- há 3 semanas
Um papo sobre política, poesia, ensaios literários e denúncia social associada à literatura, com Wilson Coelho, escritor, dramaturgo e tradutor.
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:20Olá pessoal, mais uma edição do Vitrine Literária com o Francisco Grijó aqui pela Rede Vitória.
00:27Página de vídeo, podcast.
00:30Hoje nós vamos conversar com um convidado muitíssimo especial, meu amigo, uma figura por quem eu tenho um enorme respeito
00:38e uma enorme admiração.
00:40Tradutor, dramaturgo, poeta, romancista, ativista político.
00:47E nós vamos conversar sobre literatura latino-americana.
00:52E claro, a ligação da literatura latino-americana com a literatura do Espírito Santo.
00:58Afinal, esse autor, que também é dramaturgo, que também é poeta e que está aqui hoje, que vai conversar com
01:05a gente,
01:06ele é morador de Vitória, desenvolveu trabalho com a gente na Fafi, quando eu era secretário.
01:11É uma figura que tem uma representatividade cultural muito grande em Vitória e que é uma figura que conversa muito
01:22bem, que fala muito bem, apesar de falar um pouco rápido demais.
01:25Então você vai ter que se esforçar para poder acompanhar.
01:28Quem está aqui ao meu lado é o querido Wilson Coelho.
01:31O Wilson é uma figura importantíssima aqui em Vitória.
01:35O Wilson aceitou vir bater um papo comigo.
01:39Eu li um livro de ensaios de Wilson chamado, que tem um título, que eu tenho muita inveja.
01:46Eu gostaria de eu ter um livro com esse título, que é Maomé Vai à Montanha.
01:52Montanha, o autor Montanha.
01:54E está com um livro, um romance que saiu pela editora Cousa, muito interessante.
01:58O livro de ensaios também saiu pela Cousa, chamado Nosotros, que fala sobre...
02:03É um romance que se passa em Cuba.
02:06Bem, então, aqui está o Wilson.
02:08Eu vou deixar ele se apresentar rapidamente, para eu já trazer a primeira pergunta para você.
02:14Quando você fala, Wilson, em Cuba, eu, o Grijó, eu que sou um admirador da literatura latino-americana,
02:23do México até a Argentina, eu cito falta de você falar sobre três autores, sobre os quais eu tenho uma
02:34admiração muito grande.
02:35Que é o Rosseleza Malima, tanto na poesia quanto na prosa.
02:38Que é o Cabreiro Infante, que abandonou Cuba para viver na Inglaterra.
02:44E o Aleu Carpentier, que é um cara, assim, um erudito, que sempre fez a minha cabeça,
02:52desde o primeiro livro dele que eu li, que foi justamente o Ekuê e Embaô.
02:58Mas, antes de você responder essa provocação, porque é uma provocação,
03:06me diga uma coisa, essa sua paixão por Cuba, de onde vem?
03:12É, primeiro eu acho que, vou tentar falar devagar.
03:15Vamos.
03:16Primeiro eu acho que, talvez por uma brincadeira, eu nasci em 59, o ano da Revolução.
03:22E talvez, e talvez não, acho que um pouco disso, o meu pai nasceu dia 4 de julho,
03:28é o dia da independência dos Estados Unidos, e nós temos uma diferença aí, muito grande, né?
03:33Inclusive, política, assim, gente, não...
03:35Seu pai está vivo?
03:36Não se afina, está vivo, e tivemos, inclusive, uma peleja agora, eu acho que talvez a última.
03:41A semana passada.
03:43Então, assim, essa questão de Cuba, eu fui afinando, eu lembro que até foi um motivo,
03:53e é um dos temas que eu exploro nesse livro, nos outros, que na minha casa, eu era guri,
04:00tinha não sei quantos anos, acho que 7, 8, 9, não sei, não me lembro bem.
04:05Claro que eu coloco isso no romance, aí é ficção, lá eu já preciso mais as coisas um pouquinho.
04:09Que é o começo dele, né?
04:10É.
04:11Com a life de Fidel.
04:12É, a life de Fidel, e o Fidel, uma foto do Fidel apontando para a América Latina, assim,
04:17tipo, assim, daqui a pouco nós vamos para aí, né?
04:20E era um grande medo, né, dos Estados Unidos, e até hoje, e até hoje, porque uma ilha tão
04:25pequena e tão pobre, assim, incomodar tanto, incomodar tanto.
04:30Então, eu acabei me envolvendo com a literatura, com a música, né?
04:37Aí eu vou conhecer a América Latina, e aí Che Guevara, então tudo isso vai, eu, na verdade,
04:43quando você me pergunta sobre esses autores, assim, por que eu não escrevi?
04:47Eu, eu, talvez seja um pouco relaxado nesse sentido, e eu faço muita coisa pela paixão.
04:54Aí eu estou lendo um livro na hora, e na hora que alguma, eu escrevo.
04:57E não necessariamente eu escolhi um tema, eu vou falar sobre autores de tal lugar, ou de
05:02tal época.
05:02Não, é assim, de chofre, assim, me dá vontade de escrever.
05:06Um livro me provoca.
05:09O Carpentier, por exemplo, ele não me deu essa vontade, porque foi pior, né, assim,
05:14porque eu achei tão grandioso, tanto que...
05:16É, ele é complexo demais.
05:18Muito, eu tenho um amigo, que é o, esqueci o sobrenome dele, Raduns, que é lá de Florianópolis,
05:25que ele deu uma oficina de literatura durante cinco dias, com um parágrafo do Carpentier.
05:31A partir de um parágrafo, ele foi fazendo todo o discurso sobre a criação literária.
05:38Inclusive, um parágrafo que você não tinha data, não tinha uma série de outras informações,
05:45mas pela mobília, pelo talher que estava em tal lugar, e pelo relógio, por exemplo,
05:51você vai identificando, você vai, sabe...
05:53Sensacional.
05:53Então, foi um pouco isso.
05:56Aí, acabei, Garcia Marques, eu tenho outro livro de ensaios, eu tenho muitos ensaios inéditos.
06:01Os seus ensaios são curtos.
06:03Sim.
06:03Interessante é isso, né?
06:04São pequenos ensaios, mas, ao mesmo tempo, eles têm uma substância necessária a eles.
06:14Eu não li o seu livro inteiro, o Malméu Vamontanhe, porque eu selecionei os ensaios que me interessavam,
06:21que eram em relação à literatura.
06:23Você tem um ensaio sobre Drummond, que eu acho primoroso, que você pega o poema no meio do caminho,
06:30e você faz o ensaio em cima dele, que é um poema revolucionário, né?
06:34E, ao mesmo tempo, é um poema que causa, até hoje, causa espanto, seja na academia, seja fora dela.
06:41Você tem um ensaio muito bom.
06:43Você tem um ensaio que eu quero conversar sobre ele, porque eu não entendi até hoje,
06:47porque que eu conheço você, sei da sua posição política, sei do seu ativismo,
06:53sei das suas posturas corretas em relação à ética, etc., etc.,
06:59e você escreveu um ensaio elogiando o Diogo Mainardi.
07:04É? Isso aí é suspeito para mim.
07:07Isso, porra.
07:08É. E você escreve... A ideia do ensaio, o que te liberta mais? O que te agrada mais?
07:18É o ensaio ou é a ficção?
07:19Na verdade, assim, também é outra questão. Eu não tenho nada que me agrada, assim, uma ou outra.
07:26Como eu disse, é uma coisa muito do impulso.
07:29Eu acho que alguma coisa eu resolvo melhor no poema, outro tema eu resolvo melhor na ficção, outro no ensaio.
07:36E o ensaio, que na verdade, assim, esse do Drummond, por exemplo, na verdade não é um ensaio, ele é
07:40um artigo,
07:42porque... e que eu fui convidado para participar de uma... de um seminário, São João del Rey,
07:49na filosofia sobre o existencialismo.
07:51É um poema adequado.
07:53E aí eu vi a questão da pedra, né? A pedra no caminho, né? Essa é a questão do existencialismo.
08:00Então, isso aí eu faço com prazer também, mas aí é mais, assim, eu tenho um compromisso maior com a
08:09ideia de artigo,
08:10porque é científico, né? E outra coisa.
08:12Agora, o ensaio me deixa mais à vontade.
08:13E aí, por isso que eu botei o nome Malmé Vaimontem, porque eu fui o primeiro ensaísta do mundo, né?
08:19O Ecé, né? O primeiro livro.
08:20E aí eu gostei muito, assim, de como ele trata de questões sérias e ele brinca com isso, ele joga,
08:27né?
08:27E tem um ensaio dele, acho que é o capítulo 31, no Ecé, que fala do canibal, né?
08:38Que é justamente falando na América, né? E na gente aqui.
08:42Aí tá, então eu fiquei um pouco à vontade nessa questão do ensaio.
08:47Que talvez, assim, o ensaio me permite romper algumas fronteiras também, inclusive com a crônica, sabe?
08:53Com diversas coisas que eu posso jogar.
08:56Quer dizer, não a crônica datada, né? Da agenda, mas assim, pegando o gancho numa coisa que está no ar,
09:01no momento, e jogando.
09:03Então o ensaio é isso, é como o ensaio, é o experimento, né? O tubo de ensaio.
09:08Como o ensaio no teatro, né? Que não é o momento da repetição, mas é do ensaio e do experimento.
09:14Então eu gosto do ensaio.
09:15Eu me lembro que, nos anos 80, quando a editora brasiliense teve aquele boom, né?
09:23Trazendo os beatniks, trazendo um monte de autores que a gente só lia de forma pirata ou então no original.
09:32E ela trouxe os manifestos do surrealismo.
09:35Eu vou chegar lá, eu vou chegar onde eu quero te perguntar.
09:38E quando eu peguei os manifestos do surrealismo para ler, da editora brasiliense,
09:43eu vi que os tradutores eram professores da aliança francesa.
09:47E eu me lembro de eu ter conversado com alguns amigos dizendo o seguinte,
09:50poxa, traduzir literatura, não basta você saber a língua, você tem que ser escritor.
09:56Você é um tradutor que é escritor.
09:59Você traduziu o Arrabal e você trouxe um livro aí que você traduziu, que eu não conhecia.
10:04Você acabou de me dizer que você traduziu também.
10:06Essa, esse tesão pela tradução e basicamente tradução latino-americana, certo?
10:14No espanhol.
10:15Não é isso?
10:16É, essa satisfação.
10:19Você se sente um criador ao traduzir?
10:22É, um pouco disso.
10:24Eu também traduzi Artaud, né?
10:25Do francês.
10:26Exatamente, eu ia falar do Artaud.
10:28Mas aí eu falo até brincando que eu comecei a traduzir com seis anos de idade.
10:33Porque eu, meu pai trabalhava, ele era telegrafista e ele trabalhava num posto telegrafo da Vale.
10:41E daí ele tinha uma coisa meio perversa, assim, de de repente fazer de conta que esqueceu alguma coisa lá
10:47no posto
10:48que ficava longe de casa e não tinha luz no lugar e assim pra gente ir lá buscar.
10:52Aí um dia eu fui buscar e o telegrafo começou, né?
10:55Disparou lá e tá, tá, tá.
10:56E eu gostei daquele som e brincando.
10:58Daí a pouco eu derramei uma água, queimei e estraguei o documento.
11:02E aquilo é o seguinte, porque ele praticamente não gravava as fitas porque ele conhecia o código Morse de Corra.
11:09Mas quando ele não tava lá, ele tinha que depois chegar pra ler.
11:12E acabou que ele me deu uma surra por causa disso, cara.
11:14E eu acabei aprendendo Morse, sabe?
11:16E comecei a traduzir a coisa do Morse.
11:20Me deu um aparelhinho lá do, né?
11:21O pica-pau, que é o coisinha lá e a caixinha e tal.
11:25E eu fui aprender e virei o bicho também, né?
11:30Esse dado sobre biografia eu não conhecia, não.
11:33Pois é.
11:33Daí a questão da tradução, ela começa um pouco antes de ser escritor, que é uma necessidade, por exemplo,
11:43quando eu falei dessa minha tendência, assim, de tentar entender um pouco a questão da América Latina.
11:51Principalmente porque, quando o tio morreu, né?
11:54Eu era adolescente e tal, e assim, isso mexeu com o mundo.
11:59E assim, eu tava ouvindo, sou louco, eu porto e a América.
12:04E daí vai atrás, havia muita rádio mundial, e senão tinha muita música latina.
12:09Aí começo a me aproximar disso.
12:11Aí, Silvio Rodrigues, né?
12:12Paulo Milianês, essas coisas.
12:14Dois grandes compostores.
12:15Então, eu senti uma necessidade de traduzir pra mim, né?
12:19E daí, mas eu só me senti à vontade mesmo pra traduzir e publicar como escritor.
12:25Até porque eu tenho, hoje mesmo eu recebi um documento aí do Colégio de Patafísica,
12:31que são quatro cadernos por ano que eu recebo, e é um francês arcaico,
12:38e eles fazem questão de manter isso.
12:41Até tem uma, ainda na tradução,
12:47Eclair Filho, ele é um capixaba, eu acho que é de Guaçuí, não, de Muqui,
12:52e é professor do Departamento de Letras na Universidade de Brasília.
12:57Aí ele fez contato comigo e tal, porque ele traduziu o...
13:03Patafísici, Lê Patafísiciã, Gestes e...
13:06Gestes e...
13:08Me esqueci agora do filme, do livro, do Jarry.
13:12Gestes e Opinião...
13:14D'Alfred Jarry.
13:15D'Alfred Jarry.
13:16E aí, ele...
13:18Foi interessante na entrevista que ele deu pra esse...
13:22Esse dramaturgo que morreu há pouco agora,
13:27Que era o presidente da Esbate.
13:28Bom, pode voltar o nome.
13:30Mas então ele vai dar uma entrevista
13:33Dizendo que ele precisava de...
13:38Traduzindo Alfred Jarry, que esse livro é de mil...
13:41Acho que 1891, por aí, um pouco antes.
13:44Acho que foi publicado em 91, mas é de um pouco antes.
13:46Então ele falou assim, como é que eu vou traduzir
13:48Do francês dessa época pro português de hoje?
13:51Eu tenho que pegar o português daquela época.
13:53Aí fui buscar.
13:54Aí achou-se o José Delencar.
13:56Olha só.
13:57E aí falou assim, não, porque eu quero trazer esse português.
13:59Traduzir daquele francês daquela época pro português da mesma época, né?
14:02E aí, tem umas curiosidades, uma coisa genial.
14:05Por exemplo, Irassema, a virgem dos lábios de mel.
14:10Lábios, na verdade, isso que nós chamamos de lábios hoje,
14:13Era chamado de beiço.
14:14Lábios eram os vaginais.
14:16Sim.
14:16E os das plantas, né?
14:17Da orquíndia, não sei.
14:20Então, eu tô dando esse exemplo pra dizer assim,
14:22Qual é o meu processo de tradução?
14:26Entende?
14:26Então, eu tenho que envolver com esse autor,
14:29Pensar na época, o tipo de linguagem dele.
14:31Então, assim, eu tenho o Arthur e a Rabal, por exemplo,
14:34Que eu já traduzi algumas coisas.
14:36Eu tenho afinidade.
14:37Porque, assim, eu trabalho com o Arthur desde 81.
14:40Entendeu?
14:40E o Arrabal, no ano 87, por aí que eu comecei.
14:46E aí, me aprofundei na questão do surrealismo,
14:51Dos movimentos, né?
14:53De vanguarda da final, da primeira metade.
14:57Não, final não.
14:58Na metade, primeira, na segunda, que tem o dadaísmo.
15:01Tem uma série de coisas aí que me interessaram,
15:04A partir de Arthur e Arrabal.
15:06Eu, que sou um cara que preservo muito e valorizo muito
15:09A questão da cultura local, América Latina e tal.
15:13Mas, assim, eu sempre acho uns malucos de outro lugar
15:15Que estão desajustados lá também.
15:17Mas o Arthur e o Jarrê chegaram a você por conta
15:21Desse prazer pela dramaturgia?
15:23Porque você é, inclusive, um teórico.
15:25Você fez uma oficina na Fafi sobre teatro
15:28Que todo mundo elogia.
15:31A questão é, o Jarrê, com o Bihouar,
15:34E Arthur, né?
15:36Com o Teatro da Crueldade, etc.
15:37É, eles chegaram a você
15:40E você se tornou dramaturgo por conta deles?
15:43Ou o contrário?
15:44Não, na verdade, eu conheci o Arrabal, o Arthur.
15:47Eu tava numa passeata pelas diretas já.
15:50Aí, tomemos porrada da polícia lá
15:52E gás lacrimogêneo, eu tinha que sair.
15:54Né?
15:54E sentei num boteco e tô lá.
15:56Puto.
15:57E vi um desgraçado, um cara do lado,
15:58Naquela zona, todo o cara lendo, lendo, lendo.
16:00Por que o cara consegue ler num lugar desse assim?
16:03Eu sei que agora eu consigo,
16:05Mas, assim, naquela época, eu assim, como?
16:06Eu tinha, acho que 21, 22 anos, sei lá.
16:09E daí, o cara saiu pra o banheiro tomando cerveja,
16:12Eu também comecei a tomar cerveja,
16:13Eu falei, deixa eu dar nada desse livro.
16:14Eu olhei o livro, aí abri.
16:17Ele é o Gábalo, não, né?
16:18Não, era um livro do Roussouar,
16:22Um cara escreveu sobre a questão da alienação em Arthur.
16:26Alienação, do ponto de vista do louco.
16:28Sim.
16:29E daí, na hora que eu abri, assim, na página,
16:31Ele escrito assim, em espanhol, né?
16:33Mas ele tava assim, é, é...
16:35O marxismo é o último fruto podre do pensamento ocidental.
16:39Falei, porra, eu, marxista, aqui na...
16:41Porra, na passeata, eu vou ler uma desgraça dessa?
16:45Ótimo.
16:47Aí eu falei, porra, eu quero saber quem é esse cara
16:48Que se atreveu a falar isso, né?
16:51E aí fui no Arthur, cara.
16:52Aí fui lá no Maleta, que tinha uns sebos lá,
16:54E aí arrumei um monte de livro, não sei o que, em espanhol, e tal.
16:57E aí, porque aí começa, né?
16:58A necessidade e tal.
16:59E eu já fazia teatro.
17:01Mas aí eu não conhecia o Arthur teatro.
17:02Conheci o Arthur, essa crítica a ele, essa leitura dele.
17:06E poesia, né?
17:07Que eu gostei muito.
17:08E depois fui chegando no teatro.
17:10Passei pelo cinema e tal.
17:11E fui chegando no teatro.
17:13E eu...
17:16Voltando, né?
17:16Essa questão do marxismo, eu falei, porra, quem é esse cara?
17:20Quer dizer...
17:21Aí depois eu li as cartas aos reitores das universidades, né?
17:25Que ele começa dizendo assim...
17:26Na cisterna estreita que vocês chamam de pensamento,
17:29Os raios espirituais apodrecem como a palha.
17:32Falando dos reitores das universidades europeias, né?
17:35E daí eu vi, assim, o cara tem uma confrontação.
17:38Aí eu, assim, passei um tempo quase concordando com ele
17:41De que seria o último fruto podre do...
17:44Claro, levando em conta de que o capital surge como resposta a isso que está aí.
17:48Então, assim, um fruto é um fruto podre de algo podre.
17:51Então, é o que fala sobre o podre, né?
17:53Mas aí eu descobri, né?
17:54Ao longo do tempo que não é o último fruto podre
17:57Que essa desgraça desse capitalismo se reinventa
17:59E vai criando outros frutos, outras árvores
18:01E a gente vai ter que continuar criando outros frutos desses aí pra combater
18:05Essa coisa.
18:06Que eu acho que é, inclusive, o nosso problema, né?
18:08Que eu falo dessas ferramentas e instrumentos que a gente arruma pra combater
18:13A colonização e tal.
18:15Só que nós usamos as mesmas ferramentas.
18:18Então, quer dizer, quando eu chego, eu saio da lógica clássica, né?
18:23E aí eu vou ir pra dialética, vou não sei o quê
18:26Quer dizer, mas eu pego o outro lado da mesma moeda
18:28Quer dizer, eu não escapo dessa coisa
18:31Então, assim, quando eu quero responder a algo
18:36Do colonizador
18:36Eu, como colonizado, assim, a gente está na mesma linguagem
18:40É, o mesmo instrumento
18:41Porque nós, com o mesmo instrumento
18:43E principalmente, assim, com a nossa língua, a nossa lógica e a nossa filosofia
18:46Imagina se eu combatesse o francês, o inglês e tal, o português
18:52A partir dos Mapute, por exemplo
18:55Ia dar uma confusão aí
18:57E como é que um homem de esquerda
19:00Assumidamente de esquerda
19:01Um homem que tem dentro de si o marxismo latente e pulsante
19:09Escreve um artigo elogiando um cara de direita
19:15Que é Diogo Mainardi
19:17Bom, deixa eu só falar do Mapute aqui
19:19Tá, eu termino, desculpa
19:19Desculpa, eu termino
19:20Pra eu dar uma ideia, assim, de como é que nós não escapamos desse mesmo, né?
19:26E assim, porque as pessoas acham que a colonização é 1500 ou 1492
19:29Mas não é, ela é permanente
19:31Sim
19:31Principalmente na arte
19:32Todo dia os artistas estão procurando um caderno 2
19:34Uma coisa da vida
19:35Pra saber o que se faz na França
19:36O que se faz na Brod
19:38Eu não sei onde
19:38Pra fazer aqui também, né?
19:39E quem é o novo guru agora
19:40O novo diretor
19:41O novo...
19:41Não sei o que
19:42Aí eu tava falando do Mapute, por exemplo
19:45Que é...
19:46É...
19:47A língua Mapundungum, né?
19:49Não existe...
19:50Nessa língua não existe a palavra não
19:51E não existe sinônimo e nem antônimo
19:54Então, quer dizer
19:57Dançou a nossa lógica clássica e até a dialética
19:59É, a dialética dança
20:00Se não tem dança
20:01Se não tem confronto
20:02Pois é, então assim
20:03Não tem essa contradição
20:05Eu tô dizendo um exemplo pequeno
20:08Assim, nós temos só no Brasil 305 nações
20:11Então se a gente tivesse esses mundos todos organizados
20:15Pra dar novo significado pro mundo
20:17É diferente do que nós temos que nos adequar
20:20A linguagem dele pra lutar com a arma que eles nos deram
20:22Sim
20:23Né?
20:24Essa é uma questão
20:26Agora, seja...
20:27Não sei, talvez eu não me lembro de nada específico
20:30Mas um exemplo, assim
20:31Um dia
20:32Talvez você é afim de uma garota e tal
20:36E o dia...
20:37E por acaso
20:37Se você tem oportunidade
20:38Esbarra com ela assim
20:39E elas dão uma chance
20:40E você fala uma frase que estraga tudo
20:42Sacou?
20:43Então eu acho assim
20:45É um pouco essa questão
20:47Que foi por acaso
20:48Eu tava tomando a cachaça com o Jaci Guailins
20:49Né?
20:50O maestro
20:50E tal
20:51E ele vai
20:51Rapaz
20:52Ô coelho
20:53Esse livro aqui
20:55Mas ó
20:55Até porque ele é pernambucano
20:58Né?
20:58Era pernambucano
20:59Então o cara fala
21:01Ele dá uma porrada na questão do nordestino forte
21:06Né?
21:06Não sei o que
21:07Então ele entra
21:07Ele entra nessa questão
21:09E assim
21:09E eu achei
21:12Eu acho sempre interessante
21:13Alguns desafios
21:14Né?
21:15Então assim
21:15Eu achei desafiante isso
21:17Assim que foi um dado
21:17Que o Lins me deu
21:18Assim
21:18Eu não sabia quem era esse cara
21:20Eu tô falando
21:21No mapa de provocar mesmo
21:22Né?
21:22Eu não sabia quem era esse cara
21:23Eu entendo
21:23Eu entendo
21:23E assim
21:23Mas eu olhei o texto
21:25E naquele contexto ali
21:26Então eu escrevi
21:27Não é bem um elogio
21:28A forma como tá organizada ali
21:30Eu gosto dessa
21:31Dessa rebeldia
21:32Agora
21:33Ela
21:33Eu nunca teria escrito nada
21:35Até porque eu nunca tinha lido nada dessa pessoa
21:38Depois descobri até em umas revistas aí
21:39Que eu também não vou falar nenhum nome
21:41E tal
21:42E hoje conheço a figura
21:43Que é deplorável
21:44É
21:44Mas foi uma pergunta mais pra te provocar
21:46Mas
21:46Mas voltando nos cubanos
21:48Por exemplo
21:48É isso que eu queria voltar
21:50Voltando nos cubanos
21:51Eu referendo àquela ideia
21:52De que eu não escolhi
21:54Eu conheço
21:54Inclusive pessoalmente
21:55Leonardo Padura
21:56Conheço um monte de autores
21:57Né?
21:59E pessoal de teatro
22:00De cinema
22:01Conheço muita gente em Cuba
22:02E assim
22:03Eu nunca parei
22:04Assim
22:04Pra escrever
22:05Eu
22:05Eu
22:06É
22:08Amigos meus
22:08Por exemplo
22:09De azul
22:09Até fica assim
22:10Pô o cara não escreveu
22:11Nem sobre mim
22:11Mas assim
22:12É por acaso o cara
22:13Que eu escrevo
22:13Eu nunca escolhi
22:14Assim
22:14Tá na fila
22:15Vou falar isso
22:16Vou fazer
22:16Entendeu?
22:16Não tem
22:17É assim
22:18Mas essa pergunta
22:19Eu acho que ela procede no seguinte
22:20Foi uma brincadeira
22:22Né?
22:22Uma provocação
22:23Mas ao mesmo tempo
22:24Você acha que é possível
22:25Separar o escritor do homem?
22:28O artista do homem?
22:29Por exemplo
22:30Eu tenho dificuldade
22:31Por exemplo
22:31Vamos lá
22:31Olha só
22:32Um
22:32Um
22:33Um
22:33Um
22:34Um indivíduo que
22:36Esteja em Cuba
22:37Que seja
22:38Um morador de Cuba
22:41Que seja
22:42Um fiel
22:43Desculpa
22:44O trocadilho
22:45Um fiel
22:46A Fidel
22:47Ele olha
22:48Para Cabreira Infante
22:49E vê Cabreira Infante
22:50Como um traidor
22:51Né?
22:52Que foi um cara
22:52Que rompeu com o Fidel
22:53Ele organizou
22:54A Cinemateca de Cuba
22:55Era um cara
22:56Que escreveu
22:57Muito sobre Cuba
22:58Escreveu livros
22:59Sobre Cuba
23:00Mas
23:02Resolveu sair de Cuba
23:03E foi para a Inglaterra
23:03E não quis voltar mais
23:05Então para muita gente
23:06Ele é um traidor
23:07Eu acho Cabreira Infante
23:08Genial
23:08Você acha que
23:09Você
23:10Na sua opinião
23:10Eu tenho a minha opinião
23:11Na sua opinião
23:12É possível separar
23:13O autor da obra?
23:15Ou seja
23:15Cabreira Infante
23:16Foi um traidor
23:17Mas é um grande escritor
23:18Você acha possível isso?
23:19Claro
23:19Eu inclusive assim
23:21Na filosofia
23:21Por exemplo o Heidegger
23:22Eu gosto muito de Heidegger
23:23Mas eu tenho que separar
23:24Ele do nazismo
23:25Exatamente
23:26Assim o Guimarães Rosa
23:27Apoiou o golpe militar
23:29O Manuel Bandeira
23:30Foi consultor
23:31Sabe?
23:31Então tem muitas figuras
23:32Que a gente adora
23:33E assim
23:34Que eu acho que eles tem
23:35Tem essa capacidade
23:36Mas ao mesmo tempo
23:37É cidadão
23:38E tem a sua falha
23:39Tem os seus problemas
23:40Né?
23:41Então eu
23:41Na verdade assim
23:43Eu cobro muito isso
23:44Das pessoas
23:45Não é que eu cobrar
23:46Diretamente da pessoa
23:47Mas assim
23:47Com quem eu convivo
23:48Por exemplo
23:49Assim
23:49Pode ser genial
23:50Mas se tem essa pegada
23:52Pra lá
23:52Cara
23:53Eu me afasto
23:53Eu também
23:53Eu me afasto
23:54Eu pensei que fosse fácil
23:55Conviver
23:56Não é
23:56Não é fácil
23:57A pessoa longe
23:59Ou morta
24:00Ok
24:00Que você vai
24:01Sabe?
24:02Dá pra entender
24:03Porque a gente tem
24:04Contradições
24:04Né?
24:05Claro
24:06Mas eu acho muito difícil
24:08Pra mim assim
24:08É difícil
24:09Por exemplo
24:09Agora tem
24:10Alguns editais
24:11Abertos aí
24:12Da cultura
24:14Não diretamente
24:15Não esse Paulo Gustavo
24:17Nem outro
24:17Mas uns que tem por aí
24:18Aí quer dizer
24:20Vai o Wilson
24:20Faz
24:21Fale assim
24:21Como?
24:22Sabe
24:22Imagina se eu
24:23Monto um espetáculo
24:24Com dinheiro
24:25De uma empresa
24:26Que destruiu
24:27Cidades
24:27Por aí
24:28Aí eu vou levar
24:29Meu espetáculo
24:30Lá com um patrocinante
24:30Gente
24:30Esse aqui
24:31Que patrocinou
24:31Essa peça
24:32Com a empresa
24:32Eu não tenho
24:33Isso é questão ética
24:34Concordo plenamente
24:36Com você
24:36É uma questão ética
24:37Então assim
24:37Eu passo apertado
24:38E muitas oportunidades
24:39Que estão
24:40Pra algumas pessoas
24:40Pra mim não estão
24:41Não estão
24:42Porque
24:43Não é porque eu quero
24:45Fazer figura
24:45Pra ninguém
24:46Não é pra mim mesmo
24:46Eu não vou dormir
24:48Porque eu vou desmontar
24:50Minha história
24:50A vida inteira
24:51E é uma coisa
24:51Que eu admiro em você
24:52Perfeito
24:52Então assim
24:53Eu pago esse preço
24:54Entendeu?
24:55Maravilha
24:55Eu pago esse preço
24:56Porque eu me coloquei
24:58No mundo assim
24:58Eu inclusive assim
24:59Eu sou uma pessoa
25:00Eu sou ateu
25:02Eu sabe
25:03Eu tava até brincando
25:04Agora pensando em escrever
25:05Um conto assim
25:05De que um cara
25:06Assim
25:07Pô tô tentando
25:07Ele ver como é que eu
25:08Armo uma metáfora
25:09Assim
25:09De um cara
25:10Que sempre ouviu falar
25:11Que a esperança
25:12É a última que morre
25:14E então
25:14Que de repente
25:15Ele pega um grilo
25:16E a esperança
25:17Bota na mão dele
25:18Um grilo
25:18E a esperança
25:19Mas ele não sabe
25:19Quem é quem
25:20Então ele tem que enfiar na água
25:21O que morreu primeiro
25:22É o grilo
25:23E o que morreu por último
25:24É a esperança
25:26É a última que morre
25:27Mas só que de repente
25:28Nem sabe se foi
25:29A esperança
25:30Ele passa a vida inteira
25:30Acreditando que foi a esperança
25:31Mas ele não tem certeza
25:32De que morreu
25:33Foi a esperança
25:34Só que
25:34Vou só a figura
25:36Então eu acho
25:36Que é
25:38Então
25:38O que eu quero dizer é isso
25:39Se
25:40Eu já tenho
25:41Isso
25:41Eu não tenho a quem
25:42Perdi perdão
25:43Assim sabe
25:43Eu não tenho assim
25:44Eu tenho a minha consciência
25:45Que é brava comigo
25:46Entende
25:47Então assim
25:47Sou eu
25:49É compromisso que eu tenho comigo
25:50Se a vida não tem sentido
25:52Já um sentido
25:55Para além dessa coisa
25:56E tal
25:57Assim o sentido
25:58É que eu quero contribuir
25:59Com esse sentido
26:00Maravilha
26:01Entendeu
26:01Wilson
26:02Infelizmente
26:03Nosso tempo terminou
26:04Um bate papo ótimo
26:06Divertido
26:08Filosófico
26:09Honesto
26:10Ético
26:10Muito obrigado
26:12Por você ter estado aqui
26:13Muito obrigado
26:13Por você continuar a escrever
26:14Continuar produzindo
26:16Achei muito bacana
26:18Espero que você volte
26:19Se eu convidar
26:19Espero que você volte aqui
26:20Tá
26:21Para a gente continuar
26:22Conversando desse assunto
26:22Porque realmente
26:24É muito rico
26:25Pessoal
26:26Wilson
26:28Coelho
26:28Se despede de vocês
26:30Eu vou deixar ele
26:32Ter a palavra final
26:32E eu só vou dizer a vocês
26:34Muito obrigado
26:35Mais uma vez
26:36Por acompanhar
26:37O Vitrine Literária
26:38E na semana que vem
26:39Tem mais
26:39Mas quem vai dar a palavra final
26:40Aqui hoje
26:41É o Wilson Coelho
26:42Wilson
26:42A palavra final é sua
26:43Bom gente
26:44Muito obrigado aí
26:46Pela audiência
26:48Pela atenção aí
26:49E se eu tiver outra oportunidade
26:51E assim
26:52Me interessa sim voltar
26:53Inclusive
26:53Porque eu acabei de receber
26:54Um convite hoje
26:54Para participar da Feira Internacional
26:56Do Livro de Havana
26:57Né
26:58Em fevereiro
26:59E esse ano
26:59Que é Cuba
27:00Sempre faz uma parceria
27:01Com outro país
27:01Esse ano vai ser Cuba Brasil
27:03Então acho assim
27:04Que a gente vai ter
27:04Algumas notícias boas
27:05Da literatura brasileira
27:07Em Cuba
27:07Maravilha
27:08E esse intercâmbio aí
27:09Valeu
27:11Você ouveu
27:12Vitrine Literária
27:14Com o professor e escritor
27:16Francisco Grijó
27:17Tudo sobre literatura contemporânea
27:19Temas
27:20Autores
27:21Obras
27:22Debates
27:22Análises
27:23Curiosidades
27:24E bate-papo
27:25Com autores e editores
27:27E até a próxima
27:28Tchau
27:28Tchau
27:28Tchau
27:29Legenda por Sônia Ruberti