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  • há 3 semanas
Um papo com a escritora e advogada Carla Guerson sobre livros de estreia, feminismo, mulheres na literatura e fronteira entre prosa e poesia.

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Transcrição
00:01Começa agora, vitrine literária, com professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Tranquilo?
00:24Este é o último programa de 2022.
00:27A próxima temporada vai começar em fevereiro, na primeira semana de fevereiro, com outros convidados,
00:34mas sempre com a mesma temática, que é a literatura contemporânea.
00:39Não só a literatura do Espírito Santo, mas a literatura brasileira como um todo.
00:44Nós estamos então iniciando a última edição de 2022, o Vitrine Literária, podcast e vídeo.
00:53Na página de vídeo do Floreio Vitória e no podcast da TV Vitória.
00:57E no Spotify da TV Vitória.
01:00Bem, hoje eu não vou nem começar fazendo um grande entróito, porque não há muita necessidade.
01:09A não ser uma coisinha.
01:11Durante esse ano de 2022, eu entrevistei algumas jovens escritoras que tinham lançado um livro.
01:20Mas que livro de estreia, né?
01:24São livros de estreia, sim, retumbantes.
01:27São lançamentos de uma importância literária, de uma importância estética muito grande.
01:32Falei pra vocês, esteve aqui no programa a Marcela Guimarães, com A Noiva de Paris.
01:37Esteve aqui a Brunella Brunello, né?
01:40Com o último livro dela, o Bárbara.
01:43E está aqui hoje uma autora que...
01:47Nós estamos fechando o ano de uma forma muito especial.
01:50Uma autora cujo livro de estreia, e é este livro que está aqui na minha mão,
01:55O Som do Tapa.
01:57Essa autora se chama Carla Gerson.
02:00Que deve ser o nome inglês, né?
02:02Imagino eu.
02:03Acho que vem de Gersoni.
02:05Ah, então é italiano, tá italiano.
02:07A Carla escreveu esse livro.
02:10Eu entrevistei a Carla no...
02:11Quando eu tinha o programa Livro Aberto no Instagram, eu levei a Carla lá.
02:17Foi um bate-papo muito importante, porque ele teve uma audiência muito grande.
02:22E a Carla, ela se intitula feminista, a Carla é mãe, a Carla é advogada, a Carla tem uma
02:32série de atribuições, além do fato de ser escritora.
02:37Geralmente, quando as pessoas vêm aqui, eu não me importo com o que elas são fora do
02:41âmbito literário.
02:42Mas eu vou me importar um pouco com a Carla feminista.
02:48Aqui está O Som do Tapa.
02:51Esse livro é sobre ele que a gente vai conversar hoje.
02:54E eu digo, vou começar esse bate-papo, claro, agradecendo a Carla, que está aqui do meu
02:58lado.
02:59Essa é a Carla Gerson, que teve a deferência de vir aqui bater um papo com a gente.
03:06E a minha pergunta para você, Carla, é a seguinte, é a primeira pergunta logo de
03:10cara.
03:14Um livro de estreia é sempre um livro que traz uma certa insegurança.
03:19Embora você tenha lançado esse livro já há três anos, ele ainda é um livro de
03:25estreia, você está com outro livro aí, estou sabendo e a gente vai conversar sobre
03:28ele também.
03:29Mas um livro de estreia, ele traz uma responsabilidade muito grande.
03:35Certo?
03:36Eu li, gostei demais.
03:38Mas eu quero saber de você, o que você pensa de ser uma autora estreante e que motivos
03:46levam você a continuar nesse trabalho árduo, ao mesmo tempo maravilhoso, mas também terrível
03:55que é a literatura, escrever, fazer literatura.
03:58O que leva uma advogada feminista, mãe atarefada a continuar a escrever?
04:06Eu achei uma ótima pergunta.
04:09Não sei.
04:11Eu acho que eu iniciei com o Som do Tapa, a publicação, mas eu escrevo há muitos
04:15anos, né?
04:16Então, talvez eu não seja uma escritora iniciante.
04:19Eu escrevo há muitos anos, escrevo para mim.
04:23Mas realmente, a publicar, eu comecei com o Som do Tapa.
04:28E deu uma insegurança, sim, tanto que eu quis fazer por uma editora e eu não tive coragem
04:34ou ousadia de fazer uma autopublicação.
04:36Eu quis que passasse por uma seleção de uma editora, porque eu tinha dúvida se uma
04:40escrita era relevante.
04:42Porque uma coisa é você escrever para você, escrever para os amigos, outra coisa é você
04:45publicar, né?
04:46Então, eu tinha essa dúvida.
04:48E quando eu fui...
04:49Agora eu estou publicando o segundo e eu pensei, será que eu acho que vai ser mais
04:52fácil e não estou achando mais fácil.
04:54Não sei se é porque é poesia, tem insegurança, não sei, acho que se dizer poeta é uma coisa
05:00corajosa, né?
05:01Talvez adentrar um lugar sagrado.
05:04E eu estou bastante insegura também com as mesmas dúvidas.
05:07Será que a poesia é relevante, vai incomodar, vai tocar alguém?
05:13Eu continuo na mesma.
05:15Por que eu faço isso?
05:17Também não sei.
05:18Eu gosto muito da troca.
05:19Eu gosto de...
05:21Bom, escrever eu não tenho opção, né?
05:23Eu realmente escrevo desde nova e a forma que eu encontrei de exercer é a minha individualidade.
05:29Então, eu não teria como não escrever, sendo eu quem eu sou.
05:33Mas eu poderia não publicar, como eu não publiquei por 38 anos, né?
05:37Então, foi uma opção que eu fiz na época da...
05:40Estava no início da pandemia e era uma forma de me conectar com outras pessoas.
05:45Eu gostei muito disso, me gera muita insegurança, mas eu gosto.
05:49Eu gosto da troca.
05:50Então, acho que é por isso que eu continuo.
05:53As escritoras que estiveram aqui, a Brunella e a Marcela, e vou chamar também, brevemente,
06:00a Aline Dias também, vocês fazem parte de um grupo de jovens escritoras que começaram
06:06de uma forma muito contundente.
06:09A literatura, infelizmente, ela sempre foi uma atividade muito mais masculina do que feminina.
06:17Não porque as mulheres não tivessem condições intelectuais de publicar, mas porque havia
06:22todo um sistema que privilegiava a figura masculina.
06:25Nós sabemos disso.
06:26Historicamente.
06:29Ser uma autora, ser uma autora em Vitória, numa cidade que não lê tanto, que não há tantos
06:38leitores assim, ser uma autora em Vitória, que dificuldades que isso traz?
06:44Eu acho que a gente está passando um bom momento na literatura de autoria feminina.
06:48Ainda existe bastante resistência, mas eu vejo que há um mercado, há uma procura.
06:53Então, a gente tem sido convidada, como estamos aqui hoje, para coisas que talvez há 10 anos
06:57atrás não seria.
06:58Isso não é mérito meu, nem das contemporâneas, é mérito de quem já vem há 20, 30 anos,
07:06batalhando isso aí.
07:07Então, eu acho que é um momento bom.
07:09Vitória, especialmente, tem uma resistência, porque a gente não tem uma livraria mesmo
07:13de rua em Vitória, a gente só tem livraria de shopping.
07:16Então, por exemplo, eu estava me perguntando quando vai estar nas livrarias.
07:18Meu livro está nas livrarias de São Paulo, mas não está em Vitória, porque a gente não
07:21tem livrarias que vendam esse tipo de literatura em Vitória.
07:25Isso é difícil.
07:26Muitas vezes eu me desloco para São Paulo, Rio de Janeiro, para fazer eventos.
07:30Tem usado muito as redes sociais, Instagram, Facebook, até Twitter, para promover o livro,
07:40porque eventos presenciais no Espírito Santo ainda são poucos.
07:43Mas os poucos que tem, a gente está cavando.
07:46Essas moças mesmo que você comentou, a Brunela, a Aline, a gente está junta nos coletivos,
07:51a gente está formando coletivos de escritoras.
07:54Tem um movimento nesse sentido.
07:56Tem o Leia Mulheres, que é um movimento forte também, que a gente tem aqui em Vitória.
08:00Eu sou uma das mediadoras.
08:02E a gente tem feito um trabalho legal, assim, eu acho que é possível, mas realmente é complicado.
08:08Você falou sobre o seu próximo livro ser um livro de poemas.
08:14Eu, quando eu li, quando eu leio, por exemplo, eu li o livro da Brunela, eu não vi.
08:20Exceto em dois capítulos, eu vi muito de poesia ali.
08:25Geralmente, quem faz prosa, faz prosa.
08:27E quem faz poema, faz poemas.
08:29Geralmente, o grande prosador não é um bom poeta.
08:32Claro que há exceções.
08:33Drummond era um grande prosador e era um grande poeta.
08:37João Cabral de Melo Neto, ele é essencialmente poeta,
08:39mas quando resolveu fazer prosa, com aquele famoso Os Três Maior Amados,
08:44ele conseguiu fazer um grande texto em prosa.
08:49Mas o seu livro, ele não tem, ele não é poético.
08:53Embora você trabalhe temas que sejam infinitamente emotivos,
09:04você não é poeta.
09:05Não é uma prosa poética.
09:07Não é prosa poética.
09:07Isso é prosa.
09:10Você sai assim, você dá esse pulo para o poema.
09:14O próximo livro dela, para quem não sabe, é Fogo de Palha,
09:17que está sendo editado neste mês.
09:20Ou seja, neste mês, ele vai para as livrarias.
09:24Quando a gente fala livrarias, é, ele estará à venda,
09:28ele estará acessível a quem se interessar.
09:31É, sair da prosa e ir para a poesia, sim?
09:35Na verdade, foi o contrário.
09:36Quando eu comecei a escrever, eu comecei a escrever poesia.
09:39Era a minha linguagem mais natural, né?
09:41A prosa eu tive que aprender.
09:42Eu fiz cursos, cursos de escrita criativa,
09:44até chegar numa forma de prosa que fizesse sentido para mim,
09:49que a princípio foi o conto.
09:50Mas eu tenho um grave problema, Grijó, que eu sou geminiana.
09:54Isso quer dizer o quê?
09:54Eu não sei se você acredita, eu nem sei se eu acredito.
09:57Não, não, não, eu acho até interessante, mas o que isso quer dizer?
09:59É, isso quer dizer uma pessoa que tem pouco foco, assim,
10:01é uma pessoa que quer fazer tudo ao mesmo tempo.
10:03O geminiano, ele tem muita facilidade de começar projetos, né?
10:06E tem muita dificuldade de decidir para onde fazer.
10:10E eu brinco que eu tenho hiperfoco.
10:11Quando eu estou fazendo uma coisa, eu tenho super,
10:13mas aí talvez no dia seguinte eu já esteja com um foco contrário.
10:17Então eu não consigo me decidir.
10:18Eu escrevo poesia, eu escrevo prosa.
10:20Isso prejudica o seu trabalho como advogada, né?
10:23Também faço, faço tudo ao mesmo tempo.
10:26Eu tenho essa característica de personalidade mesmo.
10:28Sim, mas quando você foca em duas coisas, você está focada nas duas coisas.
10:36Você não prescinde uma em privilégio da outra.
10:41Talvez pela sociabilidade feminina, a gente é criado assim, né?
10:45Aprendendo a fazer várias coisas ao mesmo tempo.
10:47Isso pode ter me ajudado, em algum momento pode ter me prejudicado,
10:50mas hoje eu consigo fazer várias coisas.
10:52Eu não digo que é ao mesmo tempo, mas é na mesma época, vamos dizer.
10:56Eu não consigo escrever prosa e poesia ao mesmo tempo, mas eu consigo na mesma época, entende?
11:03Tipo assim, eu consigo terminar um projeto, como eu terminei esse,
11:06e depois focar no projeto do Fogo de Palha, que é um projeto de poesia.
11:10Acabado aquele projeto, eu inicio um projeto de romance, como eu estou agora escrevendo.
11:14Ótimo, ótimo.
11:14E assim, tem sido natural para mim.
11:16Agora, se eu sou uma boa prosadora, uma boa poeta,
11:19O que vai dizer é o leitor.
11:20O que vai dizer é o leitor, isso aí não se discute.
11:22Por falar em ser boa ou não ser, eu venho aqui, boto meus óculos,
11:28há um conto aqui, há um conto aqui que toca os homens, principalmente os pais.
11:35Não é um conto positivo, não é um conto que traz a ideia do pai,
11:43do pai Pater Famílias, né?
11:47Cadê o conto, gente?
11:49Sumiu.
11:50É possível.
11:51Qual que é o título?
11:52É o Querido Pai, né?
11:54É 80, página 80.
11:55Página 80.
11:57Esse conto, Querido Pai, ele traz a figura masculina como uma figura prejudicial.
12:05Você se intitula uma feminista.
12:07Sim.
12:08Está no seu livro escrito, né?
12:10Feminista.
12:12A figura masculina, ela aparece no seu texto de forma prejudicial,
12:17mas aparece também, há um conto em que a menina fala do tio,
12:21que é de forma positiva.
12:26Mas o homem é um inimigo da mulher criadora?
12:32O homem indivíduo, não.
12:34O homem não é inimigo.
12:35Mas a estrutura machista é, né?
12:38E aí, estrutura patriarcal é uma inimiga.
12:41Porque hoje, para eu escrever, eu tenho que estar lidando ali ao mesmo tempo com uma carreira profissional,
12:48com família, com cuidados da casa, vamos dizer assim, né?
12:51Que mesmo eu sendo uma mulher feminista, me posicionando assim, eu não consigo me livrar de toda a estrutura da
12:56sociedade, né?
12:57Eu acabo, muitas vezes, enredada nesses papéis que me foram atribuídos.
13:02E isso me atrapalha, sim.
13:04Mas o homem, individualmente, não.
13:06Eu tenho bons relacionamentos com homens, né?
13:08Eu tenho um marido com quem eu me relaciono bem, tenho pai, tenho irmão.
13:12Mas, assim, eu creio que a minha experiência enquanto mulher na sociedade é de mais relacionamentos difíceis, problemáticos, do que
13:22de relacionamentos legais.
13:24Entende?
13:24E isso reflete no livro, reflete na poesia.
13:27Então, é um livro que eu não tive a preocupação de vou escrever personagens masculinos problemáticos.
13:32A minha preocupação é eu vou refletir o máximo possível o universo da mulher.
13:35E, com isso, reflete a sociedade, que é a maioria das experiências são experiências difíceis, são experiências problemáticas.
13:43Mas temos, como você mesmo disse, temos o conto do avô também, que é um avô querido, né?
13:48Tem as questões dele, mas é inspirado, inclusive, no meu avô, que é uma pessoa que eu tive um relacionamento
13:52muito bom, muito próximo.
13:54E tem o tio. O tio, inclusive, é interessante porque as pessoas se surpreendem.
13:58Como vem de uma narrativa de várias situações difíceis, tem gente que fica, ai, meu Deus, o que esse tio
14:03vai fazer?
14:03O que esse tio vai fazer? E o tio não faz, né?
14:08Então, tem. Tem, assim, dois ou três ou quatro contos.
14:11Tem contos também que os pais são neutros, né?
14:13Ou avôs ou tios, que não necessariamente é sobre homens problemáticos.
14:20Mas eu tenho mulheres problemáticos.
14:22Sim, sem dúvida. A gente vai entrar nesse ponto agora.
14:25Mas existe um dado que é interessante.
14:28Se você não tivesse colocado na sua biografia como uma pessoa feminista, como uma mulher feminista,
14:35é possível que o leitor, ele vá ler o seu texto com outro olhar.
14:40Talvez.
14:40Né?
14:41O primeiro conto é um conto de dor.
14:45Sim.
14:45É um conto de dor.
14:47E existem contos que são bem-amorados.
14:49Existem contos de mais dor ainda.
14:52Existem contos de angústia, de frustração.
14:54E existem contos, é de altíssimo astral.
14:57Você conseguiu passear, você conseguiu passear por todos esses pátios, né?
15:06Mas o quanto de biografia existe na poesia, a gente sabe.
15:11O texto poético, ele é muito biográfico, ele é muito autobiográfico.
15:16Pode não ser, mas a tendência da expressão sentimental é uma tendência a falarmos sobre
15:26experiências sentimentais que nós temos.
15:28E a prosa?
15:29Eu, para mim, a experiência da poesia e da prosa é muito parecida.
15:33Nas duas, passa por mim.
15:35Todo o texto passa por mim.
15:37Toda a história, tanto na poesia quanto na prosa, passam por mim.
15:42Então, mas eu tenho também um exercício de alteridade que eu brinco que é um exercício
15:47de imaginação.
15:48Eu tenho esse costume, desde novinha, desde a idade da sua filha, de brincar de ser outra
15:53pessoa, né?
15:54Uma coisa meio teatral.
15:55Então, eu misturo muito isso, a ponto de quando eu era realmente jovem, eu às vezes
16:00tinha dúvidas se eu tinha feito aquilo ou se eu tinha imaginado aquilo.
16:03Eu tinha um exercício da imaginação muito forte.
16:06E isso, eu acho que isso eu levei para a literatura.
16:08Então, tanto na poesia quanto na prosa, eu levo muito desse fingimento.
16:13Aí eu lembro daquele poema conhecido, né?
16:15O poeta é fingidor, que finge tão, né?
16:18Que parece até que é dele.
16:20Eu acho que eu exercito dessa forma a literatura.
16:23Eu não sei dizer para você o que é meu e o que não é.
16:25O que não é, é tão meu como se fosse.
16:28E o que é, talvez, é como se não fosse.
16:30Eu misturo realmente muita coisa.
16:32Toda história, todo conto tem alguma coisa minha.
16:35Às vezes pode ser um gesto, pode ser um sentimento.
16:37Às vezes é como eu me imagino se aquilo acontecesse comigo, né?
16:41E os contos que são autobiográficos, que são, por exemplo, do avô e da avó,
16:45são muito autobiográficos.
16:46São sobre a minha experiência com o meu avô e com a minha avó.
16:49Mas os fatos narrados são mentirosos, entende?
16:52Tipo, os personagens são reais.
16:54Mas no conto do avô, por exemplo, eu não tenho nenhuma lembrança de estar pendurada num portão
16:58e o meu avô vim falar comigo.
17:00Eu não tenho lembrança disso.
17:01Mas poderia ter acontecido.
17:02Aquele personagem é o meu avô e eu sou aquela menina.
17:05Mas a gente não teve naquela situação.
17:07Maravilha.
17:07E o que é uma mulher problemática no seu livro?
17:10A gente tem várias.
17:11Eu tenho uma mãe, por exemplo, que é a mãe da Mariana, não sei se você lembra,
17:14que é o conto Que É Isso Que Você Quer, que é uma mãe muito abusiva.
17:18Tanto que o conto é o tempo todo a mãe falando, é uma mãe falando o tempo todo na cabeça
17:21da filha
17:22e essa filha só tem voz quando a mãe morre.
17:25Então é uma mãe problemática, que eu digo, né?
17:27Não é?
17:28Tipo assim, o meu livro não é sobre mulheres perfeitas, por exemplo.
17:31Quase nenhuma é uma mulher boa, vamos dizer assim.
17:34A maioria são mulheres em crise, são mulheres em momentos difíceis, são mulheres que às vezes
17:40não têm uma relação com a maternidade como se romantiza, ou não têm uma relação com o emprego
17:45como se gostaria.
17:47Então, eu acho assim, não é um livro sobre mulheres legais e homens maus, sabe?
17:52É tudo muito misturado mesmo.
17:54O Nelson Rodrigues, que é um grande criador de personagens e de situações instantâneas no dia a dia mesmo,
18:04o Nelson Rodrigues dizia que o problema do tapa não é o tapa em si, mas o som que ele
18:10provoca.
18:12As pessoas olham para o som que vem do tapa.
18:17O que é esse som, o som do tapa?
18:20Eu sei que é um conto, eu sei que...
18:21Sim.
18:22Mas por que o título O Som do Tapa?
18:25O título veio do conto, claro, mas depois que eu escolhi o título, eu elaborei algumas questões
18:31e eu penso que tem a ver com isso que você falou do Nelson Rodrigues, é uma coisa que estava
18:35no meu inconsciente,
18:36eu leio, li bastante o Nelson Rodrigues na minha adolescência, então acho que pode ter influenciado,
18:41mas eu pensei também numa coisa que fica e que atinge sem que necessariamente seja com você.
18:48E assim, quando, se eu te dar um tapa, você vai sentir.
18:51A pessoa que está ali atrás da câmera não sente, mas ele ouve, né?
18:56Então eu acho que o som do tapa, ele alcança mais pessoas do que o próprio tapa.
19:00E aí, essa era a ideia.
19:02A audição extrapolando o tátil.
19:06Exatamente.
19:06Essa é a ideia?
19:07A ideia é essa, que o som é algo que ressoa, é algo que afeta a sociedade como um todo,
19:12enquanto o tapa não necessariamente.
19:14E eu penso que a experiência de ser mulher no mundo tem muito a ver com isso.
19:18Tipo, a gente pode não receber o tapa, mas todos nós conhecemos o som do tapa,
19:24conhecemos algo que respinga na gente,
19:25que a gente ouve mesmo que não tenha acontecido com a gente e que nos afeta, enquanto mulher.
19:30E na sua poesia?
19:32Mesma coisa.
19:33Mesma coisa?
19:33É, a minha poesia é muito parecida com a minha prosa.
19:37Você vai ter poemas narrativos?
19:39Meus poemas, tem muitos poemas que são uma historinha, contando mesmo,
19:43então eu acho que é uma poesia prosada, não sei se isso existe.
19:48Então, embora a minha prosa não seja poética, a minha poesia é prosada.
19:52Eu tenho alguns poemas em terceira pessoa, por exemplo,
19:54que eu acho que é uma forma de contar uma história.
19:59e os temas são muito parecidos com o som do tapa.
20:02O Fogo de Palha é um livro que eu escrevi primeiro do que é o som do tapa.
20:05É um livro que eu, das primeiras coisas que eu escrevi, das primeiras coisas que eu publiquei,
20:09depois eu, claro, acrescentei, fiz um livro, formatei, né?
20:12Mas é a minha experiência, minha primeira experiência literária é o Fogo de Palha.
20:17Eu tenho até atuado, né?
20:19Tá escrito Fogo de Palha.
20:20É uma expressão com a qual eu me relaciono, que tem a ver com isso de se empolgar muito,
20:25e a pessoa fala, ah, isso é Fogo de Palha.
20:27É, a ideia do Fogo de Palha, ela é uma expressão que traz uma certa negatividade, né?
20:31Sim.
20:31Uma certa descrença em relação.
20:34Como é que você lida?
20:35Eu queria saber, você citou durante o papo, como é que você lida com essa sua aura mística?
20:41Porque, é, porque você é um advogado, né?
20:45Você é um advogado.
20:46Você é mãe.
20:48Sim.
20:48Ou seja, são duas atividades que, mesmo que você seja bombardeada pela ideia mística,
20:55pela ideia zodiacal, você acaba não levando tanto em conta,
21:00porque existe um pragmatismo diário que obriga você a trabalhar.
21:05Como é que é essa ligação com esse esoterismo, com essa...
21:11Isso foi engraçado.
21:12Eu converso com você, Carla, eu não vejo isso.
21:14Não, eu não sou.
21:15Foi uma brincadeira, na verdade, que eu fiz a coisa...
21:17Eu rico com isso de ser geminiana, eu coloco que eu sou geminiana.
21:21Exatamente.
21:21Eu me identifico com essa identidade de geminiana, mas eu não sou mística, eu sou zero, eu sou muito pragmática.
21:27Mas fora da minha vida prática, vamos dizer assim, a arte, pra mim, é essa conexão com o não racional.
21:35Sim.
21:35Eu acho que pra várias pessoas.
21:37Eu acho, inclusive, que a arte, ela se aproxima muito de uma experiência religiosa, assim.
21:41Eu acho que a arte é a prova de que Deus existe, sabe?
21:44De que a coisa não é só corpo, de que não é só razão.
21:47Então, a arte, às vezes, tem a capacidade de tocar a gente em lugares que não dá pra explicar.
21:52Então, eu tenho essa experiência com a arte como um todo, não só com a literatura, né?
21:55Com a música, eu me relaciono muito com a música, com a arte, com as artes pláticas.
21:59Mas a literatura, especialmente, me leva pra esse lugar mesmo de conexão, né?
22:04Com uma coisa que foge do racional.
22:07Emocional, sim, espiritual, não sei.
22:09Mas, realmente, mística eu não sou.
22:11O Nelson Rodrigues, voltando a ele, ele dizia uma coisa interessante.
22:14Ele dizia que a arte era o que nos humanizava, né?
22:18Sem a arte, há uma frase, que eu não sei se é exatamente assim,
22:22que sem a arte, nós estaríamos de quatro uivando pra lua no bosque.
22:27Ou seja, a arte é que...
22:29Você tem essa inevitabilidade com a arte também?
22:32Eu tenho e eu arrisco dizer que todo mundo tem.
22:35De repente, a pessoa só ainda não despertou, não tá na área que ela gostaria.
22:41Eu acho, por exemplo, que a cozinha é uma experiência artística.
22:43Eu não tenho essa relação com a cozinha, mas eu vejo que algumas pessoas têm.
22:46Eu tenho.
22:47Às vezes, a jardinagem tem outras formas de expressão artística
22:51que não necessariamente as tradicionais.
22:53Eu acho que todo ser humano tem isso, sim.
22:55É um chamado, é uma coisa que foge mesmo da experiência racional.
23:00Mas é interessante você ter me perguntado, porque realmente o dia a dia faz com que a gente
23:06afogue um pouco isso, né?
23:08Porque você tá tão ocupado em manter as crianças vivas e trabalhar e organizar.
23:14E eu sou gestora, né?
23:15Onde eu trabalho.
23:16Então, tem uma sobrecarga, assim, também emocional nisso aí.
23:20Então, esse momento que eu guardo pra literatura é um momento pequeno na minha rotina,
23:24mas é muito importante.
23:26É um momento que eu anseio por estar ali ou lendo, ou escrevendo, ou conversando sobre
23:30e que me alimenta nesse ponto em que as outras coisas não chegam.
23:35Você lê escritoras?
23:37Quase que exclusivamente.
23:40Clarice, certamente.
23:41Com certeza, com certeza.
23:42Raquel, você lê?
23:43Já li, né?
23:44Bernadette Lira?
23:45Com certeza, Bernadette Lira.
23:47Sueli Bispo.
23:48Sueli Bispo.
23:49As capixavas que você mencionou todas, eu leio.
23:51Eu tenho feito um trabalho desde 2016 de ler quase que exclusivamente mulheres,
23:57justo para incentivar e para aderir, né?
24:00Para ser uma feminista na prática, né?
24:02Não é só no discurso.
24:04E quando eu me decidi escritora, quando eu me vi escritora,
24:08eu fiz um movimento maior no sentido de ler as minhas contemporâneas.
24:12E aí eu tenho feito uma investigação muito grande nesse sentido, assim,
24:16de quem são as mulheres que estão escrevendo hoje,
24:18não só as grandes e conhecidas, né?
24:21Como da Companhia das Letras ou de outras editoras maiores,
24:24mas das editoras menores, como a Patuá, como a Moinhos,
24:28como a editora Urutal, que é uma editora que eu gosto muito.
24:31Eu tenho várias editoras menores que eu tenho investigado
24:34e eu tenho descoberto, assim, mulheres incríveis mesmo.
24:38Essa literatura, é claro que a gente...
24:40Eu vou fazer uma comparação aqui bastante, bastante canhestra,
24:47mas não é uma literatura segregadora em relação aos homens?
24:50Eu acho que não.
24:51Eu acho que eu chamo de política afirmativa.
24:53Em direito, a gente chama assim, né?
24:55É quando uma coisa foi caminhada há muito tempo por um jeito
24:58e aí você precisa fazer uma decisão consciente
25:02de ir para o outro lado para compensar o que não foi feito.
25:07Maravilha.
25:07Então, eu não acho discriminatório.
25:09Eu acho que é uma política afirmativa.
25:10Mas eu leio homens também.
25:11Esse é som.
25:12Ótimo, ótimo.
25:14Carla, chegamos ao fim.
25:15Ai, que bom.
25:16Não, não é bom.
25:17Eu queria poder conversar mais.
25:19Antes, me diga, quem quiser adquirir seu livro, encontra onde?
25:24Olha, o Som do Tapa foi publicado pela Patoar.
25:27Então, você encontra no site da Patoar.
25:29Ou, se quiser adquirir autografado, encontra comigo.
25:32Em Vitória, ele está disponível no Sebo, Cheiro de Livro, que fica aqui no centro.
25:38E o Fogo de Palha vai estar lá também.
25:40O Fogo de Palha vai sair pela Pedregulho.
25:42Ele foi contemplado pela edital da Secult.
25:45Então, nós estamos no processo de produção.
25:47Já tenho aqui o marcador de texto.
25:49E ele vai sair até o final do ano.
25:51Também vai encontrar no site da editora, comigo, pessoalmente.
25:55Ou no Sebo, Cheiro de Livro.
25:57Maravilha.
25:57Gente, fechamos o ano de 2022.
26:01Fechado.
26:02Estaremos de volta.
26:03Agradecer mais uma vez a participação da Carla.
26:06Muito obrigado, Carla, por você ter vindo.
26:08E fechamos o ano.
26:10Em fevereiro de 2023, estaremos de volta.
26:14Com Vitrine Literária, com Francisco Grijó.
26:16Tudo sobre literatura contemporânea.
26:18Pelo Folha Vitória, pelo podcast, pela página de vídeo.
26:22Tudo para vocês aí.
26:24Um grande abraço.
26:26Boas férias.
26:27Eu ter li boas férias também.
26:29E até fevereiro.
26:30Valeu, gente.
26:33Você ouviu Vitrine Literária.
26:36Com o professor e escritor Francisco Grijó.
26:39Tudo sobre literatura contemporânea.
26:41Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
26:49E aí
26:50E aí
26:51E aí

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