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A megaoperação no Rio de Janeiro levanta questões sobre o preparo das forças de segurança.

No Visão Crítica, o advogado criminalista Miguel Kupermann questiona a inexperiência dos agentes em campo. Ele critica a prática de enviar policiais com apenas 40 dias de formação para uma operação de alta complexidade e letalidade.

Confira o programa na íntegra em: https://youtube.com/live/EJY9M4xijUA

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Transcrição
00:00Miguel Cuperman, o que chama a atenção, se a gente fosse fazer um levantamento histórico,
00:06em 2010, o governo Sérgio Cabral, Beltrame era o secretário de segurança pública,
00:14tinha sido criado os OPPs, que era uma experiência que parecia naquele momento exitosa.
00:20Tem uma operação, ficou muito conhecida, com blindado, salvo engano, até da marinha,
00:25e uma foto de um soldado fincando a bandeira brasileira no morro.
00:32Eu achei aquilo pavoroso, pelo seguinte, eu me lembrei naquele momento, já disse aqui a vocês,
00:38tomada de Berlim, final de abril de 1945, um soldado soviético no parlamento alemão,
00:44no hashtag nas ruínas, fincando a bandeira da União Soviética.
00:48Aí nós estamos no final da Segunda Guerra Mundial, e a batalha de Berlim foi uma das mais sangrentes,
00:54uma das mais sangrentes da Segunda Guerra, foi a batalha de Senangara, 2 milhões de mortos.
00:59A humanidade foi salva na batalha de Senangara, a humanidade, não é a guerra, a humanidade.
01:06Mas na batalha de Berlim, ali explica-se.
01:09Agora, quando eu vi aquilo no nosso país, a bandeira brasileira, como se lá fosse um território,
01:15que não fosse o Brasil, dentro do Rio de Janeiro, eu falei, mas isso é intolerável,
01:18e as pessoas comemoraram.
01:19Eu pergunto, pegando esse gancho, como é possível a gente chegar a uma situação
01:24que você tem territórios liberados?
01:26Então, eu insisto, estão falando do Rio, mas não é só no Rio, mas no Rio em especial.
01:31E aí, pegando o gancho dito anteriormente, Paulo Alessandro Vicara,
01:35a questão de que as autoridades estaduais consideram que não têm condições por si só
01:40de ter o controle sobre a capital do estado.
01:42Eu não estou pedindo que eles tenham controle sobre a cidade de Campos,
01:46que está no norte do estado.
01:47Isso porque, no orçamento do Rio de Janeiro, o maior gasto é com segurança pública.
01:53Você pega o orçamento do Rio, segurança pública está aqui, saúde está aqui, educação está aqui.
01:58Dinheiro não falta.
02:00Tem uma fortuna.
02:01Teve uma intervenção na área de segurança em 2018.
02:05Lá.
02:05Muito dinheiro do governo federal.
02:07Se somar com Copa do Mundo, Olimpíada Pan-Americano, mais dinheiro também para de segurança.
02:14A pergunta é, para onde foi todo esse dinheiro?
02:18Mas, é claro que eu não quero que você responda isso.
02:20Mas, Miguel, como é que é isso?
02:22Quer dizer, como é possível uma autoridade, seria a casa de pedir demissão?
02:26Se o Brasil fosse um país sério, o governador pegava e ia embora para casa.
02:31Na hora que um governador de estado, eu estou dizendo isso a você,
02:34assume o compromisso que não pode ter o controle sobre o seu território, você tem que ir embora.
02:38Aí entra o tropa de elite, né?
02:41Pede para sair.
02:42Não é assim que o Capitão Nascimento fazia?
02:43Inclusive, foi o episódio do golpe do Rio de Janeiro, a origem.
02:46Pede para sair.
02:47Você não controla o seu território.
02:49Nós estamos na segunda cidade mais populosa do país.
02:52E eu falo, como fazer?
02:54E lembrar que os últimos cinco governadores, todos foram presos do Rio.
02:59O Tribunal de Contas do Rio, em certo momento, eram sete?
03:03Cinco presos, dois soltos.
03:05Para fazer a reunião do Tribunal de Contas, era na cadeia.
03:07É lá que você tinha a possibilidade, você tinha de realizar a reunião.
03:11Quer dizer, não dá.
03:13O episódio Marielle Franco só foi resolvido pelas forças federais.
03:16E até hoje não terminou a história do Brasão também.
03:21Então, é uma situação.
03:22E a gente vai convivendo.
03:24Eu tenho dó de quem vive nessas situações.
03:27Especialmente, não só da população sequestrada nos morros pelo crime organizado,
03:31mas já das classes médias e, em suma, do conjunto da sociedade do Rio.
03:36Desculpe essa longa intervenção, mas, Miguel, como é que fica isso já na tua área,
03:41trabalhando com crime organizado e tal, essa questão do controle territorial?
03:48Professor, isso é simplesmente inadmissível.
03:50Por isso, o Estado tem o dever, no Estado Democrático Direito, de cumprir mandados de prisão,
03:55de busca e apreensão, é entrar no território que lhe pertence.
03:58E, pegando um pouco do que o coronel falou, justamente, criar este atrito sem uma estratégia
04:05de ocupação desse território, de retomada, e não tem como o Estado já usar a justificativa
04:11de que não dá, que ele não alcança, porque o Estado tem que conseguir.
04:14O Estado é preparado para isso, ele é treinado, ele é financiado,
04:17não é como quase um guerrilheiro do Comando Vermelho, por assim dizer.
04:21São policiais, então, acho que precisa, de algum modo, talvez no Rio de Janeiro também
04:27profissionalizar essa questão, pensar com mais estratégia.
04:30Uma coisa que me chocou muito é o fato de que um dos policiais mortos na operação do Rio,
04:34ele tinha 40 dias de formado.
04:35É inaceitável isso.
04:36Isso é inaceitável.
04:37Como que um policial com 40 dias de formado vai para uma operação dessas?
04:42E a título de comparação também, pegando um pouco o que o coronel falou,
04:45eu pesquisei hoje, não achei registro, há três anos, das forças de defesa de Israel
04:50matarem na guerra de Gaza em um dia sem terroristas.
04:54São treinadas, preparadas, lógico, tiveram 100 mortes, mas sem terroristas identificados.
04:59Como que a gente coloca um cidadão, um profissional, acabou de se formar para ser um agente de segurança
05:05nessa linha de tiro?
05:07Da mesma forma como a gente coloca a população.
05:10Eu estava conversando hoje com um colega, Felipe Gomes, da Marcha das Favelas,
05:13e ele me contou justamente isso.
05:15Ele falou, Miguel, o Estado entra, bate, atira e sai, daqui a 90 dias tem outra operação,
05:21a mão de obra para substituir esses 120 e poucos que foram mortos,
05:25ela aparece ali, não é difícil para o crime encontrar essas pessoas,
05:33mas é importante, de fato, tirar aqueles fuzis.
05:35Foi a maior apreensão na história do Rio de Janeiro de fuzis.
05:38Isso de algum modo retarda, mas eu acho que é urgente a gente pensar
05:42o que vai fazer com esses territórios, como a gente vai entrar, como vai ocupar.
05:46O exemplo do Beltrame é muito bom, recentemente li o livro dele,
05:50Todo Dia Segunda-feira, ele pontua que aquela retomada do Complexo do Alemão,
05:53uma cena chocante, a bandeira, os traficantes fugindo,
05:57praticamente em 30 minutos, numa força conjunta de segurança,
06:02com a Marinha, com as Forças Armadas.
06:03E por que que não deu certo?
06:08Não foi em razão da operação, a operação foi bem sucedida naquela época.
06:11Não deu certo pela política de segurança que a gente implementou a partir disso.
06:15Não deu certo porque o Cabral foi preso, acabou o UPP,
06:17o UPP também foi totalmente desvirtuado, a gente viu as decisões das milícias.
06:21O caso Amarildo? É o caso Amarildo que foi numa UPP.
06:24Uma UPP.
06:25Que é uma coisa tenebrosa.
06:26É um cartão postal quase da cidade do Rio de Janeiro, tem turismo na Rocinha, imagina que loucura.
06:33É incrível.
06:33E hoje, aparentemente, o DOCA está escondido lá e lá o Estado ainda não entrou também.
06:39Almir, antes, eu vou... Desculpe sempre passar pela história,
06:43vocês que nos acompanham, mas afinal é a minha profissão, né?
06:46Se o governador fosse governador, ele estaria na invasão.
06:51Eu vou dar um exemplo de uma pessoa polêmica.
06:53O Rio de Janeiro foi Estado durante 15 anos, 1960, 1975.
06:59Sabe qual era o nome do Rio de Janeiro? Estado da Guanabara.
07:02O primeiro governador eleito foi um político muito polêmico.
07:05Jornalista, tradutor, melhor orador da sua geração e brilhante administrador.
07:10Porque tudo aquilo que estão vendo lá, as grandes modificações no Rio de Janeiro,
07:14foi justamente na gestão do Carlos Lacerda.
07:17Esse eu conheço bem porque eu li seus discursos, não cheguei a conhecê-lo.
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