00:00Um estudo recente até do Instituto Locomotiva mostra que 70% das pessoas morando nas comunidades, favelas brasileiras,
00:07querem empreender ou já empreenderam ou vão empreender.
00:10Então tem essa veia empreendedora exatamente do que você está falando.
00:13O problema é que elas falam assim, bom, na hora que a gente começa a criar um negócio um pouco mais organizado,
00:18é a primeira vez que aparece o Estado, vem para atrapalhar, vem para taxar, vem para...
00:22Então, voltando aqui a esse nosso ponto aqui, como é que nós vamos sair desta encrenca que é o Estado
00:31que não só não vê o potencial disso, como atrapalha esse desenvolvimento?
00:37Nós temos uma lei da informática que nos atrasou 30 anos o desenvolvimento tecnológico.
00:42O suspiro do desastre estatal.
00:44Bom, aí o ponto é o seguinte, estando numa democracia, temos que convencer as pessoas
00:51pensem que isso vai dar certo e os programas políticos para a nação têm que ser baseados nisso.
01:00Não há outro jeito.
01:02O Plano Real foi assim.
01:03O Plano Real era um troço difícil, técnico, complicado, mas bem explicado e funcionando no mundo real.
01:09A sorte é que funcionou.
01:12Permitia que as pessoas tivessem mais confiança em fazer as coisas de modo diferente.
01:16O ponto é, hoje, se você pega, sei lá, Minas, o vice-governador de Minas, o Matheus Simões,
01:30tem um plano de carbono neutro pronto na cabeça.
01:33Lá, que se for executado, vai ser uma coisa.
01:37A governadora de Pernambuco...
01:40Raquel Lira.
01:40Raquel Lira implantou um plano de carbono neutro lá, que é...
01:44Uma beleza, lá é mais complicado, porque a terra é pequena, o Estado é muito industrializado
01:49proporcionalmente ao resto.
01:51Acabou com os lixões lá, que foi já um negócio...
01:53Não, vai progredir.
01:54Não, ali ela está, aquilo anda.
01:56O Pará tem um plano de carbono neutro, com a sorte da COP, para 2030 também.
02:01Então, quando você começa a pensar que dá para fazer, que se eu mudar os objetivos...
02:09Porque planos de carbono neutro são todos descentralizados.
02:12Planos de carbono neutro dependem de todos os proprietários, agrícolas de Mato Grosso,
02:16que tem terra degradada, entrar...
02:18O governo está aqui trabalhar.
02:20Dá trabalho, mas funciona.
02:22Então, se você acredita nisso, vai.
02:24O caso brasileiro hoje é, assim, o que me espanta um pouco, porque como a gente cresceu
02:33nos anos 80, quando tudo dava errado, vamos lá, a gente pegou um ministro da Fazenda
02:38ainda de pires na mão, apoiando de coisa, uma brecha lá, planos...
02:43FMI vinha aqui, aquelas delegações, dava dura na gente.
02:46Pois, a gente não tinha o que fazer e tal, não sei o que...
02:48Quem pegou essa situação não pode, hoje em sã consciência, dizer que não se arrumou
02:54muita coisa no Brasil, né?
02:56E se arrumou muita coisa no Brasil.
03:01Naquela época, o cenário internacional era contra, porque a gente era contra o cenário
03:05internacional, quer dizer, o Brasil era nacionalista em época de globalização.
03:08Agora, não tem nenhum motivo para imaginar que o planeta inteiro não venha investir no Brasil.
03:14Por exemplo, data center.
03:17Isso é energia, muita energia.
03:19A conta de data center é venha para o Brasil.
03:22Em qualquer lugar, não.
03:24Aliás, a Microsoft comprou uns terrenos aqui e já está fazendo, já tem investimento
03:29em data center.
03:29É venha para o Brasil.
03:31Computação do mundo vai ser feita renovável.
03:33Por quê?
03:34Porque precisa de muita energia renovável e muita água.
03:39Duas coisas que só tem no Brasil.
03:41Então, o Brasil está aí tentando fazer, inclusive, lei...
03:44Porque já perceberam isso, essas coisas as pessoas vão percebendo.
03:47Mas você não precisa ter uma estatal de data center.
03:52Você precisa ter instituições sólidas que os investidores façam data center,
03:56põem para operar, confiando que a vida empresarial vai funcionar como vida empresarial.
04:02Mas eles fizeram a estatal do chip já.
04:05É por isso que o Brasil não tem fábrica de chip até hoje.
04:08A lei de reserva maior, a Costa Rica tem fábrica de chip.
04:11O Brasil não tem.
04:11Porque as más instituições levam a desastres.
04:15Agora, há coisas interessantes.
04:18Por que nós, agora, finalmente, vamos atingir, talvez, a universalização do saneamento básico
04:24em 2030, 2040, alguns dos estados até mais para frente.
04:28Mas, pelo menos, um arcabouço legal, que foi a lei de saneamento.
04:32Até hoje, 100 milhões de brasileiros não têm acesso a esgoto tratado.
04:36O que é o maior desafio socioambiental.
04:39Mas, por outro lado, como você falou, a demanda para atender 100 milhões de pessoas de saneamento
04:44não são muitos lugares do mundo que têm essa grande oportunidade.
04:48Então, você acha que a oportunidade de mercado vai corrigir as barbeiragens de governo?
04:55Não é só isso.
04:56É o seguinte, é que o sentido da evolução do mercado hoje favorece o Brasil.
05:02As pessoas estão investindo em coisas que o Brasil é bom.
05:05O Brasil já era bom de energia renovável antes de tudo isso começar.
05:11Então, agora, o mundo precisa do que o Brasil já tem.
05:14Jabuticaba.
05:16Algumas jabuticabas são muito boas.
05:18É muito bom ser o único que tem.
05:20Se agora todo mundo quer jabuticaba, as de verdade, não as jabutis, os amêndo em lei,
05:30mas o mundo quer jabuticaba, ótimo, nós temos.
05:34Então, vamos tratar direito disso.
05:36Não precisa, não é nenhuma coisa.
05:38Aqui, a computação em nuvem no Brasil é um negócio que, feitas as contas,
05:45será melhor do que na Alemanha, nos Estados Unidos, no Japão, onde quer que for.
05:48Então, é só não atrapalhar que se façam as contas.
05:52Isso não acontecia há 30 anos atrás.
05:54Então, aí, olhos abertos e pés no chão.
05:57Mas dá para, de pés no chão, ter os olhos abertos para dizer que tem oportunidades
06:03que estão chegando ao Brasil, que o Brasil pode aproveitar muito melhor
06:07se tiver boas instituições para isso.
06:09Governo burocrático controlando o data center é nuvem.
06:17Então, você tem que saber para que serve a autoridade.
06:20Agora, nós tivemos a sorte, você já mencionou várias vezes,
06:25do governo Fernando Henrique aparecer naquele instante.
06:27Porque, eu me lembro que, em maio de 93, nós tínhamos Itamar Franco.
06:34O único sonho era fazer o Fusca.
06:36Tivemos três ministros da Fazenda em sete meses.
06:40Inflação estava a 60%.
06:42E aí, a escolha do, então, chanceler Fernando Henrique como ministro da Fazenda
06:49prepara a grande virada do plano real.
06:51E aí, o Brasil muda de patamar nesses dois mandatos do presidente Fernando Henrique.
06:56É verdade.
06:57Agora, precisa lembrar que, também, naquele sofrimento dos anos 80,
07:01tinha um bando de moleque que tinham ideias absolutamente estranhas.
07:05Não estranhas, mas estudavam economia a fundo para fazer isso.
07:11E que souberam segurar a peteca de governo,
07:15além de fazer conceber o próprio...
07:17Não foi o Fernando Henrique que pensou para o Real.
07:18O Real foi pensado por um bando de economias que ele conhecia todos.
07:22Mas ele foi o cara que falou, ah, vamos por aí e depois vamos segurar a onda.
07:27Então, a questão era ter confiança naquela mudança, naquelas ideias e naquela coisa.
07:35E ele teve.
07:36O Brasil, a situação do Brasil hoje é, nesse sentido, é ter confiança em ideias inovadoras.
07:43Que tem muita gente que pensa, quer dizer, todo o arcabouço da economia de carbono neutro não foi montado no Brasil.
07:53Mas é como se tivessem feito para o Brasil se aproveitar daquilo.
07:58Então, enfim, é uma oportunidade única.
08:02Então, saber aproveitar essa oportunidade como governo não é fácil.
08:10Agora, Jorge, você toca num ponto que me chama muita atenção.
08:15Eu, como você, somos defensores da descentralização do poder, tudo isso.
08:18E, justamente, você mencionou no começo da nossa conversa que o grande salto do crescimento econômico
08:26foram esses presidentes que foram governadores de São Paulo,
08:30Prudente Moraes, Campos Salles e Rodrigues Alves,
08:31que entenderam a virtude do poder descentralizado e como a máquina para crescer.
08:37E outra é um Estado, como você bem disse, que ocupava apenas 1% do PIB,
08:41que não atrapalhou a vida do mercado.
08:44Foi isso que deu aquele grande salto.
08:46Como é que nós vamos fazer, nesse país onde o Estado serve 35% do PIB,
08:53para não atrapalhar essas ideias inovadoras do mercado?
08:57Bom, para ser justo, quer dizer, de fato, a descentralização republicana,
09:05que foi os Estados ganharam as terras devolutas todas
09:09e fontes de receita para viver, porque não tinham durante o Império,
09:15fez com que vários, todos os Estados, fizessem uma revolução.
09:18Então, porque eles tiveram uma reforma tributária descentralizadora,
09:24que foi muito bem aproveitada.
09:27Num certo sentido, hoje você pode fazer isso via emissão,
09:32caixa automática, porque não tem gente, você não vai desmontar o sistema tributário de novo.
09:37Eu cobri o sistema tributário na Constituição, vi aquilo todo dia,
09:41começou bem, acabou muito mal, com boas ideias.
09:45É assim mesmo, essas coisas renascem e não vão mudar.
09:49Mas você não precisa, se você for fazer um plano de carbono neutro nacional,
09:54você pode confiar que, dos potenciais 200 milhões de hectares do Brasil
09:59que tem para restauro e, enfim, capturar carbono,
10:05com um bom programa, cada dono de sítio, desses 5 milhões de sítios,
10:10vai poder, 5 alqueires em 5 milhões de propriedades,
10:14são 25 milhões de alqueires de restauração florestal.
10:19Então, tem outros jeitos de pensar a coisa.
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