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O ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, é o convidado do Entrevista com D'Avila. O programa debate como o desastre fiscal e a corrupção endêmica travam o crescimento do país, à luz das teorias dos Nobel de Economia Daron Acemoglu e Joel Mokyr sobre instituições inclusivas.
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Transcrição
00:00Entrevista com Dávila
00:05O desastre fiscal do Brasil, somado a décadas de estagnação econômica, corrupção endêmica e governantes que atuam de maneira arbitrária e usurpam o poder constitucional, são sintomas da degeneração institucional do país.
00:26Dois vencedores do Prêmio Nobel de Economia, Daryl Acemoglu e Joel Morkif, dão a receita para tirar o Brasil da crise.
00:35Acemoglu afirma que o país precisa criar instituições inclusivas, isto é, instituições que garantam regras estáveis, justiça célere e eficaz e a existência de um Estado capaz de assegurar a liberdade, a democracia e o bom funcionamento do livre mercado.
00:53Morkif ressalta que a inovação é um elemento essencial para impulsionar a produtividade, a competitividade e a destruição criativa que promovem o crescimento econômico sustentável e geram prosperidade.
01:08Instituições inclusivas e inovação estão umbilicalmente ligadas.
01:14É impossível destravar o potencial do crescimento sustentável e da inovação no Brasil com um governo que sabota o funcionamento do mercado e das instituições.
01:24Será que seremos capazes de livrar o Brasil das amarras do nacional estatismo, construir instituições inclusivas e fortalecer o livre mercado para impulsionar a inovação e a vocação empreendedora do Brasil?
01:39Esse é o tema da minha conversa hoje com o Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e um dos economistas mais brilhantes do país.
01:47Gustavo, muito bem-vindo a uma entrevista com o Davi.
01:49Obrigado, filho.
01:50Gustavo, vamos começar por esse tema tão importante.
01:55Desde Adam Smith, a história de que o mercado só funciona bem se nós temos instituições que garantem a lei, a propriedade privada e a liberdade.
02:04É possível fazer essa transformação num Brasil viciado nesse nacional estatismo?
02:13Acho que sim, claro.
02:16Enfrentamos dificuldades de toda a ordem.
02:20Instituições que funcionam, talvez, como é que caia melhor nos ouvidos nacionais.
02:30Instituições quer dizer muita coisa.
02:32Estamos falando desde a polícia, o Banco Central, o Estado em geral, nas suas atividades, em tudo que toca a organização social.
02:44E, claro, tivemos uma espécie de caos nos anos 80 e 90, a maior expressão da qual foi uma hiperinflação, que é uma espécie de escala terminal, de uma desagregação institucional.
03:02Uma instituição de tantas que não funcionava era a moeda, humilhada, enfim, de tantas maneiras como vimos durante o processo inflacionário.
03:15Recompor a moeda era, na verdade, uma agenda guarda-chuva para reorganizar muitas instituições.
03:24O próprio Banco Central é a instituição responsável pela preservação do poder de compra da moeda,
03:30mas, com ele, o sistema bancário, que, por sua vez, englobava o sistema bancário federal, estadual.
03:40E nisso tocava as instituições fiscais da federação, a União, bem como os estados,
03:49todos eles meio que corrompidos pela facilidade que era fabricar papel pintado para pagar as contas.
03:58Agora, uma vez removida essa facilidade, o desafio foi construir bancos e finanças públicas que dão suporte a uma moeda de país sério, civilizado,
04:14que nós meio que não éramos ainda por inteiro vivendo uma hiperinflação.
04:18Então, 30 anos depois, eu acho que ainda estamos terminando esse primeiro momento de reorganização institucional,
04:28ainda com contas fiscais muito desarrumadas e ainda com gente achando que isso não tem importância.
04:35Gustavo, nós vamos falar dessa questão do desarranjo fiscal, mas antes eu queria resgatar um pouco a história do Plano Real.
04:40Além de você ter sido um grande protagonista, você já escreveu um livro muito interessante sobre o Plano Real,
04:47e aquele foi um momento de uma conjuntura muito particular do Brasil.
04:51Nós tínhamos um presidente da República que se importava com as instituições,
04:55entendia a importância das instituições, tinha uma equipe econômica extraordinária,
05:00tinha você lá no comando do Banco Central.
05:03Então, teve uma conjuntura de qualidade técnica e política em prol da construção dessas instituições.
05:11Conta um pouco, como é que foi esse processo?
05:14Porque é uma coisa que as pessoas às vezes perdem a memória do que nós passamos naqueles anos de 1995, 1996.
05:22Pois é, e foi tudo muito rápido.
05:25Gosto muito de lembrar do meu primeiro dia de trabalho no Ministério da Fazenda,
05:32que foi também o primeiro dia de trabalho do ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso.
05:38Foi em maio de 1993, quando chegamos de táxi no Ministério,
05:44e tinha um piquete de funcionários do Tesouro Nacional em greve.
05:48Não queriam deixar o ministro entrar.
05:50Depois de muita conversa, entramos, subimos no elevador,
05:54o assessorista perguntou para o ministro que andar.
05:57Era o ministro, era o seu primeiro dia, não é isso?
06:00Pois bem, esse era o quarto ministro da Fazenda.
06:05Em sete meses.
06:06Em sete meses, o de Itamar Franco, presidente, vice de Fernando Collor,
06:12que tinha sofrido impeachment.
06:14Os três anteriores tinham sido demitidos depois de menos de três meses no cargo.
06:19A inflação estava em 30% ao mês, ao mês, tá?
06:24E, portanto, se ali naquele momento, subindo no elevador,
06:29se alguém perguntasse sobre o futuro do Brasil,
06:32a resposta não seria muito otimista.
06:35Mas veja bem, onze meses depois de subir esse elevador,
06:40o mesmo ministro desceu esse mesmo elevador,
06:44saindo do Ministério em abril de 94.
06:47para concorrer à Presidente da República e ganhar no primeiro turno.
06:53Depois de onze meses de trabalho.
06:56Onde a principal realização foi a reconstrução da moeda.
07:00Uma reconstrução institucional.
07:03Se alguém ali no começo dissesse,
07:05peraí, essa pessoa que está subindo aqui o elevador vai construir uma instituição
07:10e, com isso, se elegerá Presidente da República.
07:13Iam dar gargalhadas, rolar no chão de gargalhar.
07:16Mas foi o que aconteceu.
07:18É extraordinário.
07:20É extraordinário.
07:21Bom, depois, ao assumir o governo,
07:25veio toda aquela resistência às privatizações,
07:29à resistência à criação das próprias agências,
07:32tão importantes com órgãos técnicos e não para ser capturada pela política,
07:39houve todo um rearranjo.
07:41E, principalmente, o Banco Central.
07:42O Banco Central passou a ter um papel muito importante.
07:45O Banco Central é meio como a agência reguladora do dinheiro.
07:50E o dinheiro é, talvez, a melhor das...
07:55A síntese da situação onde o interesse público reina sobre os interesses privados.
08:03É onde a impensualidade é a máxima.
08:08Você ali cuidando do dinheiro, enfim.
08:13Esse drama da colonização das agências existia para o dinheiro.
08:20O vampiro no banco de sangue.
08:23As analogias desse tipo, assim, meio macabras, são comuns para isso.
08:28E era perigoso.
08:30Cada Estado tinha o seu Banco Estadual funcionando como o Banco Central,
08:35sua unidade de conta para fins fiscais,
08:37como se estivesse prestes a cada qual ter a sua moeda,
08:41seu Banco Central e o país se fragmentar.
08:45Era esse tipo de perigo que ninguém falava na ocasião.
08:48Na ocasião, nem se falava a palavra hiperinflação.
08:53Os políticos sempre nos alertavam.
08:55Não fala isso, que as pessoas ficam com medo.
08:59Não sabem meio o que é.
09:01Lembram da Alemanha, 23.
09:03Enfim, cuidado.
09:06Mas, sim, era isso que estava no ar.
09:09Uma atmosfera muito envenenada,
09:11onde a agência reguladora, das agências reguladoras, estava capturada.
09:18E aí aconteceu uma coisa também muito interessante naquela época,
09:22que foi a federalização dessas dívidas estaduais.
09:26Principalmente, então tinha que privatizar os bancos,
09:28logo depois disso foi atrelado à lei de responsabilidade fiscal.
09:31E foi algo fundamental para sanar a situação dos estados,
09:37principalmente dos estados daquela época.
09:39Como você...
09:40Então, a relação entre a União e os estados, na ocasião,
09:43era quase que uma relação entre o centro e vários pequenos países,
09:49cada qual fazendo com a União um programa,
09:53à semelhança do que, sei lá, o FMI faz com países.
09:57Onde os estados se comprometiam com certo desempenho fiscal,
10:02recebiam empréstimos ou reestruturavam suas dívidas com a União.
10:08E tinham créditos recíprocos uns com os outros,
10:10a União, para lá e para cá.
10:12Então, tinha uma espécie de encontro de contas
10:14e um programa que era ou não era cumprido.
10:18Cada programa tinha metas que, em geral, tinham que ver com
10:22superávit primário, endividamento,
10:25folha com o percentual de receita corrente líquida
10:29e, curiosamente, mas não é uma coincidência,
10:33a seguir, a lei de responsabilidade fiscal
10:36foi quase que construída em torno desses programas.
10:40Os mesmos indicadores,
10:42a folha com proporção da receita corrente líquida,
10:45na forma do que antigamente era a lei Camata,
10:48os parâmetros de endividamento que vinham em resoluções do Senado,
10:52também veio a vedação de não se endividar e viver de seus próprios meios.
11:00Nada muito estrito, mas também nada exorbitante.
11:05E os Estados cumpriram e nós tivemos aí pelo menos uns bons 20 anos
11:09onde esses programas foram cumpridos,
11:12a lei de responsabilidade vigorou tranquila.
11:15Depois, quando chegou a nova matriz, Dilma Rousseff,
11:22toda essa cultura foi meio que destruída.
11:27Voltamos meio que a estaca, se não zero, perto disso.
11:31Foi uma pena, mas a experiência foi muito boa.
11:35Revigorar a lei de responsabilidade,
11:37inclusive preencher alguns dos vazios que a lei tinha,
11:41permanece como uma das urgências desse nosso país
11:46com uma situação fiscal tão crítica.
11:48Então, hoje nós começamos a falar sobre as instituições do Acemoglu
11:52aqui no começo do programa.
11:54Como é que, depois de tantos anos, de 40 anos,
11:57você vê a degeneração dessas instituições?
12:00As agências reguladoras foram totalmente politizadas novamente.
12:03A dívida dos estados e municípios tornou-se uma segunda dor de cabeça.
12:08E o que sobrou desta época foi o Banco Central.
12:12Essa foi aquela instituição que conseguiu permanecer
12:17de uma forma técnica, independente
12:19e como boa guardiã da moeda e da política monetária.
12:24Acho que é um bom exemplo de agência reguladora que deu certo
12:29e, curiosamente, só recentemente os dirigentes dessa agência reguladora
12:35ganharam mandatos.
12:36Só agora.
12:37Todas as outras agências têm dirigentes que têm mandato
12:42desde a lei das agências, que é de 2 mil por aí.
12:46Agora, é exagero dizer que é só o Banco Central.
12:52Aí, veja bem, cada brasileiro hoje em dia tem um celular.
12:57Não é isso?
12:57Porque a gente privatizou a Telebrás.
13:00Se a gente tivesse companhias estatais fazendo telefonia celular até hoje, imagina...
13:07Teríamos orelhão até hoje.
13:08Ah, orelhão e ninguém tinha que ter internet, zap, essas coisas.
13:12Nada disso.
13:13Pois é.
13:13Então, isso foi um sucesso.
13:16Tem mais aparelho de celular do que brasileiro.
13:18Funciona, todo mundo gosta e é privado.
13:25Foi um case.
13:27A agência reguladora, a Anatel, é parte desse pacote bem-sucedido.
13:32Tem outros casos bem-sucedidos.
13:34Eu não vou saber se dá o devido crédito a quem tanto batalhou.
13:38Em cada setor tem os seus heróis.
13:40Eu posso falar da moeda porque eu estava lá, mas em muitos outros setores teve, sim, resistência
13:46a esse tipo de degradação, que é um fenômeno mundial.
13:51Sempre se busca o regulado, capturar o regulador.
13:55É uma dinâmica que é comum em toda parte.
13:58A gente tem que saber enfrentar isso.
14:00Em toda parte tem político querendo nomear amigos e parentes para a agência reguladora
14:07e nos cabe resistir, policiar, tomar conta.
14:11E estamos no jogo, estamos fazendo.
14:14Aprendemos um bocado, tem mais para fazer.
14:17Nunca dá para descansar.
14:19Porque o que falhou, vamos consertar e continua o jogo.
14:23Já num patamar completamente melhor do que tinha antes.
14:28Agora, Gustavo, o que nós temos de fazer para sair desse atoleiro,
14:32de um crescimento econômico medíocre, dessa situação fiscal desastrosa do Brasil
14:39e até recuperar o nosso investment grade, alguma coisa assim,
14:43para que nós possamos atrair investimento novamente.
14:46Então, eu acho que tem que começar pela situação fiscal.
14:50E o investment grade, o grau de investimento, é uma fórmula interessante de embrulhar essa missão.
15:03O Brasil, quer dizer, as agências internacionais de classificação de risco soberano de países,
15:09elas dão as notinhas para nós, explicando aqui para quem nos assiste,
15:13o que chama grau de investimento é quando o país tem uma nota acima de 5.
15:18A nossa, de 0 a 10, é como se fosse um 3,5, que é vergonhoso.
15:23Mas nós já tivemos uma nota para passar de ano, o grau de investimento, nota 5,
15:30por breve período ali, logo depois da crise de 2008,
15:34meio que como culminando todos os esforços que foram feitos até aquele momento.
15:40Era já alguns anos depois do acordo com o FMI que a gente fez no ano 2000.
15:45vencemos bem a crise de 2008, enfim, era um país com outro rumo, antes da nova matriz.
15:56Perdemos o investment grade, foi uma pena, e é uma grande missão agora recuperar.
16:05O governo atual não fala disso.
16:08Às vezes alguém do Tesouro vem com essa ideia, mas a ideia nunca é abraçada pela liderança,
16:16porque parece uma pauta neoliberal, conservadora, não tem nada disso.
16:22Pagar as contas, enfim, não é uma postura conservadora, é só uma postura honesta.
16:29É isso, pagar as contas.
16:31E o Brasil até não é considerado um bom pagador de contas,
16:36porque olha só a nota de crédito que a gente tem, 3,5.
16:41É mal, é ruim.
16:43Muito ruim.
16:44Aliás, como o país emergente, é o país que tem a maior relação dívida-PIB.
16:49Como é que a gente faz para reduzir isso de uma forma politicamente viável?
16:53Porque essa foi a grande virtude do Plano Real, tomar medidas duras, importantes,
16:59mas que se tornaram politicamente viáveis.
17:03Pois é, o certo termina sendo mais fácil do que parece.
17:08Lá naquele tempo, antes do Real, o mundo político tinha um pouco essa mitologia
17:16de que o economista não entende de povo, vem com essas conversas de equilibrar o orçamento,
17:22que o povo, assim, não vai ter problema social, não vai ter...
17:26Tudo errado.
17:28E precisou que o Real desse certo, derrotasse o populismo,
17:35pelo menos duas vezes, o Fernando Henrique foi eleito e reeleito em primeiro turno,
17:39nas duas ocasiões, na segunda vez, mesmo inclusive num ambiente de crise.
17:45Mas tanta coisa mudou na cabeça de Brasília, do parlamentar brasileiro,
17:56não apenas essa experiência, como também olhando o parlamento hoje,
18:02nossos representantes, muitos deles, você saberá disso melhor do que eu,
18:07foram prefeitos e viveram na sua encarnação como prefeitos
18:12sobre a égide da lei de responsabilidade, sabendo exatamente que o dinheiro tem limite
18:18e que não é fácil.
18:21É um dinheiro suado que o município tem para pagar suas contas e fazer coisa.
18:27Quem viveu esse regime, isso é diferente do mundo da inflação,
18:33onde é um mundo de fantasia, do papel pintado e, enfim, da farsesco,
18:39onde parece que tudo pode e tem dinheiro para tudo.
18:43E não tem, a vida real não é assim.
18:47Acho que hoje tem no parlamento muito mais consciência dos limites,
18:53de o que é responsabilidade fiscal e de como é possível, para começar,
18:58construir um regime fiscal sadio, sem o que não dá para conversar sobre crescimento.
19:02Verdade.
19:06Gustavo, o que nós temos de fazer nessa receita para equilibrar as contas?
19:10Por exemplo, desvincular a história do salário mínimo, dos benefícios.
19:14Como é que a gente faz para diminuir também dessa dívida, para chegar nos 5?
19:17Hoje a gente está em 80, mais de 80% da relação de dívida-piva,
19:20a gente tem que cair para uns 50 para voltar a ser grau de investimento.
19:24Então, no ano de 2000, 99, 2000, em razão de ajustes fiscais feitos antes e do acordo com o FMI,
19:37nós fomos de alguma coisa como zero menos meio do PIB de déficit para três positivos de superávit primário.
19:47E ficamos ali durante uns bons 12, 13 anos, até Dilma Rousseff destruir esses superávites.
19:58Durante esse período, a dívida brasileira deve ter caído de alguma coisa como 65 do PIB para 45.
20:0810 anos, ok?
20:12Hoje nós estamos, vamos talvez começar em 26, um programa de ajuste que pode ter esse tamanho,
20:202, 3% do PIB de superávit, vai levar uns 10 anos para trazer de volta para os 60.
20:26Outros 10 anos para chegar nos 40, 35.
20:31Vai demorar o tempo que foi esse tempo de irresponsabilidade que nós vivemos.
20:38Mas vai ser, acho que vai compensar, porque isso revigora as perspectivas de crescimento.
20:46O Estado brasileiro deixa de ser um peso e passa a contribuir positivamente para a equação do crescimento.
20:55É meio que anti-intuitivo para a cabeça inflacionista, desenvolvimentista,
21:00do típico economista de esquerda que existe dentro de cada parlamentar brasileiro, em tamanhos variados.
21:08Mas todo mundo tem essa memória desenvolvimentista inflacionista em algum grau.
21:15Está diminuindo com o tempo e eu acho que fazer certo vai acabar consertando tudo.
21:22E parte dessa memória desenvolvimentista intervencionista é que criou um Brasil longe do comércio mundial,
21:33um Brasil isolado, cercado por essa muralha protecionista e que fez com que a nossa indústria perdesse muito produtividade e competitividade.
21:42Qual seria a agenda para o Brasil retomar a produtividade e a competitividade?
21:47Pois é, acho que como filosofia, saber uma agenda não sei, é muito complicado.
21:55Mas a filosofia, acho que você foi no ponto ao chamar atenção para o fato de, no Brasil, de antigamente,
22:05haver uma certa confusão entre desenvolvimento e autossuficiência.
22:10Ou seja, o país desenvolvido é aquele que não precisa de ninguém e que é uma espécie de ilha isolada do resto do mundo.
22:17União Soviética.
22:19O Brasil meio que chegou à autossuficiência quando teve a crise de 82 e teve que, então, arrumar suas contas externas
22:29e verificou que tinha chegado à autossuficiência e isso não resolvia nada.
22:33A vida ficava até mais difícil sendo uma autarquia do que sendo uma economia aberta.
22:39E o momento onde o contraste entre o Brasil e a Coreia do Sul, por exemplo, ficou mais flagrante.
22:47Eles que perseguiram uma estratégia de desenvolvimento com abertura eram muito menos vulneráveis do ângulo do balanço de pagamento
22:56do que nós, autarquia.
22:58Ou seja, erramos.
23:00Levamos uma surra das economias do Sudeste Asiático no tocante a desenvolvimento econômico e comércio exterior.
23:08Temos que inverter essa equação.
23:11Agora eu acho que a oportunidade se apresenta não apenas porque existem novas possibilidades no comércio internacional.
23:19Agora nós temos dentro de casa muitas multinacionais.
23:23Sei lá, pelo menos um terço do PIB brasileiro é produzido por empresas multinacionais que têm conexões com as cadeias internacionais de valor
23:32com as quais a gente pode se plugar no momento que o país meio que virar a chave e resolver ser um país envolvido com o comércio exterior.
23:41Mas agora está começando uma outra coisa que é o digital.
23:44Nós vamos provavelmente daqui para frente discutir a abertura comercial e a digital.
23:51E a gente não pode querer na digital ter o mesmo tipo de postura que nós tivemos com relação ao comércio exterior,
23:58que é se isolar com medo e se proteger.
24:00A lei da informática, a lei da informática.
24:02E aí começar um nacionalismo no assunto digital e a mesma dinâmica de conteúdo nacional e proteção e medo do estrangeiro
24:13que vai nos isolar novamente da inovação e das dinâmicas de crescimento.
24:20Gustavo, nós temos duas grandes vantagens comparativas nesse mundo de hoje,
24:24que é a comida, a nossa parte do agro, e energia limpa.
24:28Duas coisas fundamentais para alavancar essa retomada do crescimento econômico.
24:33Como é que a gente pode transformar isso em grandes alavancas para essa retomada do crescimento?
24:39Acho que não dá para ir muito além de uma frase de efeito sobre isso, que é evidentemente correta.
24:46Mas aí como transformar isso em projetos específicos?
24:50Aí vai do empresário que transforma esse tipo de visão em projetos, empresas.
24:58E isso é para os empresários fazerem.
25:01A gente, se a gente fosse se meter a fazer isso, não dá.
25:06Então, sim, é comida, energia, sol e a visão certa.
25:16Você mesmo, na Rio Bravo, tem lá os seus sócios chineses investindo muito nessa área de infraestrutura.
25:24Como é que está o apetite desses sócios em relação a essa parte de infraestrutura no Brasil?
25:30Muito apetite.
25:32Os chineses construíram sua economia com um viés muito forte de infraestrutura, de construção, grandes projetos.
25:44Olham para o Brasil enxergando muitas possibilidades.
25:49Mas o Brasil não é muito aberto para esse olhar estrangeiro sobre as coisas que tem aqui.
25:58A gente tem muito ciúme do nosso mercado interno e isso vem da nossa formação.
26:06Vamos ter que lidar com isso mais para frente.
26:08Qual é o papel do Brasil nesse mundo mais protecionista, nesse mundo com uma política econômica mais nacionalista,
26:17inaugurada muito pelo governo Donald Trump?
26:19Como é que nós devemos nos portar neste mundo para não nos tornarmos tão vulneráveis a ponto de colocar nossa economia em risco,
26:28mas também entender isso como uma enorme oportunidade?
26:30Olha aqui, eles ficaram mais nacionalistas, mas a partir de um nível de globalização muito elevado.
26:39Nós temos um déficit de globalização gigantesco.
26:43Então, vejo gente aqui falando, agora que veio o presidente Trump, que o mundo vai, parece que chegamos de volta em 1930.
26:52Não, nada disso.
26:54Continua sendo um mundo onde cadeias internacionais de valor produzem muito a maior parte do PIB mundial e a gente está fora disso.
27:05Está na hora de entrar, não está na hora de se isolar mais.
27:11E sim tem mais protecionismo e um tanto de insensatez no que fez o presidente americano,
27:18que eu acho que é muito mais temporário do que permanente, considerando tudo o que tem sido feito nos últimos 40, 50 anos.
27:27Ou seja, nós temos de aproveitar esses near-shoring, friend-shoring, essas coisas,
27:32para tentar criar as nossas cadeias aqui de valor agregado e poder aproveitar essa onda.
27:38É, nós já temos dentro de casa praticamente todas as empresas multinacionais desse planeta.
27:47Porém, estabelecidas aqui dentro de um pressuposto que tem que trabalhar com o mercado interno e com componentes nacionais.
27:56Então, trouxemos a empresa multinacional, mas a instruímos de não participar da cadeia internacional de valor,
28:03que é o que ela tem de melhor a oferecer.
28:06Está na hora de rever esse tipo de postura.
28:09Com certeza.
28:10Gustavo, como você vê o impacto na economia brasileira com o Tratado Mercosul-Comunidade Europeia?
28:19Você acha que isso vai ter um impacto muito importante ou ele vai ser gradual, vai crescendo ao longo do tempo?
28:26Parece-me que tem um impacto muito limitado.
28:28Esses tratados, em geral, trabalham sobre um conjunto muito restrito de mercadorias e não sei se vai ter muito efeito ou não.
28:44Gustavo, a Europa é algo que me desperta curiosidade e eu queria ouvi-lo.
28:49Porque você tem capital humano excelente, tem excelentes instituições, você tem um mercado comum europeu enorme,
29:00mas a Europa continua andando de lado.
29:02Como é possível ter todos os ingredientes certos e o prato final não é uma pujança econômica?
29:09Então, Filipe, se você perguntar aos chineses o que eles pensam da Europa,
29:14eles vão discordar de você quanto aos ingredientes certos.
29:18dirão que a Europa tem defeitos, que a gente tem aqui uma visão antiquada do que é inovação, competição, progresso,
29:29muito cheio de nichos capturados, de defesas, muito protecionista em muita coisa.
29:37E eles, chineses, acham que a Europa vai ficar para trás.
29:43Muita gente acha também.
29:45Não é o exemplo a seguir.
29:48Esse é o século da Ásia.
29:50É ali que estão as economias que saíram de onde nós estamos e foram, na direita, e se tornaram países ricos.
30:00É ali que a gente tem que se mirar.
30:02Agora, isso também tendo aquela onda muito de abertura econômica, de ganho muito envolvimento no comércio internacional.
30:12Você acha que vai haver um rearranjo dessa ideia do comércio global depois dessa disputa China e Estados Unidos?
30:21Parece a situação, sem querer ser profeta nesse assunto, mas a situação de agora lembra um pouco a de 1985,
30:35que antecedeu o acordo, o famoso acordo do Plaza, que foi...
30:41Foi, na época, o Japão estava na posição que a China está hoje, como uma espécie de potência industrial emergente,
30:50grandes superávites comerciais, todo mundo com medo do Japão, exportações japonesas invadindo o mundo inteiro.
30:57E os países se juntaram, conversaram, e a ideia era produzir uma apreciação da moeda japonesa de forma coordenada.
31:10Mais ou menos a mesma coisa que talvez fizesse sentido fazer hoje com relação à moeda chinesa, o Riminbi.
31:17Porém, não temos hoje, entre Estados Unidos e China, o mesmo tipo de relação que havia lá atrás,
31:25entre Estados Unidos, Japão e Alemanha, outro parceiro importante do acordo do Plaza.
31:32Naquele momento, alemães e japoneses concordaram em fortalecer sua moeda,
31:38com isso diminuindo o seu superávit comercial e arrumando o superávit americano,
31:46arrumando o balanço de pagamentos americano, que é uma espécie de pulmão monetário do planeta.
31:52Agora, esse pulmão está um pouco desarrumado, de novo, porque a China agride, vamos dizer assim, esse pulmão.
32:02E o ideal é que houvesse coordenação macroeconômica, a apreciação da moeda chinesa seria natural,
32:10mas não é uma moeda que tem negociação em mercado, feito...
32:15A moeda japonesa tinha, o Marco Alemão tinha no passado.
32:20É preciso...
32:21No passado precisava também, mas hoje, mais claramente, é preciso coordenar e combinar
32:27americanos e chineses.
32:29Mas a conversa entre eles está difícil.
32:31Tem muitos temas.
32:33Faria muito bem a economia mundial
32:35que americanos e chineses se entendessem para fortalecer a moeda chinesa
32:40e fazer bem para todo mundo.
32:42Parte da coisa já aconteceu sozinha
32:44só porque os americanos tentaram meio que fazer isso unilateralmente
32:49com essa coisa das tarifas.
32:51Que fracassou, mas em parte funcionou,
32:54porque o dólar perdeu pelo menos aí uns 10%
32:57em termos globais, desde que começou o Liberation Day,
33:03o assunto das tarifas.
33:05E esses 10% aí que o dólar perdeu, aqui o real ganhou.
33:09O real foi para 5,3% em vez de 6%.
33:12O que ajudou aqui é a nossa inflação
33:15e fez bem a economia mundial.
33:20Tomara que americanos e chineses, afinal, se entendam
33:23que isso vai fazer muito bem para todos nós.
33:25Eu queria ouvi-lo sobre dois tópicos fundamentais
33:29que hoje afetam a economia mundial.
33:31O primeiro é o tamanho da dívida dos países.
33:34Na Europa é uma dívida gigantesca,
33:36os Estados Unidos, Japão, Brasil.
33:39Como é que você vê esse impacto da dívida?
33:42Então, eu acho que uma coisa meio óbvia
33:44que é preciso observar
33:45é que é preciso comparar a dívida com o patrimônio do devedor.
33:51Então, o país rico é diferente de país pobre
33:54quando se trata de dívida, está certo?
33:56Tem gente que faz, que mede a riqueza dos países,
34:01mais ou menos como tem gente que mede o PIB.
34:03O PIB é um fluxo, é mais feito o valor adicionado,
34:07o faturamento, menos os insumos,
34:10então é valor adicionado, isso é o PIB, é um fluxo.
34:13A riqueza é o estoque.
34:15Um país como o Japão, por exemplo,
34:17o total da riqueza do japonês
34:20é alguma coisa como sete vezes o PIB.
34:22Então, quando um país como esse tem dívida
34:26que é três vezes o PIB,
34:28se a riqueza é sete vezes o PIB, está ok.
34:31Os americanos é mais ou menos também isso,
34:33sete vezes o PIB, a riqueza.
34:36E a dívida é 150, sei lá, do PIB, uma coisa assim.
34:39Então, é uma dívida pequena relativamente à riqueza.
34:43O cara é rico e deve, tudo bem.
34:47Se vai no banco, tem crédito.
34:48Agora, o Brasil não.
34:50O Brasil, as métricas de riqueza para o Brasil é um PIB,
34:54um PIB e meio.
34:56Então, chegar a 80% do PIB de dívida é muita coisa.
35:02É meio que estressar demais a capacidade da riqueza brasileira
35:08emprestar ao Estado.
35:10Acho que estamos chegando num limite.
35:14A partir de agora, acho que começa a acontecer o tipo de sintoma
35:19que a gente vê numa, sei lá, numa prefeitura endividada, apertada,
35:25dificuldade de caixa.
35:26Peça não pagar fornecedor direito, não paga precatório.
35:30Então, pequenos assassinatos aqui e ali, nas finanças públicas,
35:35aí não paga a folha, aí um dia o secretário de fazenda sai na rua,
35:38leva um cascudo do aposentado e não sabe o que aconteceu.
35:42E aí, sim, vem aquela crise, aquela, puxa vida,
35:46isso de déficit acaba virando um problema social.
35:50Pois é, nunca se imaginou que o governo federal no Brasil
35:55pudesse experimentar esse tipo de problema.
35:58O governo federal, igual a qualquer prefeitura, tem limites.
36:02A diferença entre o federal e a prefeitura é que o federal pode se endividar
36:06ou tem um banco, só que o banco que tem lá, que é o Banco Central,
36:10esse que faz papel pintado, não faz mais papel pintado
36:14para pagar as contas de um governo irresponsável.
36:18Então, tem que viver igual a qualquer prefeitura,
36:21dentro dos limites da arrecadação.
36:24É diferente.
36:26Então, é muito interessante.
36:27Isso precisa ver com o estoque de riqueza versus o grau de endividamento
36:30e é isso que faz com que o Brasil esteja numa área tão perigosa,
36:34porque já estamos entrando no cheque especial.
36:38Certamente.
36:39Qualquer pessoa que tem a experiência de ir no banco,
36:42conversar com o gerente sobre tomar um crédito, sabe.
36:45Sabe exatamente.
36:46O segundo ponto, que é fundamental também hoje,
36:49é a mudança na demografia.
36:51A demografia vem mudando e vem afetando demais a economia.
36:54Como é que você vê a questão demográfica e o impacto na economia brasileira,
36:59principalmente porque nós estamos envelhecendo rapidamente e no mundo?
37:03Pois é, é tremendo.
37:05Nós tivemos um pequeno prelúdio dessa conversa
37:09no debate sobre reforma previdenciária no Brasil,
37:13que foi o que trouxe as implicações financeiras diretas,
37:20bem diretas, da alteração na pirâmide populacional.
37:25O Brasil era uma pirâmide assim e agora vai virar o contrário disso.
37:30Então, é muito comum que se projete uma sobre a outra.
37:35A pirâmide populacional brasileira em, sei lá, 1920 era assim
37:40e agora em, sei lá, 2060 vai ser assim.
37:46Então, aqueles esquemas previdenciários onde quem trabalha contribui
37:51e paga as aposentadorias dos velhos, a conta não fecha,
37:56porque tem muito mais gente velha do que gente trabalhando.
37:59A proporção ficou completamente diferente.
38:04É o envelhecimento da população,
38:05que a gente experimentou até agora como ameaça,
38:10mas daqui para frente vai ser como realidade.
38:15As pessoas vão se aposentar,
38:18vai ter muita gente acima de 60
38:20e pouca gente na faixa ali trabalhando, contribuindo.
38:27E essa previdência de bases correntes, como a gente fala,
38:30quem trabalha paga por quem não trabalha,
38:33isso vai ficar muito difícil.
38:35As possibilidades de crescimento também são outras.
38:41Europa, que falamos há pouco, é um continente envelhecido, já velho.
38:47O Japão também.
38:48Mas são áreas que ficaram ricas antes de ficarem velhas.
38:53A gente não ficou rico antes de ficar velho.
38:56E o jeito de escapar dessa armadilha de envelhecer antes de ficar rico
39:01é um enorme ganho de produtividade?
39:03É ficar rico, né?
39:05Essa é a melhor solução.
39:07Que resolve muita coisa.
39:09Mas temos tido muita lentidão em fazer as coisas necessárias para crescer.
39:17É muito irregular o nosso desempenho.
39:20Às vezes a gente faz coisas brilhantes e às vezes tropeça em coisas fáceis.
39:27Gustavo, você vê a questão ambiental, principalmente a economia verde, a bioeconomia,
39:34como uma grande alavanca também, além dessa questão energética e da produção de alimentos no Brasil?
39:42Ou você acha que ainda tem muita mudança de cultura para fazer antes de transformarmos isso num grande ativo?
39:50Pois é, o modo como isso será um ativo, vamos ver ainda.
39:56Não temos ainda um mercado de carbono pelo qual a gente possa, inclusive, dar preço e valores específicos
40:03específicos à matriz energética brasileira e relativamente a outras.
40:09Mas acho que estamos bem posicionados do ângulo da nossa matriz.
40:13Como isso vai se tornar um ativo no futuro, eu não sei dizer.
40:17Gustavo, você olhando o Brasil hoje em comparação com o Brasil de 1990, com aquele que você participou da elaboração do Plano Real,
40:30você vê o que o Brasil precisa fazer para retomar um caminho de estabilidade?
40:36Uma das coisas mais importantes que as instituições trouxeram para o Brasil naquela época é estabilidade das regras, previsibilidade.
40:44São questões fundamentais para essa retomada do crescimento.
40:48Como você vê o Brasil resgatando esses dois grandes ativos de instituições que funcionam,
40:53como você colocou no começo do programa, que é a estabilidade e a previsibilidade das regras?
41:00Eu acho que as duas são meio que resultado de instituições que funcionam.
41:06E desde aquele tempo, acho que temos tido uma abordagem corretamente incremental, modular, vai conforme temas.
41:17Onde a gente progride, progredimos na moeda, na privatização, de forma desigual em diferentes setores,
41:24mas progredimos em vários deles.
41:26E agora, no meu modo de entender, estava na hora do orçamento.
41:33É uma instituição que a gente falhou em modernizar no passado.
41:38Quando trabalhamos a lei de responsabilidade fiscal,
41:41ela se ocupou predominantemente da dívida, do déficit e da folha.
41:47Três variáveis importantes na lei de responsabilidade.
41:50Ela se ocupou pouco, praticamente não tratou do orçamento.
41:56E continuou sendo feito de um jeito antigo, sei lá, clubístico, amador.
42:03Tem muitos adjetivos ruins pro jeito com que é feito.
42:06É feito regido por uma lei de 1964, no tempo que não tinha nem inflação.
42:13Então tem todo tipo de distorção.
42:15Mas já está todo mundo acostumado no parlamento,
42:19é muito difícil a conversa sobre o título do filme aqui,
42:22é uma lei de finanças públicas,
42:24que chegou a ser votada uma versão na Câmara,
42:30mas ela não avançou.
42:34Talvez não avançou, inclusive, pra enfrentar o tipo de plano de contas
42:39que é preciso ter hoje em dia pra fazer, sei lá,
42:42o superávit, conversar com a dívida.
42:46E a gente tem um processo onde os representantes do povo
42:49que decidem as aspirações, que são a despesa,
42:54conversem com eles mesmos, que são também quem definem as possibilidades
42:58que têm a ver com a receita.
43:01E tributar os nossos filhos e netos que têm a ver com a dívida.
43:04É o mesmo povo, as mesmas pessoas.
43:06Só que elas, quando decidem essas três coisas,
43:09parece que elas vão pra salas diferentes
43:11e fingem que não...
43:13Enfim, é o processo orçamentário que junta isso tudo.
43:20Sempre se diz que é o coração da democracia.
43:22Isso é o coração, mas isso é o pulmão, o estômago.
43:25É alguma coisa muito importante da democracia,
43:29onde o Bismarck dizia que era a fábrica de salsicha,
43:31mas é onde tem essa compatibilização entre aspirações e possibilidades
43:39que tem que ser feito no ambiente de democracia pelos representantes do povo,
43:43que nós elegemos.
43:45E com isso, se a gente tem um orçamento feito desse jeito,
43:51ele é legítimo, aí ele funciona.
43:53Pode até ter erros, mas eles se consertam no tempo,
43:58porque assim é o que a democracia traz de bom.
44:02A gente critica e conserta,
44:05mas a gente não tem ainda direito.
44:08O nosso orçamento está cheio de problemas,
44:10tem as emendas, tem, sei lá, uma porção de coisas
44:13que o noticiário aponta todo o tempo
44:16dessa instituição não estar ainda modernizada
44:23ou configurada para o futuro que o Brasil merece ter.
44:27Ou seja, não só é um orçamento fictício,
44:31como temos grandes problemas,
44:33que é o engessamento dos gastos públicos no orçamento,
44:35que é outra coisa também difícil para dar essa liberdade.
44:39Você acha que o Brasil precisa ter, sei lá,
44:40uma política de orçamento base zero?
44:42Como é que a gente faz para repensar o orçamento da nação?
44:46Então, na Constituinte, por exemplo,
44:50se quis acabar com todas as, como é que chama?
44:56Gastos obrigatórios?
44:58Consignações de receita, as vinculações.
45:00As vinculações.
45:01Mas não, porque tem as vinculações,
45:04que não chama de vinculação para estados e municípios,
45:07para a Seguridade Social e para a Educação.
45:10E aí, o que acontece é uma espécie de loteamento do orçamento.
45:15Como o orçamento é caótico,
45:18cada setor quer assegurar que determinada receita
45:22nem passe por Brasília,
45:24venha direto para cá,
45:26para não ninguém becar.
45:29e vários conseguem tantas vinculações.
45:33Se todo mundo que quer vinculação tivesse vinculação,
45:36tinha 500% de vinculação do orçamento.
45:41Uma possibilidade,
45:42tá bom, vamos vincular tudo,
45:45mas tudo tem que ser,
45:47esse tudo tem que ser do tamanho da receita.
45:50Ou então não vamos vincular nada.
45:52E cada ano é base zero,
45:53começa tudo de novo.
45:54Não sei ser realista, tá?
45:57E também não sei como é que a gente faz
45:59esse 500% virar 100%.
46:02É uma questão decisória,
46:07de parlamentos, de democracias,
46:09que a gente tem que enfrentar
46:11e desenhar uma instituição que funcione.
46:16Ou seja,
46:17atacar a questão orçamentária
46:20deveria ser uma das prioridades do país?
46:23Deveria,
46:24eu acho que todo mundo está falando do fiscal hoje em dia.
46:27Pois é,
46:28eu acho que como endereçar o fiscal,
46:30aí geralmente a pergunta é
46:32qual é a sua bala de prata?
46:34Eu que se pergunto sempre para o Zé,
46:36o que é que tem que fazer?
46:37Como se tiver,
46:38ah não, faz a solução assim,
46:40se tem uma receitinha,
46:41três, quatro coisas que resolvem.
46:43Não.
46:43Eu acho que é preciso fazer
46:47essa grande reflexão
46:50sobre o orçamento,
46:52o Estado,
46:53o tamanho,
46:54os impostos.
46:55A gente sabe os elementos.
46:58Agora,
46:58colocar todos na mesma sala
47:00e organizar a fórmula decisória
47:03de ano a ano,
47:04quanto se gasta,
47:06quanto o Estado se endivida,
47:08quanto se coleta de imposto,
47:10a gente não está sabendo fazer isso.
47:12Gustavo,
47:14uma coisa interessante,
47:15nós temos uma geração,
47:17você mencionou muito bem
47:18alguns parlamentares
47:19que já foram prefeitos
47:20e passaram por isso,
47:22mas nós temos uma boa safra
47:24de governadores até.
47:25Governadores com essa visão
47:27de política baseada
47:28em dada evidência,
47:29olhando para indicadores,
47:32entendendo como é que
47:32a política pública
47:34é mensurada na ponta,
47:35como muda a vida das pessoas.
47:37Você acha que essa é uma,
47:39é o ingrediente,
47:42para uma nova geração,
47:44uma nova safra de políticos
47:45que provavelmente vão ter
47:47uma visão diferente
47:49em relação a essa importância
47:51da responsabilidade fiscal,
47:53da abertura econômica
47:54e de instituições fortes?
47:56acho que essa geração de políticos
48:00prefeitos e governadores
48:01que a gente está vendo agora
48:02se formou nesses 30 anos
48:05de reforma
48:07e reflexão sobre reforma
48:10contra ou a favor que seja,
48:12mas participou desses debates
48:14e os governadores
48:16meio que são vencedores
48:18dessa competição política
48:20que ocorreu nesses anos aí.
48:22ninguém é melhor
48:25para liderar o país
48:27daqui para frente.
48:30Só espero que a gente
48:31de fato tenha renovação.
48:35Renovação com essas coragens
48:37para fazer o que tem que fazer
48:38como vocês tiveram lá
48:39nos anos 90
48:40que é muito importante,
48:41porque não é fácil.
48:43Não, fácil não tem nada fácil.
48:44Eu me lembro
48:46dos corredores polonês
48:47na Bolsa de Valores
48:48quando iam começar
48:49a privatização de telefonia,
48:52as privatizações
48:53na área de energia,
48:54o que que era.
48:55Precisava ter muita coragem.
48:57A guerra das liminares,
48:58entraram com liminares
48:59toda hora
48:59para tentar interromper
49:00o processo.
49:01Não foi fácil,
49:02precisou coragem.
49:04Visto com o olhar de hoje,
49:07parece,
49:08a inflação parece
49:09uma coisa tão absurda
49:11que era tão absurdo
49:14que foi mole então,
49:16todo mundo queria.
49:17Não, ninguém queria.
49:20Eu lembro bem
49:22de conversar
49:22com parlamentares
49:24que diziam
49:24esse negócio de combate
49:25à inflação
49:26é uma bobagem,
49:27coisa de economista
49:28que não entende
49:29de povo de Brasil.
49:31Desiste disso.
49:33Eu ouvi isso muito
49:34de gente que está aí
49:35ainda hoje,
49:36dando palpite.
49:38Mudou
49:39para muito melhor.
49:40Sabe aquela maldição
49:42que diz que o parlamento
49:43sempre piora?
49:45Não.
49:46Eu acho que em muita coisa
49:47melhora.
49:48Muita coisa fica
49:49a mesma coisa assim.
49:50Mas
49:50essa experiência
49:53foi
49:53iluminou muita gente
49:56e a gente tem que aproveitar
49:57isso que a gente aprendeu.
49:59Gustavo,
50:00mas
50:00olhando em retrospectivo,
50:02você mencionou muito
50:03as economias
50:05do sudeste asiático.
50:07O Brasil
50:07caminhou muito devagar
50:09comparando a esses países
50:10emergentes, né?
50:11Tem o crescimento
50:12de PIB per capita,
50:14geração de riqueza,
50:15inserção no comércio global.
50:18Então,
50:18nesse sentido,
50:20ficamos para trás.
50:22Ficamos.
50:23É a dura realidade,
50:25mas é
50:26é preciso enfrentar.
50:28É
50:29um número
50:31ilustrativo.
50:32Em
50:32mais ou menos
50:341980,
50:36Brasil e Coreia
50:38eram
50:39mais ou menos,
50:41a renda
50:41per capita
50:42brasileira e coreana
50:44era mais ou menos
50:44do mesmo tamanho
50:45na faixa
50:46de 15%
50:48da renda per capita
50:49americana.
50:49hoje,
50:52o Brasil
50:52é mais ou menos
50:5317%
50:55da renda per capita
50:56americana.
50:57A Coreia
50:57é
50:58dois terços
50:59para três quartos.
51:03Deram
51:03uma goleada,
51:05um 7 a 1
51:06em nós.
51:07A promoção
51:08de exportações
51:09deu um 7 a 1
51:11na substituição
51:12de importações.
51:14Simples como isso.
51:15Então,
51:15é o seguinte,
51:17apaga,
51:18começa tudo de novo.
51:19Gustavo,
51:23você
51:24
51:25nas instituições
51:26brasileiras
51:27hoje,
51:28como você disse,
51:28tem gente talentosa
51:29dentro,
51:30tem um corpo
51:31burocrático
51:32muito fiel
51:34àquilo que faz.
51:35Você acha que
51:36hoje
51:37a burocracia,
51:38de certa forma,
51:38esse lado bom,
51:40ele serve
51:41como resistência
51:42para mudanças
51:44políticas absurdas
51:45ou ele resiste
51:46até um determinado
51:47ponto e depois
51:48daquele ponto
51:49ele acaba
51:49se entregando
51:50à pressão
51:51política?
51:52Olha,
51:53o material humano
51:54na burocracia
51:55é muito bom,
51:56posso testemunhar,
51:57é claro,
51:58mas ele serve
51:59para os dois lados.
52:00Se você quiser
52:01fazer o mal,
52:02também tem gente
52:03lá que sabe
52:04fazer
52:04tudo de ruim.
52:07Então,
52:08serve para
52:11comer a pau
52:12que dá em Chico,
52:13dá em Francisco.
52:13você acha
52:16hoje
52:16que o sistema
52:17financeiro
52:17brasileiro
52:17por causa
52:18dessa independência
52:19do Banco Central
52:19está
52:20muito mais
52:22sólido
52:22do que antes?
52:23Você acha que
52:23isso é um grande
52:24ganho e acha
52:25que questões
52:26como o Banco
52:27Master
52:28é um
52:30passarinho raro
52:32nesse mundo
52:33mais
52:33coeso
52:34ou você teme
52:36que entradas
52:37de fintechs
52:39e outras
52:39coisas inovadoras
52:41no mercado financeiro
52:42pode criar
52:42instabilidade
52:43nesse setor
52:44que até pouco tempo
52:45foi tão bem
52:46regulado
52:48e supervisionado
52:49pelo Banco Central?
52:51Bom,
52:52acho que
52:52o trabalho
52:53de supervisão
52:56e o trabalho
52:57de aprimorar
52:59a solidez
53:00do sistema
53:00tem sido
53:02excelente
53:02desde então
53:04isso é um pouquinho
53:04de autoelogio
53:05mas sim
53:06é verdade
53:07dos anos 90
53:10para cá
53:10o Brasil
53:11entrou para
53:12sócio
53:13do Banco
53:13de Compensações
53:14Internacionais
53:15que é o
53:16centro
53:16cultural
53:19nevrálgico
53:22da supervisão
53:23bancária
53:23global
53:24já desde
53:26na minha época
53:27o Brasil
53:27sentava no
53:28comitê de Basileia
53:29participou
53:30de todas
53:31as conversas
53:32de alto nível
53:33e aproveitou
53:34a ocasião
53:35do Real
53:36para trazer
53:37para o Brasil
53:37a disciplina
53:38de Basileia
53:39de supervisão
53:40bancária
53:41de ponta
53:42que a gente
53:43aproveitou
53:44enfim
53:44ali teve
53:45o PROER
53:46teve uma opção
53:47de um número
53:48absurdo
53:49de liquidações
53:50e alterações
53:51no sistema
53:51bancário
53:52decorrente
53:53da transição
53:54do mundo
53:55da inflação
53:55alta
53:55para a inflação
53:56baixa
53:57que no sistema
53:57financeiro
53:58como em nenhum
53:59outro setor
53:59foi destruição
54:01criadora
54:01para usar a expressão
54:02que você usou
54:03a pouco
54:03foi
54:04o sistema
54:06que saiu
54:06dali
54:07foi muito
54:08sólido
54:08com os problemas
54:10de concentração
54:11que seja
54:11mas ok
54:12saiu muito
54:13sólido
54:14e talvez
54:15a concentração
54:16expressasse
54:17uma prioridade
54:18prudencial
54:19própria
54:20daquele momento
54:21não tanto
54:22concorrencial
54:23como depois
54:24apareceu
54:24quando a inovação
54:26apareceu
54:28no sistema
54:29financeiro
54:30e começou
54:31a aparecer
54:32as fintechs
54:33e já
54:34de algum
54:34tempo
54:35o Brasil
54:35também
54:36teve uma
54:37regulação
54:38pioneira
54:40excelente
54:41nesse assunto
54:42que é de 2013
54:43a lei dos arranjos
54:45é de 2013
54:46e ela
54:47ali
54:48o início
54:50tem que ver
54:50com uma
54:51colaboração
54:51entre o CAD
54:52o órgão
54:53da concorrência
54:54agência reguladora
54:55da concorrência
54:55e o Banco Central
54:56agência reguladora
54:57do sistema
54:58financeiro
54:59as duas agências
55:00juntas
55:01começaram a regular
55:02maquininha de cartão
55:04de crédito
55:04daqui a pouco
55:05perceberam que
55:06o cartão
55:07pré-pago
55:08é mais ou menos
55:08feito uma agência
55:09bancária
55:10e isso deu origem
55:11mais adiante
55:12a bancos digitais
55:14que nada mais
55:14são que
55:15esses cartões
55:16pré-pagos
55:17transformados
55:18em agências
55:19bancárias
55:19dentro do seu
55:20aparelho celular
55:21o Brasil
55:22conseguiu fazer isso
55:23são as fintechs
55:25tem uma certa
55:26rivalidade
55:27entre bancos
55:28e fintechs
55:29rivalidade
55:31saudável
55:32de competição
55:32mas que às vezes
55:33resulta em banco
55:35reclamar de fintech
55:36porque fintech
55:37e
55:37meio
55:39conversa
55:40tem problemas
55:42de
55:43mal aproveitamento
55:45da regulação
55:46com fintechs
55:47tanto quanto
55:48tem em bancos
55:49e
55:49ok
55:50e tem inovação
55:51em ambas as áreas
55:53o sistema
55:54financeiro
55:55brasileiro
55:55ele tem um lado
55:56fintech
55:57contas de pagamento
55:58e um lado
55:59bancário
55:59convivem muito bem
56:01graças a
56:02e tem uma coisa
56:03que une
56:03essas duas esferas
56:04do sistema
56:05financeiro
56:05bancário
56:06brasileiro
56:06que é uma coisa
56:07chamada
56:08PIX
56:08que é um sucesso
56:09internacional
56:10e que é
56:11a moeda eletrônica
56:12é um sistema
56:14é uma tecnologia
56:15de pagamento
56:16que inclusive
56:16para nós
56:18eu creio
56:19encerrou
56:19a discussão
56:20sobre moeda digital
56:22de banco central
56:23porque é
56:23para isso
56:24que serve
56:25para fazer
56:26pagamentos
56:26e a nossa
56:27tecnologia
56:28de pagamentos
56:28instantâneos
56:29é talvez
56:29a melhor do mundo
56:30é verdade
56:30vantagem comparativa
56:32nossa
56:33surgiu aqui
56:34num ambiente
56:35de competição
56:36entre bancos
56:37e fintechs
56:38instituições de pagamento
56:40instituições
56:41bancárias
56:42fez muito bem
56:43o regulador
56:44banco central
56:44e CAD
56:45de fomentar
56:46a competição
56:47nessa área
56:48porque a inovação
56:49ali explodiu
56:51para o benefício
56:52nosso
56:53o PIX
56:54é um produto
56:55dessa competição
56:57é ótimo
56:58que tenhamos
56:59mais competição
57:00e que eles
57:01continuem
57:01a se estranhar
57:03porque é
57:03dessa competição
57:05que surge
57:05a inovação
57:06para o benefício
57:07nosso
57:08nós os clientes
57:09nós os reguladores
57:11também
57:12é um lugar
57:14onde tem
57:14muita inovação
57:15e a gente
57:16vê o produto
57:17da competição
57:18aparecer
57:19de uma forma
57:19muito clara
57:20por benefício
57:21do cliente
57:23Gustavo
57:23vamos acabar
57:24com essa nota
57:24de otimismo
57:25para deixar
57:25um recado
57:26bom
57:26para essa turma
57:26que está aqui
57:27terminando mais um ano
57:28muito obrigado
57:28pela sua participação
57:29aqui na entrevista
57:30com o David
57:31obrigado por me receber
57:32e nós ficamos
57:33por aqui
57:34e para você
57:35que gosta
57:35do jeito
57:35Jovem Pan
57:36de notícias
57:37não deixe de fazer
57:38a sua assinatura
57:39no site
57:39jp.com.br
57:41lá você acompanha
57:43conteúdos exclusivos
57:44análises
57:45comentários
57:45e tem acesso
57:46ilimitado
57:47ao Panflix
57:47o aplicativo
57:49da Jovem Pan
57:49obrigado pela sua
57:51companhia
57:51e até o próximo
57:53Entrevista com Dávila
57:54Entrevista com Dávila
58:00A opinião
58:04dos nossos comentaristas
58:05não reflete
58:06necessariamente
58:07a opinião
58:08do grupo
58:09Jovem Pan
58:09de comunicação
58:10Realização Jovem Pan
58:16Realização Jovem Pan
58:16Jovem Pan
58:17Jovem Pan
58:18Jovem Pan
58:18Jovem Pan
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