00:00O radar está de volta para falar do IPCA, porque o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou a inflação oficial de janeiro,
00:09indicador que serve de base para decisões sobre juros e mostra como o custo de vida afeta empresas e consumidores.
00:17Transportes e combustíveis puxaram os preços, enquanto energia e passagens ajudaram a aliviar a pressão.
00:23E para entender impactos e próximos passos, eu converso agora com o André Nunes de Nunes, economista-chefe do Cicred.
00:31Oi André, seja bem-vindo aqui ao Radar, sempre bom tê-lo conosco. Tudo bem contigo?
00:36Olá Eric, boa tarde, um prazer estar contigo, boa tarde a todos que nos acompanham.
00:41Prazer é todo nosso de tê-lo aqui no Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC.
00:45O André, o 0,33% de alta da inflação em janeiro está em linha com o que o mercado esperava,
00:53porém ele mostra uma tendência de desaceleração da desinflação.
00:58Mostra que houve uma aceleração então dos preços em janeiro aqui no Brasil.
01:04A gente teve ali alimentos como uma boa notícia, que alimentos foram para baixo,
01:09também a questão da energia, que ficou no negativo, porém o combustível,
01:14que acaba elevando também transporte, acabou puxando muito esse índice.
01:18Eu quero saber de você o seguinte, o IPCA é um balizador muito forte,
01:22é um termômetro para decisões do Copom sobre juros.
01:26A leitura do mercado é de que essa alta de 0,33% não deve comprometer o ciclo de corte da Selic,
01:34mas liga um alerta talvez para o tamanho do corte, não é isso André?
01:39Olha, eu acredito que sim, eu acho que a leitura de fato veio bastante em linha com o que o mercado estava esperando,
01:46do ponto de vista qualitativo, quando a gente olha os itens que apresentaram alguma aceleração,
01:53eles trazem algum tipo de alerta, principalmente quando a gente olha para industrializados,
01:59que eles vinham sendo bastante favorecidos pelo câmbio que estava valorizando.
02:03A gente também tinha uma boa expectativa de alimentos, a safra positiva,
02:08a gente acaba tendo uma perspectiva melhor de preços para alimentos do que se imaginava no início do ano.
02:14Lembra que a desinflação que aconteceu ano passado foi muito puxada por isso,
02:17por bens comercializáveis, industrializados, impactados pela valorização cambial e depois também pelos alimentos.
02:26E o que a gente vê nesse início de 2026 é uma certa continuidade dessa dinâmica,
02:32mas com alguns pontos de atenção, como tu bem trouxe.
02:35Uma delas, que a gente olha a questão de transportes, combustíveis,
02:40teve um aumento de CMS para todos os estados, para compatibilizar a arrecadação no final de janeiro.
02:48Isso, por outro lado, foi, de certa forma, tentado compensar por uma queda de preço da Petrobras,
02:53mas de fato não acabou tendo um impacto significativo.
02:57Mas outras métricas, como a gente olha, como por exemplo, núcleos, serviços,
03:01esses continuam rodando ali num patamar relativamente mais elevado.
03:06Isso acaba sendo ali um sinal de atenção.
03:09A gente acredita que não vai mudar muito, não muda o cenário para Copom,
03:14não muda o cenário para que o Banco Central vai olhar ali na decisão lá do meio de março.
03:21Eu acho que tem outras coisas que podem acontecer ali, como por exemplo a divulgação do PIB,
03:25que vai ter no início de março.
03:28Ali sim, o Banco Central, se vier muito alto, ele pode ver que, olha, a atividade está mais forte do que se imaginava.
03:34E aí, eventualmente, pode ter alguma mudança de planos.
03:37Mas, no geral, eu acho muito difícil que esses números de curto prazo mudem muito o plano do Banco Central,
03:43que é de começar o ciclo em março com um corte ali de 0,50.
03:48Agora, qual é a profundidade desse ciclo?
03:50Essa, sim, pode ser muito influenciada por esse comportamento que a gente vai ter da inflação ao longo do ano.
03:57André, teve um outro número que me chamou a atenção,
04:00porque a produção industrial em 2025 encerrou aí mostrando uma expansão.
04:0510 dos 18 locais ali estudados, pesquisados, mostraram aí um aumento da produção industrial.
04:13E quando tem um aumento desta produção, a leitura é que consumidores e até empresas estão comprando mais,
04:19e isso pode levar ali uma pressão aos preços.
04:22É bom também ficar de olho na questão da produção, porque muito indo ao encontro do que você disse,
04:27daqui a pouco sai também uma previsão do PIB, ou a prévia do PIB?
04:31Acredito que sim, é importante.
04:34Teve uma dinâmica muito particular da produção industrial no ano passado,
04:38que ela foi muito puxada pela indústria extrativa.
04:41Então, que é um segmento considerado menos cíclico, menos suscetível àquela taxa de juros,
04:46à política monetária e à taxa de juros super alta que a gente teve, 15% durante boa parte do ano passado.
04:53Quando a gente olha aqueles setores mais cíclicos, mais sensíveis à taxa de juros,
04:59mais ligados à dinâmica da economia interna, eles já apresentaram algum tipo de arrefecimento.
05:04Esse ano a gente vai continuar tendo esses segmentos menos cíclicos, como o próprio agro e a indústria extrativa,
05:10talvez apresentando um desempenho no PIB um pouco melhor, puxado também pelo consumo.
05:16Esse é um segmento que vem sendo bastante importante para a dinâmica de crescimento da economia,
05:22muito por conta do mercado de trabalho, bastante estreito, taxa de desemprego baixa.
05:27Quando a gente olha o rendimento do trabalhador, está rodando em média a massa de salários acima da inflação.
05:34Então, isso vem pressionando os salários e pressiona o IPCA ali na ponta pela via do IPCA de serviços.
05:39A gente vê que a questão relacionada à mão de obra, emprego, tem sido um gargalo,
05:44principalmente para as pequenas empresas, e isso acaba tendo um impacto ali na inflação,
05:49muito por conta dessa parte de segmento de serviços.
05:55Eu acho que a gente vai olhar ali em março, provavelmente, uma continuidade dessa dinâmica,
06:01alguns segmentos mais ligados ao consumo ainda apresentando um bom desempenho,
06:06e outros segmentos também com bom desempenho ali mais atrelados ao cenário externo.
06:10Então, agro, indústria extrativa.
06:12A questão toda é qual é o ritmo em que essa desaceleração e essa dinâmica vai acontecer.
06:19Se a gente tiver aqui um PIB rodando perto de zero, se mostrar que o PIB na passagem do terceiro para o quarto TRI
06:26ficou mais ou menos estagnado, isso aí para o cupom é um sinal verde que eles vão com certa segurança ali
06:33para esse plano de 50, e a gente vai ver ali o nosso cenário lá mais de taxa de selic chegando a 12
06:40no final do ano com mais segurança.
06:42Agora, se a gente vê um PIB crescendo 0,5%, crescendo mais, aí sim, talvez o mercado vai questionar um pouco
06:50qual é a profundidade, eu acho que não muda muito, teria que vir de fato algo muito forte ali
06:55para mudar o plano de 0,50 para 0,25, para começar num ritmo mais baixo,
07:00mas talvez mude um pouco o plano para o final do ano, até onde consegue ir com esse ciclo de cortes.
07:06André Nunes de Nunes, obrigado pela sua participação aqui no Radar, um grande abraço para você
07:11e uma ótima semana.
07:13Valeu, Eric, um grande abraço, um grande abraço a todos, sempre prazer conversar com vocês.
07:17Prazer é nosso, obrigado.
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