- há 3 semanas
Um papo sobre linguagem para crianças e a importância da leitura na formação familiar, com Luiz Sergio Quarto, escritor e dramaturgo que trabalha especificamente com literatura infantil.
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora, Vitrine Literária, com professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó.
00:24Aqui pela Rede Vitória, podcast e na página de vídeo do Folha Vitória, um bate-papo sobre literatura.
00:34Literatura, tanto literatura feita no Espírito Santo, quanto literatura feita no Brasil e fora do Brasil.
00:41Já estiveram aqui no programa algumas figuras falando sobre o tema de hoje.
00:46O tema de hoje é literatura infantil.
00:49A Lília Menenguzzi esteve aqui, o Duílio Custer esteve aqui conversando, o Francisco Aurélio esteve aqui,
00:56o Pedro José Nunes, que é basicamente um autor que fala só para... é uma literatura para adultos, mas ele
01:03também fez literatura infantil.
01:05E quem está aqui hoje para conversar sobre esse assunto é um autor celebradíssimo,
01:10que está na área de literatura infantil há muito tempo.
01:14Eu me lembro que quando eu estava na universidade, já se falava nessa figura, que está aqui hoje.
01:20É um privilégio para mim entrevistá-lo, bater um papo.
01:24Sei que vai ser um privilégio para vocês também, que estão nos vendo e que estão nos ouvindo,
01:29porque é uma figura que escreve sobre literatura infantil há muito tempo.
01:36Ele já está na área há muito tempo, já é uma figura consagrada aqui no Espírito Santo.
01:41Eu estou aqui diante de Luiz Sérgio IV, uma grande figura a quem eu devo agradecer imediatamente por ter aceitado
01:50o convite.
01:51O Luiz Sérgio IV é autor de literatura infantil e ele já passou por uma série de etapas.
01:59Por exemplo, ele teve livros ilustrados por Milson Henriquez.
02:03Milson Henriquez, o falecido Milson Henriquez, que é uma figura importante para a cultura do Espírito Santo.
02:08Ele trabalhou em veículos de comunicação, falando sobre literatura ao vivo, conversando com crianças que hoje não são mais crianças,
02:18que hoje são adultos.
02:19Então, o Luiz Sérgio IV é, com tudo de positivo que tem essa frase, é uma história muito viva no
02:28que diz respeito a essa categoria literária.
02:31Então, eu agradeço a você por estar aqui e já trago a você uma pergunta.
02:36A mesma pergunta que eu fiz a todos aqueles que escrevem para crianças.
02:42Eu não sei se você tem alguma publicação, Luiz, para adultos.
02:46Creio que não.
02:47Tem? Ótimo.
02:48Então, fica mais fácil para perguntar.
02:50Qual a diferença entre escrever para crianças e para adultos?
02:55Não só a questão da linguagem, mas a criança é um receptor diferente do adulto?
03:03É um prazer estar aqui.
03:05Obrigado.
03:06Bom, eu me sinto honrado em escrever para criança, porque é um dom que nem o João Guimarães Rosa teve.
03:15Jorge Amado teve fazendo o livrinho dele, muito interessante, da Andorinha, assim, ah, que apaixona pelo gato malhado.
03:23O gato malhado, a Raquel de Queiroz, a Clarice Lispector, mas eles não eram, essencialmente, escritores para crianças.
03:32Escreveram para os filhos e para os netos.
03:34Eu acho que tem que ter alma infantil, uma coisa muito espiritual.
03:39Eu me sinto um dos filhos do Lobato, eu, Ana Maria Machado, Galiméria José, Ruth Rocha, porque tem que ter
03:46um espírito lobatiano, ou um espírito meio freiriano, que é freinei, ou então um espírito, assim, meio de Anderson, né,
03:55do patinho feio e tal.
03:57Então, não é qualquer adulto que atinja o público infantil.
04:01A diferença está na aceitação e nas vendas dos livros.
04:06Você, que nós, no Espírito Santo, temos dificuldade de atingir um público grande, o público infantil é um público que,
04:14quando gosta, a escola gosta, você atinge milhares de crianças.
04:20Um exemplo foi Emílio, Emílio e Miloca, que eu cheguei numa escola, teve 15 saídas.
04:27Quer dizer, a professora já tinha lido o livro, a menina levou o livro para casa, certamente o pai leu,
04:34a mãe leu, então um livro só, infantil, ele gira, ao contrário do adulto.
04:40Porque o livro adulto, às vezes, você que vai ler, mas a mulher não vai ler, o filho não vai
04:45ler.
04:45Já o infantil, todo mundo pega.
04:48Viu agora o nosso amigo do Cidade Alerta falando comigo, né, que os filhos pedem para ele ler, e tem
04:54que ler aquilo ali.
04:55Então, eu me sinto mais prazer em escrever para a criança.
04:59Talvez, para o meu lado pedagógico, eu fui normalista, eu fui pedagogo, mencionei para o curso normal.
05:05Professor, né?
05:07Escrevi para a Gazetinha, fiz um programa com o Luiz Carlos Peixoto, Clube da Criança.
05:11Eu acho que a minha ligação com a criança vem há muito tempo.
05:16Mas isso não impede que eu fosse cronista da Gazeta e da Tribuna por muitos anos.
05:22Desde 77, eu fazia a crônica para a Gazeta, para a Tribuna, até 94.
05:30Então, meu primeiro livro não foi infantil, foi Os Manacás e Estão Floridos,
05:37que é uma série de crônicas e contos que fez muito sucesso, está na terceira edição.
05:42Então, eu tenho outros livros adultos, como Meninos e Meninas de Camburi, né, Francemira e outros poemas.
05:51Tenho um autobiográfico, que é uma infância no Caparaó.
05:55Enfim, né, e tem vários livros inéditos para adultos.
05:59É isso aí, você tocou num ponto que eu achei bem interessante.
06:04Quem está nos vendo vai ter esse privilégio.
06:06Esse livro aqui, ele citou, acabou de citar, né, esse livro aqui, Emília, Emilinha Miloca.
06:13Esse livro tem como personagem central uma cantora que as crianças não conhecem.
06:19As crianças conhecem as cantoras de agora.
06:22As crianças que hoje, mesmo as crianças que hoje têm 50 anos, também não sabem quem é Emilinha Borba.
06:30Porque Emilinha Borba foi uma figura muito importante para a música.
06:33No rádio.
06:34Foi uma grande, exatamente, na grande era do rádio.
06:37Você foi um ousado ao transformar Emilinha Borba, que é uma figura conhecida pelos meus avós,
06:48se transformar em uma personagem infantil.
06:51De onde saiu isso, cara?
06:53Bom, eu sou emilinista desde 7 anos, né, naquela época do rádio.
06:57Mas acontece assim, as crianças não conhecem Emilinha, mas cantam as músicas dela.
07:02Mas que músicas?
07:02Por exemplo, Pirulito que bate, bate.
07:05Caterinha de Belão.
07:06Seca a Doa, não virá.
07:08Mulata, bossa nova.
07:10Pode de milco.
07:11Baião de dois.
07:13Paraíba masculina.
07:14Teve um cara, por exemplo, o Júlio Sérgio sabia que tudo isso era de Emilinha Borba.
07:19Que ela cantou, né?
07:20Porque o brasileiro não tem essa noção de quem canta, quem grava.
07:24Então, eu descobri uma música da Emilinha que fala, canta, canta, passarinho.
07:29Eu cantava isso sem saber que era dela.
07:32Eu fiz homenagem a Emilinha usando 27 músicas.
07:36É uma trajetória que é um intertexto musical.
07:39Começa na Mangueira, onde ela nasceu, e vai contando a história dela.
07:44Ela na Martinica, com a Chiquita Bacana, que até hoje é cantada no mundo inteiro.
07:49Eu descobri que Chiquita Bacana foi gravada na Alemanha, foi gravada na França, foi gravada em vários países.
07:56A Carmen Miranda, quando foi cantar na Europa, ela fez cantar Chiquita Bacana.
08:00Porque era a música que os franceses cantavam.
08:03E o Zota foi muito feliz.
08:06O Zota é o registrador, né?
08:07Eu escrevei 60 fotografias da Emilinha, para fazer uma Emilinha pequena.
08:12Ela começa Emília, vira Emilinha a rainha do rádio.
08:16Ela era a favorita da Marinha.
08:18Foi a única cantora que, durante três anos seguidos, ganhou o concurso da Marinha.
08:25Foi a cantora que, durante 15 anos, 10 anos, era as dez maiores personalidades do Brasil.
08:32Ela só pedia para Jânio Quadros, para Getúlio Vargas, para Pelé.
08:36Era muito impressionante essa popularidade.
08:39Como eu gostava muito dela, frequentei muitas festas de Emilinha,
08:43eu quis fazer uma eminagem a ela, ainda um ano de ela morrer.
08:47Foi no Teatro João Caetano, em 2003.
08:54Eu cheguei com os livros do Teatro João Caetano.
08:57Eu não sabia que eu ia subir no palco, para entregar a ela, 5 mil exemplares.
09:02E aquele teatro super lotado, né?
09:06Foi muito bom.
09:07É um livro feito no Espírito Santo, se fosse feito a nível nacional.
09:11Certamente.
09:11Parou.
09:12O livro parou no Brasil inteiro, porque Emilinha tem infância no Brasil inteiro.
09:18Quando Emilinha morreu, o Jornal Nacional durou de 10 minutos.
09:225 mil pessoas no enterro dela, no velório.
09:25Uma coisa incrível, um artista que não está na mídia.
09:28Não está.
09:28Mas criou.
09:29E não estão só não estão na mídia, como não estão no dia a dia dessa garotada de hoje.
09:34Pois é.
09:35Eles não sabem quem é Emilinha Borba.
09:36Isso aí eu posso garantir.
09:38Hoje, que já o Hidro dura poucos anos.
09:40Sim, exatamente.
09:40Ele grava uma música, vende muito e some.
09:44Não foi com Nelson Gonçalves assim, não foi com Marlene, não foi com Angela Maria,
09:48não foi com Dalva de Oliveira.
09:49Eles vão ficar para sempre.
09:51Luiz Gonzaga, entendeu?
09:52Não sei quem vai ficar, se é Catello Veloso, se é Calcó, se é Balinha Betânia, se é...
09:58Entendeu?
09:59Mas hoje o sucesso, ele é imediato.
10:03Já na nossa época, no rádio, uma música, um ano inteiro tocando no rádio.
10:09Você falou sobre Emilinha, você escreveu, você homenageou Emilinha, mas eu percebo também o seguinte,
10:15você tem o Sol de Naná, que está aqui na minha mão, o Sol de Naná, você tem Madrinha Lua,
10:24você tem uma preferência por escrever sobre personagens femininas.
10:32Você diria para mim que a criança, a menina, ela tem uma sensibilidade maior para absorver histórias?
10:40Porque é interessante isso.
10:41Escrever para menino é diferente de escrever para menina.
10:43É.
10:45Fala um pouco disso aí para a gente.
10:46É, o Madrinha Lua é mais menino.
10:49É para menino.
10:49É menino que vende na praia.
10:52Essa história saiu de uma tragédia em Camburi, quando um vigeio noturno, pago pelos comerciantes,
11:02ele incendiou, queimou, seis meninos de rua dormindo na praia de Camburi.
11:08Uma coisa horrível isso aqui.
11:10Eu fiquei muito revoltado, fiz uma crônica à tribuna falando sobre isso, mas no livro,
11:16eu não conto que eles foram incendiados.
11:17Eu mostro no livro que menino de rua, o menino na rua, ele está trabalhando para os pais,
11:25ele está sobrevivendo.
11:26E o menino de rua, expulso de casa, vai ser um playboyzinho.
11:31Não é um playboy que falava, é um pivete.
11:33E eu contei essa história para tirar essa coisa da sociedade.
11:38Na época, Rita Camata, muito criticada por isso.
11:41Então, o livro ficou muito interessante, porque eu nomeio a Lua, né, como o Madrinha deles.
11:47São Jorge nomeia a Lua, para proteger essas crianças.
11:51Porque, na verdade, eu termino o livro, até com a mensagem de dois anjos, dizendo isso.
11:57Que para ser criança, basta brincar, basta recriar, não é?
12:01E eu parti de uma lenda que toda criança, o índio, o menino da roça,
12:09eles falam o dia da Lua, jogam um beijo para a Lua.
12:11A Lua é como se fosse a protetora de crianças.
12:14Então, eu estou homenageando a Lua com os meninos de rua, né?
12:18Nesse livro aqui.
12:19Você tem razão que o Sol de Naná é homenagem às minhas sobrinhas, né?
12:24Eu não tinha sobrinho.
12:27E os pardais, não.
12:28São passarinhos.
12:30Mas os abeluzos, eu não trouxe, é um livro mais ecológico, mais bem ambiental.
12:35Hoje eu defendo o mar, eu falo da poluição, eu falo das lavadeiras do rio Itapemirim.
12:40Você me parece ter um compromisso, me parece...
12:44Não, um compromisso com alguma causa, mesmo que momentânea.
12:48Meninos de rua, infância, você falou aí, meio ambiente.
12:56E você falou uma coisa no começo desse papo aqui que me chamou a atenção.
13:00É a questão espiritual mesmo.
13:05Essa visão que você tem, espiritual, ela traz uma ideia de pureza muito grande.
13:11Você acha que isso facilita a comunicação com a criança?
13:15Faz.
13:16Eu, quando lancei A Velha Goiabeira, A Velha Goiabeira foi um conto que eu não publiquei na Gazeta.
13:22Eu achei que era muito infantil.
13:24Procurei a Glecí Coutinho, eu tirei desse conto quatro histórias e levei para a Glecí,
13:30que era editora da Gazetinha há muitos anos.
13:34Quando eu cheguei com as quatro historinhas datilografadas, esse mil...
13:38Isso é em que ano?
13:39Eu nasci em 47.
13:40Não, isso é em que ano que você levou?
13:42Ah, em 1978.
13:46Cheguei na Gazeta com as historinhas, a Glecí já me conhecia como cronista.
13:52Ela era repórter e era editora da Gazetinha.
13:55Eu cheguei, ela me recebeu assim, finalmente apareceu um escritor para criança no Espírito Santo.
14:02Porque até então, estou dizendo que eu sou pioneiro, mas ninguém escreveu para criança no Espírito Santo.
14:06Eu sei disso, eu sei disso.
14:07Você sabe, Glecí, eu fui muito criticado.
14:11Muito criticado porque escrever para criança ainda não é bullying,
14:16mas tem gente que acha que não é uma boa literatura.
14:20Qualquer um faz um livrinho como esse.
14:22Não é bem assim.
14:23Claro que não.
14:23Não é que qualquer um faz.
14:24O Patinho Feio, por exemplo, é de Anderson, que fez várias historinhas.
14:31Então, para muita gente intelectual até, fazer para criança é fácil, é não sei o quê.
14:37Então, quando a Glecí topou publicar essas historinhas, pequenininhas começou,
14:43eu ganhei um espaço de meia página, depois virou uma página.
14:48Eu não trouxe o teatro infantil aqui, eu acho.
14:51Mas aí eu fiz teatro infantil na Gazetinha, fiz resenha.
14:55Eu acho que eu fui o primeiro resenhista de livros infantis para a tribuna.
14:59Tanto é que a primeira grande resenha de Ana Maria Machado, eu que fiz para a tribuna.
15:06Que é uma ótima história consagrada, né?
15:09E ela estava lançando uma série na revista Recreio.
15:13Eu mandei para ela para o Jornal do Brasil, ela me respondeu dizendo que foi uma grande resenha,
15:19agradeceu muito.
15:20Você perguntou a minha ligação com a criança, com a literatura infantil,
15:24tem a ver com o curso normal que eu fiz, com a pedagogia que eu fiz.
15:28Eu já com 19 anos, eu já lecionava didática.
15:32Certo, mas você pode fazer pedagogia e ter ligação com a literatura adulta, sem nenhum problema.
15:37É verdade.
15:38Quer dizer, a sua conexão, penso eu, a sua conexão com a literatura infantil extrapola a ideia de pedagogia.
15:47Mas o curso normal é mais para a criança.
15:50Ah, certo.
15:50E a minha primeira aula que eu dei, aula prática, eu tinha 17 anos.
15:56Eu escolhi uma historinha de Anderson.
15:59Quer dizer, já comecei a carreira de magistério contando uma história de uma menina da caixa de fósforo,
16:05que ficava um fósforo, aparecia um presente de Natal.
16:08E eu descei lá em UNA, eu fiz curso normal, para salvar o curso normal de UNA, que não tinha
16:15alunas.
16:16Precisava de três alunos para formar dez, uma turma a turma.
16:21E um é isso?
16:21Três corajosos foram, porque curso normal, quando diz um rapaz, né?
16:25Ah, curso normal é para mocinha.
16:27É, era essa a visão que se tinha.
16:30E foram três mocinhas que faziam curso normal.
16:32E eu gostei tanto, que eu virei professor mesmo, né?
16:35A vida toda no magistério.
16:37Você também é dramaturgo, né, Luiz?
16:39Você escreve para teatro, né?
16:40Eu fiz uma peça para Ganimé de José, na Casa Branca.
16:44Ganimé de...
16:44Ó, você está citando só figuras que...
16:48Ana Maria Machado e Ganimé de José...
16:51São duas figuras consagradas nacionalmente e internacionalmente, né?
16:55Porque eles têm textos que são traduzidos.
16:57Eu fui à Casa Branca, porque o Ganimé tinha morrido, e lá é uma cidade pequena, que há
17:03vinte e tantos anos, tem uma semana dedicada a ele.
17:06Eu fui participar.
17:09Levei o Emílio, Emílio e a Miloca e tudo, de entrevista e tudo mais.
17:13Mas eu fiz uma peça em homenagem a ele.
17:15Essa peça foi levada ao teatro de Casa Branca.
17:18Então, a minha primeira peça no palco foi O Brasileirinho de Casa Branca, que o
17:24Ganimé de José escreveu 148 livros.
17:28Uma figura.
17:28Produção hereditária.
17:29Ele é um best-seller.
17:30É.
17:31Ele morreu com 56 anos.
17:33Ele tem livro dele na 60ª edição.
17:36E eu sou fã dele, sem conhecê-lo.
17:39No livro do Teatro Infantil, eu publico três artigos que eu fiz.
17:44Eu acho uma troca de correspondência, né?
17:46Eu conheci a mãe dele e tudo.
17:49E eu fui a Casa Branca.
17:51Então, a minha ligação com a literatura infantil tem muito a ver com o vovô Felício,
17:56o Vicente Guimarães, que eu fiz entrevista com ele para a Gazetinha.
17:59O Vicente, era tio do João Guimarães Rosa.
18:02O Vicente, criador do João Bolinha.
18:05Foi ele que foi nomeado por Monteiro Lobato como seu sucessor.
18:12Eu tenho a carta do Lobato, que mandou para o Vicente.
18:15Já que você tocou em Lobato, uma das coisas que sempre me impressionaram em Monteiro Lobato
18:21foi que ele conversava com crianças sem chamar crianças de débil mental.
18:25Com todo respeito, eu sei que o termo débil mental é um termo politicamente incorreto.
18:30Acabei de usá-lo indevidamente.
18:32Mas vamos colocar o seguinte, então.
18:34Ele nunca chamou a criança de uma figura que não pudesse compreendê-lo.
18:39Ele sempre respeitou as crianças.
18:42Você acha que escrever para a criança exige essa espiritualidade que você falou,
18:49essa...
18:50É colocar-se como criança, mas acima de tudo respeitá-la.
18:54Porque a criança raciocina.
18:55A criança pensa.
18:57E a criança, ela diz sim ou diz não.
18:59Ela tem subjetividade.
19:01E ela então vai dar a visão que ela tem sobre o texto.
19:05Essa ideia de honestidade com a criança, de escrever para a criança.
19:11Porque um adulto nem precisa...
19:13Escrever para adultos, e eu escrevo, não precisa ser honesto.
19:16Você não precisa ser honesto ali.
19:18Pode ser.
19:19Mas e para a criança?
19:20Eu tenho um livro, Xenia Xereta.
19:22Como?
19:23Xenia Xereta.
19:24É meu último livro infantil.
19:25Eu não trouxe hoje.
19:27Porque as meninas adoram esse livro.
19:29Xenia Xereta tem a ver com Lobato, ela tem a ver com Coutinho Rocha.
19:32Que hoje a escritora mais politizada, inclusive ela foi perseguida na ditadura.
19:39A Ruth é incrível.
19:40Ela fez um livro sobre rabos presos.
19:42O que mais tem hoje na política é rabo preso.
19:45Olha o que aconteceu no Brasil agora.
19:47Não só agora, com esse governo anterior, com outros governos.
19:50O rabo preso começa em casa, aquele jogo.
19:52Se você não me der isso, com a tua mamãe, eu te dê duro.
19:56Tem muito vereador que tem rabo preso.
19:59Prefeito, todo mundo tem rabo preso.
20:01Sem querer eu faço Xenia Xereta, que ela é muito fofoqueira.
20:05Ela também tem rabo preso, com as coisinhas que ela faz.
20:08Ótimo.
20:09E o Xexel, que é namorado dela.
20:10É um livro interessante, você que fala em português, todo em X.
20:15Todos os objetos, todos os personagens são com X.
20:19Inclusive o Xenia Xereta, a vovó Xeninha.
20:21O namorado da vovó Xeninha, o Xenife, que nasceu um Xique-Xique na Bahia.
20:26E vai por aí, né?
20:27Então, o livro é muito interessante, Xenia Xereta.
20:30Então, no Brasil, eu tenho uma língua de moralismo, que é igual o Lafontaine.
20:36Eu sempre dou uma coisa moral no fim das histórias.
20:39Xenia, apesar de tudo que ela fez de errado, e o Xestiel vai dizer, se você contar para o Xerife,
20:46eu conto que você fez isso.
20:47Ela também tinha o rabo preso, não sabia.
20:49Ela só via rabo preso nos outros.
20:51No final da história, eu conserto, ela vai pedir perdão para o Xenê, porque xingou, ela vai consertar o chaxim
21:00da vovó, que ela quebrou.
21:01Isso não acontece com o político, com o adulto.
21:04Ele erra, ele faz fofoca, faz fake news e fica por aí.
21:08Eu acho que o Lobato tinha isso.
21:10O Lobato, ele quis largar o livro para o adulto, porque ele foi proibido de falar.
21:16Ele foi para a Argentina, ele foi perseguido por Getúlio Vargas.
21:19Eu me lembro que na minha sala de aula, ninguém liga o Lobato.
21:23Era proibido o Lobato.
21:24E ai de quem lê esse Lobato.
21:26A Devalni, criadora do Selfie, que foi a pioneira do seminário de Tanto Infantil no Espírito Santo.
21:34Eu coordenei o útil dela, que foi em 1978, 1979.
21:39Ela conta que as irmãs aqui em Vitória, ela ficou de castigo, porque ela estava lendo reinações de narizinho.
21:46Era o perigo do Lobato.
21:49E o Lobato criou uma boneca que falava por ele.
21:52O que ele podia falar, ela falava por ele.
21:56Emílio, quem é você?
21:57A dizer, sou independente, sou morte.
22:00Então, eu acho que o Lobato ensinou muita gente.
22:03Eu acho que Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Caniméria José, Lígia Bonjunga, que foi a minha maior escritora.
22:09Lígia Bonjunga, sem dúvida.
22:11A Lígia fala, eu sou filho de Lobato.
22:13Sem dúvida.
22:13E eu também posso falar isso, porque quando eu fazia a Gazetinha, eu não lia Lobato.
22:18Eu nunca li Lobato adulto, quando eu tinha 30 anos.
22:21Eu vi na televisão.
22:22E um dia a menina me escreveu uma cartinha, me chamou de Monteiro Lobato Capixaba.
22:28Eu fui no seminário no Rio, justamente sobre o Lobato, que era coordenado para Arnaldo Esquiê.
22:33Quando eu cheguei lá, com a Gazetinha e tudo, eu fui ler Lobato pela primeira vez.
22:39Quando eu li o primeiro capítulo de Narizinho, eu fiz, gente, eu realmente sou lobateano.
22:44Renação de Narizinho é obra prima.
22:46Sem saber que eu sou lobateano, que nem Ana Maria Machado.
22:49Então, nós falamos que a literatura infantil, ela é pós-Lobato.
22:55Ela teve aquele boom, aquela explosão.
22:57Aí veio Silvio Artoff, que é ótima também.
23:01A Tatina Belinque.
23:03Enfim, vários vieram.
23:04Giraldo.
23:06Giraldo, com a Celi Corpim, ele é ótimo também.
23:09Inclusive, o Giraldo ficou fã do Emílio Emílio em Miloca.
23:12Ele, quando ganhou o livro, disse,
23:13Sérgio, você sabia que a minha tia foi costureira da Emílio em Miloca?
23:21Então, além de eu escrever para criança, eu, que nem Francisco Aurélio,
23:25nós somos pioneiros em divulgar isso na imprensa.
23:29Eu acho que, sabe que uma coisa que eu acho que está faltando?
23:32Está faltando uma história da literatura infantil, juvenil ou infantil, no Espírito Santo.
23:39Alguém que compile, que traga informações sobre o que foi feito em literatura infantil.
23:46E eu acho que você e Chico Aurélio são as duas figuras que têm condições de escrever sobre isso.
23:51Ele já deu início muito bom naquele livro da periferia, como chama?
23:57Que ele falou sexual, do negro.
23:59Ele tem um livro assim, A Marginalidade.
24:02Sim, A Marginalidade nas Letras Capixadas.
24:03Ele tem um capítulo muito interessante.
24:05O Chico, quando foi na Colômbia, não sei aonde,
24:08ele falou de três livros falando da questão da criança de rua.
24:12Ele usou os partidos da capital.
24:14Ótimo.
24:14Ele fez uma palestra em Casteliano, não sei, publicou isso no livro dele.
24:20Ele tem um livro sobre isso.
24:22Maravilha.
24:22Ele faz um...
24:24Aliás, o Chico, para nós, é o maior pesquisador da literatura infantil.
24:28Não só da infantil, de um modo geral.
24:30Ele é um pesquisador, estudioso.
24:33E ele alavancou isso aí.
24:36Porque eu me sentia sozinho quando comecei na Gazetinha.
24:39Aí vieram outras pessoas também, depois dele, né?
24:43A Silvana Sampaio, Silvana Pinheiro, a Elisabeth Martins.
24:48Hoje o Ivan está escrevendo muita criança, que foi da Gazetra do Ivan.
24:52E foi surgindo mais gente, né?
24:54Mas quando eu comecei, eu era sozinho, praticamente.
24:57O pioneiro, Luiz Sérgio IV, eu vou te agradecer profundamente.
25:02Nosso tempo acabou.
25:03Agradeço você demais.
25:05Acho que foi uma aula que você deu aqui para a gente.
25:06Muito obrigado.
25:08Espero que você volte, que você aceite uma nova...
25:10Eu estou querendo fazer, em breve, um bate-papo aqui com três autores infantis.
25:14Para a gente conversar durante um tempo maior sobre literatura infantil aqui no Espírito Santo.
25:20Agradeço muito sua participação.
25:22Volte sempre.
25:24E parabéns.
25:25E eu vou dedicar a você esse livro, né?
25:27Você vai para casa.
25:28Ótimo.
25:28Obrigado.
25:29Você vai ver que aqui começou a minha literatura infantil.
25:32Obrigado aos nossos...
25:34Não sei se fala a três espectadores, né?
25:36Tranquilo.
25:37Os nossos ouvintes.
25:39A você.
25:39Obrigado.
25:40De Palabino, que você também está...
25:42Estamos aí na batalha.
25:43Está na batalha aí.
25:44Valeu.
25:46Pessoal, então, na próxima semana, vamos conversar com Camila Dalvi, que é uma escritora que tem um livro de estreia
25:55sensacional, sobre o qual a gente vai conversar.
25:57Um grande abraço a todos.
25:58Muito obrigado.
25:59Valeu, galera.
26:01Você ouviu o Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
26:07Tudo sobre literatura contemporânea.
26:09Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
26:17Transcrição e Legendas por Quintena Coelho