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  • há 2 meses
A escalada entre Estados Unidos e Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz acendem o alerta para impactos no comércio internacional. Segundo Lígia Maura Costa, professora da FGV EAESP, os principais efeitos devem ser energéticos, logísticos e financeiros, com alta do petróleo, fretes e seguros marítimos.

A especialista destaca que energia mais cara pressiona a inflação global, enquanto hubs do Golfo, como Dubai e Catar, enfrentam riscos operacionais. No campo financeiro, a tendência é de fortalecimento do dólar e maior volatilidade cambial.

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Transcrição
00:00E a escalada entre Estados Unidos e Irã também deixa em alerta o comércio global,
00:05especialmente depois do fechamento do Estreito de Hormuz,
00:08uma rota estratégica para o escoamento de boa parte da produção de petróleo do Oriente Médio.
00:14Sobre esse assunto e sobre o impacto no comércio, eu converso agora ao vivo com Ligia Maura Costa,
00:20professora titular da FGV e AESP e livre docente em Direito Internacional.
00:26Professora, boa tarde, seja bem-vinda.
00:30Boa tarde, Natália. É um prazer estar aqui com você e com seus telespectadores na CNBC.
00:36Obrigada pela disponibilidade, por nos receber em pleno sábado à tarde, professora.
00:42Bom, num dia em que o mercado já teme alta nos seguros marítimos, nos fretes mais caros,
00:50impactos também diretos nas cadeias de importação, exportação,
00:54ajuda a gente a entender a dimensão que tudo isso pode ganhar, professora?
00:59A dimensão, ela é, eu acho que é difícil até de prever.
01:03Acho que o que a gente tem que pensar, Natália, é que quando mísseis cruzam o céu do Golfo
01:09e envolve uma potência mundial com os Estados Unidos, não é apenas geopolítica,
01:15atenção, é também do comércio internacional, porque ao final o comércio internacional,
01:20ele vai acabar pagando essa conta.
01:22Então, o ataque dos Estados Unidos e Israel contra o Irã e o contra-ataque iraniano
01:31envolvendo países do Golfo que têm bases norte-americanas, como mencionado agora,
01:37o caso dos Emirados Árabes Unidos, com o Dubai, com o Qatar, ou seja, que são grandes hubs logísticos,
01:48e isso também é um problema muito grande nessa escalada de conflitos
01:53e que tem um efeito bem forte sobre o comércio internacional.
01:56Aliás, eu diria que são três os maiores efeitos que o comércio internacional teria
02:01com essa escalada de conflitos que estamos vivendo hoje.
02:07Independentemente do Estreito de Hormuz ter sido fechado,
02:12a gente tem também este impacto que seria relevante.
02:16Mesmo que não tivessem fechado, o impacto mesmo assim existiria.
02:20Professora, só recapitula, então, quais seriam esses principais efeitos?
02:25São três que a senhora mencionou?
02:27Eu diria que são três.
02:29Os mais importantes.
02:31Energético, sem dúvida, já que, na verdade, o Golfo concentra a parte estratégica
02:39do fluxo comercial mundial de petróleo, de gás natural.
02:44Eu não penso que haveria uma interrupção de fluxo do petróleo, muito pelo contrário.
02:49O que nós teremos, eu imagino, no curto prazo vai ser um aumento do preço do petróleo,
02:54porque quando a guerra começa, eu costumo dizer aos alunos,
02:58o comércio não para, ele apenas encarece.
03:01Então, esse risco militar grande que estamos vivendo hoje,
03:05o mercado vai reagir instantaneamente, até mais rapidamente do que os diplomatas,
03:11e com isso nós vamos ter, sem dúvida, um aumento no custo do petróleo.
03:19O mercado, em geral, ele reage sempre muito rápido a qualquer incerteza.
03:24O mercado não reage já a fatos já consumados.
03:27E energia mais cara significa transporte mais caro,
03:31significa produção mais cara, significa inflação a nível global.
03:38Do ponto de vista logístico, que eu já mencionei,
03:41e que faz referência à matéria sobre o ministro da Defesa italiano,
03:46que está preso em Dubai, é o logístico.
03:49Porque os países, como os Emirados Árabes, como o Qatar,
03:52são hubs muito importantes, não só para o comércio internacional,
03:56mas também de aviação.
03:58Então, quando eles entram na linha de fogo, e de fato eles entraram,
04:01nós sabemos que teve uma pessoa que morreu em Abu Dhabi,
04:05quer dizer, nos Emirados Árabes Unidos,
04:07em decorrência dos destroços de um míssil que foi interceptado,
04:12que foi enviado pelo Irã.
04:13Então, o que nós temos?
04:15Nós temos seguradoras que vão, obviamente, elevar pré,
04:18já que tem um risco logístico.
04:20As rotas, provavelmente, serão alteradas,
04:24já vemos o ministro da Defesa italiano preso lá,
04:27e vai ter um custo muito maior no frete.
04:30Então, isso vai afetar, sem a menor dúvida,
04:33a cadeia de fornecimento, que vai muito além do Oriente Médio,
04:37ou seja, nós estamos falando de cadeia de fornecimento a nível global.
04:40E, por fim, mas não por último, o impacto é financeiro.
04:44Uma escalada militar envolvendo os Estados Unidos
04:48altera a percepção de risco global.
04:52E, quando altera a percepção de risco global, o que acontece?
04:56Todo mundo busca o dólar.
04:58Então, em crise global, a curto prazo,
05:00o capital busca liquidez e busca segurança.
05:04Logo, o capital vai buscar o quê?
05:06O dólar, porque o dólar continua sendo
05:09a principal moeda de reserva dos países.
05:12Então, os investidores vão buscar ativos
05:15que eles entendem que são seguros, ou seja, o dólar.
05:18Então, a curto, o dólar tende, sim, a se fortalecer
05:21e moedas emergentes, elas vão se tornar ainda mais voláteis.
05:26Então, comércio internacional, a gente não pode esquecer,
05:30depende de financiamento e depende de estabilidade cambial.
05:34Toda volatilidade vai reduzir a previsibilidade
05:39do comércio internacional e que vai ter um impacto muito grande.
05:42Então, são esses os três principais fatores,
05:46além de, obviamente, as sanções secundárias que, eventualmente, podem vir.
05:51Obrigada por esse panorama, professor.
05:53E o Brasil, no meio, nesse contexto todo,
05:56e olhando para o comércio brasileiro,
05:59a gente deve ser impactado em relação a importações,
06:02mais do que em relação às exportações,
06:05ou nos dois caminhos aí?
06:09Eu acho que, nos dois caminhos, nós poderemos ter uma zona de impacto.
06:14Sem dúvida, nós somos exportadores de petróleo e nós estamos fora da zona de risco.
06:18Então, isso, em princípio, pode fazer com que, a curto prazo,
06:22o preço do petróleo suba, o que vai melhorar a balança comercial do Brasil
06:26com o preço do petróleo subindo.
06:28Mas não é um cenário linear, não é porque vamos ter uma melhora na balança comercial
06:35com o aumento do preço do petróleo,
06:37que nós só vamos ter ganhos, muito pelo contrário,
06:40porque o Brasil também é um grande exportador agrícola
06:43e o agro necessita de fertilizantes, como foi mencionado agora há pouco.
06:48E os fertilizantes são importados.
06:50Então, se houver sanções adicionais contra o Irã,
06:53o Irã é um exportador de fertilizantes, além de tudo,
06:57ou se tivermos perturbações logísticas, o custo do agro vai subir.
07:05Disso, o combustível mais caro tem um impacto positivo na balança comercial,
07:11entretanto, pressiona inflação interna, da mesma forma que pressionará inflação global.
07:17Então, é uma linha, não é linear, não é porque vamos ganhar com o aumento do preço do petróleo
07:23que automaticamente vai dar tudo bem para o Brasil.
07:25Não, não vai.
07:26Nós temos impactos muito maiores a serem levados em consideração.
07:30Um conflito dessa ordem, eu diria que é uma relação perde-perde,
07:34porque ninguém, de fato, acaba ganhando, apenas se os custos serão maiores.
07:40Exatamente, se é que alguém ganha a indústria de defesa, só esse setor mesmo,
07:47porque o restante, de fato, lida com muitos desafios e a gente ainda, com a nossa exportação
07:52de soja, de carne e de milho para destinos como Arábia Saudita e Emirados Árabes também, professora.
07:59E mesmo o Irã, nós exportamos milho para o Irã e além, e que também é um parceiro comercial importante
08:08para o Brasil e que a gente faz uma exportação muito grande de milho.
08:14Se eu não me engano, o ano passado nós exportamos quase um, mais de um bilhão,
08:18quase um bilhão e novecentos bilhões de dólares em milho para o Irã.
08:23Então, isso também é algo que tem que levar em consideração, é um impacto também bastante importante.
08:31E eu acho que o que é muito relevante...
08:33Pode concluir, professora.
08:36As sanções secundárias.
08:37As sanções secundárias poderão impactar o mercado,
08:40porque poderão impactar empresas, bancos,
08:43que operam no comércio internacional com relações com o Irã.
08:47E isso vai ter um impacto no crédito e no financiamento de exportações.
08:53Perfeito.
08:53Quero agradecer a professora Lígia Maura Costa,
08:56titular da FGV, EASP e livre docente em Direito Internacional,
09:00pela entrevista aqui ao vivo.
09:02Muito obrigada por isso, professora, e até a próxima.
09:07Eu que agradeço, Natália.
09:08É um prazer estar com você.
09:10Obrigada.
09:11Bom sábado.
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