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  • há 3 semanas
Um papo importante sobre difusão literária, ensino da literatura e qualificação da didática da leitura, com o poeta e professor Orlando Lopes.

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00:01Começa agora, Vitrine Literária, com professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó, pela Rede Vitória, podcast, YouTube.
00:29Hoje a gente vai conversar sobre um tema que é caro a muita gente, que é querido a muita gente,
00:36inclusive a mim, que é leitura.
00:39Como é que o livro chega àquele que interessa? E, em tese, quem é que se interessa por ler hoje?
00:49Qual o papel de um professor? Qual o papel do aluno? Qual o papel do leitor? Qual o papel do
00:55escritor e do difusor literário?
00:58É um tema que, tenho certeza, interessa não somente a pessoas que gostam de ler, mas a pessoas que escrevem
01:07e que querem difundir o seu trabalho.
01:10Eu vou contar para vocês uma rápida história.
01:12Eu fui secretário de Cultura em Vitória entre 2016 e 2020.
01:17E, um dia, eu fui procurado por um professor da Universidade Federal do Espírito Santo, um professor que era também
01:25poeta e cujo primeiro livro eu resenhei.
01:29Eu fiz, eu escrevi um texto sobre o primeiro livro dele, chamado Hardcore Blues, um livro que me impressionou muito,
01:36um livro de poemas, poemas de uma juventude muito vigorosa.
01:40Eu também era um jovem, embora mais velho que ele, mas, assim, eu também tinha a desesperança sobre a nova
01:51poesia feita do Espírito Santo.
01:52E, quando eu li esse livro, essa esperança renasceu de saber que existiam pessoas ainda que estavam escrevendo bem, com
02:00vigor, com força, com potência.
02:03Esse poeta, depois, se tornou professor, fez mestrado, fez doutorado, se tornou professor na UFIS e tem um grande projeto
02:14sobre leitura e sobre qualificação do professor.
02:20E é justamente sobre isso que eu quero conversar hoje.
02:24Esse poeta, que está aqui ao meu lado, se chama Orlando Lopes, é uma honra ter você aqui.
02:30Nós já conversamos muito sobre esse assunto que a gente vai conversar hoje.
02:36Infelizmente, eu não pude colocar em prática tudo com você, né, sobre o projeto, mas eu sei que o projeto
02:43andou bastante.
02:45Eu me lembro que eu cedi alguns espaços da prefeitura na época, né, espaços culturais, para que vocês pudessem desenvolver
02:52o trabalho.
02:53Orlando, muito obrigado por você estar aqui e, antes de a gente conversar sobre sua poesia, eu prefiro conversar sobre
03:02leitura.
03:02E a questão é, qual o papel do professor atual?
03:09Esse professor está conseguindo fazer o aluno ler?
03:12Ah, eu quero só fazer uma observação.
03:15Talvez as pessoas perguntem, Magrinho Jó, você é professor.
03:17Eu sou um professor muito específico.
03:19Eu sou um professor de pré-vestibular.
03:21Ou seja, eu preparo o aluno para fazer uma prova.
03:26Eu não preparo o aluno para ler livros.
03:28Não preparo.
03:30Então, a minha pergunta para o Orlando é, qual o papel do professor e esse professor está conseguindo fazer isso?
03:39Primeiro, brigadão aqui pela oportunidade.
03:41Sempre muito legal trocar ideia contigo.
03:44Bom, vamos direto para o assunto, né, professores hoje.
03:48Nós temos uma série de questões, assim, que é primeiro localizar o que é o professor, né.
03:53A gente tem uma coisa que é uma estrutura social, a gente tem uma coisa que é Ministério da Educação,
03:58a gente tem uma coisa que é História da Educação.
04:00E quando a gente pensa concretamente no professor, a gente está pensando muito naquele cara que está brigando para conseguir
04:06ter aumento de salário.
04:08Tem dois universos aí que são muito distintos.
04:11Então, quando a gente pensa no lugar funcional da educação, quando a gente pensa na Constituição,
04:18na importância da educação para o Estado, todos sabemos que é importante e tal.
04:22O que eu gosto muito de lembrar hoje, né, e não derivando demais, mas gosto muito de lembrar hoje.
04:27A gente precisa voltar lá em Platão, voltar na República, né, o livro A República,
04:30que estabelece o que é a base de uma sociedade, o que é uma base de um Estado, da construção
04:35do Estado.
04:35Não se consegue fundar uma nação sem ler Platão, né, desde o século XV, desde os renascentistas.
04:44E aí o Platão vai dizer o seguinte, o que é uma sociedade?
04:47Uma sociedade é uma estrutura de produção, alguém produz riqueza.
04:50Uma sociedade é uma estrutura de segurança, alguém protege a riqueza que foi construída.
04:55E uma sociedade é a capacidade de reproduzir, a capacidade de produzir e de proteger.
05:00Então, produção, segurança e educação.
05:04A sociedade é isso, né.
05:06A gente vai encontrar, por exemplo, uma derivada disso,
05:10quando a gente vai falar o termo magistrado, por exemplo, né,
05:13a gente fala função pedagógica do direito.
05:16Então tem uma coisa toda que está nesse universo,
05:18e que depois quando a gente vai pensar a educação básica, parece que isso dissipa um pouco.
05:23Por quê? Porque a gente passou por um processo de revolução industrial,
05:26porque a gente passou por uma política de alfabetização em massa,
05:29porque a gente universalizou o direito à educação.
05:32Então a gente tirou a educação do lugar das elites,
05:35e a gente começou a deslocar a educação para a população em geral.
05:38E aí o professor, ele fica embolado no meio disso daí.
05:41A gente fica perdido entre os lugares sociais,
05:44onde encaixam a gente com os lugares sociais.
05:46Bom, essa é a história da educação, a história do professor.
05:48E aí a gente tem um outro lado, que é um problema da sociedade,
05:52um problema não, uma questão, um fato da sociedade hoje,
05:55é que a gente está atravessando um processo que a gente chama de disrupção.
06:01O pessoal que trabalha com a inovação, vai falar,
06:04olha, você está com o mundo mais rápido, você está com o mundo mais veloz,
06:08você está com o mundo que nunca teve tanta riqueza,
06:10você tem conflitos políticos, conflitos ideológicos, novas economias e tal.
06:15E aí você está tendo uma rasgada dentro da estrutura de sociedade.
06:18O professor Francisco, que estava sendo entrevistado aqui agora,
06:20ele falou, ninguém mais quer ouvir, todo mundo quer falar.
06:23Então a gente tinha uma cultura que ia, sei lá, até 1950, 1940, patriarcal e tal.
06:29Você tinha um centro, você tinha uma autoridade,
06:31uma pessoa falava, aquela autoridade emanava para todo mundo e acabou.
06:35E nós passamos por um processo que a gente quer chegar
06:37numa democratização social mais efetiva e tal.
06:40E muitas vezes aquela coisa da falsa democracia,
06:42o espaço de uma fala indistinta,
06:44um espaço onde ninguém tem legitimidades para colocar.
06:49Todo mundo é legítimo, então ninguém é legítimo.
06:51Tem questões aí e o professor fica atravessado no meio disso.
06:54Bom, fechando a questão,
06:56eu acho que se a gente for pensar,
06:57do ponto de vista da leitura,
06:59do ponto de vista da formação humanista,
07:02o que é o lugar do professor hoje,
07:03o que é a grande questão com o professor,
07:05eu acho que o professor hoje é aquele que vai salvar,
07:08guardar o lugar da crítica.
07:09O lugar privilegiado do professor,
07:12o espaço que a gente não pode perder do professor
07:14é o espaço da crítica.
07:15Por quê?
07:16Porque o professor é o que escolhe que os alunos vão ler.
07:19E quando eu escolho,
07:20eu estou mostrando uma coisa,
07:21eu estou escondendo várias.
07:23Isso é uma responsabilidade muito grande.
07:25Então o professor tem que ter gosto apurado,
07:27o professor tem que ter educação estética apurada,
07:30o professor tem que ser uma pessoa com sensibilidade.
07:32Para quê?
07:33Para ele poder transmitir essa sensibilidade para as pessoas.
07:36Mas me diga, como exigir isso?
07:38Você deu uma dica nesse seu discurso,
07:43que é bem interessante.
07:44Como exigir de um professor que tenha essa excelência crítica,
07:48se ele é obrigado a dar muitas aulas por dia,
07:53ele é obrigado a corrigir muita coisa em casa,
07:56ele não tem grana para ficar comprando muito livro,
07:59ele não tem o aparato tecnológico necessário,
08:03um Kindle, por exemplo,
08:05para poder obter livros digitais.
08:09Como exigir do professor que ele faça isso?
08:12E mais,
08:15há uma exigência
08:16que não é só estética do professor,
08:19é intelectual.
08:22Como fazer um professor hoje ter o acesso a esse cabedal intelectual
08:32e como fazer para ele veicular isso aí?
08:35Da forma tradicional?
08:37Professor e aluno?
08:38Como é que é isso?
08:39Eu acho que em termos de infraestrutura,
08:42não tem nada que a gente possa falar,
08:44não ser a responsabilidade do Estado,
08:45a responsabilidade da sociedade.
08:47recolhemos muitos impostos,
08:48temos um volume muito grande de impostos,
08:52acho que cada vez mais se reconhece
08:54o lugar estratégico da educação,
08:56volta a falar da disrupção,
08:57acho que todo mundo que está preocupado
08:59está ouvindo falar sobre inteligência artificial,
09:02então a gente está indo para uma sociedade
09:03que a gente não vai mais parar de estudar,
09:05quem estiver dentro da sociedade
09:06não vai mais parar de ter informação,
09:08de absorver informação,
09:10e aí o professor deve ser privilegiado,
09:12isso é uma coisa muito óbvia,
09:13para qualquer gestor sério,
09:14para qualquer político sério,
09:16é um diferencial competitivo
09:19para usar os termos empresariais,
09:22a inteligência hoje é uma commodity,
09:26você precisa dela,
09:27porque senão você não aciona as máquinas
09:28que estão disponíveis,
09:29então não é caro investir em educação,
09:31educação não é gasto,
09:32há muito tempo que já se discute essa questão,
09:34educação não pode ser pensada como gasto,
09:36ela tem que ser pensada como investimento,
09:38e o investimento começa a ser
09:39dar notebook bom para o professor,
09:42é dar licença de conteúdo para o professor,
09:44ah, o cara vai desperdiçar,
09:46olha,
09:47sentem os estatísticos,
09:48os economistas se virem,
09:50porque senão vai desmontar a estrutura de sociedade.
09:52Mas me diga,
09:53isso não é fácil falar no lugar em que você está?
09:57Você está no mais importante centro de pensamento do Estado,
10:02e se a gente for ver em termos gerais,
10:05a universidade pública é,
10:08com pouquíssimas exceções,
10:10o local em que o pensamento se desenvolve.
10:16Talvez,
10:17o que eu estou te perguntando,
10:18é uma pergunta realmente difícil,
10:22do lugar em que você está,
10:23e o professor de ensino fundamental,
10:27lá do interior do Espírito Santo.
10:29Eu acho que você está perguntando,
10:31eu acho que ela pega uma outra questão,
10:32que é muito ampla também,
10:34que é o seguinte,
10:34a nossa estrutura de sociedade,
10:38ela está numa transição,
10:39para um,
10:41a gente vai chamar de modo de rede,
10:42de Manuel Castel,
10:44a gente está falando de rede há tanto tempo,
10:46a gente está numa migração no mundo,
10:48desde os anos 2000,
10:5095, internet e tal,
10:52a gente está numa migração efetiva,
10:54para uma coisa chamada sociedade de informação.
10:57E a gente não avalia o que isso vai mudar,
10:59em redes educacionais, por exemplo.
11:02Você acorda de manhã hoje,
11:03você quer fazer uma comida,
11:05tem ovos na geladeira,
11:07você vai, olha um vídeo no YouTube,
11:09pega um pouquinho de queijo,
11:10uma margarina, não sei o que,
11:11e aí você faz uma comida de restaurante,
11:13porque você olhou no YouTube.
11:14Então, a gente precisa levar isso,
11:16as últimas consequências daqui para frente.
11:18A gente ficou represando,
11:19o Brasil é um país colonialista,
11:21o Brasil é um país que ele impediu
11:22a comunicação da população,
11:24troca cultural,
11:25trânsito cultural,
11:27a gente tem uma barreira imensa,
11:29e essas barreiras estão caindo loucamente,
11:32todos os lugares,
11:33essas barreiras institucionais,
11:35barreiras de comércio,
11:36está tudo caindo,
11:37e quando a gente chega na educação,
11:38parece que tem uma coisa estanque ali.
11:40Então, eu,
11:43complementando um pouco essa resposta,
11:44eu me senti muito refém da universidade,
11:47na verdade,
11:48porque você fica dentro de uma ilha
11:49que ela é aparentemente,
11:50nem é tão bem preservada,
11:52passamos anos aí muito complicados,
11:54mas ela tem as suas condições,
11:56que são diferentes do que está aí.
11:58Eu cresci dentro da escola pública,
12:00defendo amplamente a escola pública,
12:01acho que a educação é,
12:02para ser o máximo possível,
12:04dentro do espírito público.
12:05E aí, a gente,
12:07fui falar da escola pública agora
12:09e deu uma derivada,
12:10deu uma viajada aqui.
12:15Como fazer,
12:17como realizar,
12:19no interior,
12:20como fazer esse projeto
12:23chegar ao professor
12:25que tem uma série de dificuldades econômicas
12:28e sociais
12:29e tecnológicas,
12:32como fazer ele fazer um bom trabalho?
12:34Como fazer,
12:35não conseguir fazer um bom trabalho?
12:37Eu vou te falar a partir da metodologia
12:38do programa Relei Fazer,
12:39porque aí eu vou ter uma especificidade,
12:41uma objetividade.
12:43O que a gente está entendendo
12:45nos últimos anos
12:45e está tentando provocar?
12:47Então, primeiro,
12:48esse lugar da importância do professor,
12:50então tem uma dinâmica inteira
12:51da valorização de magistério,
12:52que a gente precisa estar considerando,
12:54e ela tem os lugares institucionais,
12:56mas ela tem também
12:57suas relações de classe.
12:59Nós, como classe profissional,
13:00a gente precisa se enxergar.
13:01E aí,
13:03no programa Relei Fazer,
13:04a gente está solucionando isso um pouco,
13:06recuperando um conceito,
13:07que eu acho que você vai lembrar um pouco
13:08da história da linguística,
13:09que são os círculos,
13:10círculo linguístico de praga,
13:12círculo bactiniano,
13:13que funciona na UFSS,
13:14é ativo,
13:15círculo lacaniano,
13:17e aí a gente está recuperando
13:19a coisa do círculo
13:20pelo viés dos mediadores de leitura.
13:22É, isso aí.
13:23Então, nós precisamos...
13:24Esse mediador que eu quero entender,
13:26queria que você explicasse,
13:28porque é uma ideia sensacional.
13:29A mediadora...
13:30O mediador...
13:31Já está aí, né?
13:31Uma coisa que a gente já é,
13:32a gente já faz,
13:33mas fica essa coisa da especificidade,
13:36encontrar qual é a diferença
13:37da mediação para a aula,
13:38por exemplo.
13:39Isso, exatamente.
13:40Essas diferenças.
13:41Mas, assim,
13:41primeiro essa questão de integração,
13:43o que a gente está fazendo?
13:44Pela UFSS,
13:46pelo programa Relei Fazer.
13:47Nós estamos buscando
13:48uma série de parcerias
13:50com secretarias municipais de educação,
13:52estamos apostando
13:53nas formações continuadas,
13:55vamos estudar a vida inteira,
13:57os nossos contratadores,
13:58nossos contratantes,
13:59eles têm responsabilidade,
14:01as redes públicas de ensino
14:02têm uma responsabilidade
14:04de formação continuada.
14:05Então, eu acho que é aí
14:06que a UFSS pode estar funcionando muito,
14:08que o IFSS pode estar funcionando muito,
14:10que é nesse reforço
14:11dentro da estrutura pública estadual,
14:13da estrutura pública dos municípios,
14:16que a gente pode estar
14:17num contato permanente,
14:19fazendo aporte de conhecimento,
14:21mas essas estruturas,
14:22elas são vivas,
14:23e elas têm mestres,
14:24elas têm doutores.
14:26Nós agora estamos trabalhando
14:27com a Prefeitura da Serra
14:28e começamos a fazer
14:30o mapeamento lá.
14:30Então, quantos mestres
14:32a Secretaria de Educação da Serra tem?
14:34Quantos mestres
14:35a Prefeitura de Vila Velha tem?
14:37Muitas vezes,
14:39não sei como é que o governo do Estado
14:40está lidando com isso,
14:41mas você poderia criar cursos
14:43de pós-graduação,
14:44no meu com a formação de leitores,
14:45só com mestres internos
14:47de uma rede municipal.
14:49O custo de formação baixa
14:51vai ficar um negócio,
14:52um outro custo,
14:53um outro processo.
14:55Então, eu acho que tem esse caminho
14:58e aposto muito
15:00pela formação de professores,
15:01trabalho com a formação de professores,
15:03que é uma recomendação sistemática
15:05que eu faço para os meus alunos,
15:06que é não dar aula o dia inteiro.
15:08Aprendam a fazer revisão de texto,
15:10aprendam a fazer produção cultural,
15:12aprendam a fazer alguma outra coisa.
15:13Se você gosta muito
15:14de trabalhar em silêncio,
15:16aprende a fazer uma coisa
15:17que você vai estar com o público
15:18uma parte do dia,
15:18para você ficar em silêncio
15:19uma parte do dia
15:20e uma parte em relação social.
15:22Você está dando aula
15:23para 300 pessoas por dia e tal,
15:25tenta arrumar uma coisa
15:26que te dê grana,
15:27que te dê dinheiro,
15:28mas que ela te deixe trabalhar sozinho,
15:29por exemplo,
15:30a revisão de texto,
15:32o mediador de leitura
15:33de grupos pequenos,
15:35essa coisa de trabalhar
15:35com poucas pessoas ali.
15:37E aí eu volto a te dizer,
15:38tem um apelo inteiro
15:38pela legislação,
15:40o que falta é vontade política
15:41para executar o suficiente
15:42para que esse nicho de mercado
15:44apareça efetivamente
15:45para os professores.
15:47Como é que a internet,
15:49a internet é utilizada
15:51nessa ideia de mediação?
15:53Tá.
15:54Primeiro assim,
15:55em relação ao mediador especificamente,
15:57eu vou falar a diferença
15:57que eu gosto muito de marcar,
15:59que acho que simplifica,
16:00para as pessoas entenderem.
16:01Eu gosto de dizer
16:02que o mediador de leitura,
16:03ele é como um árbitro de futebol.
16:07Você reúne um grupo de jogadores
16:08para bater uma pelada,
16:10solta uma bola,
16:11deixa a galera ficar ali,
16:13mas na hora que alguém
16:14dá uma canelada,
16:15você dá uma levantada
16:15e bota o jogo
16:16para acontecer de novo.
16:17Mas o problema é que no jogo,
16:18no jogo de futebol,
16:19existem,
16:20independentemente da canelada,
16:21existem regras.
16:22E para a leitura?
16:23E para a literatura,
16:24existem regras?
16:25A leitura,
16:26ela tem,
16:27ela tem,
16:28primeiro,
16:28essa coisa,
16:28a diferença entre interpretação
16:30e impressão,
16:31a gente vai para impressões
16:32de leitura que está ali.
16:34A regra é a regra
16:35de comunidade linguística,
16:37que é uma coisa muito curiosa,
16:38porque quando você junta
16:38quatro, cinco, seis pessoas,
16:40você começa a formar uma coisa
16:42que ela vai levar
16:42para uma dinâmica de consenso.
16:43Pode ser de senso,
16:44mas normalmente é de consenso.
16:46Então,
16:46quando a gente começa a falar
16:47e ouvir o outro,
16:48essa coisa da dificuldade hoje,
16:50da escuta coletiva
16:51que a gente tem,
16:52mas quando a gente começa
16:53a entrar nessa dinâmica
16:54de toda semana,
16:55todo mês,
16:56estar parando com alguém,
16:57eu li uma coisa e o outro,
16:58a gente tem uma referência comum
17:00que não é a nossa opinião imediata,
17:02você tem um referente externo.
17:04Então, nós estamos criticando
17:05alguma coisa,
17:05pô, não gosto do que o Grijó fala,
17:07o Grijó não gosta do que o Orlando fala,
17:08é uma coisa.
17:09Agora,
17:10o Grijó não gostou
17:10do Machado de Assis,
17:12Orlando não gostou
17:13do Machado de Assis.
17:14A gente para de olhar
17:15um para o outro,
17:15a gente começa a olhar
17:16para um terceiro.
17:17E isso,
17:18ao longo da dinâmica,
17:19isso vai criando
17:19uma potencialização
17:20e vai criando
17:21uma tendência ao consenso.
17:23Porque você vai tendo
17:24os pontos de estranhamento
17:25que vão acontecendo na leitura,
17:27mas a tendência do grupo,
17:28quando ele está funcionando,
17:29a tendência do grupo
17:30é se apegar naquilo
17:31que está consolidando.
17:35Eu me identifico
17:36com o que ele falou,
17:36é mais importante
17:37do que o que eu não me identifico
17:39quando tem um círculo
17:40e quando tem diálogo.
17:41Maravilha.
17:43Eu vejo,
17:44eu vou tentar fazer um gancho
17:47justamente com
17:49essas comunidades
17:50que aparecem na internet,
17:53seja no Instagram,
17:54seja no YouTube,
17:56seja no...
17:57não sei mais,
17:58no Twitter,
18:00comunidades que têm
18:02por objetivo
18:03ler
18:05e discutir
18:06o texto.
18:07Sem nenhum tipo
18:08de metodologia
18:09em que cada um
18:11expõe o que achou,
18:13mas sempre há um mediador.
18:15E esse mediador
18:16pode não ser o mediador
18:17pré-estabelecido,
18:18pode ser o mediador
18:19que tenha surgido
18:20durante o papo.
18:23mal comparando,
18:25mal comparando,
18:26o que você me diz
18:27desse tipo de
18:28ação na internet?
18:31Ela é fantástica,
18:32necessária,
18:34básica,
18:35ela tem que estar
18:35sendo estimulada,
18:36ela tem que estar
18:36sendo provocada,
18:38porque o domínio
18:39do processo de leitura
18:40não pode ser
18:41institucionalizado demais.
18:44a gente vai falar,
18:45poxa,
18:45a gente está construindo
18:46um projeto
18:47que se pretende
18:48de universalização
18:49dos direitos do homem,
18:51igualdade,
18:51liberdade,
18:52fraternidade,
18:53democracia,
18:54a gente tem que criar
18:55o espaço,
18:57os espaços autônomos,
18:58os espaços independentes,
19:00e aí a gente tem que ter
19:01os espaços de regulação.
19:04Hoje a gente fala
19:05muito em ecossistema,
19:06uma das palavras,
19:07ecossistema é
19:07diferença de pensamento.
19:09Certo, claro.
19:10A gente não pode
19:10perder a diferença
19:11de pensamento.
19:11É diversidade mesmo.
19:12Mas não pode virar loucura,
19:14não pode virar
19:14conversa de malucos.
19:15Então, assim,
19:16a função da universidade,
19:18a função da academia,
19:19ela tem que se transformar
19:20um pouco para esse papel,
19:21porque a gente hoje
19:22não está mais num lugar
19:24de estar naquilo
19:25que era a universidade
19:25do século XX,
19:26que a gente está ali
19:27num centro
19:28em que a gente produz
19:29e conserva todo o conhecimento.
19:31O conhecimento não está
19:31sendo mais produzido
19:32imediatamente
19:33dentro da universidade.
19:34Nenhuma revolução tecnológica
19:36hoje está brotando
19:36no estrito do censo
19:37dentro de uma universidade.
19:38São as startups,
19:39vale o silício.
19:40Tudo bem, tá,
19:41a revolução tecnológica,
19:42mas a filosofia,
19:44a literatura,
19:45a arte,
19:46elas continuam
19:47brotando da academia.
19:49Por exemplo,
19:49a economia,
19:50eu sei que a economia
19:51que já brotou da academia,
19:53já brotou das universidades,
19:54com Keynes,
19:56com aquela rapaziada,
19:57hoje a economia,
19:58ela é burocracia política.
20:01Ela nasce da política, né?
20:03Mas existem elementos
20:05que nascem da universidade.
20:08Eu me lembro que eu,
20:10e eu acho que você também,
20:11Orlando,
20:12a universidade foi fundamental
20:13para a gente.
20:14Total.
20:14Ela foi formadora, né?
20:16Eu descobri coisas
20:18na universidade
20:18que eu não descobriria
20:19em lugar nenhum,
20:20em outro lugar.
20:21E, então,
20:23a universidade,
20:24ela tem o seu papel
20:26na parte da arte
20:28e, portanto,
20:28na parte da literatura.
20:31Porque a literatura,
20:32a leitura,
20:33não é só literatura,
20:34mas a literatura,
20:34ela é leitura.
20:36e como é que entra
20:37a literatura especificamente?
20:40Então, assim,
20:40a gente tem uma coisa
20:42que se coloca,
20:43que é a relação
20:45do desenvolvimento
20:46do conhecimento
20:47em ciências humanas
20:48e ciências exatas.
20:49Nas ciências exatas,
20:51a gente costuma
20:52ter uma impressão
20:53de que o conhecimento,
20:55ele passa por um processo
20:56da obsolescência, né?
20:57Eu não construo mais pontes
20:58como eu construía
20:59no século XVIII.
21:00As técnicas evoluíram,
21:01elas mudaram.
21:02Eu não faço uma cirurgia
21:03como eu fazia
21:04no século XIX.
21:06Claro que tem um interesse
21:07que é histórico, né?
21:08Eu vou começar
21:08a estudar medicina,
21:09eu vou começar
21:09a estudar engenharia,
21:10tem um percurso
21:11de pensamento ali,
21:12de construção de pensamento,
21:13mas, sendo pragmático,
21:14eu vou construir ponte
21:15com conhecimento contemporâneo.
21:17E quando a gente vai
21:18para as humanidades,
21:19é como se a gente
21:19tivesse um rocambole.
21:21A coisa mais atual
21:22que eu possa estudar
21:23de literatura
21:24no século XXI,
21:26muitas vezes,
21:26vai ser Platão.
21:29Não consigo escapar disso.
21:30Mais atual
21:31e mais revolucionária.
21:32Mais revolucionária
21:33às vezes é o que é
21:34mais arcaico, né?
21:35Sem depreciar
21:36a palavra arcaico,
21:37mas mais primitivo,
21:38mais antigo,
21:39mais clássico, né?
21:41Ele está sempre
21:42voltando por quê?
21:43Porque a gente está
21:44sempre vivendo
21:45de novos dramas
21:47da existência humana.
21:48E como fazer
21:49um professor
21:49do interior
21:50ler Platão?
21:52Eu gosto hoje
21:53da ideia dos círculos,
21:54eu começo daí,
21:55porque a primeira coisa
21:55é perder o medo.
21:56Eu não vou ler Platão
21:57porque é difícil,
21:58eu não vou ler Platão
21:58porque eu não conheço,
21:59eu não vou ler Platão
22:00porque eu não vou ler,
22:01eu não vou ler,
22:01eu não vou ler.
22:01Se você traz o cara
22:03um dia para uma jornada,
22:04se você traz o cara
22:04um dia para um treinamento,
22:06não sei o quê,
22:06você não pergunta para ele,
22:08você dá um parágrafo
22:08do Platão para ele,
22:10junto com alguém
22:10que gosta, né?
22:12Junto com alguém
22:12que quer envolver a coisa
22:13e tal.
22:14É isso.
22:15Aí vai embora.
22:16Eu acho sensacional,
22:19porque eu vivo,
22:21o meu mundo literário,
22:23didático,
22:24ele é à parte.
22:25Ele não é nem universitário,
22:27porque ele é pré-universitário,
22:28e ele não é ensino médio,
22:29nem ensino fundamental.
22:31Ele é um mundo
22:32muito cruel ali,
22:33porque eu tenho
22:35um programa
22:36que eu tenho que cumprir,
22:38com estéticas literárias
22:40estabelecidas
22:40e fazer o aluno
22:41saber interpretar.
22:43E quando eu faço
22:44o aluno saber interpretar,
22:45eu coloco muito
22:46a minha visão,
22:47a minha interpretação,
22:48e tento buscar a dele.
22:52essa ideia de mediação,
22:53ela é tremendamente democrática,
22:55né?
22:55Porque você busca o cara,
22:57você busca o interlocutor
22:59e o que ele pensa do texto.
23:02A gente usa muito
23:03a referência ao Bakhtin,
23:05ao dialogismo,
23:06e a gente,
23:07pedagogicamente,
23:08a gente tem muita dificuldade
23:09de materializar o diálogo,
23:12diálogo não,
23:12a ideia do dialogismo,
23:14o que ele representa
23:15como estratégia de pensamento,
23:17é porque a gente vem
23:19de uma educação inteira
23:20que ela é o tempo todo
23:22dispositiva, né?
23:23Ela é o tempo todo
23:23a monológica, né?
23:24A gente cresceu
23:25dentro de uma escola
23:26que foi fundada
23:27por jesuítas, né?
23:28Então, a gente quebrar isso
23:31desmonta todo um aparelho
23:32do que a gente tem
23:32de certezas, por exemplo.
23:34Porque a gente entra
23:35numa conversa,
23:35a gente entra numa discussão
23:37tradicionalmente, né?
23:38A dinâmica da cultura brasileira,
23:40eu nunca morei em outro país,
23:41não conheço só o Brasil,
23:43a gente já entra
23:43numa discussão
23:44com o pé meio marcado
23:45do que a gente tem
23:46e o que a gente não pode
23:47abrir mão na discussão.
23:49Eu entrei, né?
23:49É uma disputa, né?
23:51Disputa retórica, né?
23:52Não por acaso,
23:52é uma disputa retórica.
23:53E quando a gente vai
23:54para negociar coisas
23:55que são muito concretas,
23:56aquela coisa da esperteza, né?
23:57Do jogo de cintura
23:58da negociação.
23:59Eu entrei com esse ponto.
24:01E aí, tudo que o outro fala,
24:02parece que vai batendo
24:03e vai desmanchando
24:04nisso que a gente colocou ali.
24:06Quando a gente está
24:06negociando dinheiro,
24:07quando a gente está
24:08negociando propriedade,
24:09trabalho e tal,
24:09isso é verdade, ok.
24:10Faz parte da vida,
24:11é um cenário da vida.
24:13Agora, quando você está
24:14discutindo com uma namorada,
24:17quando você está discutindo
24:17com sua mãe,
24:18se você bota essa barreira,
24:20é um fight.
24:22Você cria um fight eterno.
24:23Perfeito.
24:23Então, a escuta,
24:24ela é um espelho
24:26que a gente precisa ter
24:26dentro da cabeça da gente.
24:28E aí, vem,
24:28a mediação,
24:29ela facilita isso muito.
24:30Porque eu volto a dizer,
24:31você começa a estabelecer
24:32um objeto que não é
24:33imediatamente nenhum sujeito,
24:34nenhum outro.
24:35É o fundo da cultura,
24:36é o objeto da cultura.
24:38Maravilha.
24:39Orlando, esse papo aqui
24:40vai chegar a muitos professores.
24:42Tá?
24:43Vai chegar.
24:44Não, vai chegar,
24:45porque eu envio
24:46para muitos professores.
24:46Você tem circulação.
24:47É, e eu queria muito
24:48saber o seguinte,
24:49se as pessoas
24:51quiserem conversar
24:52com você sobre o assunto,
24:53professores, escolas,
24:55que queiram debater
24:56o assunto,
24:57como que elas fazem?
24:58Como que elas encontram você?
25:00Existe um telefone,
25:01uma rede social,
25:02porque quando você falar,
25:04isso vai aparecer na tela.
25:05Beleza, beleza.
25:06A gente tem um perfil
25:07no Instagram,
25:08que é o
25:09relerefazer.es.
25:11Relerefazer.es.
25:13Tudo direitinho.
25:14Tem o meu perfil pessoal também,
25:16orlandolopes.es,
25:17orlandolopes.es também.
25:19E a gente tem um site
25:20na internet,
25:20que eu acho que é o ponto
25:21de referência principal,
25:22que é relerefazer.org.
25:24Se procurar no Google,
25:26vai aparecer,
25:27ele está em uma busca boa,
25:28ali ele retorna rapidinho.
25:29E ali tem o site,
25:30tem as informações,
25:31tem a agenda do programa.
25:33Ótimo, ótimo.
25:33E estamos muito abertos
25:34a conversar.
25:35Ótimo, ótimo.
25:35Muito, muito obrigado,
25:37Orlando.
25:38Eu vou chamar você aqui
25:39numa outra oportunidade
25:40para a gente falar
25:41sobre poesia.
25:42Sobre poesia.
25:43Porque existe o Orlando Poeta,
25:45autor de Hardcore Blues,
25:46autor de Occidentia,
25:47e eu quero muito
25:49que o Orlando volte aqui.
25:50E ele voltará,
25:51eu tenho certeza.
25:52Pessoal, muito obrigado.
25:53Mais uma vez,
25:54Orlando, valeu, cara.
25:55Venha sempre.
25:56Você será muito bem-vindo aqui.
25:58Pessoal,
25:59até semana que vem.
26:01Mais uma edição
26:02do Vitrine Literária
26:04com o Francisco Grijó.
26:05Um grande abraço a todos.
26:06Valeu, gente.
26:08Você ouveu
26:09Vitrine Literária
26:11com o professor e escritor
26:12Francisco Grijó.
26:14Tudo sobre literatura contemporânea.
26:16Temas, autores,
26:18obras, debates,
26:19análises, curiosidades
26:21e bate-papo
26:22com autores e editores.

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