- há 2 semanas
Um bate-papo sobre ser um escritor na Europa, sobre livros, narrativa e poesia
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó,
00:24pelas plataformas da Rede Vitória, podcast, YouTube, página de vídeo do Folha Vitória.
00:31Então existem vários caminhos para você poder assistir ao programa atual de hoje,
00:37mas você pode também assistir aos programas anteriores, inclusive o último com o editor Gabriel Nascimento.
00:44Hoje nós vamos conversar com um autor que não mora no Brasil.
00:47Veio a Vitória, veio visitar aqui os amigos, etc.
00:52E eu aproveitei para fazer o convite para ele participar do Vitrine Literária.
00:57Ele está inclusive indo para Piúma, para participar da Feira Literária de Piúma.
01:03Ele é o Edson Pereira.
01:05O Edson mora na Bélgica há 23 anos.
01:08E o primeiro livro do Edson não está aqui,
01:11mas este livro que quem está nos vendo vai poder ver,
01:15está aqui o Leão e as Vienas.
01:17Aqui, certo?
01:19É o livro que trouxe o Gabriel ao programa.
01:23Desculpe, o Gabriel não, o Edson ao programa.
01:26Bem, a questão é a seguinte.
01:28Eu li o texto e me trouxe uma certa estranheza,
01:33porque, primeiro, que é um livro de poucas histórias.
01:36E você traz duas histórias que são completamente diferentes.
01:39É verdade.
01:40É, mas antes eu quero saber o seguinte.
01:42O que é ser um escritor capixaba na Bélgica?
01:46Bem, o que é ser um imigrante fora do Brasil?
01:50Seria.
01:50Ou isso.
01:51Seria, né?
01:51Acho que, primeiramente, o Estado é construído em cima da imigração.
01:58O Brasil é um país de imigrantes, entendeu?
02:00Então, quando eu vejo isso, eu me pôs exatamente da mesma forma lá.
02:06Só que, pelo lado avesso, pelo oposto.
02:09Então, o que é ser um brasileiro ou um capixaba no exterior?
02:13Mas que as mesmas dificuldades que os imigrantes tiveram para se adaptarem ao nosso país,
02:17que hoje em dia já estão estabilizados, nós estamos tendo lá agora.
02:20Só que, pelo caminho oposto, inverso.
02:23Você escreve em francês, não, né?
02:25É, sou formado em francês também.
02:26Ah, você escreve em francês?
02:28Mas tem alguns poemas em francês, em holandês, em francês e em inglês, entendeu?
02:31Que estão no meu próximo livro.
02:34Você não vai traduzi-los?
02:35Não, porque o livro, eles foram escritos em francês, em holandês e em inglês,
02:41junto com os outros textos em português, que estão aqui, mas acabei não lançando primeiramente,
02:46como eu te disse, foi o meu primeiro livro.
02:48Mas, por ordem econológica, eu achei melhor começar a estreia pelo meu segundo livro.
02:54Certo.
02:54Quando eu li O Leão e as Vienas, o primeiro texto me chamou a atenção pelo seguinte.
03:00Você começa com a narração de duas pessoas conversando.
03:03E uma delas, para poder dar um exemplo para a outra, resolve contar uma história, uma fábula.
03:09Porque ela traz a figura de animais.
03:11Eu diria uma fábula.
03:12Não, não é exatamente uma fábula.
03:14Não é uma fábula tradicional.
03:15Mas, essa pegada, um tanto quanto filosófica, de aprendizado, ela foi intencional?
03:21Foi, não.
03:22Ela foi trabalhada.
03:23Intencional.
03:23É porque, primeiro, eu escrevi essa história em mais ou menos uma hora, duas horas, toda
03:27a sinopse do livro.
03:29A primeira parte.
03:30A parte dos leões.
03:31E, como escritor, a gente sabe que uma obra só está pronta, como você vê que você
03:35sente que ela está pronta.
03:36E, como eu estava terminando meu curso de humanidade pela Universidade Aberta de Lisboa, eu estava
03:44justamente estudando a grade das disciplinas da África, os escritores africanos e tudo mais.
03:51E eu tinha acabado de ler a psicanálise dos contos de fatos do Bruno Bettenham.
03:57E eu pensei comigo, tinha alguma coisa que estava faltando na obra, para ser uma obra literária.
04:03Você tem uma história, é uma história, qualquer um pode ler, mas é uma obra literária?
04:06Não.
04:06Ela falta alguma coisa.
04:08Uma obra literária tem que passar uma mensagem, não basta apenas ser uma história.
04:12Uma história você conta e fica com uma história.
04:15Mas uma obra literária, ela é uma mensagem em si.
04:19E é aí que vem o processo criativo de você retrabalhar, reescrever, reanalisar a sua fala.
04:26Se não, você está aqui, mas falta alguma coisa.
04:28E isso vem em alguns dias, em algumas semanas, você revê, você vê, você revê.
04:31E aí, Bruno Bettenham, foi direto na minha cabeça, não, tem que trabalhar baseado naquilo
04:36que eu estudei dele.
04:38Uma obra tem várias facetas, tem várias maneiras de você recontar e de você ver.
04:45E ela vai se transformando.
04:46Então, e também tem algumas influências de fora, como, e que isso eu passo no meu livro,
04:52algumas referências intertextuais, do Machado, do Sabino e também das Aventuras de Pi,
05:01que é em três fases, em três mundos, só que no meu caso não é leões.
05:05Eu do tigre, né?
05:06Sim, sim.
05:07O tigre é do barro.
05:07Só que, na verdade, não era a base, apenas a montagem em como é que eu vou transformar
05:11uma história e falar de outro fato.
05:14E juntei também com os estudos acadêmicos que eu fiz da literatura africana e falei,
05:18tá aí, eu vou fazer...
05:19Essa é a minha mensagem.
05:21Como eu sou um imigrante, eu sempre quis escrever algo sobre a imigração,
05:24sobre o choque cultural, mas eu queria arranjar um contexto.
05:28Tem o meu contexto, tem a minha história e tem a minha montagem e tem a minha narrativa.
05:33Agora eu vou montar todo o livro.
05:34Mas o que me pareceu, claro que isso aí é a visão de um leitor, né?
05:38O que me pareceu foi que você fez um questionamento sobre colonização.
05:43Sim, sim.
05:44Que era essa base.
05:45Um leão chega, ele chega a um local que não é dele e ele diz, eu vou tomar isso aqui.
05:51E, claro, vai sempre haver uma reação, não importa qual seja.
05:55Seja ela de desorganização, seja ela de rebeldia.
06:00Mas por que usar esse clichê, você usou um clichê, o clichê do rei dos animais e o clichê das
06:08hienas, né?
06:10Esse uso foi também intencional?
06:11Foi intencional, foi.
06:12Porque, se você reparar bem, leões e hienas estão sempre juntos.
06:17É?
06:18É.
06:18Tanto no continente africano, você só vai achar os dois grupos selvagens,
06:22não vai ser selvajamente, no ambiente selvagem.
06:24Só na África e na Índia, quer dizer, na Ásia, né?
06:27Não vai achar lugar nenhum.
06:28Você vai achar felinos, no caso, por todo mundo, entendeu?
06:31Mas leões e hienas, só no continente africano e só justamente na Ásia.
06:35Na Índia, entre o Bangladesh, alguma coisa ali assim.
06:38E o mesmo processo evolutivo das hienas do leão é o único.
06:43No caso, eles vêm de uma mesma linhagem evolutiva que tem o mesmo animal em comum.
06:49É.
06:49Se é um, no caso, um foi para...
06:51A hiena não é um canídeo?
06:52Não, não é, não é, não é.
06:53Não é?
06:53Não é, não é.
06:53A hiena parece um cachorro.
06:54Não, pois é, mas não é.
06:55É, no caso, os leões de um animal que eu esqueci, no caso, a base deles, um evoluiu
07:02para os felidais, no caso, os grandes gatos, e outros evoluíram para os hienadais.
07:09Então, o grupo das hienas, que são seis, alguma coisa assim.
07:12Rapaz, eu estou sabendo agora.
07:13Eu sempre imagino que hiena fosse um canídeo.
07:15Pois é.
07:16Essa montagem que eu fiz toda, e eu falei, como nós seres humanos, nós temos uma mesma
07:20linhagem, evoluímos culturalmente para grupos distintos, e nos combatemos no mesmo território.
07:27Agora faz um certo sentido para mim.
07:29E nos combatemos no mesmo território.
07:30Eu não tinha essa leitura.
07:32Culturalmente, eu sei que é complicado de você pegar.
07:35Você pega a história, você se delicia na história, mas tem muita, talvez, metáfora,
07:40muitos contextos na história que só explicando mesmo, entendeu?
07:42Certo, mas aí é que está.
07:45Você escreve para o leitor um leitor comum.
07:48Eu escrevo literatura.
07:49Você escreve literatura.
07:50O que vai ler você, ele pode ser um leitor exigente, pode ser um leitor bissexto, pode ser...
07:57Para mim, é um leitor comum.
07:58O leitor comum é essa figura.
08:00Eu sou um leitor comum.
08:02Ao ler o seu texto, principalmente esse texto, ele me pareceu um texto que quisesse trazer uma moral.
08:12Uma mensagem.
08:13Como as fábulas trazem.
08:14Uma mensagem.
08:14Eu acho que...
08:15Uma mensagem ou uma moral?
08:17Uma mensagem.
08:18Uma mensagem.
08:19Essa mensagem, essa ideia de trazer uma mensagem, você não acha que ela é um tanto quanto desatualizada
08:26no que diz respeito à literatura atual?
08:28Não.
08:28No sentido anacrônica.
08:30Sim.
08:31Nenhum juízo de valor aí.
08:33Certo, certo, certo.
08:34Eu gostei muito da história.
08:35Certo.
08:35Mas assim, a gente não vê mais a ideia de uma mensagem ao final de um texto.
08:42Pois é.
08:44Voltando à sua pergunta anterior, como é que é viver fora como imigrante?
08:47Justamente essa mensagem.
08:50Talvez vivemos num momento onde há muitos choques de ideias, choques culturais.
08:56O livro traz justamente essa pegada.
08:58Na verdade, esse choque de ideia é choque de cultura.
09:01Tanto como imigrante, como pessoas comuns, como você, você vê na televisão, na mídia.
09:06Há esse choque.
09:07Não há um diálogo.
09:08Há um choque.
09:09Porque todo mundo se confronta e vamos ver qual a ideia que bate.
09:12Não há aquele diálogo.
09:12Então, essa é a mensagem que eu trago do choque mesmo, tanto cultural, de ideias, quanto
09:17no terreno, na prática, como imigrante.
09:19Por quê?
09:19É, vivendo na Bélgica, que é um país, ainda que seja muito dividido do norte, os merlandês,
09:25holandês, que não existe a palavra holandês, assim, o país não é holandês, e o sul francophone,
09:30então, essa linha divisória no país, que tem que ter a mesma quantidade do norte, tem
09:37que ter a mesma quantidade do sul, de províncias, e aí são os detalhes.
09:40E chegamos nós, imigrantes, àquele choque de, primeiramente, eu tenho uma raiz, um passado,
09:46e agora tenho que me adaptar a um país já dividido em dois ou três partes.
09:50E qual a língua que eu tenho que aprender?
09:51A do norte ou a do sul?
09:53E tem um povo que se combate, te puxando, você é obrigado a fazer isso, você é obrigado
09:57a fazer aquilo, que é essa cultura.
09:58Então, você tem que aprender a minha língua.
10:00Isso, quando você tem um filho que nasce lá, que você percebe isso nas crianças
10:05que nascem lá, principalmente de origem áfrica ou africana, que tem uma cultura muito forte,
10:10eles não conseguem se desvencilhar da cultura dos pais e nem se integrar à cultura local.
10:15E acho que é a cultura mental, é isso que eu trago no livro, essa abordagem.
10:19Até que ponto a identidade cultural é positiva ou ela influencia de uma forma negativa?
10:26Tem uma parte que a gente chama de raízes culturais de ervas daninas,
10:36mas qual parte da nossa cultura ela pode danificar ou ela pode nos construir?
10:42É, o Congo, né?
10:45O antigo, primeiro Congo, depois o Saire, depois virou Congo, né?
10:48O Congo foi uma vítima de Leopoldo II, uma vítima do poder belga, né?
10:55Eles têm vergonha nessa parte, tá?
10:56É, ele reduziu a população da Bélgica, a população do Congo a níveis absurdos.
11:04Uma crueldade que talvez...
11:06É, sem dúvida.
11:08Escritores, escritores negros, não só imigrantes, mas escritores negros belgas,
11:14eles têm uma facilidade de publicação lá?
11:17É justamente aí que vem a questão.
11:20Pelo menos na Bélgica, eu vejo em várias partes da Europa,
11:23o belga ou o francês ou o que quer que seja,
11:26se ele tiver uma origem africana ou africana,
11:28ele tem dificuldade em se entender como o país que ele nasceu.
11:32Ele tem essa origem muito forte, muito mais forte do que o negro brasileiro.
11:36E ainda que ele tenha nascido lá, ele disse que ele é belga, por dizer,
11:40mas na verdade ele disse que ele era muito mais africano do que um belga, entendeu?
11:45Então, e eles combatem muito isso, eles tentam puxar, no caso, dialogar,
11:50até que ponto o Estado belga é obrigado a indenizar culturalmente ou financeiramente
11:56a destruição que as colônias sofreram, no caso, na África.
12:00É esse debate.
12:00Você escreveu isso e você tem uma última história, uma história de ficção científica.
12:07Pois é, que é bem...
12:08Olha só, nós temos poucos autores aqui no Espírito Santo que fazem ficção científica.
12:15Esteve aqui um autor chamado Rodolfo Neves, que morou em Vitória há muito tempo,
12:20mas hoje mora em Recife.
12:22E quando ele veio a Vitória, eu aproveitei e pedi que ele viesse ao programa.
12:27E ele tem livros e tem quadrinhos, inclusive, sobre ficção científica.
12:31E um questionamento que eu fiz a ele, e vou fazer a você também, é o seguinte.
12:36Escrever sobre ficção científica implica você conhecer a ciência.
12:40Sim.
12:41Ou analisar o futuro.
12:42Certo?
12:43Certo.
12:43Porque fazer ficção científica sem conhecer a ciência faz com que o texto fique frouxo.
12:49Certo.
12:49Você escreveu um texto, que é uma homenagem, a meu ver, a Asimov.
12:55E você não levou em conta as três leis da robótica.
12:59Não, não levei.
13:01A ideia de um robô, de um humanoide, essa ideia que se passa em 2025.
13:09Sim, que é a próxima.
13:10Ou seja, ano que vem.
13:11Sim, sim.
13:12Então você faz um universo muito próximo do que nós temos agora.
13:19Fala um pouco sobre isso.
13:20Na verdade, não.
13:21O 2005 foi quando a ideia que eu joguei surgiu.
13:23Quando a ideia surgiu.
13:24Exatamente.
13:24Isso surgiu.
13:25O futuro próximo, depois.
13:26Pois, porque a ideia justamente é trabalhar com essa... levar o livro para o público belgo
13:30ou o público próximo e trazer uma mudança no debate, porque o país é difícil de
13:35fazer algumas mudanças.
13:36Está entendendo?
13:36Jogar ideias em debate.
13:38Essa é a função, talvez, do escritor.
13:41De trazer, de debater, chamar a público certo debate, que talvez seja certas ideias
13:45ou conceitos que talvez seriam difíceis de dialogar em grupos mais pequenos.
13:50E...
13:50Não li o Asimov.
13:52Mas conheço muito o Asimov.
13:53Você não leu hoje?
13:54Não li, mas conheço bastante a obra dele.
13:55Sem ler, através de resumo de reserva.
13:57Certo, certo.
13:58Sei dessas ideias aí da...
14:00As ideias robóticas são...
14:01O robô não pode matar, o robô não pode, o robô tem que obedecer e tudo mais.
14:05Só que, na verdade, não foi baseado em cima disso.
14:07Foi baseado nas leis europeias atuais.
14:09É um livro mais de análise do que científico.
14:13É isso pra gente.
14:14Pois é.
14:15Depois que eu faço isso no final, bem no finalzinho, eu comento que há um debate
14:20de que, eu sugiro isso, de que é mais voltado para a internet que para o uso da modernidade
14:27da nossa perca de liberdade ou de dados e tudo mais, entendeu?
14:32Até que ponto os carros, os dados, tudo que é robô, que não só pode ter humanoides
14:37que circulam no nosso meio, é mais uma crítica social.
14:40Até que ponto vamos aceitar toda essa invasão de robôs?
14:43Porque alguns carros já tem robôs de...
14:46Como o Gaston, os carros...
14:47O carro do meu patrão, por exemplo, que é um Tesla, faz coisas que...
14:50Esse carro existe?
14:51É por isso, é por isso.
14:52Esse carro existe?
14:53Existe, esse carro que é o carro do meu patrão.
14:55Então, ele faz...
14:57É o carro?
14:57Do meu patrão, entendeu?
14:58Então, ele faz coisas que você fica assim, até que ponto aceitamos...
15:03O seu patrão lê o livro?
15:05É, o leão e asiana baseado nele também.
15:08Mas o seu patrão lê em português?
15:09Ele foi o primeiro a ler.
15:10Ele lê em português?
15:11Não, nós fizemos a tradução para o holandês.
15:14Eu tenho quatro traduções do livro.
15:17Estou trabalhando, tenho uma inglês integral, para facilitar o público que está em minha volta.
15:22Vamos lá, antes que eu perca.
15:24O Tesla.
15:24Pois é, o Tesla.
15:25O Tesla e, no caso, as leis do livro.
15:28A ideia das leis foi justamente isso, trazer a debate até que ponto tudo que é tecnologia,
15:33ela é válida.
15:36Até que ponto podemos dar, em termos do benefício, de aceitar um carro que dirige,
15:41um supermercado, onde você não compra nada, não faz nada.
15:43Você apenas joga uma lista no carro e tudo vem já na sua casa, na porta da sua casa.
15:47E isso já acontece na Bélgica.
15:49Ainda não é esse avanço que está no livro.
15:51Até que ponto tudo isso é válido?
15:52Até que ponto isso nós vamos aceitar?
15:55E quem vai consumir?
15:56Se nós temos essa invasão de robôs, que vão fazer a mão de obra,
15:59mas quem vai consumir?
16:03Quem vai ter a condição de consumir se a população não pode trabalhar?
16:06É uma crítica social.
16:08Juntamente com a invasão dos robôs, que não são robôs, tá?
16:10São humanoides, você colocou humanoides.
16:13São gente.
16:14Então eu não entendi.
16:15Pois é, é justamente aí o ponto...
16:17Como são gente?
16:17O ponto-chave da...
16:18Não, não, olha só, pera aí.
16:21Você chama de humanos aqueles que são humanos.
16:24Mas são robôs.
16:25E você chama de humanoides.
16:27Quando você faz a diferenciação, você induz o leitor a imaginar que humanoides e humanos
16:32são figuras diferentes.
16:33Sim, e são.
16:34É como os leones, que na verdade não são animais.
16:36São os animais no mundo que eu transformo e depois eu faço isso.
16:40Sim, tranquilo.
16:40Só que na outra metáfora do corpo de Ai, eu não faço em três dimensões,
16:47mas tenho uma linguagem única e vou passando.
16:50Eu faço uso a partir do momento em que os robôs representam essa invasão de imigrantes,
16:56que chegam e que são desprezados pela população, mas que precisam da mão de obra,
17:00mas que a população não calca.
17:02Aí vem a sua resposta no começo do texto, que não aceita.
17:06É, a sua perspectiva, o seu ponto de vista é sempre o seu, do imigrante.
17:10Sim, sim, todo.
17:12O livro todo é baseado em imigrantes, né, porque são só três contos.
17:14Não podia ser mais nem menos.
17:16Por quê?
17:19O termo da movimentação humana se divide em três termos.
17:22O migrar, o emigrar e o imigrar.
17:26Justamente cada conto representa essa parte.
17:28Sim.
17:28Cada um desses termos.
17:30Não vai dizer qual é, vai do leitor decidir.
17:32O que chega, o que vai de um país público, que na verdade diz a maior parte política,
17:36ou o migrar, que é entre regiões ou dentro de uma região,
17:40e de quem chega, que é o imigrar.
17:42Cada conto representa justamente um desses termos.
17:45Porque o livro foi totalmente estruturado, foi um livro trabalhado, baseado no choque cultural,
17:51na imigração, na movimentação humana, e todo esse choque cultural que implica na adaptação,
17:58no convívio, na chegada, na saída, no diálogo e no convívio.
18:02A mí me pareceu muito irônico o primeiro conto, já que o opressor, que é o leão, ele se dá
18:09mal.
18:09Na verdade, não.
18:10Não, ele chega para expandir o seu território, e ele...
18:17A resistência não é uma resistência organizada, é uma resistência debochada,
18:23é uma resistência que ri dele e que o obriga a fazer o trabalho que ele queria que os outros
18:28fizessem.
18:28Você quer que eu explique isso na linguagem...
18:33Você ainda é spoiler?
18:35Passa como você quiser.
18:36Tá bom, então.
18:36A estrela aqui é você, você fala o que você quiser.
18:38Na verdade, como eu ouvi essa história na cozinha, e eu disse,
18:41essa é uma história que deve ser contada, recontada como literatura.
18:45O livro não é uma biografia.
18:48Ainda que uma literatura tenha fatos biográficos, tenha textos, contextos da realidade,
18:53nós usamos a realidade para falar, para traduzir literatura.
18:59O leão representa apenas o homem branco, mas no caso do homem branco, não é o homem branco mau.
19:06É o homem branco, vamos dizer assim, conquistador.
19:10Na verdade...
19:11Mas conquistador a que preço?
19:13Se você analisar de uma forma, como empresário, como entreprenor.
19:18Na verdade, ele não foi com a ideia de colonizar.
19:21Apesar do leão ser colonizador, mas você, como você é empresário,
19:23você chega de um país, a sua ideia é conquistar um mercado.
19:27É claro que quando você traduz isso para, em termos de colonia, que foi o meu caso,
19:32que eu traduzi para a colonia, você tem duas visões.
19:34Então vai do leitor e tem que tratar com a visão dele.
19:36Mas a minha visão foi o seguinte, colocar uma pessoa que tinha uma ambição de ter uma empresa no país,
19:42que seja a colonia, que seja uma empresa comum, tinha uma ideia, põe em prática essa ideia.
19:48Mas, baseado no passado difícil que tiveram as colonias africanas, como eu estudei,
19:54e o Brasil também, tivemos a dificuldade disso também,
19:57da adaptação tanto do homem branco que queria colonizar.
20:01Primeiro os íngulos fugiram, não queriam nada, depois vieram os negros,
20:04foram mais fáceis, foram pegando e começou tudo isso.
20:07Na ideia, como na África, a África já estava já, as colonias já não existiam mais,
20:11isso foi recente, havia aquele desdémio.
20:15Desdémio. Calma aí, esse homem branco vem de lá pra cá, com qual ideia que ele vem?
20:18Aquela ideia antiga ou a ideia nova?
20:21Está entendendo? Por isso que não é com a visão de colônia.
20:25É uma visão mesmo de desdémio. Calma aí.
20:28Pegamos esse homem branco com aquela ideia antiga,
20:30mas uma vez que você é ferido, que você é mordido por cachorro,
20:33você nunca mais vai ter a mesma visão como um cachorro.
20:36Claro.
20:37Não foi a ideia, então eu não retrato nem um personagem mau,
20:39apenas coloco os pontos que se convergem,
20:41o homem branco que não está como um homem opressor, não.
20:43Está como um homem que chega, depois de todas as dificuldades que tiveram,
20:46com todos os erros que o seu passado fez,
20:48vou botar um homem bom, um dos melhores que eu já conheci na minha vida,
20:52mas talvez cometemos erros históricos, em termos de povo,
20:56que dificilmente se corrigem ao longo da evolução.
20:59Dificilmente o povo africano vai ver o europeu com um certo olhar,
21:05tá bom, venha, venha, cuide de braços abertos,
21:08ainda que haja pessoas com boas intenções.
21:10Então, essa é a ideia que eu põe no livro.
21:12Você veio com a ideia boa, sim, mas será que nós estamos preparados para receber?
21:15Não, porque o que vocês fizeram no passado, a lista está recente.
21:19O leitor belga leu?
21:21Alguns vieram a ler porque eles estão curiosos para saber o que nós falamos deles,
21:25e, inclusive, compara em português,
21:26que eu fiz um pequeno lançamento, uma apresentação,
21:29meu patrão até divulga, ele tem a foto dele,
21:31ele me segue, ele está aí, premotivado,
21:34ele abraça o livro, a ideia do livro.
21:35Quando você fala seu patrão, você trabalha com o quê?
21:38Eu trabalho com uma empresa multinacional que ative para o Brasil,
21:41na área de química e soldagem, na área de produção.
21:46Seu patrão é belga, está lá?
21:47É belga, é belga, está lá, está lá.
21:49Ele é o CEO da empresa, entendeu?
21:51E ele viu com curiosidade como o migrante vai subindo tanto no país dele...
21:56Ele é migrante?
21:57Não.
21:57Ele é belga mesmo?
21:58Ele é belga, mas o pai dele já veio de outro país.
22:00Então, ele já rodou tudo, ele conhece a China, conhece a África,
22:03ele é um cara bem rodado, ele sabe como interagir como estrangeiro,
22:06ele sabe a dificuldade como um estrangeiro deve ter,
22:09porque ele já se pôs como estrangeiro em vários países.
22:12Ele sabe que a chegada de um estrangeiro no país e viver não é fácil.
22:16É essa a ideia do meio que eu passo, porque ele teve as suas dificuldades.
22:19Quando ele colocou essa empresa, tentou abrir essa empresa na África,
22:22ele queria realmente abrir, tinha uma ideia boa,
22:24e eu coloco isso no livro.
22:25Mas, porém, o momento não era propício.
22:27Por quê?
22:29Depois que as colônias africanas, os países tentaram se separar ou ganhar sua independência,
22:36foram anos, não foi isso da noite por dia.
22:38E mesmo os países que conseguiram as suas, digamos, liberdades,
22:42mas talvez política, mas não econômica,
22:45ainda haviam os dedenhos, a dificuldade de adaptação.
22:47Houve muitos imigrantes europeus que foram para lá,
22:50para poder tentar a nova vida, quer dizer, novos terrenos.
22:56Mas o passado recente não deixava uma boa integração.
23:02Isso você entende lendo livros, conversando com as pessoas,
23:05estudando, conversando com africanos e também fazendo o curso que eu fiz,
23:09no caso da NAR de Humanidade.
23:10E eu tentei interagir todo esse processo da vida que eu levei,
23:14de tudo que eu vi ouvindo.
23:15Falei, acho que o mesmo choque cultural que um africano tem,
23:20tenho certeza que o europeu vai ter também vindo para um outro país também.
23:24Então isso é uma tendência, independentemente do passado colonial,
23:30tanto do opressor quanto do oprimido,
23:34alguém sofre.
23:36Os dois sofrem?
23:36Alguém sofre, alguém sofre.
23:37Então, não há apontar o dedo no livro, não há.
23:42Apenas coloco os fatos, como ocorre, na minha visão como imigrante,
23:47que eu vejo isso, e tentei adaptar tudo isso que eu aprendi.
23:51Perfeito.
23:52Quem quiser comprar seu livro faz com um.
23:55Pode adquirir o Leão e as Vienas.
23:56Pode ser comigo, pelo Instagram, já consegui alguns pontos de venda
23:59na Livraria de Leitura, da Praia da Costa e de Vila Velha.
24:04Já pode comprar, já pode adquirir.
24:07Ou pela internet, no caso, pelo site da editora,
24:10que é a primeiro capítulo,
24:15ou da IP das Letras.
24:16Ou só digitar o título na internet, que está em tudo.
24:19Está em todos os sites do mundo.
24:20Beleza, beleza. Obrigado. Muito obrigado.
24:22Muito agradeço a vocês, toda a equipe, pelas portas abertas.
24:25Valeu. Ótimo papo.
24:27Espero que seja um sucesso.
24:28Sim, obrigado.
24:29Inclusive está na lista do...
24:31Do Oceanos, né?
24:31Do Oceanos, sim, sim, sim.
24:33Pessoal, mais um papo aqui com o Edson.
24:36Um papo muito agradável sobre literatura,
24:39sobre o que é ser um brasileiro fora do Brasil
24:42e escrever, em várias línguas, o mesmo livro.
24:46Um grande abraço a todos.
24:47Semana que vem a gente se encontra.
24:49Valeu.
24:51Você ouviu Vitrine Literária
24:54com o professor e escritor Francisco Grijó.
24:57Tudo sobre literatura contemporânea.
24:59Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades
25:04e bate-papo com autores e editores.