00:02A escalada da guerra no Oriente Médio vem causando muita turbulência nos mercados do mundo inteiro.
00:07A gente vai falar agora com o Luciano Losecã sobre esse assunto.
00:11O Luciano Losecã, perdão, que está chegando agora para falar com a gente.
00:15Sobe um pouquinho para a gente, TP.
00:17É coordenador do Grupo de Energia e Regulação da UFF, ou também, como dizem no Rio de Janeiro, UF, né,
00:22Luciano?
00:22Seja muito bem-vindo aqui ao Radar.
00:26Exato. Muito feliz de estar aqui.
00:28Luciano, qual que é o impacto imediato dessa liberação que a gente viu aí de 400 milhões de barris de
00:33petróleo no mercado internacional?
00:36É, a gente ainda tem um preço que está se movimentando por volta de 90 dólares de barris, né, no
00:46último dia, mais ou menos, né,
00:48que a gente já teve bastante oscilação, né, recentemente, mas agora tem se mantido mais ou menos estável nesse patamar,
00:57né.
00:58A decisão, né, de liberação, né, de reservas estratégicas de 400 milhões de barris é bem significativa, né,
01:07se a gente pensar, né, no que está bloqueado ali no Estreito de Orbus, em termos diários,
01:13a gente vê por volta de 15 milhões de barris, né, então a gente tem mais de 20 dias, né,
01:18de reservas estratégicas que podem compensar, né, essa paralisação.
01:24Bom, no Brasil, a política de preços da Petrobras está conseguindo segurar, pelo menos até agora,
01:30o impacto direto, digamos assim, desses aumentos.
01:32Mas tem problema já no fornecimento, por exemplo, no abastecimento de diesel, né?
01:37Exato, né, a gente tem uma situação que os preços, antes mesmo do início, né,
01:43do conflito e do agravamento, né, já estavam um pouquinho defasados.
01:47No caso do diesel, a defasagem já chega quase a 50%, né,
01:51então é um valor que é difícil de se manter ao longo do tempo.
01:59A gente sabe, né, que a estratégia de precificação da Petrobras,
02:03ela tenta blindar o mercado nacional da oscilação do mercado internacional.
02:09Mas se uma vez esse patamar se confirma e se estende mais no longo prazo,
02:17em algum momento esse novo patamar tem que ser repassado para os consumidores aqui no Brasil, né?
02:23O senhor acredita que vai ser inevitável um aumento em breve dos combustíveis?
02:30Exato, exato.
02:31A não ser que se faça algum tipo de manobra de compensação, né,
02:42é necessário que nos próximos dias a gente tenha esse repasse.
02:49Voltando a falar sobre esses 400 milhões de barris aí,
02:53eles seriam suficientes por quanto tempo para deixar a situação um pouco menos periclitante?
02:59É, porque ainda é cedo para saber como esses barris estão sendo liberados
03:05e qual é a disponibilidade na infraestrutura.
03:08O mercado de petróleo, apesar de a gente saber que é uma commodity global, né,
03:13o petróleo não é o mesmo em toda a parte do globo, né,
03:16tem especificidades e, dependendo da área, né,
03:21tem a característica de petróleo mais leve, mais pesado
03:24e isso tem que adequar para o blade de refino, né.
03:28Mas, mesmo assim, né, se a gente, pela conta, né,
03:31até que já antecipei, né,
03:37esse montante corresponde mais ou menos a 20 vezes
03:41o volume diário transportado, né,
03:45o fluxo do distrito de Ormuz, né.
03:46Então, é um volume bastante significativo, né.
03:50E como é que essa crise atual no Oriente Médio
03:53está aumentando o risco de uma estagfação na economia mundial?
03:58Porque a gente viu isso nos anos 70, né,
04:00a gente tem uma estagnação econômica com inflação alta
04:03e teve também muito a ver com o petróleo naquele momento, né.
04:06Exato, né, e é um risco, né,
04:11mas a situação hoje é muito diferente do que era lá nos anos 70, né.
04:17A gente tem uma oferta de petróleo que é mais diversificada
04:20ao longo do globo, né, não está tão concentrado, né,
04:24nos países do Oriente Médio, né,
04:27e, além disso, né, o próprio...
04:29as outras fontes energéticas também cresceram de participação, né.
04:33Então, a gente tem uma situação um pouquinho diferente.
04:36Ainda assim, né, o petróleo ainda é um produto
04:42estruturante dos mercados, né,
04:44porque ele está presente, né,
04:46em qualquer organização econômica, né,
04:49via transportes, via impacto financeiro, etc., né.
04:54Então, é um impacto, né,
05:01de uma elevação tão rápida de preços, né,
05:04é sentida globalmente.
05:06E o risco, né, de inflação está sendo sentido, né,
05:10já nos países que têm preço liberalizado,
05:13ao mercado final, né,
05:14a inflação já está sendo observada, né.
05:20Eu queria que você analisasse também para a gente, Luciano,
05:22qual é a situação da Petrobras no momento?
05:24Não só nesse aspecto de que pode subir preço de gasolina ou não,
05:27mas da empresa em si.
05:28Ela está se beneficiando dessa alta do petróleo?
05:31É, a Petrobras hoje é uma exportadora de petróleo
05:35e, assim, né, ela se beneficia dos preços mais elevados, né.
05:41Se a gente pensar no curto prazo, né,
05:43a gente sabe dessa questão bastante crítica, né,
05:50de redefinição de preços no mercado doméstico, né,
05:54mas se a gente pensa, né, mais de longo prazo, né,
05:59a escalada de preços acaba dando uma oportunidade para a Petrobras
06:03e também, né, se a gente pensar na reorganização de mercados, né,
06:09abre mercado para a Petrobras, né,
06:11porque é um petróleo que concorre globalmente
06:14e que está numa área, né, de menor sensibilidade, né,
06:17em termos geopolíticos, né.
06:21Agora, além dessa medida que a gente viu hoje,
06:24dos 400 milhões de barris de petróleo,
06:25você vê outras medidas que a comunidade internacional
06:28possa adotar caso esse problema no Estreito de Ormuz se prolongue?
06:33É, essa medida já é uma medida bastante significativa, né,
06:40e eu acho que é interessante, né,
06:42que ela foi organizada a partir, né,
06:45da Agência Nacional de Petróleo, né,
06:47que ela, lá no passado, já teve esse papel, né,
06:51a Agência Nacional de Petróleo,
06:53ela foi criada, né, como uma resposta, né,
06:57às crises do petróleo lá nos anos 70, né.
06:59Então, essa coordenação, ela tem,
07:04mostra, né, que os países estão cooperando, né,
07:08pelo menos os que fazem parte da OCDE, né,
07:15cooperando, né, para chegar, contornar essa situação.
07:18Assim a gente pode pensar também pelo lado do consumo, né,
07:22porque isso afeta mais oferta,
07:25mas pelo lado do consumo também existe possibilidade de ação, né,
07:29para tentar contornar, né, a questão do petróleo.
07:34É claro que a rigidez, né, pelo lado da demanda é mais significativa, né,
07:41a gente tem alguns países, como o Brasil, né,
07:44que tem mais possibilidade de substituição,
07:46e aí nos biocombustíveis, né,
07:49em outros países essas possibilidades não se coloquem,
07:52e aí a rigidez do consumo é mais difícil de lidar.
07:57Luciano Losecam, coordenador do Grupo de Energia e Regulação
08:00da Universidade Federal Fluminense,
08:02muito obrigado pela sua participação no radar de hoje.
08:05Eu que agradeço.