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O Match Gastronômico recebe Vítor Sobral – chef e embaixador da cozinha portuguesa. Autor de mais de 20 livros, consultor e empresário, Sobral é um dos grandes responsáveis por levar a gastronomia portuguesa a um novo patamar, combinando tradição, técnica e inovação.

Durante a conversa com Manu Carvalho e Gabriel Carvalho, o chef fala sobre sua trajetória, a relação entre a culinária portuguesa e a brasileira, os desafios do empreendedorismo na gastronomia e experiências marcantes da carreira — incluindo momentos em que cozinhou para chefes de Estado e papas. Uma verdadeira aula sobre cultura, negócios e identidade gastronômica.

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Diversão
Transcrição
00:07Olá, olá, bem-vindos ao MET Gastronômico, o maior programa de gastronomia e empreendedorismo do Brasil.
00:13Que saudades! Eu sou a Manu Carvalho.
00:16Eu sou o Gabriel Carvalho e a gente está aqui de novo para explorar o sabor de sucesso e aprender
00:20com histórias inspiradoras, né Manu?
00:21Estávamos sentindo falta desse vídeo.
00:23Nossa! Ó, que bom estar de volta.
00:25Nosso convidado, assim, vamos começar o ano com o pé direito, ele é um verdadeiro embaixador da cozinha portuguesa no
00:34mundo, não é Gabi?
00:35É isso mesmo. Na verdade ele é chefe e autor de mais de 23 livros, consultor, professor, responsável por levar
00:41a tradição portuguesa para um patamar contemporâneo, inovador, mudando um pouquinho a raiz só.
00:48Seja muito bem-vindo ao MET Gastronômico, o Vitor Sobral.
00:51Agora o MET Gastronômico ficou mais português. Gabriel, Manuela e Vitor.
00:57E Vitor.
00:58Gabriel Oliveira Pinheiro de Carvalho.
01:00E Manuela Oliveira Martins de Carvalho.
01:02Manuela Oliveira Martins de Carvalho e Vitor Sobral.
01:06A Portugalidade está bem presente.
01:08Agora está bem presente.
01:09Está bem presente.
01:09Não, e posso falar, a minha maior tristeza é que eu não tenho passaporte.
01:13Vocês têm. Eu sou Manuela Oliveira Martins de Carvalho e não vim para o português.
01:15Só você tratar que vai ter.
01:17É a única que não é portuguesa da roda aqui hoje.
01:20Olha, antes da gente começar, siga a gente nas redes sociais que é arroba match.gastronômico
01:25e também se inscreva no nosso canal do YouTube para não perder nenhum episódio, não é mesmo?
01:29É isso aí, Vitor. Conta também para o pessoal as redes.
01:32Eu não sei se tem uma, se são várias, se dá para contar.
01:34Não, não, eu tenho, eu sou ruim em redes sociais, mas tenho um Instagram que é Vitor Sobral VS e
01:44depois os restaurantes da esquina, a Tasca da Esquina, a Taberna da Esquina e a Carvalho da Esquina.
01:51E Tasca existe uma em Lisboa e existe outra em São Paulo.
01:55Olha, e a gente conseguiu uma agenda do Vitor, né?
02:00Porque, inclusive, eu estou de licença de maternidade, mas estou aqui porque a presença desse...
02:05Muito obrigado, muito obrigado.
02:06Tem que encaixar a agenda, Raquel quando falou, vamos dar um jeito, vamos encaixar essa agenda aí que o Vitor
02:11aqui não é qualquer dia, pô.
02:12É isso.
02:13A gente se vira.
02:14E conta um pouquinho, Vitor, da onde, obviamente, né, a gastronomia portuguesa na sua vida veio de quem? Familiar? Você
02:24que...
02:24Na verdade é assim, a mesa na minha família, eu descendo tanto da parte da mãe como da parte do
02:31pai, eram famílias de agricultores, então o ritual numa casa agrícola à mesa é importante.
02:41Tem a ceifa, tem a tiragem da cortiça, tem a mataça do porco, depois tudo o que é festivo, Natal,
02:51Páscoa, as épocas dos santos populares no verão também são importantes.
03:01Tudo isso é uma coisa que eu cresci com essa...
03:05E é engraçado...
03:06Com essa vivência, não é?
03:07Você falando isso, eu tava te contando um pouco antes, a minha família é da pova de Varzinha, ali perto
03:10do porto, e a minha lembrança dos natais de criança, quando a gente ia passar o Natal em família juntos,
03:16era a minha tia-avó indo até o quintal pegar os coelhos e tinha todo esse ritual, né, de...
03:23É um pouco diferente, talvez, do que eu vivi no Brasil, de que a comida sai do supermercado, lá não,
03:28a comida ela faz parte da vida das pessoas, eles criam a comida, eles...
03:32O europeu, hein?
03:33Cá também, cá também, agora, a grande questão, a grande diferença é que, no Brasil, as grandes metrópoles como São
03:42Paulo...
03:43É, na família lá, na cidade interior...
03:46Hoje, no Porto, Lisboa menos, mas hoje no Porto, você ainda tem muitos bairros que têm...
03:52Criador de coelho, a linha...
03:55Porquê? Porque são cidades...
03:58Eu vivi muitos anos nos jardins.
04:02O bairro dos jardins tem mais habitantes que Lisboa, o bairro.
04:06O bairro, é loucura, é loucura, portanto...
04:09Não dá mais pra ter esse estilo de vida.
04:12Não dá pra comprar isso.
04:13Mas eu cresci com essa imagem de que a vida em Portugal é uma vida muito mais conectada com a
04:20roça, no sentido de...
04:21Mas eu não acho que isso...
04:22Eu acho que o europeu em si, você vê, por exemplo, na Alemanha, tem também muito essa coisa de criar...
04:29Porco, fazer a própria salsicha...
04:31Fazer a própria salsicha...
04:32Em toda a Europa, mas deixa-me dizer...
04:34França também...
04:35Vamos defender o nosso...
04:37Ainda hoje, ainda hoje o almoço...
04:39Eu tenho...
04:40Vocês têm que me dar aqui um desconto, que eu tenho uma proximidade e um conhecimento do Brasil.
04:46E o que eu gosto do Brasil, eu sinto meio obrigado a defender aquilo que vocês são.
04:53O grande problema do Brasil é que vocês, quando estão em grandes cidades, esquecem-se do que é o Brasil.
04:59É verdade.
04:59E o Brasil tem uma riqueza cultural...
05:04E gastronómica também.
05:05Não, e gastronómica nem se fala.
05:07Uma riqueza cultural em geral, tirando os grandes centros urbanos, que eu estive há muito pouco tempo em Belo Horizonte,
05:18não é?
05:19E não ia há algum tempo em Belo Horizonte.
05:22E é fantástico.
05:25É fantástico.
05:26Vitor, por que você veio para o Brasil? Me conta um pouquinho dessa sua vinda.
05:30Porque tem o Tasca, né?
05:32Em Portugal.
05:34E aí, em qual momento você decidiu vir para esse país?
05:37Vitor, eu vou provar o bolinho.
05:39Esse país maravilhoso.
05:41Não, foi muito antes da Tasca.
05:43Eu venho ao Brasil...
05:46Não sei bem se há 33, 74 anos.
05:50Minha idade, quase.
05:51E a primeira vez que eu venho ao Brasil, eu venho...
05:53Eu sou convidado para Varig para vir fazer um evento no Rio de Janeiro.
05:57Tá bom.
05:58E fiquei 18 dias.
05:59Como chefe?
06:01Sim.
06:02Fiquei 18 dias a cozinhar um evento.
06:04E apaixonei-me.
06:08Ele não está conseguindo falar.
06:10Apaixonei-me pelo Brasil, apaixonei-me pelas pessoas.
06:15E depois eu consegui ver a proximidade que existe culturalmente entre o que é Portugal e o que é o
06:27Brasil.
06:27É uma proximidade que eu acho que os brasileiros, a maior parte deles, não têm noção.
06:33Claro.
06:34E depois comecei a vir.
06:34A vir, a vir, a vir, a vir.
06:36E comecei a vir fazer eventos, a dar aulas no Senac.
06:42Eu conheço, eu diria, razoavelmente o Brasil.
06:46E tem a ver com isso.
06:47E depois, para além disso, eu descobri que o Brasil era um país que iria ensinar muito como cozinhar.
06:56No sentido de, toda a cozinha regional brasileira, a matriz é portuguesa.
07:02Toda.
07:03Se encontram um prato de cozinha, vou falar de novo, regional.
07:09Perfeito, faz todo o desenquilo.
07:10Que não seja com matriz portuguesa.
07:13Não tem a bebida da fonte.
07:14Só que, só que, o que é que aconteceu?
07:17Como não havia determinado tipo de produtos, e mesmo a nível social,
07:25havia diferenças culturais de capacidade financeira.
07:30Então, era com a capacidade financeira que se tinha e com os produtos que estavam disponíveis.
07:36E então inventaram aqui uma cozinha regional maravilhosa.
07:41A Bahia, além do Pará, Minas.
07:46Nada tem a ver com nada.
07:48A matriz é igual.
07:49Mas, nada tem a ver com nada.
07:51O sul, né?
07:52Nada.
07:53Nada.
07:54Cada região tem a sua identidade.
07:57A sua identidade.
07:58E depois, essa identidade muda também em função da capacidade financeira que cada família tinha.
08:04E eu pensei, pô, isto é um mundo de aprendizagem.
08:08É, porque eles passaram anos se adaptando a técnica portuguesa ao que eles tinham disponível.
08:14Passaram anos.
08:15E, assim, como é que não se aproveita isso?
08:18São anos de experiência.
08:20De experiência.
08:20Anos.
08:21De tentativa.
08:21Na verdade, são séculos.
08:24É, são séculos.
08:25O Brasil é novo, mas já tem séculos de experiência.
08:29Vitor.
08:29E com resultados maravilhosos.
08:33Maravilhosa.
08:34Você acha que você mudou sua gastronomia depois que veio para o Brasil?
08:39O que que...
08:39Eu costumo dizer que hoje a minha matriz de cozinha é lusófona.
08:43É uma matriz de cozinha de língua portuguesa.
08:47Agora, como é evidente, a influência tanto do Brasil como Portugal é muito maior.
08:51Perfeito.
08:52Porque eu vi muito mais vezes ao Brasil, conheço muito melhor o Brasil, conheço Angola, Moçambique.
09:00Talvez o país que eu conheço, porque é mais pequeno, isto na verdade não é um país,
09:05é uma região, é Macau, que também me influenciou muito.
09:09Que Macau...
09:10Os portugueses têm uma capacidade única.
09:13Você vai a Hong Kong, que tem uma cozinha chinesa e uma cozinha inglesa.
09:18Sim.
09:18Macau tem chinesa, portuguesa e macaiense, que é a mistura das duas.
09:23O grande segredo dos portugueses ao longo da sua vida, da sua história, é misturar.
09:28Nós, em misturar, somos...
09:30Especialistas.
09:32Não somos bons.
09:34Se não nos misturássemos, acabávamos.
09:36Não conseguíamos ter feito o que fizemos.
09:38Sim, com certeza.
09:39E passando disso para a gastronomia, é uma coisa incrível.
09:43E a cozinha regional brasileira, eu costumo dizer que é uma riqueza que vocês têm,
09:51que vocês não têm a menor noção.
09:52Se vocês fizerem um pequeno exercício, o Brasil, no mundo é conhecido porquê?
09:58Por movimentos populares.
10:01Samba.
10:02Sim.
10:04Sim.
10:04Futebol.
10:06Caipirinha.
10:08Feijoada.
10:09Não é conhecido pelo filé à parmentera.
10:12Não.
10:12Não é garantidamente.
10:14Percebe o que é que eu estou a dizer?
10:16Tudo, o tudo que tem identidade própria e foi construído com raiz no Brasil, com as
10:22influências todas que o Brasil tem, é aquilo que levou o Brasil para o mundo.
10:26É verdade.
10:27E em qualquer canto...
10:28Eu já encontrei brasileiros a 300 quilómetros do Polo Norte, porque vão trabalhar para o
10:35Bacalhau, não é?
10:36Eu fui lá fazer eventos de Bacalhau.
10:39Tem brasileiros lá.
10:42Fantástico.
10:43Isto tudo para dizer o quê?
10:44Para dizer que essa capacidade de transportar culturalmente aquilo que vocês são é igual
10:52a nós.
10:53Ah.
10:53Porque foi...
10:54Porque a gente aprendeu com vocês, não é?
10:56A gente é.
10:56A gente é uma origem.
10:57A gente é primo, não é?
10:59Irmão, não é?
10:59Faz parte.
11:00Eu costumo dizer que vocês aprenderam o bom e o mau que nós temos, não é?
11:03Agora, normalmente só se valoriza o mau, não é?
11:06É que vocês aprenderam com os portugueses.
11:08Ora, vocês aprenderam muita coisa boa.
11:10Sim.
11:10E essas coisas boas, às vezes, ficam no esquecimento.
11:15É verdade.
11:15Vocês, culturalmente falando, são um país com uma riqueza.
11:19É.
11:20Vocês adoram copiar os Estados Unidos?
11:21Adoramos.
11:22Adoram.
11:23Mas...
11:24O país, sim.
11:24Mas, coitados.
11:25Culturalmente.
11:26Culturalmente, ficam tanto a dever a vocês.
11:28Tanto, tanto.
11:29Mas eu acho que é isso.
11:30Mas, apesar da gente tentar copiar no dia a dia, e eu acho que o brasileiro, de alguma
11:34forma, bebe muito da fonte dos Estados Unidos, no fim, no fim, na prática, no dia a dia,
11:39ele está pouco presente.
11:41Comparado ao que está...
11:42Você vai para o Nordeste, você vai comer moqueca, você não vai chegar lá e vai procurar
11:46um hambúrguer.
11:47É o hambúrguer que está no nosso dia a dia.
11:49Eu vou mais longe nessa procura.
11:52Eu diria que isso é um bocadinho até um modelo de vida.
11:57Sim.
11:57E vocês são tão mais ricos como a sociedade e como povo?
12:04Ah, sim.
12:05É um povo muito mais social do que...
12:07E tudo.
12:10Você já viajou um bocadinho, não é?
12:12Já, já.
12:13Você conhece algum país que judeu e árabe casam?
12:18Não.
12:18Só no Brasil.
12:19É.
12:19É verdade.
12:21Está tudo dito.
12:22Isto é um bom exemplo.
12:23No Brasil...
12:23A gente aprendeu a misturar.
12:25Exatamente.
12:25A gente aprendeu a misturar.
12:28E a respeitarem-se.
12:31Muito legal.
12:31Vitor, eu quero voltar um pouquinho.
12:33Quando foi o momento que aquele jovem que cresceu comendo, cozinhando com a família e pegando
12:38o bicho no quintal e por aí vai, se transformou em um cozinheiro profissional?
12:44Como é que foi essa trajetória?
12:47Eu, na verdade, é assim, para mim é uma coisa natural, porque eu, desde que me lembro
12:53que sou gente, sempre quis ser cozinheiro.
12:55Nasceu com a gente.
12:56Desde criança.
12:57Desde criança.
12:58E sempre tive jeito.
13:00Sério.
13:00Sempre tive jeito.
13:01Sempre tive uma aptidão natural.
13:03A mãe e a avó adoraram.
13:05A mãe e a avó.
13:06Ganharam ajudantes desde cedo.
13:08A mãe chamou tónia.
13:08Não, a mãe...
13:09Isto é, toda a gente.
13:10Toda a gente na cozinha, na família e cozinha.
13:13Mas a verdade é que podiam...
13:16Eu venho de uma classe...
13:17Só uma coisa.
13:18Eu venho de uma classe social...
13:20Desliguei-se.
13:21De média, não é?
13:22Portanto, é quando essa classe média tinha a capacidade de colocar os filhos a estudar
13:30onde quisessem, não é?
13:34E, de repente, alguém dizer que não queria ser nem engenheiro, nem advogado, nem arquiteto,
13:39nem médico e queria ser cozinheiro, hoje em dia não, hoje em dia é um charo ser cozinheiro.
13:44É, mas ficou fashion.
13:46Na altura, não, não é?
13:48E eu tive sempre o apoio da família, mas...
13:50Eu nunca seria quem sou, se não tivesse a família que tive.
13:53Legal.
13:54E sempre me incentivaram.
13:55E depois, tudo gente que valorizar a mesa e tudo bom cozinheiro.
14:01Avô bom cozinheiro, pai bom cozinheiro, mãe muito boa cozinheira, avós e tias muito
14:06boas cozinheiras, e eu ia para a cozinha.
14:08E aquilo começou a ser normal.
14:10E com 10, 11 anos eu tinha absoluta certeza que queria ser cozinheiro.
14:15Quando cheguei ali aos 15 anos, o meu pai tinha um amigo que tinha sido...
14:20cozinheiro profissional e disse, ah, ele tem que ir para a Suíça se quiser ser um cozinheiro
14:26acima da média.
14:28E ele fazia uns eventos.
14:30Isso com 11 anos, né?
14:31Impressionante a maturidade que você já tinha naquela época.
14:35E com 11 anos eu batava porcos.
14:36É, é isso.
14:37O que eu falei, para mim, eu com 9 anos em Portugal, 8 anos, eu ia seguir a minha tia
14:43-avó e eu
14:43já ficava impressionado com aquilo.
14:45Mas isso para ele era o dia-a-dia.
14:47Não era o dia-a-dia, mas como eu tinha...
14:49Mas era o jantar de Natal, era o jantar do dia das mães.
14:51Como eu tinha motivação e queria, toda a gente me incentivava, achava um graça.
15:00Vai lá, vai lá, Vitor.
15:01E mais, dar uma faca para uma criança de 11 anos desmanchar um porco.
15:06Todo mundo quer ver.
15:07Não.
15:08E era meio louco, era meio louco, não é?
15:10Mas incentivava-o.
15:11E eu fazia.
15:12E tinha habilidade para fazer.
15:14E para você devia ser super legal, porque você virava o centro das atenções.
15:16O gorizão de 11 anos que matava o porco.
15:19Exatamente.
15:19E que fazia.
15:20Mas eu começo a descobrir que a cozinha...
15:22Eu depois comecei a via...
15:23Eu sempre fui curioso, comecei a viajar muito cedo.
15:26Eu começo também a perceber que a cozinha abria-me portas.
15:31Eu chegava a qualquer parte do mundo, começava a cozinhar e era uma forma de aglomerar pessoas.
15:40A gente fala muito, né?
15:41A comida, a cozinha, ela é...
15:42Não, a mesa.
15:44A mesa é o item.
15:45Agrega, agrega.
15:46Ela é a dona do encontro.
15:47Ela é a melhor desculpa para um bom encontro.
15:49E depois também tinha outra coisa que é assim.
15:51Eu não sabia tocar viola.
15:52Eu não sabia cantar.
15:54O meu momento de brilhar era na mesa.
15:58E tinha as meninas.
15:59Eu queria impressionar as meninas.
16:00Era a cozinha que eu me impressionava.
16:02Ah, é pelo estômago.
16:04Acertou.
16:04Não tem um jeito melhor, né, Vitor?
16:07Rosa.
16:07E, Vitor, que momento que você decidiu ser empreendedor?
16:11Porque uma coisa é você querer ser chefe.
16:13Outra coisa é você querer realmente empreender esse meio.
16:16E aí você precisa saber de gestão, CMV, outras coisas...
16:19Sai da cozinha.
16:20Que não é mais só saber cozinhar, né?
16:23Eu acho que isso foi o pior erro que eu fiz de minha vida.
16:26Foi resolver sem empresário.
16:27Segura.
16:29É durido.
16:31Eu, como não acabei de confessar, eu acho que tinha alguma apetida natural para cozinhar.
16:37Depois, como me esforcei muito, tecnicamente também consegui evoluir rápido.
16:42Portanto, eu com 23, 24 anos já poderia considerar um cozinheiro...
16:50Bem seguido.
16:51Não, com capacidades técnicas acima da média.
16:55Ser empresário, ninguém me ensinou.
16:57Portanto, aprendi na pancala.
16:59E essa é a parte mais difícil.
17:01Fiz as maneiras, perdi dinheiro, mas...
17:05Só fiz...
17:06Todos nós.
17:06Só fiz nós.
17:07É.
17:08Dizem no Vale do Silício, se você não quebrou duas vezes, você não é bom o suficiente.
17:12Uma startup, né?
17:13Eu já quebrei mais que duas vezes e continuo.
17:16Mas fiz muitas semanas.
17:17Porque eu não tinha a menor preparação para ser empresário.
17:21E muita gente que a gente vê no meio da gastronomia não tem essa preparação, né?
17:25Que é um pouco do que a gente tenta falar aqui no Médio Gastronômico.
17:28Sobre negócios, histórias e, obviamente, a paixão que é a cozinha.
17:34Primeiro é assim, se você é apaixonado, você é apaixonado.
17:39É, a chance de dar certo já é...
17:40Qualquer coisa que você faça de uma forma apaixonada, você fica meio burro, não é?
17:46Fica assim meio...
17:47Você faz mais emocional do que razão.
17:50Exatamente.
17:51Mas também é mais difícil você desistir quando as coisas estão erradas, né?
17:54Não, não.
17:54Você não desiste.
17:55Não desiste nunca.
17:56Isso bem.
17:57Cai, levanta, cai, levanta.
17:58E é assim...
17:59E, na verdade, acontece tentativa e erro.
18:02É.
18:04Eu cometi um erro como empresário na pandemia que, se eu fosse um bom empresário, eu não
18:12tinha cometido.
18:13Eu não despedi ninguém.
18:15E, na altura, tinha 128 funcionários.
18:17Esse foi, na sua visão, o erro?
18:20Foi.
18:20Foi porque...
18:21Esse erro eu não cometi.
18:23Estou falando...
18:23Foi uma das coisas que a gente fez que foi muito difícil.
18:26Foi uma das decisões mais difíceis que eu tomei.
18:28Eu perdi uma pequena fortuna.
18:29Foi uma das decisões mais difíceis que eu tomei, tá, Victor?
18:31Mas era isso ou eu não sobreviveria.
18:33Eu tive que fazer a decisão muito fria na hora e rápido.
18:36Eu, na verdade, sobrevivi.
18:38Mas com o preço, uma fatura que ainda hoje estou a pagar.
18:41É.
18:41Eu não teria nem sobrevivido.
18:43Eu ainda pago parte da conta, porque a decisão também custa.
18:46Uhum.
18:48Mas eu não teria sobrevivido.
18:49Mas eu teria tido hipótese de o fazer.
18:52Mas é assim...
18:53Eu sou uma pessoa...
18:54Eu tenho pessoas a trabalhar comigo há 30 anos.
18:56Sim.
18:57É que eu ia despedir um cara que trabalha comigo há 30 anos.
19:00É.
19:01Conheço a família.
19:02É difícil.
19:03Era difícil, Eduardo.
19:04Na pandemia, éramos 480, Victor.
19:06A gente desligou 400 em uma semana.
19:10Foi uma das decisões...
19:11Acho que foi...
19:12Uma das, não.
19:12Foi, sem dúvida, a decisão mais difícil que eu já tomei na minha trajetória profissional.
19:18Ah, com certeza.
19:19Foi a que mais pesou.
19:20Foi a que mais me tirou na noite de semana.
19:21São 400 de família, né?
19:22Eu estou a falar de Portugal.
19:23Meses sem dormir.
19:24Eu estou a falar de Portugal.
19:25Eu nem vou falar do Brasil.
19:27Nem colocou o Brasil na equação.
19:29Não.
19:29Estou a falar de Portugal.
19:30E foi duro.
19:32E eu, se eu fosse empresário, de verdade...
19:36Talvez estivesse tomado outra coisa.
19:37É que eu, no meio disto tudo, a primeira coisa que eu sou a cozinheira.
19:42Depois vem o resto.
19:43Hoje em dia, como é evidente, tenho outra maturidade.
19:46Tenho uma capacidade diferente de falar com os bancos, com os parceiros, tudo.
19:51Experiência.
19:52Sim.
19:54Mas aprendi tudo na pancada.
19:57Pancada.
19:58E, Vitor, uma coisa que é uma história que, para mim, curiosa, eu quero ouvir um pouquinho
20:02de você, dessa jornada que você teve, de certa forma, como embaixador da tradição
20:06portuguesa e da gastronomia portuguesa.
20:09E até usando a gastronomia como forma de diplomacia.
20:11Porque você cozinhou para papas, para chefes de Estado.
20:15Cozinhei para tanta...
20:16A gente nem acredita.
20:18Até para o Putin.
20:18Pela nossa pesquisa, três papas.
20:20Até para o Putin eu já cozinhei, imagina.
20:22Ai, olha que loucura.
20:23Se eu soubesse, na altura, tinha resolvido o problema do mundo.
20:26Do mundo, ali, já.
20:27Para o Putin, não ia nem saber.
20:29Para o Trump, não cozinhei.
20:30Para o Trump, eu não cozinhei, mas...
20:32Dá tempo ainda, hein, Vitor?
20:34Dá tempo ainda.
20:35Para o Putin, eu cozinhei.
20:37Tem alguma história em especial, assim, de alguém que você cozinhou e...
20:41Não, eu tenho várias, mas talvez das pessoas mais conhecidas mundialmente,
20:46aquela que mais me marcou foi o Papa Retzinger.
20:52Porque tudo o que são protocolos e toda a entoragem destas pessoas,
20:57todas muito importantes e famosas, é muito complicado.
21:01E eu tive um momento que pude estar há algum tempo a falar com ele, não é?
21:06E esse momento foi um momento muito longo.
21:09Tiveram que nos arrancar, isto é, tiveram que me pedir para eu sair, porque...
21:13Ele queria ficar.
21:15A conversa foi...
21:17Que fantástico, Vitor.
21:19Maravilhosa.
21:19Que fantástico.
21:20Que momento único que a gastronomia te trouxe, hein?
21:22Ele sabia tudo.
21:26Tudo altamente...
21:27Tinha de ser uma pessoa...
21:28Bom, era uma pessoa...
21:30Falava super bem em português.
21:31Sabia tudo.
21:32As perguntas todas eram...
21:35Tivemos ali meia hora, que é uma coisa que nunca mais me faz esquecer na vida.
21:39Imagino.
21:40E eu que normalmente tenho uma postura...
21:43Eu acho que as pessoas valem pelo aquilo que são.
21:48Os títulos é uma coisa que para mim...
21:50Sim, sem dúvida.
21:51Tem um pouco significado.
21:52Sem dúvida.
21:52E eu andei ali uma semana...
21:56Assim, meio abalado daquela emoção.
22:00Daquela emoção.
22:02Nós temos muita dificuldade em avaliar aquilo que não é matemático.
22:08Isto bem, um quilo é um quilo, um metro é um metro.
22:10Verdade.
22:11A energia não se mede.
22:14Não se mede.
22:15Não é?
22:15E com certeza a energia...
22:17A intensidade...
22:18Que esse cara devia ter, devia ser uma coisa...
22:22Era uma coisa...
22:24E foi uma coisa que...
22:25Nossa, que experiência famosa.
22:26E como é que foi a conversa de vocês, assim?
22:29Foi uma conversa de pessoas normais que...
22:33Na verdade, ele passou a maior parte do tempo a fazer-me perguntas e eu a responder, não é?
22:38Que engraçado, né?
22:39Porque talvez teria sido o oposto.
22:42Não.
22:43Cara, foi um momento...
22:44Estou tentando ler, mas deve ter sido o momento dele se sentir humano, né?
22:49Dentro da entorragem do dia-a-dia dele.
22:51Na verdade, eu fiz duas ou três perguntas, tipo, porque é que ele gostava muito de vinho do Porto, porque
22:57é que ele conhecia coisas que tinham a ver caminhar e ele sabia tudo dos Açores, do Algarve, sabia tudo.
23:05Nossa, que pessoa fantástica.
23:08Os poetas portugueses conheciam tudo.
23:11Perguntam-me, o que é que fosse ser leu Camões, sabia tudo.
23:16Que fantástico.
23:17E eu pensei assim, nossa senhora, como é que alguém com esta capacidade agregadora que ele tem, sabe tanto do
23:25meu país, que é uma coisinha de nada, não é?
23:27Sabia tudo, tudo.
23:29Muito legal.
23:30Não era um Papa que teve a dimensão que teve o último Papa, não é?
23:37Do próprio João Paulo.
23:38Mas, para mim, foi muito mais gratificante falar com o Redzinger do que com o Francisco.
23:44Você também cozinhou para o Francisco, para o Redzinger e para o João Paulo.
23:49Para o João Paulo.
23:50Que fantástico.
23:50Foi muito mais...
23:51João Paulo também dizem que era um...
23:53Mas o João Paulo foi um cumprimento.
23:56Não teve esse momento.
23:56Não tive hipótese de conversar.
23:58Porque com os outros dois eu tive a hipótese de conversar.
24:01Muito legal.
24:02Muito legal.
24:02E o Redzinger...
24:04Coisas que a cozinha marcou-me.
24:06Marcomo.
24:06Marcomo.
24:06Proporcionou.
24:07É, na verdade, eu sou um feliz-arte porque a cozinha permitiu-me conhecer coisas como viajante a nível do
24:18mundo que, se não fosse a cozinha, dificilmente eu teria a hipótese de conhecer.
24:25Eu vou te falar, Vitor, ouvindo um pouquinho essas histórias, a minha vontade é da gente cancelar o programa, a
24:31gente marca um dia com o Vitor num restaurante.
24:33Com o Alê Forbes.
24:34Com o Alê, com umas boas garrafas de vinho, porque o que deve ter de história interessante de todas essas
24:41jornadas...
24:41Se vocês olham para mim, eu sou assim um cara com ar jovem, parece que tenho 18 anos, mas eu
24:46cozinhei 40 anos.
24:46Eu diria até menos.
24:48Eu cozinhei 40 anos.
24:4940 anos cozinhando, Vitor.
24:51Nossa, está bem.
24:5240 anos.
24:53Está bem.
24:53É muita coisa, não é?
24:54Não, e não é cozinhar 40 anos numa...
24:57A quantidade de países que eu já cozinhei...
24:59É isso, porque você cozinhou para muitos chefes de Estado, para enfim...
25:03E cozinhando normalmente.
25:04Você rodou e viu culturas e viu coisas.
25:06E eu, quando vou em um país, faço questão de ir aos mercados, faço questão de misturar com as pessoas,
25:12porque isso é a grande riqueza.
25:14A grande riqueza cultural é essa.
25:15Eu já cozinhei num monte de países da África.
25:19A África, no sentido de ser um país, ou ser um continente mais genuíno, consegue proporcionar coisas incríveis.
25:30Mas o Oriente também, o interior do Brasil também.
25:33Se me perguntarem assim, qual foi o mercado que tu já tivestes que mais te impressionou?
25:39Belém de Pará, impressionou-me muito.
25:41Todo mundo me fala, eu me conheço, mas todo mundo me fala.
25:43Mas sabem qual foi o mercado que eu tive no mundo que mais me impressionou?
25:47Sonjou aqui na Bahia.
25:50Você anda dois séculos para trás.
25:53Jura?
25:53Você entra no século XVIII.
25:56Neste caso...
25:56Vou botar na minha lista de visita.
25:58No século...
25:59Vale a pena ir ver.
26:00Estou indo para a Bahia sexta-feira.
26:02Sério?
26:02Você tem que ir preparado.
26:05Ah.
26:05Porque não é um mercado...
26:06Não, um passeio cultural.
26:07Não é um passeio...
26:09De fazer compras.
26:11Não, fazer compras.
26:12E é impressionante...
26:13Eu acho que tanto as filhas à banca...
26:15Se aquece...
26:16A necessidade...
26:17Tica, pegada.
26:18Vou à banca das ervas.
26:21Vejo aquelas ervas todas.
26:22E começo a tentar provar isto.
26:24E a senhora diz-me assim...
26:26Não, isto é para o candomblé.
26:28Isto não é para comer.
26:30Mas, Vitor, enquanto você fala, me vem muito na minha cabeça
26:34que você, ao contrário de muitos chefes, que vai para as escolas, etc.,
26:39você foi para a rua aprender, né?
26:41É um pouco disso que te ensinou aonde você está hoje ou estou errado?
26:47Não, eu tive o privilégio de ter as duas coisas.
26:49Eu tive a possibilidade de ir para as escolas, tive a possibilidade de dar aulas também nas
26:53escolas, mas onde você pega as coisas é na rua.
26:57É visitando o mercado, indo na raiz, indo na fonte.
27:00As raízes é na rua.
27:02Vitor, me conta uma coisa.
27:03Você publicou mais de 20 e tantos livros de gastronomia.
27:07Os livros, em geral, eles trazem a sua gastronomia ou é uma forma de você também divulgar
27:13a essência da gastronomia portuguesa ou tem os dois?
27:16Não, na verdade, é as duas coisas.
27:17Os livros, acho que é uma obrigação que eu tenho.
27:21É a sua forma de dividir o que você aprendeu.
27:25E sabe uma coisa?
27:26Eu aprendi há relativamente pouco tempo, fui convidado.
27:29Uma coisa importante que me marcou na minha vida que é o exército, as forças militares
27:36nos países são, de alguma maneira, um guardião de matrizes, porque eles, como são rígidos,
27:47eles guardam as matrizes.
27:49Eles guardam.
27:50A história.
27:50São disciplinados, a história.
27:53E eu sou convidado para fazer o lançamento de um livro das Mestres dos Oficiais do Exército
28:02Português.
28:03Eu, de repente, percebi que as Mestres e as escolas no Exército são uma das melhores escolas
28:14de guardar aquilo que é a nossa matriz.
28:18E o editor do livro, é um livro relevante, o editor do livro disse uma coisa, Vitor,
28:25e eu não tinha bem noção disso, qualquer livro que você faça dura entre 100 a 300
28:32anos.
28:34Se você usa o digital, há tudo e mais alguma coisa, livro, papel, alguma coisa que você
28:42faça, no mínimo, dura 100 anos.
28:45Loucura.
28:45E eu não tinha noção desta importância.
28:47É para sempre.
28:48Mas a razão que me leva a fazer livros é deixar aquilo que eu acho que é importante
28:55como um legado.
28:56Porque se eu tive o privilégio de fazer o que eu gosto, como é que eu não...
29:03Daqui a 100 anos, o jovem vai pegar e vai ler um livro.
29:05Não divido, não é?
29:06E sempre que eu faço um livro eu tenho que trabalhar, tenho que estudar mais, aprendo
29:10mais e vazo uma gaveta.
29:13Portanto, é assim, eu tenho uma série de gavetas.
29:15Faço um livro, aquela gaveta fica vazia.
29:17Eu já estou a fazer outro.
29:20Eu normalmente tenho sempre um livro pronto para editar e já tenho outro em projeto.
29:26Quando eu edito um já tenho pelo menos dois.
29:29E já está pensando no plano?
29:30Não, já tenho dois, já tenho dois.
29:32Qual o que você está pensando por exemplo?
29:34Já estou a fazer outro.
29:35Qual o próximo?
29:35Qual o próximo?
29:36Já está a ser feito.
29:37Estou a fazer um livro dos...
29:40Porque hoje fala-se muito de receitas, receitas, receitas.
29:43Não adianta falar de receitas se não tiver os produtos para fazer receitas.
29:46Então eu estou a fazer um livro, é quase uma bíblia, dos produtos Portugal tem de qualidade.
29:54Legal.
29:54E estou a fazer já há um ano.
29:56É um trabalho de pesquisa profundo, não é?
29:57É.
29:58Porque aí é uma coisa...
29:58Vai demorar aí dois anos e meio.
30:00Uau.
30:00Assim, uma coisa é cozinhar, porque aí é só técnica que você aprende ao longo da sua vida.
30:04Você joga no livro.
30:05Mas ali não tem receitas.
30:06É a minha visão, é a minha visão dos produtos que são importantes para fazer as receitas.
30:12E já estou também engatilhado noutro que são o mar português.
30:18O mar português é de uma dimensão...
30:20Vocês sabem que Portugal é desse tamanho.
30:23Sabem que é a segunda zona económica maior marítima do mundo?
30:28Não faz ideia.
30:30Pensa assim.
30:32Se eu vou de Portugal para os Açores, são duas horas e meia.
30:37Depende.
30:38Há ilhas que até são mais, mas se normalmente vai para uma e depois vai para as outras.
30:42Vou para a Madeira, são mais ou menos duas horas.
30:44Mas todo esse espaço de Lisboa até à Madeira e aos Açores é zona exclusiva portuguesa.
30:55Ah, faz sentido.
30:57Não, é muito mar.
30:58Vocês não têm noção.
30:59E isso está muito dentro da gastronomia portuguesa, não é?
31:02É como a gente estava falando, no norte de Portugal, as sapateiras...
31:06Portugal, Portugal, Portugal é um erro.
31:07Os frutos do mar.
31:07É um segundo ou terceiro país.
31:11Há...
31:11Acho que é a Islândia, mas a Islândia é relativamente pequena.
31:15A Islândia, depois o Japão, depois nós, é o terceiro maior país que come frutos do mar e peixe.
31:22Cento e muitos quilos per capita.
31:24Uau.
31:25Vocês aqui acham que frutos do mar e peixe só come bacalhau.
31:28É.
31:29Bacalhau é uma fatia, mas é pouco.
31:33Muito legal, Manu.
31:34Chegou a hora do retrato do convidado.
31:36Uau.
31:37Então vamos agora para o retrato do convidado.
31:41Retrato do convidado.
31:45Vitor, qual foi a melhor experiência gastronômica da sua vida?
31:51Não consigo dizer...
31:53Nossa, deve ser difícil.
31:54Porque o backlog é comprido.
31:56É uma enciclopédia, exato.
31:57Eu vou dizer uma coisa assim.
31:59Das vivências todas que eu tive, talvez aquilo que mais me apanhou desfravenido foi a primeira vez que eu cheguei
32:06a Belém do Pará.
32:08Jura?
32:09Jura.
32:10O Belém do Pará marcou... E é engraçado porque marca muitos cozinheiros, sabia?
32:14Marcou e eu vou explicar porquê.
32:15A matriz de cozinha portuguesa total.
32:19Total.
32:21Tá.
32:22E se alguém um dia...
32:23Para você se sentir em casa, na base tem.
32:25Se quiserem enrajar aí a maneira de nós discutirmos isso, eu adorava fazer essa discussão porque eu acho que os
32:31brasileiros não têm noção disso.
32:33Fazer um livro sobre isso.
32:34E depois...
32:36É a matriz portuguesa com os produtos todos que só tem lá. Só tem lá no mundo. Só tem lá.
32:45Você fica... É uma pancada.
32:46É, lá tem muita coisa...
32:48Não.
32:48E é louco isso, Vitor, porque eu já ouvi isso, acho que de uns dois ou três outros chefes aqui
32:53do Brasil...
32:53Você sabe que...
32:54Que falam que Belém do Pará é talvez o lugar mais chocante gastronomicamente que eles já foram, sabia?
32:59A Lê falou... Tem várias pessoas no meio que falam isso.
33:03Aquela região tem mais peixe que o Ossano Atlântico. Tem mais espécies de peixe que o Ossano Atlântico.
33:09Você acha normal isso?
33:10É uma loucura.
33:12Mas tem.
33:12Uau!
33:14Vitor, com tanta história, tanta vivência, tem alguém no mundo da gastronomia, chefe, empresário, que te inspira para o que
33:22você faz hoje?
33:23A verdade é sim. Eu não posso referir um nome específico.
33:27Eu acho que tive influências de muita gente, mas, tecnicamente, o país que mais me ensinou foi a França.
33:38Foi a França.
33:39Foi a França.
33:40Agora, eu nunca quis fazer cozinha francesa.
33:42Eu sempre quis aproveitar o conhecimento técnico para adaptar aquilo que era a minha forma de ver e de estar
33:49na cozinha.
33:50E hoje, sobretudo, o movimento da tasca da esquina, tanto em São Paulo como em Lisboa, é um bocadinho o
34:03reflexo disso.
34:03Eu uso técnica, que não posso dizer que é uma técnica de origem portuguesa, mas a matriz é portuguesa, é
34:13lusófona.
34:14Perfeito.
34:42Perfeito.
34:44Identificar o que é que está certo e o que é que está errado.
34:46Legal.
34:47Faz sentido.
34:48E acho que juiz, enfim, é isso, né? Muito bacana. Vitor, fala um ingrediente que não pode faltar na sua
34:54cozinha.
34:57Assim, um é difícil dizer, mas talvez aquele que não fica sem jeito é azeite.
35:04Eu ia falar isso.
35:05Eu falo, pô, na minha casa, pelo menos, dos portugueses, não falta azeite.
35:10Azeite é difícil.
35:11Se faltar, bate pino. Não sabe para onde corre. Mas, agora, você, com uma influência francesa, podia ter um toquezinho
35:17da manteiga no lugar, no trouxe?
35:19A manteiga é bom para comer com torradas, com pão.
35:22O azeite e todo o resto, né?
35:24A azeite é muito mais completo, como gordura que a manteiga.
35:27É mais complexo, né?
35:28Tem mais...
35:28Completo e completo.
35:29É.
35:30Tem uma capacidade... Eu tenho uma história... Eu sou um amigo do Colôto Arrou.
35:35Ele está aqui com a gente.
35:36E há um dia, há um dia, que o Colôto leva o filho e o pai, o pai, ainda o
35:41pai do Arrou, a um restaurante que eu tinha, que era o Terré de Passo.
35:44E eu fazia uma versão da raia, a raia com manteiga alcaparras que eles fazem, só que fazia com azeite.
35:56E eu fiz para eles, e o pai do Arrou disse, mas como é que tu fazes isso?
36:03E eu expliquei, e ele disse, ah, não, estás a dizer tudo.
36:07Está esconder alguma coisa.
36:08Disse, vem para a cozinha comigo.
36:10E fui fazer a raia com ele.
36:12E ele fez o melhor elogio que eu já tive na minha vida.
36:16Como é que eu nunca pensei nisto?
36:18Fantástico.
36:18E mandou-me um cartão.
36:19E vindo do pai do Arrou.
36:20Não.
36:21Não, para falar do pai do Arrou.
36:22Um dos homens que criou a novelha cozinha do mundo.
36:26E o que é que eu fiz só?
36:28Eu só troquei a manteiga pelo azeite.
36:31Mais nada.
36:32E confitei no forno.
36:34Fantástico.
36:34Mais nada.
36:34Portanto, o azeite é uma gordura muito versátil.
36:39Ela tem mais resistência à caloura.
36:41Ela tem mais...
36:42E a vegetal queima.
36:43E a vegetal tem mais sabor, né?
36:44Mesmo nas sobremesas.
36:46Um simples gelado.
36:47Tem mais variação de sabores.
36:49Se você puser duas ou três gotas de azeite em cima...
36:52Muda.
36:53Outro sorvete.
36:54Outro sorvete.
36:54Chocolate.
36:55Tudo.
36:56Tem infinitas...
36:57Infinitas conexões.
36:59Bacana.
37:00Olha, chegou o fim do mundo.
37:02Qual seria a sua última refeição?
37:07A última refeição, não sei dizer.
37:09Agora, se chegasse o fim do mundo, eu queria ter os meus amigos, que não são muitos.
37:15Eu acho que ninguém tem muitos amigos.
37:18E a minha família mais próxima para eu dividir a última refeição.
37:22E, garantidamente, bem regada.
37:24E acabaria, sabe com o quê?
37:27Com uma bela cachaça fria.
37:29Que eu adoro cachaça fria.
37:30Jura?
37:31Vai falar que você...
37:31Achei que você ia mandar um vinho já.
37:33É, um vinho.
37:34Um vinho do Porto.
37:35Eu achei que ia.
37:35Vinho do Porto é antes da cachaça.
37:37Ah, entendi.
37:39A refeição, para mim, tem etapas.
37:41Eu começo com algo com barbulhas.
37:43Pode ser até uma cerveja.
37:45Ou um mante.
37:46Bem em português.
37:47Branco.
37:48Branco.
37:48Normalmente até se bebe mais branco que tinto.
37:51Na minha casa, tinto.
37:54Um vinho fortificado, um escatelo, ou um porto, ou uma madeira.
37:58E depois acabaram.
37:59E como bebida destilada, provavelmente, hoje, a bebida destilada que eu mais gosto é a cachaça.
38:09E a evolução que as cachaças no Brasil tiveram é impressionante.
38:14Isso virou um mercado de luxo relevante hoje.
38:17Mas boas, boas.
38:18De altíssimo nível.
38:19Se vocês forem à minha casa, nem acreditam na começão de cachaças que eu tenho.
38:22E não tenho mais, sabem porquê?
38:23Que eu bebo e divido.
38:25É isso.
38:25Adorei.
38:26Uma coleção desse tipo de coisa é para nunca crescer.
38:29Não cresce.
38:30Sempre se renovando.
38:32Mas mantém um bom estoque.
38:34Legal.
38:35Bacana.
38:35E agora vamos descobrir mais sobre o Vitor.
38:38Onde os chefes comem.
38:40Onde eles comem.
38:44Vitor, agora só vale nome de restaurante.
38:47O melhor italiano.
38:49É São Paulo para mim?
38:51Você que escolhe.
38:59É no zero.
39:00Zero, boa escolha.
39:02Bem tradicional.
39:03Os meus favoritos também.
39:04Pizza.
39:06Para não ser suspeito e não falar da 1900, o que é mesmo?
39:10Boa.
39:10Que tem também o melhor estrogonofe, hein?
39:12Melhor estrogonofe.
39:13Famosíssimo, por sinal.
39:14O melhor hambúrguer, Vitor?
39:18Não.
39:20Não tem uma referência boa.
39:22Não tá.
39:22Isto é, não sou consumidor de hambúrguer.
39:24Sabe o que é engraçado, Vitor?
39:26Quase todos os chefes europeus que vêm aqui, quando passam no hambúrguer, e é engraçado
39:30que você fez um comentário sobre a gente sugar muito dos Estados Unidos, né?
39:33Passa no hambúrguer.
39:34O único que respondeu foi o Clodo.
39:36É, o Clodo tem o CT, que aí tá mais fácil.
39:40Que é da família.
39:41Mas é...
39:42Eu não venho a São Paulo.
39:42Os europeus, em geral, eles não comem hambúrguer.
39:45Agora eu venho a São Paulo comer um hambúrguer.
39:47É, tem muita gastronomia aqui pra você ir comer hambúrguer, né?
39:50Chorei.
39:50Eles comerem hambúrguer, façam em casa, eu.
39:52E árabe?
39:53Melhor árabe?
39:55Eu, até pela ligação, o árabe que mais voa em São Paulo é o Arábia.
40:02Adoro.
40:03Muito bom.
40:04Melhor comida japonesa?
40:08E também a amizade conta, mas eu acho que ela é o cara, que é o Murakami.
40:14Murakami.
40:15Murakami.
40:15A gente tá esperando a visita dele.
40:18Mas acertou na mosca.
40:20Comida brasileira, Vitor.
40:23Tem dois.
40:25Tá.
40:25Hoje em dia tem dois que eu vou mais.
40:30Eu tenho o hábito que eu trato muito bem aqui.
40:34As equipas, o meu sonho, o Márcio, tratam-me bem.
40:37A última refeição, sempre que eu venho cá, eu faço questão de ser eu a oferecer.
40:46E o Tordesilhas, o Tordesilhas, o Tordesilhas.
40:48Só não vou ao Rodrigo, que fica muito longe.
40:52Muito longe.
40:53Tem que ter uma logística.
40:54Tem que ter uma logística.
40:55Mas o Tordesilhas é normalmente a última refeição que eu faço em São Paulo, sempre que venho a São Paulo.
41:05Legal.
41:05E a melhor sobremesa?
41:09Também não tenho...
41:11Não vou no sítio...
41:13Um pastel de natas.
41:14Não, não mesmo isso.
41:16Acho que aí nós em Portugal ganhamos a fazer pastéis de natas.
41:20Mas eu não posso dizer que vou no sítio para comer uma sobremesa.
41:25Embora tenho de confessar que adoro quindim.
41:29Adoro.
41:30Mas o melhor quindim é feito por uma colaboradora minha, que é a Fernandinha, que trabalha comigo há muitos anos.
41:38É brasileira e faz um quindim.
41:40Ela trabalha lá ou cá?
41:42Lá.
41:42E ela deixou a receita aqui para a turma?
41:45Ela faz lá.
41:46Faz lá.
41:46Ela faz lá.
41:47Ela faz lá.
41:48Passa a receita para a gente.
41:49Eu também sou fã de quindim.
41:51Pode ser falar agora, é.
41:53Ela tem...
41:55Dá só o trabalho de comprar o coco, ralar o coco, é um quindim e faz pequeninos.
42:02Então dá para enfrentar três ou quatro tranquilo.
42:05Tranquilo e sem peso.
42:06Sem peso na consciência.
42:08Qual a sua comida favorita, Vitor?
42:11Eu não posso dizer que há uma, mas hoje eu diria que 70% da minha alimentação é frutos do
42:19mar.
42:19Frutos do mar.
42:20É, e que tem...
42:21Frutos do mar, como eu digo, frutos do mar e...
42:23Frutos do mar e peixe, não é?
42:24Peixe.
42:25Tudo vem do mar.
42:26Do mar.
42:26Perfeito.
42:28Tudo que nada.
42:29E eu nada que nada.
42:30Que horror, gente.
42:33O que você não come de jeito nenhum?
42:36Só tem uma coisa, pepino.
42:38Pepino também detesto.
42:40Nossa, acho terrível.
42:41E dá gosto em tudo que toca pepino.
42:43Rapaz, cada vez essa resposta vem uma coisa mais aleatória.
42:45Pepino, uma coisa tão básica.
42:47Não, pepino não é básico.
42:48Mas eu, se comer pepino, lembro-me dele...
42:53Jura?
42:53Eu também.
42:54O dia inteiro.
42:55Pimentão eu tenho isso, mas pepino...
42:56Pimentão também.
42:56Mas pimentão, vocês comem mal pimentão, porque vocês não descascam o pimentão.
43:00Pimentão tem que ser descascado.
43:01Você não pode comer pimentão com casca.
43:03É igual tomate.
43:04Deveria também descascar.
43:06Ah, esse é o problema?
43:08Porque a casca é muito pouco digestiva, né?
43:11É muito ingesta, exatamente.
43:13Que aula, que emocionante.
43:16A gente tem que ter versão número 2, tá?
43:18Tem, mas aí...
43:19Você tem que voltar...
43:20Vamos fazer uma visita lá.
43:22Vamos embora.
43:23É, né?
43:24Adorei.
43:24Vou fazer um desafio.
43:26Vamos fazer a comparação da tasca da esquina.
43:30Da Kiko, a de lá.
43:31Isso.
43:31Pronto, gostei.
43:32Vocês vão ver que é engraçado.
43:34Hoje tem de desafio.
43:34Que a matriz é igual.
43:36Embora nós aqui aproveitamos algumas coisas que não temos lá de disponibilidade e lá
43:40é igual, não é?
43:41Agora aqui até uma coisa que conseguimos, que é queijo bom brasileiro.
43:46Ah, tem.
43:47Hoje em dia tem muito.
43:48Tem?
43:48Tem.
43:48Não tinha, mas tem.
43:50A gente não tinha, mas hoje em dia tá crescendo.
43:51O pomento não chegava.
43:53E hoje chega.
43:53Tá crescendo muito esse mercado aqui.
43:55Tem produtores incríveis aqui no Brasil hoje em dia.
43:58Top.
43:58É verdade.
43:59Bom.
44:00Legal.
44:00Que aula.
44:01Muito obrigada, Vitor.
44:02Obrigado demais, Vitor.
44:11do nosso canal e ativa o sininho pra não perder os próximos, né, Manu?
44:14É isso aí.
44:15Até a próxima com muito mais histórias inspiradoras.
44:17Um beijo.
44:27A opinião dos nossos comentaristas não reflete necessariamente a opinião do Grupo Jovem Pan
44:34de Comunicação.
44:39Realização Jovem Pan
44:41Realização Jovem Pan
44:42Obrigado.
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