00:06A tarifa global de 15% imposta pelos Estados Unidos estabelece um novo piso para o comércio
00:13internacional e por ser aplicada de forma uniforme, mantém a competitividade relativa
00:19do Brasil e assegura alíquota zero para setores estratégicos, como carne, café, celulose
00:26e também aeronaves. E para falar sobre os impactos, eu converso com o diretor-geral da C-Café,
00:32Marcos Matos. Marcos, muito bom dia para você, seja bem-vindo aqui ao Prémarket.
00:39Olá, Soraya, Mariana, uma satisfação enorme estar com vocês novamente.
00:45Bom, dito isso, o que foi anunciado aí nos últimos dias, de fato, mudou o peso das tarifas.
00:51Como o C-Café recebe, aliás, o dia de hoje, qual é a sensação dessa terça-feira e como avalia
01:00a prática dessas novas tarifas globais de 15% em que o tarifácio sobre quase metade dos produtos
01:07brasileiros deixa de valer?
01:10Bom, para nós o tarifácio foi um grande pesadelo entre agosto, 6 de agosto e 20 de janeiro,
01:18quando pegou todos os cafés com uma alíquota de 50%. A gente teve ali um prejuízo de
01:22400 milhões de dólares, isso refletiu nas nossas exportações, e até agora os Estados Unidos
01:26ainda estão na segunda posição. Tradicionalmente, é o maior comprador por ser o maior importador
01:30do mundo, mas a Alemanha passou os Estados Unidos. Veja o tamanho desse impacto.
01:34A partir de 20 de novembro, isentou para os cafés verdes, que representam 90% das nossas
01:38exportações para os Estados Unidos. Nós estamos falando do mercado de 2,5 bilhões de dólares.
01:42Mas o café solúvel ainda estava com aquelas taxas tão elevadas, e qual é o problema
01:48disso? É quando você tem uma taxa e o seu concorrente tem outra. O que a gente quer
01:51é isonomia. Então, o que a gente tem agora? Zero para o verde, porque mantiveram os anexos
01:58com as isenções, e o verde e o café solúvel industrializado, que estava tão mais taxado,
02:04fica com 15%. E a gente fica com a igualdade de muitos outros países. É claro que há uma
02:09confusão muito grande ainda, que os nossos parceiros estão estudando. Por exemplo,
02:13quem já fez acordo comercial, já definido, tem alíquotas, às vezes é mais alto que
02:1815%, às vezes é mais baixo. Quem está mais baixo está comemorando, quem está mais alto
02:22vai debater, vai pedir explicação, como a União Europeia. Então, veja como a gente
02:27está numa complexidade muito grande. E os juízes da Suprema Corte não entraram em
02:32todas essas temáticas mais complexas nos seus votos. Então, a gente tem ainda muitos
02:36assuntos, há muitas confusões. Por isso, estamos em Brasília, temos uma agenda com
02:41o vice-presidente-geral do Alckmin na quinta-feira. Então, há todo um trabalho a ser feito nesse
02:45sentido.
02:46Agora, do caso específico do setor de café, ele foi um dos que a gente sempre comentou
02:51no período do pesadelo que você mencionou, comentou que era o que menos fazia sentido
02:56para a própria economia americana. Quer dizer, sobretaxar um produto que não é produzido
03:02internamente, que só provoca desvios do ponto de vista de fornecimento mesmo, sem benefícios
03:08concretos para a economia americana, não faria muito sentido. Com tudo isso, isso chegou
03:13a ser, contou naquele momento para desfazer e como é que isso tem efeitos daqui em diante?
03:18Quer dizer, o fato de ter mais a ver com a competitividade, como você trouxe, com outros
03:22países e, em tese, para encarecimento puro para a economia americana, isso deixa de ser
03:27uma questão. Como é que está esse aspecto sobre o café?
03:30Olha, para nós, com um grande estresse, por essas razões, levou um tempo para os índices
03:35inflacionários mostrarem a realidade para a administração norte-americana. O índice
03:41de inflação do café foi oito vezes acima da inflação média norte-americana e temos
03:46que lembrar o seguinte, 76% da população americana tomou café no dia anterior. A gente
03:50falou muito nos preços dos ovos, que também pesou bastante na inflação, mas 30% dos
03:55norte-americanos comeram ovos no dia anterior. Então, veja, os Estados Unidos, na sua independência,
04:01abraçou o café e abandonou o chá. Então, o café é um símbolo cultural, tem uma importância
04:06muito grande. Mas há também uma confusão geopolítica também muito grande, na mesma
04:11medida. Então, muitas vezes, a gente esperava os índices inflacionários mostrarem as insatisfações
04:16das pessoas e colocar o tema na pauta. Acho que esse era o grande problema. Nós temos
04:22guerras no mundo, nós temos tensões nucleares, nós temos ali vários territórios do mundo
04:28em discussões. Então, tudo isso fica na frente da pauta. E a gente não havia um momento
04:33para deliberar sobre esse assunto. E a gente ainda tem uma coisa a mais no Brasil que também
04:38prejudica e pode prejudicar todos, que é a investigação 301. Nós temos a China, Nicarágua
04:43e o Brasil com a investigação em aberto. É extremamente político. Se nós não tivermos
04:48bem entre os dois países, com as propostas na mesa que vão muito além do agro, não
04:53só o agro, mas muito além do agro, a gente corre um risco de ser punido novamente. E
04:58como a investigação é contra nós, por assuntos de deslealdade, incompetitividade, que é
05:03totalmente distorcida. E eu posso falar, eu estava na audiência pública em Washington,
05:06o C. Café faz parte desse processo e protocolou do momento, o National Copy Association
05:12dos Estados Unidos defendendo o Brasil. E a gente sabe que é extremamente político. E
05:16até que a gente mostre novamente os impactos para o consumidor, pode levar muito tempo.
05:20Então, a gente tem que torcer para que esse encontro dos dois presidentes em março ocorra
05:24e torcer para que os temas que estão na mesa avancem, para que a gente não caia novamente
05:30em tarifas mais altas que os nossos concorrentes. Porque existem 50 países produtores de café
05:35no mundo. Por mais que o Brasil seja 30% desse mercado nos Estados Unidos, a partir do momento
05:40que só o Brasil não pode acessar o mercado, a gente corre o risco de sair dos doentes
05:43das grandes marcas. Então, a gente realmente corre riscos, tanto nas questões geopolíticas
05:48quanto na investigação 301.
05:50Marcos, eu aproveito aqui a nossa conversa até para fazer uma correção, porque as novas
05:54tarifas globais dos Estados Unidos entraram em vigor nesta terça-feira com uma alíquota
05:59de 10%, abaixo inclusive até do previsto. Então, a medida de Donald Trump entrando em vigor
06:06depois desse impasse todo judicial envolvendo a Suprema Corte, o presidente norte-americano
06:11chegou a anunciar esses 15%, mas a taxa chegou oficial, então validada a partir de hoje,
06:20passando a ser 10%. Isso muda alguma coisa, algum tipo, até a estratégica de vocês, a visão
06:27que vocês estão tendo disso tudo diante desse novo cenário? Ou até a sensação de vocês
06:33é de que esse alívio pode não durar muito tempo?
06:37Olha, é importante porque mantiveram os anexos, então fica 10% para todo mundo.
06:43E agora, para o mercado funcionar bem, e vocês conhecem bem, porque sempre noticiam
06:47dados econômicos, o mercado precisa de previsibilidade.
06:51Imagina quem negocia café no mercado físico, futuro, com a Bolsa de Valores
06:55da três anos à frente. Então, você pode negociar uma hora e dez, depois virou 15,
06:59depois volta a dez, tem a investigação 301, tem o humor das pessoas,
07:03porque pode mudar o humor e muda a tarifa. Então, veja como é complexo
07:07operar, navegar num mundo de uma geopolítica tão complexa como essa.
07:13Mas as listas de exceções estão aí, foram mantidas, nós temos o problema
07:18do café solúvio, que está muito mais bem equacionado agora, mas nada ainda
07:22está resolvido por conta da investigação 301 e por conta dos outros pontos
07:26que estão na mesa. Então, a gente tem que ser vigilante.
07:30E é essa agenda que a gente leva para o vice-presidente nessa semana.
07:34É, o que está comentando, eu estava rindo aqui, porque é muito difícil fazer
07:39negociação com base nisso. Tem quase que um incentivo a você talvez não trabalhar
07:44com margens muito apertadas, mas isso fica muito imprevisível,
07:47é muito difícil fazer mesmo a negociação.
07:50Aí, por outro lado, isso, você acha que vai acabar também ativando,
07:54você estava falando de fazer uma conversa com o vice-presidente agora,
07:58ativa internamente nos países, não só Brasil, mas em geral,
08:02também movimentos mais protecionistas? Quer dizer, o que cabe aos produtores
08:06acaba sendo um movimento de tentar proteger via políticas internas
08:11a produção local?
08:12Olha, nós vivemos momentos geopolíticos muito complexos.
08:16O Brasil fez uma missão empresarial em diversos países, vamos dar aqui o exemplo
08:19no México, assinando acordos de cooperação, avanços institucionais significativos.
08:25Passa uma semana, o México anuncia, esquece esse assunto, vamos trabalhar
08:30com tarifas adicionais para o Brasil e outros países protecionistas.
08:34Então, sem dúvida nenhuma, o caminho para isso é a gente ter mais acordos bilaterais.
08:40E aí a gente volta nos temas que, olha, o Chile é bem conectado internacionalmente,
08:44o Brasil não. Nós temos o Acordo Europeu-Americo-Sul, que junto,
08:48os dois blocos é um PIB de 24 trilhões de dólares, nós estamos falando de zero taxa.
08:54Hoje, por exemplo, para se exportar café industrializado do Brasil para a União Europeia,
08:57é 7,5% para alguma tarifa e 9,5% para o café solúvel.
09:01Com o Acordo Europeu-Americo-Sul, nós zeramos tudo isso.
09:04Então, veja, o acordo comercial, seja ele com o Mercosul, que é mais complexo,
09:09que é um bloco de país, ou o Brasil individualmente, porque ele pode fazer acordo
09:13com cotas, com produtos específicos, nada impede do Brasil fazer seus próprios acordos.
09:18Esse é o caminho em momentos tão complexos que a gente vive.
09:23Diretor-Geral do Secafé, Marcos Matos, conversando com a gente aqui no Prémarkt
09:28nesta terça-feira. Obrigada mais uma vez pela participação.
09:31Um bom dia para você por aí.
09:33Muito obrigado. Uma felicidade estar com vocês.
09:35Obrigada.
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