00:06Música
00:30Eu nasci em Relvado e lá eu ajudava o pai, a mãe na agricultura.
00:36Sou natural de Nova Brécia. Na época lá se trabalhava só na lavoura. A maioria é para consumo da família.
00:45Minha origem é Paraná, sou filho de gaúcho e teve uma fase difícil na época.
00:50Meu pai errou algumas safras e tal e a gente teve que começar a trabalhar cedo.
00:54Eu vim do interior de Nova Brécia, trabalhava na agricultura, planta milho, soja, feijão.
01:02Até os 17 anos, depois saí de casa para melhorar a minha situação.
01:07Foi para o Rio de Janeiro. Era uma churrascaria, fui trabalhar de copelo.
01:10Vim de Ancheta, oeste de Santa Catarina. Cheguei em Porto Alegre em dezembro de 93.
01:16Fui garção. Eu já com 21 anos, ali para 22, já comprei meu primeiro bar que foi na Arinha Chuelo.
01:23Sempre em sociedade, grupo grande de pessoas de 4 a 5, amigos, primos, tá?
01:28Nos anos 80, quando se desceu, quando eu desci, a grande maioria trabalhava com lanchonete.
01:33O pessoal do Vale do Aquari, Nova Brécia, Coqueiro Baixo, aí começaram a se especializar no ramo de churrascaria, galeteria.
01:41Não se encontrava buffet em Porto Alegre.
01:43Por isso que eu acho que todo o pessoal de Caras Barbosas acabou descendo e se especializando nisso.
01:48Eu sou natural de renovado. Na noite, recebi os convites para trabalhar lá em churrascaria no Rio de Janeiro, né?
01:56A distinta e moeda. Eu vou trabalhar numa churrascaria no Rio, que se chamava porcão na época, né?
02:01Os donos eram da nossa região aí, né?
02:04Recebi esse convite para ir para trabalhar em São Paulo, né?
02:07Os caras que tinham churrascaria lá eram daqui de renovado.
02:10E aí eu fui, 83, para lá e comecei na Copa lá.
02:14Os dois meios já me passaram para garçom.
02:16Começamos lavando prato, né?
02:19Depois fomos mestre, garçom, gerente, até a gente começar a empreender.
02:25Eu fui convidado para trabalhar em Brasília, numa churrascaria.
02:28Na época foi em 83.
02:30O meu sonho era ter uma sociedade, ter uma parceria, uma parte com alguém.
02:42Para o do Beto, é muito boêmio.
02:45Para a janta, é o filé parmejana e o entra com a moto.
02:53O meu chope aqui é sempre bem gelado.
02:56Isso é uma tradição.
02:58Nesse ponto maravilhoso, hoje a Casa Marquesa tem 21 anos, né?
03:05Aí, depois dali, nós nos reunimos em cinco, seis garçãos e comprei uma princesinha.
03:11Princesa Isabel.
03:13E daí para frente a vida começou a melhorar.
03:17A Garcia, quando a gente adquiriu ela, ela já era um ponto tradicional do Porto Alegre.
03:22E é uma casa que sempre prestou um bom serviço.
03:25Faz parte do Porto Alegre.
03:27Muito bacana.
03:30O nosso cardápio, ele está igual a 40 anos atrás, ele é o mesmo.
03:33É só xis, dourada e o cachorro quente.
03:42Hoje, tudo que tem, eu tenho orgulho, né?
03:45Porque tudo foi daqui que saiu, tudo foi daqui que a gente colheu, né?
03:49Então é uma satisfação, né?
03:50É, porque para ter um restaurante perto de cinco anos, né?
03:54Poucos conseguem, né?
03:55Por um motivo ou por outro, né?
03:59Vocês escolheram ser carçom lá no início ou foi o que apareceu?
04:01É o que apareceu.
04:02Chegou, não, bora, vamos lá.
04:04Vamos trabalhar.
04:05A roça é pesada.
04:06A roça é pragueireiro, que naquela época não tinha maquinário, nada, tá?
04:11Então foi muito fácil para nós.
04:13O serviço aqui parecia muito leve, tá?
04:14Ainda bem que surgiu essa alternativa de ter churascarias para trabalhar, restaurante.
04:20Senão, o que nós íamos fazer no interior?
04:21Família de oito, dez pessoas.
04:23Não tinha terra para todo mundo.
04:25Nossa região, ela tinha muita mão de obra para esse ramo de alimentação,
04:31porque os mais velhos saíram para o ramo de churascaria e alimentação.
04:37Então eles iam lá buscar, porque era amigo, porque era vizinho, porque era primo.
04:43Trabalhava dezoito horas por dia.
04:46Lá não tinha horário.
04:48Acordava de manhã até que tinha cliente de madrugada, nós a gente trabalhava direto.
04:52Eu atendi o branco, o jogador branco, o Romário, o Giovanni, o Nunes.
05:02Estava na churascaria almoçando e depois virou cliente nosso.
05:05Hoje nós temos o Dom Henrique, a Porto Belo, a Princesa Belo e a Giovannazio da Venâncio.
05:10Eu e quatro, e três irmãos.
05:13Fizemos quatro.
05:14Era só espeto curido e nós inventamos o mini espeto.
05:17O mini espeto, que hoje é tradição em Porto Belo.
05:18Ah, tinha um dinheirinho, aí eu vim para cá, fiquei dando uma desinvestigada aí.
05:24E apareceu esse bar do centro.
05:26Mesmo ano eu vendi, que apareceu para comprar o bar do Beto, aqui no 853, que é na Venâncio
05:34com a Vieira de Castro.
05:35A gastronomia em abundância, a gastronomia bem servida, ela tem sucesso aonde for.
05:43Eu tenho certeza que o buffet foi um marco muito importante em Porto Alegre, porque atraiu
05:48muito mais público para o almoço.
05:50O jeito de fazer, né, o bife faz em panela de ferro, né, a batatinha, a batatinha descascada
05:55na mão ainda, né, o arroz e feijão é caseiro.
05:59E a gente sabe servir, né, a gente tem um jeitinho bom de servir o cliente, né.
06:02Fartura e produto bom que a gente coloca.
06:04O carisma ajuda muito, né, a simpatia das pessoas.
06:08E a boa comida, por isso que a gente está aqui há 30, vai fazer 31 anos, né.
06:12Se a comida não fosse boa, nós não estaríamos mais aqui.
06:16Eu, se eu venho aqui para frente, eu não consigo trabalhar, porque todo mundo quer conversar
06:19comigo.
06:20Ih, tu tem que saber aturar o...
06:24Quando o cara bebe, goza, tem que ter as manhas.
06:27O Campo Grande é uns gaúchos muito grosso lá.
06:30Ele chegava para almoçar, botava a arma em cima da mesa e tinha que pedir para eles
06:35para pôr a arma na cadeira, senão chegava uma família com criança, pegava e ia embora.
06:40O garçom que abria uísque tinha que tomar com eles.
06:43Eu perdi muito.
06:43Tem horas que tu vira meio psicólogo, tem que entender a situação.
06:49Aí depois tem uns que volta, daí os dias.
06:52Uau, mas desculpa, acho que eu te enchi o saco.
06:54Não, meu maior prazer é quando tu entra a ação e sai bebo.
06:58Nós já tinha 3, 4 restaurantes, eu e o Ned e o meu irmão.
07:02E nós morávamos num apartamento na Ariachuelo, que era em cima do primeiro bar que nós compremos.
07:07Em 21 pessoas.
07:08Era tudo funcionários que trabalhavam com nós e todos eram de enxeta.
07:12Acho que tinha uns 2, 3 de Erelvado e Putinga. O resto era todos de enxeta e romelante.
07:17As máquinas de lavar roupa e secar a roupa não paravam nunca. O chuveiro também não.
07:22Pra nós era tudo motivo de festa. Cada um queria contar uma história do que aconteceu na noite anterior.
07:27Ou alguém saiu sem pagar a conta. Ou deu uma discussão, uma briga entre colegas.
07:33E naquela época, que não tinha o celular, né?
07:36Aí tinha aquela... a moda do torpedinho, que saiu até na Playboy.
07:41Torpedinho do Bar do Beto.
07:43Aí tinha umas mulheres sozinhas, uns caras sozinhas, mandavam um bilhetinho.
07:47Ah, posso sentar aí pra nós conversar?
07:49Quem levava o bilhetinho era o garçom.
07:51Até hoje, tem muita gente que lá em 98, 2000, arrumou uma namorada aqui, casou e hoje vem com filho.
08:00Eu me desafiei muito aqui dentro. Eu trabalhei muito, tá?
08:03Talvez tenha exagerado. Podia ter diminuído um pouquinho e delegado mais.
08:08Como a nossa vida melhorou, tá? Nossos filhos estudaram, têm uma formação.
08:12Primeira coisa, eles não querem fazer o trabalho árduo que a gente fez.
08:16E trabalhar sábado, domingo, trabalhar de noite, trabalhar feriado, trabalhar Natal, Páscoa.
08:21Essas coisas, na cabeça deles, eles têm que aproveitar mais a vida.
08:25Com certeza que esse negócio vai continuar e não vai morrer, não vai parar. E vai crescer.
08:32O meu filho, o Láio Anselmini, formou em administração. Ele que toca as casas hoje.
08:37Ele que administra. A minha filha é nutricionista, Larissa Anselmini.
08:41Ela que faz todos os cardápios, acompanha as casas e dá o toque especial.
08:48Então, os dois são jovens e estão no ramo. Então, por isso que eu digo que não vai morrer.
08:54Como eu estou falando dos meus filhos, tem outros filhos de outros colegas meus que estão fazendo a mesma coisa.
09:00Minha filha, a Manuela, eu sei que ela não vai estar no ramo. Ela já vai escolher outra coisa.
09:05Porque ela falou uma frase muito...
09:07Ela falou, pai, eu vou seguir minha vida, eu vou para o direito.
09:11Eu adoro o que você faz.
09:12Sou grato por onde a gente mora, a escola que eu estudo.
09:16Mas eu não lembro de ter almoçado um domingo com você.
09:20O Espeto Curido, eu acho que ele está meio ameaçado.
09:23Por faltas de passador que a gente não encontra mais.
09:27Por isso que nós temos aqui os tiozinhos, tudo com 60 anos, trabalhando, né?
09:30Bandeja.
09:31Bandeja, passador.
09:32O pessoal não quer mais. Só quer computador, telefone hoje.
09:35Hoje, se nós vamos avaliar, várias mudanças acontecem muito por aqui.
09:39As galeterias, as churrascarias, as pizzarias se moldaram muito.
09:43Dando certo aqui, se você dá uma avançadinha Brasil afora, você tem chance grande de ter muito sucesso também.
09:50Aqui é um público que realmente é um termômetro, é um termômetro.
09:53Eu estou há mais ou menos uns três meses aqui em Porto Alegre.
09:57Eu vim principalmente para trabalhar aqui com restaurantes.
09:59Eu tenho muita referência dos meus tios.
10:01Estou estudando agora na PUC, fazendo administração.
10:04Então, eu gosto de aprender antes tudo para no futuro, caso eu seguir numa casa, mandar numa casa, saber ensinar
10:10meus funcionários, entendeu?
10:12Às vezes eu me emociono até porque se passou muita coisa aqui.
10:17Mas hoje eu vejo que foi... está tendo vitórias.
10:22É o carinho, o cuidado que a gente tem é o que nos deixa esse legado aí.
10:28É o nosso, assim, de fazer comida na hora, caseira, assim.
10:32Não tem muitos sonhos.
10:34Até as pessoas mesmo que vêm aqui falam, ó, segunda tu não abre, né?
10:38Nós nem vamos sair para mostrar porque a gente não gosta de tal, tal, tal.
10:41A gente gosta de sacrifício.
10:42Porque quem entra nas casas, se sente em casa.
10:45Não tem muitos sonhos.
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