00:00E as tensões geopolíticas pelo planeta já começam a produzir efeitos que vão além do campo diplomático,
00:06com reflexos concretos no comércio internacional e nos fluxos de investimento.
00:11Na América Latina, os impactos aparecem de forma indireta, mas relevante,
00:15por meio da volatilidade de preços de commodities, mudanças no apetite de investidores estrangeiros
00:21e maior cautela em operações de comércio exterior.
00:25E com as escaladas das sanções, esses efeitos podem aumentar.
00:29A gente recebe aqui no Fast Money o Vitor Vilar, ele que é coordenador na BMJ Consultoria
00:35e ele vai falar um pouquinho mais sobre estes impactos.
00:39Vitor Vilar, muito boa tarde para você, seja bem-vindo aqui no Fast Money, meu amigo.
00:43Tudo bem contigo?
00:45Tudo bem, Eric. Boa tarde, muito obrigado pelo convite, é um prazer estar aqui.
00:50Vitor, a gente está vendo essa escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã
00:54e a gente sabe ali, o Irã controla um estreito muito importante que é o de Hormuz,
00:58por onde passa um quinto do petróleo mundial.
01:01E é, lógico, uma rota marítima muito importante para o mundo.
01:06Se você tem uma escalada das tensões e um possível fechamento ali dessa rota,
01:10além do preço do petróleo, você pode ter commodities também aumentando de preço,
01:15porque os navios vão ter que dar uma volta gigantesca para acessar a Europa, também a Ásia.
01:19Enfim, preocupa já o mercado essa relação do Estreito de Ourus, a tensão ali também na região ali do Irã?
01:29Com certeza, mas é uma questão que já está numa escalada forte bastante tempo, né, Eric?
01:35Desde que teve aquele ataque, aquela retaliação dos Estados Unidos e Israel ao Irã, em junho do ano passado,
01:41essa questão, ela está um pouco precificada pelo mercado, a bem da verdade.
01:47E agora a gente vê até, como você estava mostrando na reportagem anterior, né,
01:50um aumento nas bolsas, principalmente puxado pelo setor BR, pelo meio de defesa na União Europeia.
01:57Então, de fato, tem a capacidade, sim, de gerar um aumento no preço das commodities a médio prazo,
02:04a curto prazo, especialmente pela ansiedade do mercado financeiro em precificar essas questões.
02:10Mas é importante dizer que essa é uma questão que está um pouco precificada já há uns seis, sete meses atrás.
02:17E é apenas uma mudança bastante brusca no cenário, né, de que, de fato, que seja concreta,
02:22pode fazer com que esse cenário, de fato, aconteça.
02:25E as consequências, né, de fato, elas podem ser muito severas, especialmente para o Brasil,
02:29que é um país que depende tanto da importação de alguns produtos,
02:31quanto da exportação para conseguir seus superávites.
02:35Quando a gente fala de um bloqueio ali naquela região,
02:37a gente está falando de, fundamentalmente, aumento do frete.
02:41E se o frete fica mais alto, dificulta a exportação e afeta o Brasil em larga escala, por exemplo.
02:47E além do frete, né, Vitor?
02:49Nós temos uma relação Brasil-Irã, no caso da ureia,
02:52que é muito importante para o produtor agrícola, principalmente aquele que planta o milho.
02:57O Brasil, hoje, ele importa cerca de 20% de toda a ureia, vem lá do Irã.
03:02Se você tem uma tensão ali, você pode, como a gente já viu, pode faltar a ureia lá do Irã,
03:08como a gente viu nos ataques lá do ano passado dos Estados Unidos ao Irã,
03:11o preço pode aumentar e isso pode ter reflexo também nos custos do produtor aqui, não é isso?
03:16Perfeito, não, perfeito, Eric.
03:19Acho que esse é um ponto que não pode se deixar de lado.
03:22De fato, o Brasil, ele importa ureia de alguns países que estão em litígio atualmente com grandes economias,
03:29como a União Europeia, como os Estados Unidos, né, o caso do Irã, o caso da Rússia.
03:33E, de fato, né, e é engraçado que essas importações, elas acontecem, não acontecem de uma forma natural,
03:39como você paga pela importação e recebe o produto, né, uma vez que o Irã, ele está em sanções bastante sérias há pelo menos uma década.
03:47Então, essa relação, ela acontece geralmente por uma troca de um produto pelo outro, né,
03:52então o Brasil, às vezes, manda petróleo, recebe a ureia e assim que vai efetuando essas trocas com o Irã,
03:57às vezes por intermediários como a Rússia, como os Emirados Árabes Unidos também,
04:01que fazem essas intermediações como os países sancionados pelos Estados Unidos.
04:05Mas, de fato, o Brasil atualmente não tem a independência nessa produção de...
04:10São poucos, na verdade, os insumos agrícolas que o Brasil é independente hoje,
04:13depende da importação de produtos não só do Irã, mas da Rússia, da União Europeia, dos Estados Unidos,
04:17principalmente quando eu falo de químicos e alguns outros minerais, né, potássio, etc., fósforo também.
04:25Então, de fato, o Brasil é pouco independente nessa questão da produção dos insumos para fazer sua produção agrícola.
04:30Então, tem esse efeito cascata não só de fudal de exportação,
04:34mas a dificuldade de importação desses produtos.
04:37Então, gera não só um aumento no preço no mercado internacional,
04:41mas no mercado interno também tem a possibilidade de um reboche inflacionário.
04:44Vitor, para a gente encerrar essa nossa conversa,
04:47nós estamos aqui tendo uma leitura, né,
04:50os Estados Unidos tentando redesenhar ou querendo redesenhar a nova geopolítica mundial.
04:54Então, tem uma intervenção na Venezuela,
04:57onde a China e a Rússia eram parceiros ali de primeira monta, né, do país caribenho.
05:04Agora, os Estados Unidos tendo uma tensão ali, um ruído também com o Irã.
05:08O Irã, que tem ali esse espaço, que é o Estreio de Hormuz, que é muito importante para a China,
05:14que também tem a questão do petróleo para a China.
05:17Até que ponto Pequim, por exemplo, vai aguentar essas intervenções de forma silenciosa?
05:22Porque uma hora vai impactar economicamente também a China, né,
05:25se houver muito essa escalada, né?
05:28A gente está vendo pressão também para cima de Cuba, para cima do México.
05:32E a hora que bater ali na economia de Pequim, da China,
05:36isso pode ter algum reflexo.
05:38É mais ou menos essa a leitura, até quando que a China vai aguentar
05:41sem tomar nenhuma providência?
05:43Ou pelo menos assim, Donald Trump, chega.
05:44Porque agora está prejudicando aqui a nossa economia também.
05:49Acho que essa é a pergunta de um milhão de dólares.
05:51Talvez um bilhão de dólares, né?
05:53Porque ninguém sabe de fato até onde essa corda com a China vai ser esticada.
05:58Diferentemente do que a gente viu nos Estados Unidos,
06:01não é a primeira vez que nós vemos os Estados Unidos tentando ser intervencionista
06:04na América Latina, por exemplo.
06:05E na outra experiência que foi vivida, né,
06:08primeiro a questão de expulsar os europeus,
06:11depois tinha toda a relação com a Rússia,
06:13e ali a gente viu que, na verdade, os Estados Unidos estavam dispostos
06:16aos limites mais longínquos dessa relação para manter sua autonomia na região.
06:20A China, ela se apresenta com uma potência muito pouca intervencionista,
06:25diferentemente de outros algozes dos Estados Unidos.
06:27Ela busca fazer sua relação profissionalmente, politicamente, né?
06:31Ela tem um que é muito pouco intervencionista em governos, por exemplo.
06:36A sua pressão é econômica e ela é política.
06:38Mas ela não faz uma intervenção direta, mesmo que sejam aliados.
06:41A própria questão da Venezuela, é muito importante notar isso,
06:44inclusive, acho que é a chave para responder a sua pergunta, Eric.
06:48Quando teve a intervenção do Estado da Venezuela,
06:50esperava-se que a Rússia e a China fizessem uma resposta bastante contundente
06:54ao que aconteceu.
06:55E não aconteceu isso, né?
06:57Soltaram notas absolutamente problemáticas, né?
07:00Não toleramos o objetivo de intervenção em ações estrangeiras
07:03e continuamos observando esses fatos.
07:06Nada mais do que isso.
07:07Então, mostrou o quê?
07:09Parece que existe uma tendência a entender
07:12que existe a zona de influência.
07:15E se a sua zona de influência não está sendo invadida ou tomada,
07:20por nós não há problema.
07:21A questão do Irã é um pouco mais delicada, um pouquinho mais sensível,
07:25mas é importante lembrar que os Estados Unidos já bombardeou o Irã.
07:28Ele já foi bombardeado, esse país, na Ásia e nada aconteceu, por enquanto.
07:33Obviamente, a gente fica conversando nisso, né?
07:37E até quando a gente vai ficar, nada aconteceu, nada aconteceu.
07:39Mas essa é a verdade de momento.
07:41Com relação à China, eu acredito que é pouco provável que ela faria qualquer ação
07:46mais contundente, a não ser que os Estados Unidos, de fato,
07:49intervenha em questões mais límites para eles, como o Coreia do Norte, Taiwan.
07:55Acho que são questões mais próximas ao coração da China,
07:58que aí sim gerariam uma resposta mais empática.
08:01Vitor Vilar, queria muito agradecer a sua participação aqui no Fast Money.
08:04Um grande abraço para você e uma ótima semana.
08:06Muito obrigado, Henrique. Um abraço para você e todos que nos acompanham.
08:10Tchau, tchau.
08:10Tchau, obrigado.
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