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  • há 2 semanas
Um bate-papo com Paulo Roberto Sodré, sobre temas como o ensino da literatura infantil e adultos, impressão sobre livros e a relação dos alunos com os livros.

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Transcrição
00:01Começa agora, Vitrine Literária, com professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:20Olá pessoal, tudo bem?
00:22Vitrine Literária de volta agora com a temporada de 2024.
00:27Começamos agora em fevereiro e vamos até novembro deste ano de 2024.
00:33Espero que vocês tenham gostado das temporadas passadas.
00:36Todas elas estão disponíveis para quem quiser ver na internet.
00:40Estão disponíveis tanto na página de vídeo do Folha Vitória, como também nas plataformas da Rede Vitória.
00:48Beleza?
00:49Então, Vitrine Literária com Francisco Grijó começa essa nova temporada.
00:53E é importante a gente compreender o seguinte.
00:56Eu disse no final da última temporada que nós teríamos algumas surpresas.
01:01E a primeira grande surpresa, embora muita gente não entenda que é uma surpresa, mas algumas também compreenderão que é,
01:10eu trouxe para ser entrevistado hoje uma figura por quem eu tenho uma autoestima, uma alta estima, e não autoestima,
01:19uma grande amigo que se tornou meu amigo, ele foi meu colega na universidade, entramos juntos na universidade, ele foi
01:29fazer inglês, eu fui fazer português, ele depois se dedicou à literatura portuguesa e se tornou uma das autoridades em
01:38literatura portuguesa no Brasil.
01:40Nós vamos também falar sobre isso, mas vamos também falar sobre a sua literatura infantil, a sua literatura para adultos,
01:49o hermetismo da sua literatura, o hermetismo fica por minha conta, nós vamos falar sobre isso.
01:56Eu tenho aqui do meu lado, Paulo Roberto Sodré, um dos grandes poetas desse estado, um dos grandes narradores desse
02:04estado, e uma figura assim, cuja literatura é um mistério para muita gente,
02:11mas quando, acabei de falar isso com ele, quando o leitor, ele se torna mais íntimo da maneira de Paulo
02:18narrar, ele vê um mundo novo se abrir diante dele.
02:22Mas, eu quero adiantar uma coisa a vocês e a Paulo. Existe o Paulo poeta, existe o Paulo professor, existe
02:30o Paulo escritor de histórias infantis, existe o Paulo pesquisador,
02:36é, nós vamos fazer dois programas, esse é o primeiro programa, que nós vamos gravar depois, um outro, que virá
02:44ao ar só no dia 28.
02:47Esse programa aqui irá ao ar no dia 21 de fevereiro, e o outro programa no dia 28.
02:54Bem, eu já falei demais, agora eu vou deixar o Paulo falar.
02:57Então, eu vou começar, Paulo, primeiro agradecendo a você, você ter aceitado, depois de tanta insistência, você aceitou participar, muito
03:04obrigado.
03:05E eu vou trazer uma discussão, logo de início, uma discussão que ela vai, na verdade, trazer para mim uma
03:14explicação.
03:17A sua literatura é uma literatura de alta qualidade, mas eu, o Grijó, que sou professor e sou escritor, eu
03:25vejo essa alta qualidade de imediato.
03:29Mas o leitor comum, ele tem complicações, imagino eu, para ler os seus textos, que não são textos fáceis de
03:38ser lidos, e quando se consegue ler, vê-se que é uma maravilha.
03:43Você concorda comigo? Você já teve essa devolutiva por parte de alguém que não seja eu?
03:50Bom, provocação sempre, né, Grijó?
03:52Sempre, sempre.
03:54Antes de qualquer coisa, obrigadíssimo, pela chance de estar aqui nesse programa.
03:58Havia vários episódios, cada um mais sedutor que o outro, justamente por conta das suas provocações.
04:08E deixa eu ver por onde eu começo nessa resposta.
04:15Quando eu penso na minha literatura, eu acho que a grande dificuldade que as pessoas normalmente me falam está justamente
04:28no excesso de imagens.
04:29São muitas metáforas, são muitas imagens para uma ilustração de um sentimento, de um pensamento que eu tento jogar nos
04:45poemas.
04:45E a grande dificuldade da poesia em geral, eu acho que a prosa sofre menos essa dificuldade, mas a poesia,
04:54eu acho que ela se faz muitas vezes nisso, né, nessa dificuldade,
05:00que é de uma pessoa, em vários momentos da sua vida, se depararem com o instante muito particular de um
05:12determinado poema.
05:14Então, para que haja uma conexão entre o poema, seja ele qual for, né, e esse eventual leitor, leitora, é
05:22preciso que haja essa conexão,
05:24e nem sempre ela acontece de imediato na primeira leitura, seja porque a pessoa não está com uma vivência que
05:33possa ser projetada nessa poesia, nesse poema,
05:37seja porque o momento é muito diferente, muitos poemas, boa parte dos poemas trata de um sentimento melancólico em relação
05:50à vida,
05:50em relação às relações, né, que são feitas durante a vida.
05:54E se não houver essa conexão, se não houver uma experiência anterior, para que o leitor e a leitora consigam
06:03chegar até esse poema,
06:05é difícil esse poema acontecer para essa pessoa, né, para esse leitor e essa leitora.
06:11E o meu poema, ele se baseia em captação de imagens, ele é muito descritivo, muito metafórico,
06:21para registrar justamente esses momentos, e aí são duas dificuldades, né,
06:26a conexão dos sentimentos ou dos pensamentos, das reflexões, das vivências,
06:31e a disponibilidade, o tempo que a poesia demanda, exige mesmo, desse eventual leitor e leitora.
06:42Então eu acho que a minha poesia, ela talvez tenha um pouco mais de dificuldade,
06:47e é muito comum as pessoas me dizerem, né, da complicação que é essa poesia,
06:53e desde de leitores e leitoras menos experientes com a poesia,
06:58até leitores e leitoras com essa experiência.
07:02E eu acho que essa dificuldade está muito pontualmente nessa forma muito particular, né,
07:11de eu tentar registrar reflexões ou sentimentos mesmo, surpresas, né, diante da vida,
07:19nesses poemas.
07:21Então não é uma... eu não me orgulho disso, né,
07:26e, de alguma maneira, estou preso a essa maneira de me exprimir.
07:32E, curiosamente, depois que eu me tornei professor,
07:36depois que eu comecei a lidar com a pesquisa e com a produção acadêmica,
07:42e ser professor é uma coisa, né, ter produção acadêmica, né, é bem diferente.
07:46Então quando eu comecei a trabalhar com a produção acadêmica, com artigos, né,
07:51capítulos de livros e até mesmo livros, ensaios,
07:57eu precisei dar uma clareada na linguagem.
08:01Porque mesmo na prosa acadêmica, eu tinha tendência a ser poético.
08:06E eu me lembro muito, assim, foi um divisor de águas para mim,
08:11quando eu fiz o mestrado, né, e fiz a primeira resenha
08:14sobre o livro do Dom Duarte, né, século XIV, XV,
08:21e o leal conselheiro, a minha orientadora, pediu para eu fazer uma resenha.
08:25Eu fiz a resenha, e ela chegou para mim e disse,
08:29Paulo, eu sei que você é poeta, né, sei que você escreve,
08:36mas, na sua produção acadêmica, você vai ter que separar uma coisa da outra.
08:42Imagina.
08:42Rapaz, foi um susto, porque eu saí da graduação produzindo esse tipo de texto, né,
08:48das provas, né, nos trabalhos acadêmicos, todos,
08:51os professores gostavam, então, está liberado.
08:54A gente estava na época do Roland Barthes, né, da crítica personalizada e tal.
09:00Ficou tudo, né, para o mestrado.
09:02Aí a Márcia Mongéli, uma queridíssima, né,
09:05mantei contato com ela até hoje, me deu essa dica,
09:08e a partir daí mudou, né.
09:11Eu procurei ser mais claro na prosa, né, acadêmica, nos trabalhos,
09:18e, lógico, isso acabou se refletindo também na poesia.
09:21Mas você acha que quando você...
09:23É uma questão que eu acho interessante.
09:25Quando você produzia a sua...
09:28A sua produção acadêmica,
09:29você tentou deixar de ser poeta.
09:33Mas será...
09:36Você consegue escrever sobre...
09:41Sem ser literário?
09:43Porque um resquício de literatura...
09:46Sim.
09:46É difícil você se desvenselhar dele.
09:49Sim.
09:49Né?
09:50Escrever como um burocrata, você não consegue fazer isso.
09:53É.
09:54Não, não.
09:55Mas eu me lembro que um ex-aluno meu,
10:00isso já tem muito tempo,
10:01foi logo depois que eu voltei do mestrado,
10:0696, por aí,
10:09um aluno leu um artigo, alguma coisa assim,
10:14ele ficou profundamente decepcionado.
10:17Por quê?
10:18Porque, justamente, eu estava ali num texto acadêmico objetivo,
10:24sem nenhum resquício de literatura.
10:27Você conseguiu isso?
10:28Consegui.
10:29Mas aí, uma outra orientadora, a Yara Frateschi Vieira,
10:33também admirável, de Campinas,
10:38fez a mesma reclamação em relação à minha tese de doutorado,
10:43porque ela disse que estava absolutamente objetivo.
10:47Ah, falei, por um lado, que bom, né?
10:50Por outro, eu fiquei muito decepcionado,
10:52porque ela estava decepcionada com o meu texto.
10:53Você decepcionou.
10:54E depois disso, eu comecei a ficar menos rigoroso, né?
10:59No trabalho acadêmico,
11:01mantendo a objetividade, mantendo a clareza,
11:04para garantir a comunicação
11:07para os leitores do que eu estava pesquisando,
11:09isso é fundamental para o texto acadêmico.
11:13Mas, pelo menos no início ou no final do texto,
11:17principalmente no final do texto,
11:19eu jogava alguma coisa que desse uma versatilidade ao texto,
11:26para que a pessoa chegasse ao fim do texto, né?
11:28Isso é bem interessante, porque eu me lembro que eu trabalhei,
11:32eu como professor de pré-vestibular,
11:34trabalhei com um livro seu que caiu no vestibular da UFSS,
11:37chamado Senhor Branco, certo?
11:40Que está aqui nesse livro, né?
11:42Ele está aqui nesse livro que eu vou mostrar para vocês,
11:46Poemas Desconcertantes,
11:47é uma coletânea,
11:48e aqui dentro dele está o livro Senhor Branco.
11:52Isso, claro, para quem está nos vendo,
11:54quem está nos ouvindo, infelizmente, não pode ver.
11:56Mas são poemas desconcertantes,
11:58que saíram pela editora Cousa.
12:01O Saulo já esteve aqui,
12:02batendo papo com a gente,
12:04na primeira temporada.
12:07Eu me lembro que quando eu expliquei para os meus alunos,
12:10você não pode esquecer que são alunos entre 17 e 19 anos.
12:15E a maioria desses alunos não tem a mínima intimidade com poesia.
12:21Eles têm uma certa intimidade com prosa,
12:24porque a prosa é muito mais facilmente assimilável do que a poesia.
12:29E um garoto entre 10 e 15 anos,
12:32ele quer uma coisa mais facilmente assimilável.
12:34Então, a dificuldade poética, a gente encontra aí.
12:38E eu me lembro que eu mostrei isso para os alunos.
12:40Quando eles leram o Senhor Branco,
12:42eles tiveram dificuldade,
12:44porque é uma leitura para adultos.
12:49Você escreve para crianças,
12:51com uma linguagem bem...
12:54que alcança a criança,
12:56e você escreve para adultos.
12:58Há uma lacuna aí,
12:59que são, inclusive, as pessoas que são seus alunos.
13:02Na UFES.
13:03Só que os seus alunos da UFES,
13:04eles já entram com a cabeça pensando,
13:07eu vou estudar literatura.
13:09E os meus alunos não.
13:10Eles entram pensando,
13:11eu não vou estudar literatura.
13:13Eu vou ser médico, eu vou ser engenheiro,
13:15eu vou ser advogado e assim por diante.
13:18Você vê, você vislumbra
13:20essa possibilidade de fazer um texto
13:22mais acessível
13:24para uma determinada faixa de idade?
13:29Igrejó, essa discussão
13:33sobre literatura para adultos,
13:35literatura para crianças,
13:37e agora, mais recentemente,
13:39literatura para jovens,
13:41porque até pouco tempo
13:42a gente tinha literatura infantil-juvenil.
13:44Isso.
13:45Porque era uma confusão.
13:46Sem dúvida.
13:47Uma confusão.
13:48E, felizmente, os pesquisadores
13:51e pesquisadores estão levantando
13:54uma série de questões,
13:55ponderando muitas questões
13:58relacionadas às diferenças mesmo
14:00de público,
14:01de um livro para crianças,
14:03de um livro para jovens,
14:05e o livro para adultos.
14:07Há muitas pessoas que acham
14:09que um livro para adultos
14:11atinge os jovens,
14:12e até mesmo as crianças.
14:14E há quem pense que há particularidades mesmo.
14:19Há peculiaridades para cada um desses leitores e leitoras.
14:25E o que você acha?
14:26É claro que tem um mercado atrás disso.
14:29O mercado editorial está interessado em formar nichos
14:32mais específicos
14:34para angariar, lógico,
14:37a maior venda dos seus produtos, etc., etc.
14:45Eu não penso
14:49em jovens, por exemplo,
14:52como você falou,
14:5317, 18, 19 anos,
14:55de uma maneira diferente
14:56do que eu penso
14:57em relação ao
15:00eventual leitor adulto.
15:01Por exemplo,
15:02não vejo muita diferença.
15:04Eu vejo muita diferença
15:05em relação à criança,
15:07propriamente.
15:09Até, sei lá,
15:1013 anos, mais ou menos, né?
15:13Que é
15:14a faixa etária
15:15do ensino fundamental
15:16em geral, né?
15:19E aí eu consigo,
15:21ao escrever,
15:22pensar
15:23nessa faixa etária,
15:27pensando num narrador,
15:29num tipo de narração
15:31que
15:33transite,
15:34mais ou menos,
15:34entre os
15:358
15:36aos 15 anos,
15:38mais ou menos.
15:39O que é muito difícil também, né?
15:43Mas
15:44vou por esse caminho,
15:46digamos assim.
15:47Para o jovem, não,
15:48porque eu já incluo o jovem
15:49nessa faixa dos adultos.
15:52Então,
15:52eu posso afirmar
15:54que Paulo Roberto Sodré
15:56se preocupa com o leitor?
15:58Sim.
15:59Você escreve
16:00e você pensa nele?
16:01Sim, sim.
16:02Você tem essa preocupação?
16:04Agora.
16:04Porque geralmente
16:04os escritores não têm, né?
16:06Eles escrevem para si mesmos
16:08e o leitor,
16:09gostariam muito
16:10que o leitor,
16:11eles gostariam muito
16:12que o leitor
16:13os consumisse.
16:14Sim.
16:15Mas a escritura
16:16é pensando no próprio umbigo.
16:18Você pensa no leitor?
16:19Penso.
16:20E o fato de eu pensar
16:22no leitor
16:22não quer dizer
16:23que eu consiga
16:24fazer textos,
16:27digamos,
16:28competentes
16:29para esses públicos
16:31que eu distingo
16:32na minha cabeça
16:33quando eu estou produzindo.
16:34Você não se sente traído?
16:36Você não trai a si mesmo?
16:37Você não é capaz
16:38de escrever?
16:39Eu quero saber isso
16:40de você, Paulo,
16:41que é uma coisa
16:41que me incomoda.
16:43Você é capaz...
16:45Poxa,
16:45esse seu livro aqui,
16:46eu vou mostrar,
16:48está aqui,
16:49uma leitura na chuva
16:50que é uma obra-prima.
16:52Uma leitura na chuva.
16:53Quem está nos vendo
16:54pode ver a capa.
16:56Quem não está nos vendo,
16:58infelizmente,
16:58saiu pela editora Cândida,
17:00que é a mesma editora
17:01que edita meus livros também.
17:04Sim.
17:04Eu fico imaginando o seguinte,
17:06não é uma leitura fácil também.
17:09Você é um escritor
17:11que escreve um parágrafo,
17:14vê que o parágrafo
17:15está brilhantemente escrito,
17:16mas que ele vai trazer
17:18uma certa dificuldade
17:18de compreensão.
17:19Você apaga o parágrafo?
17:21Não.
17:22Então você não trai a si mesmo?
17:23Não.
17:24Não.
17:24Mas se preocupa com o leitor?
17:26Sim.
17:26Explica para mim.
17:27Pois.
17:29Não é uma situação fácil,
17:31viu, Grisão?
17:31porque eu estava até revendo
17:37uma entrevista do Cortázar
17:38em que ele fala justamente sobre isso,
17:40o problema de se preocupar com o leitor.
17:45Porque, normalmente,
17:47quando o escritor se preocupa demais
17:49com o leitor,
17:50a tendência é a traição,
17:52com a própria linguagem.
17:53Exatamente.
17:55Eu diria que eu vivo
17:57numa espécie de abismo,
17:59por assim dizer,
18:01que é a preocupação com o leitor
18:02e a preocupação com a linguagem.
18:05Uma encruzilhada,
18:06não um abismo,
18:07mas uma encruzilhada.
18:08Quando eu tenho
18:10que escolher entre,
18:13de alguma maneira,
18:18acolher o leitor.
18:24E o problema
18:25que isso pode me trazer
18:27em relação à linguagem,
18:28a que eu não quero trair,
18:30a linguagem literária,
18:33aí eu dou um jeito de conciliar.
18:35Quando eu não consigo conciliar,
18:37o peso vai para a linguagem.
18:39E aí,
18:41pender para a linguagem,
18:43eu acho que também
18:44é uma forma de preocupação
18:45com o leitor
18:45porque você deixa de,
18:48de alguma maneira,
18:50arrogantemente,
18:52subestimar esse leitor.
18:54Porque a gente não pode
18:55partir do princípio
18:56de que o leitor
18:57não vai
19:02colher os sentidos
19:03que esse parágrafo,
19:05por exemplo,
19:05que nos acende a cabeça,
19:07que nos deixa
19:10entusiasmados,
19:12não vai entender
19:13ou não vai acompanhar
19:14esse parágrafo.
19:16Então,
19:16eu tento
19:17conciliar essas coisas
19:19todas
19:20e a vitória sempre,
19:22claro,
19:22é da própria linguagem,
19:23porque ao fim e ao cabo
19:24o que nos interessa
19:25é a linguagem literária.
19:28Há uma outra questão,
19:31eu felizmente,
19:32eu,
19:33Grinjó,
19:33felizmente não me deparo
19:35com ela.
19:36Qual?
19:36Vou te falar,
19:37eu não me deparo,
19:38mas você
19:39se depara
19:40e muito,
19:41que é
19:42aquela linha
19:43frágil,
19:45frágil
19:46que existe
19:46entre poesia e prose.
19:48Ah, sim.
19:49Como você é,
19:50isso aí é uma visão
19:51pessoal,
19:51como você é fundamentalmente
19:54um poeta,
19:55um poeta de imagens,
19:56você é um poeta
19:58que tem
19:58uma bagagem simbolista
20:02muito grande,
20:03você,
20:04simbolismo no sentido real mesmo,
20:06no sentido estético.
20:09você é um poeta.
20:11Se eu tivesse de nomear você,
20:13eu diria,
20:13Paulo Roberto Sodeb,
20:14é poeta.
20:15Sim.
20:16Mas você se aventurou na prosa
20:18e uma aventura bem sucedida,
20:20mas bem sucedida,
20:22porém,
20:22sempre correndo o risco
20:24de ser mais poeta
20:26do que contador de história.
20:28Sim.
20:28Então,
20:29como é que você concilia?
20:31Já que você falou em conciliar,
20:33como é que você concilia
20:35a poesia com a prosa?
20:37Como é que você concilia
20:39sabendo que um personagem
20:40tem que agir,
20:42mas você,
20:45num determinado momento,
20:46prefere trazer uma imagem
20:48na qual o personagem
20:50esteja inserido
20:50ao invés de contar uma história?
20:52Como é que é isso?
20:53Porque eu,
20:55felizmente,
20:55não tenho esse dilema.
20:57Eu não sou poeta.
20:58Eu já tentei ser poeta,
21:00você sabe disso,
21:01e não consegui.
21:02Não me acho apto.
21:05Eu escrevo histórias.
21:08Você é os dois.
21:09Como é que você concilia isso?
21:12E depois me diga
21:13se você se considera
21:15um artífice
21:19do poema em prosa.
21:22É,
21:22eu chegaria a esse ponto.
21:24É a vantagem
21:25de conversar com o professor.
21:28Engraçado
21:28que o fato
21:29de eu ter me deparado
21:31com o estudo
21:32de gêneros literários,
21:34de gêneros textuais literários,
21:37isso me fez,
21:38principalmente
21:39quando eu estudei
21:39a crônica,
21:41em que há
21:42uma discussão
21:43muito,
21:44muito
21:47acalorada,
21:47principalmente
21:48com o alunado
21:50que está interessado
21:51em dar aula
21:52e precisa dar
21:52respostas precisas
21:54e tal.
21:54Isso é crônica,
21:55isso é conto.
21:56Isso sem pensar,
21:58sem pensar
22:00ou sem lembrar
22:00de que muitas crônicas
22:02são poemas
22:03em prosa.
22:04Sim.
22:06E aí,
22:07quando eu comecei
22:07a me deparar
22:08com essa discussão,
22:10eu falei,
22:10bom,
22:12para o meu trabalho,
22:13para a minha produção,
22:14eu acho que os cronistas
22:16e os contistas
22:17tiveram esse mesmo
22:18impasse
22:22de seguir
22:23um molde
22:25de crônica
22:25um molde
22:27de crônica
22:29reportagem,
22:30crônica
22:30ensaio,
22:31crônica,
22:32enfim,
22:32há vários tipos
22:33de crônica,
22:34não é?
22:35E a crônica
22:36é conto,
22:36por assim dizer.
22:39Muitos cronistas
22:39dizem que isso
22:40não tem a menor importância
22:41porque a maneira
22:42como o leitor
22:43vai receber esse texto,
22:44principalmente por meio
22:45do jornal,
22:46é que vai determinar
22:46o gênero.
22:48É uma saída.
22:50Terminológica
22:51é uma saída,
22:51conceitual.
22:53A minha conclusão
22:55é de que
22:56o que me interessa
22:57é produzir um texto
23:01que tenha
23:05clareza suficiente
23:06para desenvolver,
23:08discutir,
23:09ponderar
23:10sobre um determinado tema
23:12e sem me amarrar
23:14à questão
23:14do gênero
23:16propriamente.
23:17Isso vai ficar
23:18por conta
23:18do crítico,
23:19né?
23:20Dos professores,
23:22enfim.
23:23E vão,
23:25de alguma maneira,
23:27chegar à conclusão
23:28de que aquele texto
23:29tem mais
23:30de prosa poética
23:33do que
23:34de uma novela
23:35ou de um conto
23:36ou de um romance,
23:37etc.
23:40ser prosador
23:41para mim
23:44está muito ligado
23:45ao ser poeta
23:46na medida em que
23:47eu não prescindo
23:48da imagem poética.
23:50Quer dizer,
23:51eu não consigo escrever
23:51sem poesia.
23:53Quem lê seus textos
23:55percebe isso.
23:55isso na narrativa
23:57para a criança,
24:00quer dizer,
24:01romance,
24:02no texto narrativo
24:03que eu produzi,
24:04mais recentemente,
24:05que é uma leitura
24:05na chuva,
24:06que foi,
24:07como eu disse
24:07para você antes,
24:08uma espécie
24:09de redenção,
24:12um pedido
24:13de desculpas
24:14ao leitor
24:15do
24:17Lecídio,
24:18que foi a primeira
24:19tentativa
24:20de escrever
24:21um texto
24:22em prosa,
24:24mas é muito
24:25experimentalista
24:26e a dificuldade
24:26dele está nisso,
24:28de ser muito
24:29experimental.
24:31Quer dizer,
24:32lendo grandes
24:33prosadores,
24:34é difícil
24:35não ceder
24:37a tentação
24:37de escrever prosa,
24:38né?
24:40E foi nisso
24:41que eu caí,
24:42cedi a essa tentação.
24:43Mas é interessante
24:44que você escreve
24:45prosa
24:46quando você escreve
24:47para criança,
24:48só que é um dado.
24:50Nós vamos parar
24:51aqui,
24:51porque o nosso
24:52programa,
24:53o nosso tempo
24:53acabou.
24:54Mas,
24:55não,
24:55calma,
24:55calma,
24:56não se desespere
24:57nem Paulo,
24:58nem quem está nos ouvindo
24:59e nos vendo,
25:00porque
25:01na próxima semana
25:02haverá
25:03a segunda parte
25:04desse bate-papo
25:07fundamental
25:07para quem gosta
25:08de literatura,
25:09para quem gosta
25:10de livros,
25:10para quem gosta
25:11de Paulo Sodré,
25:12para quem gosta
25:12de vitrine literária,
25:14ok?
25:15Então,
25:15até a semana que vem
25:16com Paulo Sodré
25:17de novo.
25:19Um grande abraço
25:20e até a semana que vem.
25:22Seu Rio,
25:23vitrine literária
25:24com o professor
25:25e escritor
25:26Francisco Grijó.
25:27Tudo sobre
25:28literatura contemporânea,
25:30temas,
25:30autores,
25:31obras,
25:32debates,
25:33análises,
25:34curiosidades
25:34e bate-papo
25:36com autores
25:36e editores.

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