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  • há 5 semanas
Bar do Beto, Casa do Marquês, Beverly Hills Bar, Lancheria Nova Bréscia, Garcias e Porto Bello têm algo em comum: foram construídos por filhos de agricultores que deixaram o interior em busca de oportunidades e começaram a trajetória como garçons, copeiros e auxiliares de cozinha.
Neste vídeo, donos de restaurantes e lancherias tradicionais contam histórias de trabalho duro, empreendedorismo e superação. Eles relembram a saída da roça, os primeiros empregos em churrascarias pelo Brasil, a conquista do negócio próprio e os segredos que ajudaram a transformar seus estabelecimentos em referências da gastronomia porto-alegrense. A reportagem também aborda os desafios da sucessão familiar e o futuro dos chamados “restaurantes de gringo”, que marcaram gerações com comida farta, atendimento próximo e receitas que atravessam décadas.

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Transcrição
00:07Música
00:30Eu nasci em Relvado e lá eu ajudava o pai, a mãe na agricultura.
00:36Sou natural de Nova Brécia. Na época lá se trabalhava só na lavoura. A maioria é para consumo da família.
00:45Minha origem é Paraná, sou filho de gaúcho e teve uma fase difícil na época.
00:50Meu pai errou algumas safras e tal e a gente teve que começar a trabalhar cedo.
00:54Eu vim do interior de Nova Brécia, trabalhava na agricultura, planta milho, soja, feijão.
01:02Até os 17 anos, depois saí de casa para melhorar a minha situação.
01:07Foi para o Rio de Janeiro. Era uma churrascaria, fui trabalhar de copelo.
01:10Vim de Anchieta, oeste de Santa Catarina. Cheguei em Porto Alegre em dezembro de 93.
01:16Fui garção. Eu já com 21 anos, ali para 22, já comprei meu primeiro bar que foi na Arinha Chuelo.
01:23Sempre em sociedade, em grupo grande de pessoas de 4 a 5, amigos, primos, tá?
01:28Nos anos 80, quando se desceu, quando eu desci, a grande maioria trabalhava com lanchonete.
01:33O pessoal do Vale do Aquari, Nova Brécia, Coqueiro Baixo, aí começaram a se especializar no ramo de churrascaria, galeteria.
01:41Não se encontrava buffet em Porto Alegre.
01:43Por isso que eu acho que todo o pessoal de caras barbosas acabou descendo e se especializando nisso.
01:48Eu sou natural de renovado. Na noite, recebeu os convites para trabalhar lá em churrascaria no Rio de Janeiro, né?
01:56Decidimos ir. Vamos trabalhar numa churrascaria no Rio, que se chamava porcão na época, né?
02:01Os donos eram da nossa região aí, né?
02:04Recebi esse convite para ir para trabalhar em São Paulo, né?
02:07Os caras que tinham churrascaria lá eram daqui de renovado.
02:10E aí eu fui em 83 para lá e comecei na Copa lá.
02:14Os dois meses já me passaram para garçom.
02:16Começamos lavando prato, né?
02:19Depois fomos mestre, garçom, gerente, até a gente começar a empreender.
02:25Eu fui convidado para trabalhar em Brasília, numa churrascaria.
02:28Na época foi em 83.
02:30O meu sonho era ter uma sociedade, ter uma parceria, uma parte com alguém.
02:42O Paro do Beto é muito boêmio.
02:45Para a janta é o filé parmejana e o entra com a moto.
02:53O meu chope aqui é sempre bem gelado.
02:56Isso é uma tradição.
02:58Nesse ponto maravilhoso, hoje a Casa Marquesa tem 21 anos, né?
03:05Aí, depois dali, nós nos reunimos em cinco, seis garçãos e comprei uma princesinha.
03:11Princesa Isabel.
03:13E daí pra frente a vida começou a melhorar.
03:17A Garcia, quando a gente adquiriu ela, ela já era um ponto tradicional em Porto Alegre.
03:22E é uma casa que sempre prestou um bom serviço.
03:25Faz parte de Porto Alegre.
03:27Muito bacana, né?
03:29O nosso cardápio, ele tá igual a 40 anos atrás, ele é o mesmo.
03:33É só xis, dourada e o cachorro quente.
03:42Hoje tudo que tem, eu tenho orgulho, né?
03:45Porque tudo foi daqui que saiu, tudo foi daqui que a gente colheu, né?
03:49Então é uma satisfação, né?
03:50É, porque pra ter um restaurante pra gente cinco anos, né?
03:54Poucos conseguem, né?
03:55Por um motivo ou por outro, né?
03:59Vocês escolheram ser garçom lá no início ou foi o que apareceu?
04:01É o que apareceu.
04:02Chegou, não, bora, vamos lá.
04:04Vamos trabalhar.
04:05A roça é pesada.
04:06A roça é pra guerreiro, que naquela época não tinha maquinário, nada, tá?
04:11Então foi muito fácil pra nós.
04:12O serviço aqui parecia muito leve, tá?
04:14Ainda bem que surgiu essa alternativa de ter churascarias pra trabalhar, restaurante.
04:20Senão, o que nós íamos fazer no interior?
04:21Família de oito, dez pessoas.
04:23Não tinha terra pra todo mundo.
04:25A nossa região, ela tinha muita mão de obra pra esse ramo de alimentação,
04:31porque os mais velhos saíram pro ramo de churascaria e alimentação.
04:37Então eles iam lá buscar, porque era amigo, porque era vizinho, porque era primo.
04:43Trabalhava dezoito horas por dia.
04:46Lá não tinha horário.
04:48Acordava de manhã até que tinha cliente de madrugada, nós a gente trabalhava direto.
04:52Eu atendi o branco, o jogador branco, o Romário, o Giovanni, o Nunes.
05:02Tava na churascaria almoçando e depois virou cliente nosso.
05:05Hoje nós temos o Dom Henrique, a Porto Belo, a Princesa Belo e a Giovannazio da Venâncio.
05:10Eu e quatro, e três irmãos.
05:13Fizemos em quatro.
05:14Era só espeto curido e nós inventamos o mini espeto, né?
05:16O mini espeto, que hoje é tradição em Porto Belo.
05:18Ah, tinha um dinheirinho, aí eu vim pra cá, fiquei dando uma desinvestigada aí.
05:24E apareceu esse bar do centro, hein?
05:26Mesmo ano eu vendi, que apareceu pra comprar o bar do Beto.
05:31Aqui no 853, que é na Denâncio com a Vieira de Castro.
05:34A gastronomia em abundância, a gastronomia bem servida, ela tem sucesso aonde for.
05:43Eu tenho certeza que o buffet foi um marco muito importante em Porto Alegre, porque atraiu
05:48muito mais público pro almoço.
05:50O jeito de fazer, né?
05:52O bife faz em panela de ferro, né?
05:54A batatinha, a batatinha é descascada à mão ainda, né?
05:56O arroz e feijão é caseiro.
05:59E a gente sabe servir, né?
06:00A gente tem um jeitinho bom de servir o cliente, né?
06:02Fartura e produto bom que a gente coloca.
06:04O carisma ajuda muito, né?
06:06A simpatia das pessoas.
06:08E a boa comida, por isso que a gente tá aqui há 30, vai fazer 31 anos, né?
06:12Se a comida não fosse boa, nós não estaríamos mais aqui.
06:16Eu, se eu venho aqui pra frente, eu não consigo trabalhar, porque todo mundo quer conversar
06:19comigo.
06:20Ih, tu tem que saber aturar o...
06:24Quando o cara bebe, coisa, tem que ter as manhas.
06:27O Campo Grande é uns gaúchos muito grosso lá.
06:30Ele chegava pra almoçar, botava a arma em cima da mesa e tinha que pedir pra eles
06:35pra pôr a arma na cadeira.
06:37Senão chegava uma família com criança, pegava e ia embora.
06:40O garçom que abria uísque tinha que tomar com eles.
06:43Eu bebi muito.
06:44Tem horas que tu vira meio psicólogo.
06:46Tem que entender, ó, a situação.
06:49Aí depois tem uns que voltam, daí os dias.
06:52Uau, mas desculpa, acho que eu te enchi o saco, coisa.
06:54Não, meu maior prazer é quando tu entra ação e sai bebo.
06:58Nós já tinha três, quatro restaurantes, eu e o Ned e o meu irmão, e nós morávamos
07:02num apartamento na Aria Chuelo, que era em cima do primeiro bar que nós compremos,
07:07em 21 pessoas.
07:08Eram tudo funcionários que trabalhavam com nós e todos eram de enxeta.
07:13Acho que tinha uns dois, três de Erelvado e Putinga.
07:15O resto era todos de enxeta e romelante.
07:18As máquinas de lavar roupa e secar a roupa não paravam nunca, até o chuveiro também não.
07:22Pra nós era tudo motivo de festa.
07:24Cada um queria contar uma história do que aconteceu na noite anterior,
07:27ou alguém saiu sem pagar a conta, ou deu uma discussão, uma briga entre colegas.
07:33E naquela época não tinha o celular, né?
07:36Aí tinha aquela, a moda do torpedinho, que saiu até na Playboy.
07:41Torpedinho do Bar do Beto.
07:43Aí tinha umas mulheres sozinhas, uns carros sozinhos, mandavam um bilhetinho,
07:47ó, posso sentar aí pra nós conversar?
07:49Quem levava o bilhetinho era o garçom.
07:51Até hoje, tem muita gente que, lá em 98, 2000,
07:56arrumou uma namorada aqui, casou e hoje vem com os filhos.
08:00Mas eu me desafiei muito aqui dentro, eu trabalhei muito, tá?
08:03Talvez tenha exagerado.
08:05Podia ter diminuído um pouquinho e delegado mais.
08:08Como a nossa vida melhorou, tá?
08:10Nossos filhos estudaram, tem uma formação.
08:13Primeira coisa, eles não querem fazer o trabalho árduo que a gente fez,
08:16e trabalhar sábado, domingo, trabalhar de noite, trabalhar feriado, trabalhar Natal, Páscoa.
08:22Essas coisas, na cabeça deles, eles têm que aproveitar mais a vida.
08:26Com certeza que esse negócio vai continuar e não vai morrer, não vai parar.
08:31E vai crescer.
08:32O meu filho, Laion Seumini, formou em administração, ele que toca as casas hoje.
08:38Ele que administra.
08:39A minha filha é nutricionista, Larissa Seumini.
08:42Ela que faz todos os cardápios, acompanha as casas e dá o toque especial.
08:49Então, os dois são jovens e estão no ramo.
08:53Então, por isso que eu digo que não vai morrer.
08:55Como eu tô falando dos meus filhos,
08:57tem outros filhos de outros colegas meus que estão fazendo a mesma coisa.
09:01Minha filha, a Manuela, eu sei que ela não vai estar no ramo.
09:04Ela já vai escolher outra coisa, porque ela falou uma frase muito...
09:07Ela falou, pai, eu vou seguir minha vida, eu vou pro direito.
09:12Eu adoro o que você faz, sou grato por onde a gente mora, a escola que eu estudo.
09:17Mas eu não lembro de ter almoçado um domingo com você.
09:20O Espeto Curido, eu acho que ele tá meio ameaçado.
09:24Por faltas de passador que a gente não encontra mais.
09:28Por isso nós temos aqui os tiozinhos, tudo com 60 anos trabalhando, né?
09:31Bandeja.
09:32Bandeja, passador, o pessoal não quer mais, só quer computador, telefone hoje.
09:36Hoje, se nós avaliar, várias mudanças acontecem muito por aqui.
09:40As galeterias, as churrascarias, as pizzarias se moldaram muito.
09:43Dando certo aqui, se você dá uma avançadinha Brasil afora,
09:47você tem chance grande de ter muito sucesso também.
09:50Aqui é um público que realmente é um termômetro, é um termômetro.
09:54Eu tô há mais ou menos uns três meses aqui em Porto Alegre.
09:57Eu vim principalmente pra trabalhar aqui com restaurantes,
10:00que eu tenho muita referência dos meus tios.
10:02Estou estudando agora na PUC, fazendo administração.
10:05Então eu gosto de aprender antes tudo, pra no futuro,
10:07caso eu seguir numa casa, mandar numa casa, saber ensinar meus funcionários, entendeu?
10:13Às vezes eu me emociono até porque se passou muita coisa aqui.
10:18Mas hoje eu vejo que foi...
10:21Tá tendo vitórias.
10:23É o carinho, o cuidado que a gente tem é o que nos deixa esse legado aí.
10:29Que é o nosso, assim, de fazer comida na hora, caseira, assim.
10:33Não tem muitos mais.
10:35Até as pessoas mesmo que vêm aqui e falam, ó,
10:37de segunda tu não abre, né?
10:39Nós nem vamos sair pra mostrar porque a gente não gosta de tal, tal, tal.
10:42A gente gosta de ser querido.
10:43Porque quem entra nas casas, se sente em casa.
10:46Vamos lá, ó, ó.
10:59Música
11:00Música
11:01Legenda Adriana Zanotto
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