00:00...do Irã, porque a situação lá está cada vez pior.
00:03As agências internacionais já falam em 650 mortos,
00:06esse número aí que foi dado por agências ligadas aos direitos humanos.
00:10De um lado, tem os Estados Unidos ameaçando atacar o Irã,
00:14se a situação continuar grave assim, se manifestantes continuarem sendo mortos.
00:18E do outro lado, a gente tem o regime dos ayatollahs dizendo que vai revidar
00:22se houver um ataque, prometendo atacar, inclusive, Israel.
00:25E a gente sabe que também tem sempre aquele risco de fechar a passagem marítima ali,
00:30que é algo que afeta a economia do mundo inteiro.
00:33Sobre a situação no Irã e também as consequências para a economia mundial,
00:36eu vou conversar agora com José Niemeyer,
00:38que é economista e professor de Relações Internacionais do IBMEC do Rio de Janeiro.
00:43Boa tarde, professor. Seja muito bem-vindo a essa edição do Radar.
00:47Oi, Marcelo. Bom falar com você.
00:49Ainda não tinha lhe cumprimentado. Feliz Ano Novo.
00:52A você, a equipe da CNBC, parabéns pelo trabalho.
00:55Como sempre, como eu costumo dizer, fazendo um bom equilíbrio entre negócio, economia
01:01e também o lado político e da política internacional, que cada vez mais afeta os locais.
01:08Cada vez mais as economias nacionais estão interligadas com a economia internacional
01:13e com a política internacional.
01:15É verdade. Obrigado, professor. Feliz 2026 para você também, para toda a sua equipe.
01:19Primeiramente, eu queria perguntar sobre quão resiliente, na sua opinião, está o regime do Irã hoje.
01:26Porque a gente sabe que, apesar dessas pressões internas e externas que são imensas,
01:31o regime já enfrentou outros momentos de tensão e acabou seguindo em frente.
01:36Dessa vez, a gente tem motivo para pensar que pode ser diferente?
01:39A situação no Irã é uma situação muito grave.
01:43O sistema político do Irã, diferentemente do sistema político dos países ocidentais,
01:49eles têm uma variável, que é uma variável muito dura, muito pesada, que é o fator religioso.
01:55Lá, a política, no Irã, e outros países do Oriente Médio, a questão da religião, o poder divino,
02:05compete ou é complementar ao poder dos homens, o poder civil, na política, como nós conhecemos aqui no mundo ocidental.
02:13Então, quando você tem esse ingrediente religioso na política, o Estado acaba não sendo laico.
02:19Por trás do Estado, você tem o divino.
02:22E o divino é sempre muito difícil de você administrar no coração e mente das pessoas, dos indivíduos, dos cidadãos iranianos.
02:30Então, esse fator da religião é importante.
02:33Na minha visão, é ele que mantém uma ordem forçada no Irã, no tempo,
02:39que eles têm baixa transparência política, eles têm eleições, têm partidos, têm parlamento aberto,
02:44mas eles têm baixa transparência, o poder religioso, a partir do líder supremo,
02:50influencia no poder, vamos dizer, no poder secular, que é o poder dos homens, no poder civil.
02:57Eu vou pedir, para te interromper um minutinho, para o senhor acompanhar junto comigo
03:02uma entrevista coletiva que o secretário de interior dos Estados Unidos, o Douglas Bungum,
03:07está dando, nesse momento, à CNBC Internacional.
03:10Vamos acompanhar a entrevista exclusiva.
03:14Bom, ele está falando, nesse momento, um pouco sobre a política interna dos Estados Unidos
03:29e falando, também, sobre como cada estado reage às políticas energéticas dos Estados Unidos.
03:37Está falando, agora, sobre as reservas de petróleo na Venezuela e na Arábia Saudita.
03:51Ele está dizendo que está havendo aí uma mudança histórica,
03:56em que o poder de petróleo do Irã vai ser diminuído, já que vai haver um aumento de produção, por exemplo, na Venezuela.
04:08Há um ano, sob o presidente Biden, a gente tinha proibição de construir plantas de exportação na Venezuela,
04:22e agora a gente já viu...
04:24Ah, tinha uma proibição de exportação de gás, porque é efeito de petróleo.
04:34Tá, ele está falando, nesse momento, aqui, sobre o risco ligado ao petróleo, né?
04:50A gente vai voltar com o professor Neymar, então, porque ele já não está mais falando diretamente sobre o Irã.
04:56Professor Neymar, essa questão do petróleo é uma questão que, realmente, acaba ditando aí a preocupação dos mercados,
05:03e isso acaba trazendo, assim, impactos muito profundos, até para a decisão dos investidores,
05:08porque a gente sabe que o Irã tem uma reserva imensa de petróleo.
05:12Para os Estados Unidos, agora, reabilitar a Venezuela, nesse momento,
05:16é um fator que deixa o país, de fato, um pouco menos dependente do Irã.
05:20Isso está na equação, por exemplo, dos Estados Unidos,
05:26quando eles pensam em atacar o Irã outra vez por causa das manifestações?
05:31Perfeito, Marcelo. Você decifrou a charada.
05:34Exatamente isso.
05:35Na nova doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos, emitida em 4 de dezembro de 2025,
05:41ficou claro que os Estados Unidos não terão mais responsabilidades
05:44no campo da segurança internacional em todos os quadrantes do sistema.
05:48ele vai ficar mais restrito à América do Sul, América Central,
05:52parte norte do Atlântico até a Groenlândia, com interesse na Groenlândia, inclusive,
05:57parte pacífica norte até os interesses chineses.
06:01Será esse o espaço vital norte-americano do ponto de vista geopolítico e geostratégico.
06:07Como a Venezuela oferece muito petróleo,
06:10como foi descoberto há pouco na Goiânia,
06:12talvez uma das maiores reservas de petróleo do mundo,
06:14inclusive petróleo leve,
06:15como o Brasil também é um grande produtor de petróleo,
06:19cada vez aumenta mais a produção,
06:21e muitos acham que vai ser, em breve, membro da OTAN, se quiser,
06:25os Estados Unidos vão focar os seus recursos ligados a petróleo,
06:28as suas necessidades,
06:30mais na América do Sul.
06:31Nesta equação,
06:33é presumível
06:35nós pensarmos uma ação militar
06:37no Irã,
06:38num cenário só de muita gravidade.
06:41Por exemplo,
06:42se começar uma guerra civil,
06:44se o governo for derrubado,
06:46se perder a confiança com relação ao governo do Zayatolás.
06:51Aí você pode ter uma ação norte-americana,
06:54mas aí realmente o Irã vai atacar a alza em Israel
06:56e nas bares norte-americanas no Oriente Médio.
06:59Então, eu não acredito,
07:00em função desse equilíbrio na equação,
07:03que agora há mais ofertas de petróleo
07:05no espaço vital norte-americano, sul-americano,
07:08você talvez não tenha, por agora,
07:10uma ação militar mais específica no Irã.
07:14Apenas as centrais de inteligência,
07:17a NSA, a CIA,
07:19vão continuar, talvez, provocando,
07:21e elas fazem isso,
07:22provocando essa insurreição da população
07:25para ver até onde o regime abre.
07:28Porque se o regime abre, Marcelo,
07:30aí pode ser, no futuro, no médio prazo,
07:32uma nova oferta de petróleo
07:35para a economia norte-americana.
07:36Talvez seja o melhor cenário.
07:39Agora, suponhamos que o Trump vai em frente
07:41e decida atacar, de fato, o Irã.
07:43Na sua opinião,
07:44qual que é a capacidade real de reação do regime?
07:46A gente teve uma prévia no ano passado,
07:48já quando o país retaliou a Israel, por exemplo,
07:51e não causou muitos danos, né?
07:53O Irã não é um país fraco,
07:55do ponto de vista militar.
07:56É um país grande, difícil de ser invadido,
07:59mas ele atacando,
08:00ele tem algum poder de força aérea, né?
08:03Força naval, não tanto.
08:05Mas de força aérea, ele tem algum poder
08:06e de mísseis também,
08:08mísseis terra-terra, como nós chamamos.
08:10Ele vai responder,
08:11ele vai atacar a base norte-americana
08:13e vai atacar o Estado de Israel.
08:15Eu tenho a impressão que, neste momento,
08:17os eatolás fazem um cálculo, né?
08:20Eles querem ver também
08:21até onde os Estados Unidos vão.
08:24Muitos países estão com este cálculo.
08:26Aqueles que competem com os Estados Unidos
08:28estão com este cálculo
08:30de saber até onde os Estados Unidos vão.
08:32Eu tenho a impressão que a Rússia faz isso
08:34há quatro anos na guerra da Ucrânia
08:36e tenho a impressão que a China faz isso
08:38há algum tempo também.
08:41Os países centrais que competem com os Estados Unidos
08:44e os países que competem
08:46numa perspectiva regional,
08:48como fazia a Venezuela,
08:50eles estavam testando o poder dos Estados Unidos.
08:53E os Estados Unidos da América,
08:54na nova doutrina,
08:55não vão poder realizar poder
08:57em todos os quadrantes do sistema.
09:00Então, em alguns momentos,
09:01os Estados Unidos não vão agir.
09:03Pode ser que no Irã,
09:04em função da questão venezuelana,
09:07um maior controle
09:08sobre o negócio de petróleo na Venezuela,
09:11pode ser que os Estados Unidos não vão agir.
09:13Mas se agirem,
09:14aí nós vamos ter novamente
09:15uma guerra,
09:17que vai ser uma guerra aérea, né?
09:19Uma guerra aérea baseada também em mísseis.
09:21A Marinha Norte-Americana
09:22está deslocada para aquela região.
09:25E assim,
09:26não como foi o ataque
09:27de instalações nucleares.
09:29Aqueles ataques
09:30foram mais cirúrgicos.
09:32Um ataque agora
09:33dos Estados Unidos contra o Irã
09:34teria que atingir
09:36bases militares do Irã,
09:38parte da guarda revolucionária.
09:41Seria mais grave nesse momento.
09:43Agora,
09:44se a gente pensar
09:45em consequências econômicas
09:46de uma escalada
09:47de tensão no Irã,
09:48que está com uma possível guerra,
09:50além do fator óbvio,
09:51que é o fator petróleo,
09:52tem também o fator de fertilizantes,
09:54que é algo que interessa
09:55bastante para o Brasil, né?
09:56Interessa para o Brasil.
09:59Por mais que o Brasil,
10:00o Mercosul e a União Europeia,
10:02nesta semana,
10:03tenham feito um golaço,
10:04um gol de placa,
10:06que é a presumida assinatura
10:08do acordo
10:08Mercosul-União Europeia,
10:10que traz um efeito
10:11balsâmico,
10:12eu vou chamar de balsâmico,
10:14para o sistema internacional,
10:15no momento de tantos conflitos
10:17e pouca cooperação.
10:18Mas é evidente
10:19que um ataque militar
10:20norte-americano
10:21ao Irã
10:22pode fazer com que o Irã
10:23feche o Estreito de Hormuz,
10:25aí você tem um problema
10:26logístico
10:27com relação a petróleo e gás
10:28que sai do Irã
10:29e mesmo da região,
10:30que é produzido na região,
10:32e com certeza
10:33vai encarecer
10:34preços de petróleo e gás,
10:35e aí isso reverbera
10:36para a economia internacional,
10:38mas acho importante
10:39mencionar
10:40que o acordo
10:41Mercosul-União Europeia
10:42tem estudado muito o acordo,
10:44é realmente algo
10:45muito importante
10:46para esse início
10:47de século XXI,
10:48tão conturbado,
10:49tão conturbado,
10:50não início, né?
10:51um quarto já do século XXI.
10:53Quem diria, né?
10:54Professor José Niemeyer,
10:56economista e professor
10:57de Relações Internacionais
10:58do IBMEC do Rio de Janeiro,
10:59muito obrigado
11:00pela sua participação
11:01e boa tarde
11:02para o senhor.
11:04Eu que agradeço,
11:05Marcelo,
11:06um grande abraço a você,
11:07assinante da CNBC.
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