Do ator que quer realmente seguir a profissão.
14:19Porque hoje em dia se misturou um pouquinho você ser ator e ser celebridade, né?
14:25Dentro do mesmo segmento.
14:27Ser celebridade hoje em dia é fácil, né?
14:31O difícil é manter isso aí, né?
14:34Manter essa, digamos, exposição.
14:38É sempre emocionante quando você vê um colega teu tão empenhado no trabalho quanto você está.
14:54Imagine você, que prazer que não é você poder trocar com esse colega,
15:00nem que seja uma bobagem de um olhar, de um momento inesquecível, realmente.
15:05A Natália eu fiz muita coisa.
15:07A Ana Fernanda eu fiz pouco em televisão.
15:09Mas a Natália eu fiz uma.
15:10Ela foi minha parceira, minha sogra, minha mãe, muitas novelas.
15:14A Natália é uma querida também.
15:16Na verdade, eu fui o quinto a ser chamado pra fazer o Renascer,
15:20porque teve uns outros quatro que não quiseram, não puderam fazer antes de mim.
15:25E aí eu até nem tinha idade pra fazer o personagem,
15:28porque o personagem era muito mais velho do que eu, né?
15:31do que eu era na época, né?
15:34Renascer, eu acho que eu tinha uns...
15:38Eu acho que eu não tinha nem 50 anos no Renascer.
15:41E era um personagem que devia ter os seus 70, mais ou menos, né?
15:44Então, tinha que ter um peso que eu achava que eu não tinha na época.
15:49E aí sim, aí nós fomos jantar.
15:52O Benedito é o quinto a ser chamado, né?
15:55E aí nós sentamos no restaurante e o Benedito, ele é a emoção em estado puro, né?
16:02Então, ele começou e falou, eu vou contar pra você a última cena do Renascer.
16:08Mas já é uma coisa inusitada, né?
16:09A novela nem começou, ele já tinha a última cena pronta.
16:12Ele contou mais ou menos as premissas da novela e contou a última cena.
16:17E nós terminamos, claro, os dois aos prantos no restaurante.
16:20E eu falei, eu topo, essa eu faço.
16:23E realmente foi uma novela extraordinária, né?
16:26É, a gente brigou tanto, não é mesmo?
16:29Fica.
16:32Só me perdoa.
16:35A gente chora sempre, não é só no final.
16:38Se é emocionante, a gente se emociona junto.
16:40O Benedito é, o Benedito eu fiz bastante coisa com ele também, todas bem, bem fortes, né?
16:47Só se...
16:50Só se você...
16:57Me dá um abraço.
17:05E eu tô aqui, filho.
17:06A viagem, eu acho que já foi reprisada umas três ou quatro vezes e sempre com muito sucesso.
17:22É uma novela muito bem escrita pelo Ivani e com uma história fascinante, né?
17:27Eu brincava que era a única novela que o público torcia para a heroína morrer, né?
17:32Porque eles se encontraram no céu.
17:34Fora o Rui e o Gilberto, eu fiz umas duas do Aguinaldo, uma do Silvio, uma do Cassiano.
17:49Eu fiz poucas fora os dois.
17:51Os dois, somados, devem dar aí umas dez, onze novelas.
17:55Duas Caras, eu adorei fazer, né?
17:59Duas Caras também não era para eu fazer.
18:01Duas Caras era o personagem que ia fazer, era o Zé Maia.
18:04E aí, quando passou para mim, eu lia, é interessante isso, né?
18:12Você vê o autor nitidamente escrevendo para um determinado ator, né?
18:17Você via lá o jeito de respirar, porque eu já tinha escrito 20, 30 capítulos, né?
18:22Então eu via o jeito do Zé Maia respirar, eu via, mas eu não posso fazer assim, eu não sou assim, né?
18:28E aí eu fiz do jeito que eu achei que tinha que ser e foi muito prazeroso isso.
18:34Foi muito bom, porque o Aguinaldo, apesar do choque que ele deve ter levado, né?
18:41Concordou com a linha do personagem e foi um personagem muito forte.
18:45O Juvenal Antena era um personagem bem interessante.
18:50Eu tive muita sorte em televisão.
18:52E depois vai ter o maior Frege, que a gente não pode esquecer que a minha filha também vai estar casando.
18:57Eu vou querer comemorar, mas é em grande estilo.
19:00Eu não tenho a menor dúvida de que vai ser a festa mais linda que a Portalinha já viu.
19:06Você pegava uma história com 35 personagens, é claro que os 35 personagens tinham importância dentro daquela história.
19:14E é claro que qualquer coisa que acontecesse com os outros 33 ia afetar aqueles dois cuja história nós estávamos querendo contar.
19:22Hoje em dia tem 200 personagens.
19:24Eu fiz novelas que eu não cruzei com colegas meus.
19:29Tem gente que fala, você fez essa novela?
19:31Fiz?
19:31Ah, pois eu também, porque a gente não se encontra.
19:33Então, quer dizer que se a gente não se encontra para gravar, as histórias não são as mesmas.
19:41Eu acho que isso daí deu uma diluída na relação da telenovela com o público.
19:48O público, antigamente, participava mais, porque ele acompanhava mais intensamente a história daqueles poucos personagens.
19:57Eu queria saber por que é que está todo mundo tão cabreiro, hein?
20:02Olha, esse tênis mocinho também.
20:06É, aconteceu, é isso aí.
20:08A gente fez dois anos de carga pesada, né?
20:11Foi muito sucesso, passava tarde à noite, mas tinha um ibope muito alto e tal.
20:20E aí, aquelas coisas, acabou saindo do ar.
20:22Eu nunca me conformei com isso, eu sempre achei absurdo ter saído do ar, porque tinha um público muito grande, um público ativo.
20:29Pensa bem nisso que você está fazendo, hein?
20:31Aqui tem lei, pô! Aqui tem lei!
20:3325 anos depois, eu consegui fazer voltar.
20:37No primeiro dia de gravação, dessa volta aí, eu e o Stênio e tal, aquela coisa,
20:43nós tínhamos uma cena que o diretor falou assim, então aí vocês sobem no caminhão,
20:46o caminhão tinha três degraus, assim, para subir o caminhão alto, né?
20:50Vocês sobem no caminhão, entram e saem, vai, vai.
20:52Nós fizemos uma vez, fizemos duas vezes, aí, estavam vendo lá se tinha dado tudo certo,
20:57nós estávamos sentados, assim, no chão, o Stênio falou assim,
21:01Fagundes, esse caminhão está mais alto, né?
21:05Eu falei, está há 25 anos mais alto.
21:09Nós não estávamos aguentando subir na boléia, a gente, quando fez a primeira temporada,
21:14a gente era mocinho, pulava, fazia.
21:17Vai com calma, Pedro. Vai com calma, vai com calma, vai com calma.
21:22Só não quero deixar meu dinheiro aqui, de jeito nenhum.
21:25Mas também não precisa ficar com estresse, né?
21:29Não me sentiria confortável de saber que as pessoas gostam, independente do que eu esteja fazendo, né?
21:36Eu gosto de saber que é possível cair da corda bamba, né?
21:40Eu costumo brincar que teatro é um salto triplo mortal sem rede, né?
21:46Então eu gosto de saber que eu estou me arriscando.
21:49E eu gosto de me arriscar.
21:51Se você pegar, inclusive, o meu currículo, as coisas que eu fiz,
21:57você vai ver que houve sempre uma vontade de arriscar, né?
22:01Uma vontade de quebrar com o parâmetro anterior, sempre que era possível, né?
22:06Então, saber que tem alguém acompanhando esse processo e perdoando os erros e gostando dos acertos,
22:19pra mim é mais confortável do que saber que eu sou preferido.
22:23Porque aí isso quer dizer que não estão prestando atenção.
22:26Isso quer dizer que se a gente acusar o Jeremias de ter roubado teu pai, a mãe e a irmã dele,
22:30a gente vai ter que provar isso, né?
22:31É, a gente é que vai ter que provar.
22:34Aí eu me pergunto, como?
22:36Tem jeito, né, pai?
22:38Eu não vejo como, minha filha, não vejo como.
22:40É uma profissão onde você usa, realmente, cada parte da sua vida.
22:46E isso é muito bonito, não tem aposentadoria, né?
22:50Realmente é um exercício constante.
22:53Por isso que eu digo que não dá pra você fixar, né?
22:55Porque não é...
22:56O cara não é um bom engenheiro, ele fez esse prédio, o prédio tá lá.
23:00Não, ele tá em construção ainda, né?
23:03Até os 90 anos ele vai estar se construindo.
23:07O que não quer dizer que eu esteja realizado.
23:09Quer dizer que esse processo se encerrou bem.
23:12Agora eu vou começar um outro que eu não sei o que vai acontecer, né?
23:16Esse salto triplo mortal sem rede é o que me entusiasma, né?
23:21As pessoas falam, quando estreia, dá um friozinho na barriga?
23:24Dá muito friozinho na barriga, sempre, né?
23:27E é bom que dê, porque quer dizer que você tá vivo.
23:31Quer dizer que você tá prestando atenção no processo mesmo.
23:34E pode errar.
23:35Eu casei com esse peixão aí.
23:40Ô, Caio, o respeito, né?
23:42Minha mãe, né?
23:42Por favor, né?
23:48Vida nova, tudo, tudo, tudo novo.
23:52Amor à Vida é uma novela que eu fui chamado pra fazer 40 capítulos.
23:56O personagem ia morrer no capítulo 40 e criar um conflito lá interno entre a família,
24:01de herança, de disputa de poder e tal.
24:05E aí eu tenho a impressão que o Valci percebeu outros caminhos dentro da novela.
24:12E eu passei pra morrer no capítulo 80, né?
24:15No fim, eu acabei fazendo os 220 que a novela teve.
24:20E ainda ganhei de presente aquela cena final,
24:23que realmente é uma cena que ele encaminhou muito bem, magnificamente.
24:27E o Solano é um ator delicioso pra gente trocar em cena,
24:47então só podia ser uma cena emocionante,
24:50porque ela realmente tava muito bem alicerçada.
24:54O Mauro, o Maurinho, o Mauro Mendonça Filho,
24:58também encaminhou muito bem a trama pra aquele momento.
25:02Ela foi... era perfeita.
25:05Eu também te amo.
25:07Você vê que uma cena, às vezes,
25:09uma cena não precisa de muita coisa, né?
25:11Só duas emoções, né?
25:14E uma troca.
25:15Toda peça que eu faço, eu faço um bate-papo com a plateia.
25:27E sempre pergunto, como é que é trabalhar com o filho e tal?
25:30O filho fica até o segundo sinal, né?
25:32Até o segundo sinal é o filho abraça, beija, ai que bom.
25:36No terceiro sinal, entra em cena um profissional
25:39e encontra com outro profissional.
25:43Que por um acaso, depois que sair de cena,
25:45serão pai e filho.
25:46Mas eu preciso, e eu tenho certeza que ele também,
25:49nós precisamos um do outro,
25:51quando a gente tá trabalhando, de bons profissionais.
25:54E nós dois somos bons profissionais.
25:56Então, a emoção que dá é a emoção de trabalhar com um bom profissional.
26:02Que por um acaso, depois a gente abraça e beija, porque é o nosso filho.
26:05E foi uma coincidência, porque ele tinha sido chamado para fazer um teste para a novela
26:12e ele passou.
26:14E não era para fazer essa novela, porque eu tinha acabado...
26:17Aliás, eu estava fazendo Amor à Vida, né?
26:20Quer dizer, era praticamente impossível eu fazer a novela do Benedito
26:26por causa dos horários de gravação.
26:29Mas aí o Luiz Fernando veio falar comigo, o Benedito me ligou,
26:33e eu adoro os dois, e eu falei...
26:37Tá, vamos tentar.
26:40Bom dia, senhor Giacomo.
26:41Como é?
26:42Sim, sim. Bom dia.
26:44Melhor não podia estar.
26:47Posso servir alguma coisa?
26:48Não, não.
26:49O senhor faz ideia de quanto pode custar um metro quadrado de terra aqui na Vida?
26:52Só com disciplina, paixão, interesse, você consegue reproduzir esse frescor diariamente.
26:59E eu me orgulho muito de ver que o Bruno tem isso.
27:02Porque tudo, tudo aqui foi doado pelo senhor Pedro Falcão.
27:06A igreja, a venda e a escola, tudo, tudo, tudo, essa vila só existe por causa dele.
27:1148 anos de profissão.
27:14A busca da felicidade é uma coisa que eu nunca me preocupei, não.
27:18Eu não busco felicidade, eu quero estar em atividade.
27:23Outro dia eu li uma coisa bem interessante, dizendo que a depressão,
27:25o oposto da depressão não é a felicidade, é a atividade.
27:31O depressivo, ele não quer fazer nada, não.
27:34Eu tenho uma ânsia de fazer tanta coisa que eu acho que eu nunca vou ficar depressivo.
27:40Então, é isso que eu busco.
27:42Atividade.
27:43Produção.
27:44O ator é aquele que é capaz de percorrer todos os dias
27:51um caminho que talvez a plateia leve uma vida inteira.
27:57E outro para a tristeza.
27:58O ator é aquele que eu acho que eu acho que a importante é depois.
27:58Eu estou aqui no começo.
28:15Vamos lá.
28:16Amém.
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