00:00O Brasil se tornou um narco-estado, ele está a caminho de se tornar um narco-estado, ou isso nesse momento é um exagero?
00:08Nesse momento é um exagero. Eu vou dar dois exemplos, vamos dizer um exemplo mais específico de narco-estado.
00:15O México. O norte do México, os narcotraficantes, eles são tão poderosos quanto o exército.
00:22Eles enfrentam o Estado de igual para igual. Então você tem províncias no México que são governadas pelos cartéis mexicanos, principalmente o cartel de Sinaloa e outros.
00:35No Brasil você tem um tráfico intenso, um tráfico forte, mas ele ainda não desafia o Estado, porque aqui existe uma diferença muito grande.
00:45No México e nesses narco-estados em geral, o tráfico surgiu junto com a estrutura do Estado.
00:51No Brasil o Estado já existia quando os narcotraficantes chegaram, quando o narcoterror praticamente, podemos dizer, chegou.
01:00Então você não vê a possibilidade do narcotráfico se ombrear com o Estado de igual a igual.
01:07Você tem um ponto do Brasil que é crítico, que é o Rio de Janeiro.
01:12Ali você tem um ponto crítico, mas isso não se repete nos demais Estados do Brasil.
01:18Agora, doutor Márcio Cristino, certo no Rio de Janeiro a geografia favorece o crime organizado, as quadrilhas de narcotraficantes milicianos ficam nos morros cariocas, ali abrigados,
01:30e estrategicamente tem uma vantagem operacional contra a polícia e tem que subir o morro.
01:34Mas em cidades como São Paulo, Fortaleza, Salvador e outros centros, principalmente as capitais, há locais em que não se entra sem autorização do traficante.
01:46Se você entrar em uma determinada área, numa favela dominada pelo tráfico, você pode ser morto.
01:52Como é que o senhor explica isso e como podemos vencer essa etapa em que o crime organizado vem tomando conta e estabelecendo áreas, nichos de dominação?
02:00Diferentemente do Rio de Janeiro, em São Paulo, você não tem lugares onde a polícia não entra.
02:07Então, pode haver uma resistência, uma atuação focada do crime organizado e do tráfico naquele local,
02:12mas ele não chega a ponto de confrontar uma ação policial.
02:17Posso dar até um exemplo.
02:18Em 2006, quando aconteceram os atentados, os ataques foram dirigidos contra ônibus,
02:23contra situações específicas, corpo de bombeiro, um posto da PM aqui,
02:27mas você nunca viu traficantes enfrentarem uma guarnição da rota.
02:33Você nunca viu traficantes enfrentarem uma guarnição do BAEP.
02:38Por quê?
02:39Porque eles não têm vantagem nesse confronto.
02:42Então, você pode ter lugares críticos aqui em São Paulo.
02:45Sim, você pode ter lugares críticos, mas você não tem lugares onde o Estado não entra.
02:50E no Rio de Janeiro você tem essa dificuldade.
02:54E como você disse, você tem razão.
02:55Uma questão de geopolítica criminosa.
02:58Por quê?
02:59A constituição geográfica do Rio de Janeiro, somado a aspectos históricos que vêm desde o governo do brisolismo,
03:07fez com que houvesse uma solidificação do tráfico naquele local, que é marcantemente territorial.
03:14Em São Paulo, em outras cidades, você não tem esta marca.
03:18Repito, aqui o narcotráfico não consegue ombrear com o Estado nas mesmas condições.
03:24O senhor identifica esse início do fenômeno do crime organizado no Rio de Janeiro, ou crescimento, no início dos anos 80, com o governo Brizola, naquele início.
03:35Por que o senhor assim o identifica?
03:37Porque naquela época, aquela própria área não estava completamente desenvolvida.
03:43Então ela era usada pelos narcotraficantes, ou também pela criminalidade em geral, porque se considerava ali fora do alcance.
03:53E o Estado abdicou de entrar nesses lugares.
03:56Ele não focou a sua atuação ali, porque ele preferiu se resguardar nas regiões costeiras mais próximas, mais limites, onde havia a maior parte da população.
04:06Então essa falta de visão do futuro permitiu que o tráfico e a criminalidade se desenvolvessem lá.
04:14E isso foi acentuado por uma presença de uma população pobre, que sem recursos, onde você não vê água corrente, você não via água corrente e tinha uma dificuldade muito maior.
04:27Então houve um certo abandono do Estado naquela região.
04:33Isso deu início a essa escalada que resultou na situação que nós temos hoje.
04:39A população vulnerável, que não tem condições de morar em outro local, fica refém dessas organizações de narcotraficantes.
04:46São os que mais sofrem, as pessoas de menor poder aquisitivo que são obrigadas a morar no mesmo local,
04:51que é essa minoria de bandidos que hoje controla essas áreas em que a polícia, para entrar, tem que entrar trocando bala.
04:57Inclusive, há não muito tempo, no Morro do Alemão, teve um confronto violentíssimo, morreu.
05:02Ou seja, a polícia teve que entrar numa operação praticamente de guerra.
05:05Mas a pergunta que eu quero fazer agora é a seguinte.
05:08Quantas organizações criminosas, mais ou menos, nós temos hoje aqui no Brasil?
05:13É uma pergunta muito difícil de responder.
05:15Hoje nós temos organizações criminosas grandes, aquelas que são capazes...
05:22Eu vou definir grandes, aquelas com capacidade de atuação interestadual.
05:26Porque dentro de um Estado, você pode ter uma organização aqui, uma organização...
05:30Mas aquelas capazes de projetar o seu poder, além do Estado onde elas atuam, são poucas.
05:36Você tem principalmente o PCC, que hoje é a maior organização criminosa do Brasil,
05:42e uma das maiores da América Latina, é a que mais cresce no mundo.
05:47Já é considerada uma máfia internacional?
05:49A divergência sobre isso.
05:50É um cartel.
05:52É um cartel, porque ele se vinculou ao tráfico boliviano.
05:56Então eles fizeram uma aliança semelhante à aliança que os cartéis mexicanos têm com a Colômbia.
06:02Ou seja, recebem a droga, transportam, têm acesso a um mercado definitivo.
06:07Os mexicanos dominam acesso ao mercado americano.
06:09O PCC e os bolivianos dominam acesso ao mercado europeu.
06:14Então você tem essa grande organização.
06:16Fora essa, você tem o Comando Vermelho e as facções cariocas.
06:20O Comando Vermelho é a grande facção cariocas.
06:23Você tem outras facções ali, mas capazes de projetar o seu poder além do Rio de Janeiro,
06:30mas o Comando Vermelho.
06:32E você tem no norte do Brasil a família do norte e outras facções.
06:36Ora, tem outras facções também? Tem.
06:39Mas a união do Comando Vermelho com a família do norte faz com que esse eixo consiga projetar o seu poder
06:48além das limitações estatuais.
06:51Então se nós no frigir dos ovos, nós vamos dizer que nós temos três, quatro grandes organizações criminosas,
06:56duas simbióticas, que seria a facção do norte e o Comando Vermelho,
07:00e o PCC como um de domínio espacial, maior domínio geográfico dentro do país.
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