00:00E os ataques envolvendo Estados Unidos em conjunto com Israel contra Irã geram incertezas e ampliam os riscos de uma
00:10escalada para uma regionalização do conflito por todo o Oriente Médio e até a possibilidade de envolvimento também indireto de
00:17outras potências.
00:18E isso afeta rotas estratégicas de energia, comércio, alianças militares e o equilíbrio das forças.
00:25Sobre os impactos geopolíticos desse conflito, conversamos agora com o Igor Lucena, economista, também doutor em relações internacionais. Igor, seja
00:35muito bem-vindo, uma boa tarde.
00:40Boa tarde, é um prazer estar aqui com vocês.
00:42O prazer é nosso. Igor, de que maneira a intensificação do risco geopolítico, nessa escalada do conflito que a gente
00:51vem acompanhando desde sábado, se materializa em consequências para a economia?
01:05Igor, você está me ouvindo?
01:09Opa, eu escuto, agora escuto.
01:11Você pode só repetir o final?
01:14Claro, vou repetir a pergunta.
01:16Eu te perguntei de que maneira a intensificação do risco geopolítico se materializa em consequências para a economia?
01:27Claro, a gente está assistindo uma questão de tempo, né?
01:31Quanto mais tempo demora esse conflito internacional, quanto mais tempo o presidente Donald Trump não chega a um objetivo estratégico,
01:46mais volátil ficam os mercados.
01:48Então, a gente pode fazer uma análise inicial sobre os mercados mais atingidos, né?
01:54Que é o mercado financeiro.
01:55A gente deve assistir a abertura do pregão na Ásia e também os pregões da segunda-feira com fortes quedas,
02:02dado a fuga de capitais dentro desses setores.
02:07E, obviamente, o fechamento do Estreito de Hormuz, onde você tem um local que passa mais de 20% da
02:15produção de gás e petróleo do mundo e uma diminuição da oferta desses bens, isso deve aumentar a cotação do
02:26barril de petróleo nos próximos dias.
02:27Então, quanto mais tempo isso impacta, mais complicado fica para a economia global, mais investidores retiram seus planos de investimentos,
02:37companhias aéreas atrasam a compra de novas aeronaves, principalmente de alta transição, como são os voos que vão para o
02:46Oriente Médio, que estão todos suspensos.
02:48Então, é, de fato, extremamente complexo quando a gente pensa que esse conflito vai impactar o planeta inteiro.
02:55Agora, Igor, desculpa até te cortar, o Pablo também está participando dessa conversa, ele vai te fazer uma pergunta, só
03:02para a gente não sair da linha do raciocínio.
03:04Ainda pensando um pouco nessas relações comerciais, o Oriente Médio tem ganhado cada vez mais destaque pensando aqui para o
03:12Brasil.
03:13Diante desses impactos, óbvio, da escalada que a gente está acompanhando, ainda tímida essa relação, claro, Brasil e Emirados Árabes,
03:24esse conflito pode, na sua percepção, atrasar ainda mais nessa relação?
03:28Ou seja, o medo e a percepção do mercado brasileiro pode ficar comprometida?
03:37Eu acho que ele tem um impacto inicial muito forte, que é as nossas exportações para o Oriente Médio ficam
03:43paralisadas.
03:44A gente vai ver aí que navios não vão conseguir chegar dentro daquela região, os aviões já pararam, então negócios,
03:53operações comerciais.
03:54E lembrando que o Oriente Médio hoje é uma porta de entrada para a Ásia.
03:58Então, de fato, a relação do Brasil com essa região do mundo fica extremamente fragilizada.
04:05Lembrando que é um momento onde o próprio governo vem fazendo uma aproximação com o Oriente Médio
04:10para que a gente tenha mais espaços comerciais dentro da região.
04:13Então, não só o Brasil para com isso, para essa relação ou diminui essa relação,
04:17mas os outros países da América Latina também vão sentir esse impacto.
04:22Inclusive, sobre esses impactos, sobre os países envolvidos,
04:27isso que você acabou de citar agora, de que a gente exporta muito para lá,
04:32a nossa proteína animal, por exemplo, muitos alimentos,
04:35naquela região realmente é um mercado muito bom para um vendedor de alimentos,
04:41como é o caso do Brasil.
04:43Esse ataque, quando inclusive a gente coloca até o Brasil como afetado na conta,
04:48a gente percebe que afetou muitos dos países do BRICS, certo?
04:53A China agora com o próprio petróleo, o próprio Irã também,
04:57que é um país que tem vínculos com o BRICS.
05:00A Índia também é afetada ali por conta de passagens marítimas e aéreas.
05:06A própria Rússia está se incomodando com toda essa situação,
05:09também é uma compradora do Irã e também uma exportadora do Irã.
05:14Dá para a gente perceber que afetou muito esse novo bloco econômico.
05:19Você vê isso até como proposital de não só afetar o Irã,
05:23aquela região petroleira que os Estados Unidos têm muita intenção sobre,
05:28mas também até outros países e até blocos econômicos,
05:32como o BRICS, que está incomodando os americanos.
05:37Olha, eu não vejo essa visão nessa estratégia de incômodo ao BRICS.
05:43Eu acho que tem outra visão e eu gosto de ver também o filme, não a foto.
05:47O presidente Donald Trump retira da Venezuela Nicolás Maduro
05:51e coloca a Delcio Rodrigues, que está fazendo uma abertura econômica e política.
05:57Ao mesmo tempo, em Cuba, a gente está assistindo negociações
06:01porque o país está se tornando ingovernável.
06:04Então, quando você vê a queda de dois inimigos dos Estados Unidos,
06:09o Irã sendo a morte do Ayatollah e uma possível destruição militar do regime,
06:15mostra que o objetivo do presidente Trump é, de fato,
06:18eliminar o que são chamados os vilões que querem destruir a América.
06:22E quando a gente olha o filme, a gente analisa também a queda dos Hultes,
06:29do Hamas, do Hezbollah,
06:32Brás, que poderiam fazer um contra-ataque contra bases americanas.
06:36Então, isso tudo impacta,
06:38e eu acho que isso está programado dentro de uma estratégia maior do presidente Donald Trump.
06:43Agora, o impacto secundário, que, de fato,
06:46exportações de óleo sancionado do Irã para a China é correto,
06:51impacta a China, impacta outros atores.
06:54Eu acho que, dentro dessa proposição,
06:57um Irã fraco ou um Irã não aliado à China e Rússia
07:00é, sim, de interesse dos Estados Unidos, de Israel
07:03e de outros países daquela região.
07:06Então, eu acho que, quando a gente olha o filme,
07:09apesar da complexidade,
07:10isso, no final, serve, sim, para os interesses americanos dentro da região como um todo.
07:16Mas eu acho que o presidente Trump está utilizando, mais ou menos, a mesma estratégia,
07:20obviamente, com muito mais poder militar e habilidade,
07:24do que ele estava fazendo na Venezuela nas últimas semanas e meses.
07:28E, professor, o senhor vê que Trump sabe o que vai acontecer nos próximos dias?
07:34Ou ele, de fato, tinha o objetivo de atacar um alvo?
07:39Aconteceu.
07:40E agora, nos próximos dias, ele, de fato, não tem algum plano?
07:44Porque, se não me engano, é a primeira vez, então,
07:47que uma operação comandada por Washington consegue, de fato,
07:51assassinar o chefe de Estado no poder,
07:53a Etolá, de 89 anos, 86, perdão,
07:56que lidera o regime, e isso desde 89, né?
08:01Exatamente.
08:02Eu não diria que o presidente Donald Trump
08:05sabe exatamente o que vai acontecer,
08:07mas, pelas declarações dele
08:09e pelo que ele vem fazendo nos outros combates e ataques,
08:12Eu acho que o presidente Donald Trump já tem contatos
08:16com possíveis membros do próprio regime
08:18que poderiam ser mais pró-Estados Unidos,
08:22talvez menos radicais,
08:23e que têm, talvez, o objetivo de conter sua própria vida,
08:27a própria sobrevivência.
08:29A gente não sabe se essas pessoas irão ascender ao poder,
08:33mas, talvez, o presidente Donald Trump
08:35tende a ajudá-los, né?
08:37E ter o Irã que esteja menos hostil aos Estados Unidos.
08:40Porque, obviamente, uma transição à democracia
08:42é algo extremamente difícil da gente ver.
08:45Então, acho que o objetivo aí
08:47é criar um ambiente
08:49aonde seja menos pró-China e pró-Rússia
08:53e muito mais pró-Estados Unidos.
08:56Obviamente, isso não está muito claro ainda,
08:59mas só a destruição,
09:01a morte dos 40 líderes
09:03que já foram anunciados por Israel
09:05não seria suficiente.
09:07Um outro ponto que eu acho que isso vai ser alcançado,
09:09e eu acho que isso é mais claro,
09:11é a destruição total das armas iranianas aéreas,
09:16baterias antiaéreas, mísseis,
09:18de modo a tornar o Irã
09:19um Estado incapaz de se defender,
09:22até mesmo dos outros países do Golfo,
09:24como a Arábia Saudita e Emirados Árabes.
09:27Dessa maneira, tornando o próprio regime
09:30refém da situação que está sendo prática.
09:33O presidente, inclusive, diz iraniano
09:37que a vingança é um direito do país,
09:39mas até onde vai esse arsenal?
09:41E aproveitando, Pablo,
09:42só para aproveitar aqui a tua pergunta também,
09:45enquanto o professor falava,
09:47a gente acompanha imagens,
09:48nesse momento, de protestos
09:51contra a morte do Ayatollah Ali Khamenei.
09:55Isso acontece em Bagdá.
09:56Ou seja, professor,
09:58essas limitações do Irã em termos bélicos,
10:01vai até quando?
10:04Próximas horas, próximas semanas?
10:06O que a gente tem percebido,
10:07ou pelo menos é a sensação,
10:09que eles parecem estar utilizando mísseis
10:11com maior até potencial bélico
10:13nesses novos ataques.
10:15Também estava surgindo aqui
10:16essa dúvida, Soraya,
10:18de que o professor acabou de dizer
10:20que os Estados Unidos podem ir
10:23até que o Irã não consiga mais se defender.
10:25Mas o Irã diz que consegue
10:27e que, inclusive, tem armas
10:28que os americanos nunca viram na história.
10:31Será até um blefe, então, professor?
10:36Olha, Soraya,
10:38eu acho que quando um regime ditatorial
10:42tenta falar que tem uma capacidade militar
10:44maior do que, de fato, ele tem,
10:47isso é algo muito comum.
10:48Primeiro, o regime está implodindo internamente,
10:51não há mais uma unanimidade no apoio,
10:54a inflação está muito grande,
10:56a gente assiste até as guildas comerciais,
11:00que eram sempre extremamente pró-regime,
11:03querendo uma mudança,
11:05a própria, o corpo feminino,
11:07mulheres estavam fazendo
11:08fortes manifestações radicais contra o regime.
11:11Então, o regime só tem hoje
11:13uma única arma, mostrar força,
11:15tentar mostrar o braço militar
11:17para se defender.
11:18E aí é um ponto interessante,
11:20é tentar se defender internamente
11:22e externamente.
11:23Mas, quando você tem a morte dos líderes militares,
11:26a morte da cabeça da guarda revolucionária,
11:30o próprio Ayatollah,
11:32o que se espera
11:33para usar essas armas de grande destruição
11:36que não foram vistas?
11:37Ora, não há mais o que fazer.
11:39Se essas armas existissem,
11:40elas já teriam sido usadas.
11:42Então, é muito claro que isso parece um blefe,
11:44e o fato de dizer que é necessário
11:47uma jihad que seja feita
11:49por todos os muçulmanos pró-Irã ao redor do mundo
11:54mostra que eles não têm muito mais
11:55o que fazer, o que se locomover.
11:58O que vão acontecer vão ser esses ataques
12:00no Iraque, nos Emirados Árabes,
12:02no Kuwait,
12:03que são alvos próximos.
12:04Mas eu acho que isso vai terminar
12:06unindo muito mais
12:07o mundo árabe,
12:09de países como os Estados Unidos
12:10e até mesmo Israel,
12:11do que de fato
12:12fazer algum tipo de defesa do Irã.
12:15Perfeito.
12:16E o senhor vê a possibilidade,
12:18pensando até num histórico de apoio
12:20entre Rússia e Irã,
12:22que Rússia,
12:23que também está em meio
12:25a uma guerra já de anos
12:27e que não consegue também
12:29solucionar a própria guerra interna
12:31com a Ucrânia,
12:32possa de alguma forma
12:33oferecer apoio ao Irã?
12:38Olha, eu acho muito difícil.
12:39se os russos não estivessem
12:41no conflito na Ucrânia,
12:42eles provavelmente já teriam dado
12:44algum tipo de apoio militar
12:46até antecipado para o Irã.
12:49Agora, como manter esse apoio
12:51se você não consegue nem mesmo
12:53avançar nas trincheiras na Ucrânia?
12:55É necessário o apoio
12:56da Coreia do Norte e da China
12:58dentro do território ucraniano.
13:00Então, hoje,
13:02o Irã está totalmente
13:04à mercê de si mesmo
13:06e não tem capacidade
13:08de receber apoio econômico
13:10da China
13:10por causa dos bloqueios
13:11e nem mesmo militar
13:12com a Rússia
13:13que está, de fato,
13:14preocupada
13:15com seus próprios interesses
13:16no seu quintal.
13:19Você vê, por acaso,
13:20mais algum tipo de aliança,
13:21professor, sendo formada
13:22a partir de agora?
13:23Ou o que a gente vê
13:25pode ser, o contrário disso,
13:27já um bem-sucedido,
13:30objetivo,
13:31alcançado pelos americanos
13:33e, a partir de agora,
13:34apenas negociação mesmo,
13:36muito por conta do petróleo?
13:40Olha, eu não consigo dizer
13:42que isso foi uma situação
13:43muito bem-sucedida,
13:44porque há a possibilidade
13:46de, sim,
13:47se instalar um regime
13:48muito mais radical
13:49internamente,
13:50que se feche
13:51para o mundo exterior
13:52e que tente manter
13:53a coesão interna
13:54ou até mesmo
13:55uma guerra civil
13:56dentro do Irã.
13:57Essas possibilidades
13:58são reais,
13:59o que seria impossível
14:00de declarar uma vitória.
14:02Agora,
14:02o objetivo,
14:03acho que,
14:04dos Estados Unidos
14:05no médio prazo
14:06é tornar o Irã
14:07um país incapaz
14:09de definir
14:10ou mudar
14:11os rumos da região
14:12e avançar
14:13com os chamados
14:14acordos de Abraão,
14:15que querem normalizar
14:16as relações
14:17entre os países árabes.
14:19A gente já viu
14:19a Jordânia
14:20e os Emirados Árabes Unidos
14:22assinando com Israel
14:23e a ideia seria
14:25a Arábia Saudita
14:25e outros países
14:26assinarem,
14:27isolando, assim,
14:28o Irã.
14:28Eu acho que esse é
14:29o objetivo dos Estados Unidos,
14:30mas a gente vai ter
14:31que esperar um pouco
14:32para saber
14:32o que, de fato,
14:33vai acontecer.
14:34Sem dúvida.
14:35Conversamos com
14:36Igor Lucena,
14:37que é economista,
14:38também doutor
14:39em relações internacionais.
14:41mais uma vez agradeço
14:42a tua participação
14:43aqui conosco.
14:44Um bom restinho
14:45de domingo,
14:45excelente começo
14:46de semana também.
14:49Muito obrigado
14:50a todos
14:50e um bom domingo.
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