- há 2 semanas
Um papo com Pe. Anderson sobre fé, literatura e juventude, em seu livro de estreia: "A Jornada".
Categoria
🗞
NotíciasTranscrição
00:01Começa agora, Vitrine Literária, com professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó,
00:24que você acompanha pela página de vídeo do Furo é Vitória e o podcast da Rede Vitória.
00:32Hoje a gente vai conversar sobre um assunto que muita gente acha que é desconectado da literatura, mas não é.
00:39Aliás, desconectado da arte.
00:41Eu fico pensando uma coisa que eu lanço para você que está me ouvindo e para você que está me
00:47vendo.
00:47Vocês já imaginaram o que seria de Johann Sebastian Bach sem o luteranismo?
00:54O que seria de Beethoven se ele não tivesse escrito, por exemplo, a Missa Solêmenis?
00:59O que seriam as cantatas de Bach, que são cantatas religiosas, sem a religião?
01:06Ou o que seria, por exemplo, os Magnificats, que são em homenagem à Nossa Senhora?
01:10Ou seja, a arte está muito ligada à religião.
01:15Nós temos Leonardo, que é um pintor que todo mundo conhece, pintou a Santa Ceia, pintou outras obras que são
01:25relativas à questão da fé, à questão da religiosidade e, evidentemente, a literatura também entra nessa.
01:32Se a gente for pensar no Brasil, o modernismo brasileiro tem dois autores que são muito importantes para o modernismo,
01:40para a formação do modernismo, e fizeram uma poesia católica.
01:44O Jorge de Lima e o Murilo Mendes, em determinado momento, fizeram uma poesia católica.
01:49Hoje eu tenho aqui um convidado muito especial, que escreveu um romance, cujo tema é o tema da religiosidade.
02:00Independentemente de ser católico, de ser evangélico, de ser budista, de ser xintoísta, de ser judeu, não interessa.
02:07O que interessa para nós é que é um texto sobre religiosidade, claro que é religiosidade católica, porque ele é
02:13um padre, mas nós vamos conversar sobre tudo o que diz respeito à literatura e fé e religiosidade.
02:23Esse personagem que está aqui hoje é uma figura, porque eu tenho um enormíssimo respeito, é o padre Anderson, que
02:30está aqui.
02:31Muito obrigado, padre, por você ter aceitado o convite de vir aqui, né?
02:34E o livro é esse que está na minha mão, que eu li já tem mais ou menos, já faz
02:39mais ou menos uns dois meses.
02:40O livro se chama A Jornada, Águas Profundas.
02:44Fiquei sabendo ontem, não por padre Anderson, que é uma trilogia.
02:49Claro que eu entendi que era um livro que não acabava em si mesmo, porque ele termina já abrindo para
02:56um próximo volume.
02:57Porém, eu não sabia que serão três volumes.
03:00Aqui está o texto A Jornada, Águas Profundas.
03:04E eu lanço logo uma pergunta para o padre Anderson, que é a seguinte, o livro trata basicamente sobre a
03:11ideia de alguém que se converte.
03:13Certo?
03:14Um menino chamado Diego, que se converte.
03:18Interessante é que Diego, a origem de Diego é Jacó, né?
03:23Então, sendo a origem Jacó, já tem uma conexão bíblica.
03:26E eu não, desculpa, eu não sabia disso.
03:28Não, para o livro, Diego, Tiago, Jaques, tudo isso tem ligação com Jacó, mas isso não é importante.
03:36O importante é o fato de você ter escrito uma obra que tem como pano de fundo a religiosidade e
03:44adolescentes.
03:46Isso é que é sensacional.
03:47Eu queria que você começasse dizendo o seguinte, como é que surge isso e qual a necessidade disso?
03:53Bom, em primeiro lugar, prazer em estar aqui, é uma alegria muito grande.
03:56Também entrei nas bases, né, diante da sua história de vida.
04:01Também foi meu professor e assim por diante, nesta área da literatura.
04:05Nunca pensei em escrever nada.
04:08Nunca pensei em escrever livro.
04:09Mas, por outro lado, começou a surgir o quê?
04:11Um desejo de trazer a teologia para a vida prática das pessoas.
04:16Eu tenho uma facilidade, nas minhas pregações, de trazer o cotidiano.
04:21O cotidiano para o mundo bíblico.
04:24E, ao mesmo tempo, pela igreja, eu tenho uma formação teológica um pouco no início do cristianismo,
04:29que são os pais da igreja.
04:31Então, a ideia surgiu o quê?
04:33De tentar trazer o dia a dia do ser humano à luz da palavra de Deus.
04:38Como trazer a palavra num mundo concreto?
04:41Porque a gente acha que a Bíblia é uma história do passado, antiga, lá atrás,
04:45e que alguma coisa de outra a gente toca.
04:47Mas eu não.
04:48Eu criei uma história de pessoas que têm conflitos reais, existenciais,
04:56para que possam lidar com o evangelho hoje.
04:59Na verdade, os jovens dessa obra...
05:03A obra não é pra jovem.
05:05A obra, o jovem nada mais é do que o ser humano de hoje.
05:10É a metáfora da vida.
05:11Os jovens representam o homem de hoje, o ser humano de hoje, com as suas crises,
05:16com os seus vazios, com as suas perguntas, indagações.
05:19E que questiona a fé, questiona a religião, questiona o cristianismo, de modo especial.
05:25Então, o ser humano hoje, que eu ponho na boca do jovem,
05:28que tem a oportunidade de bombardear a fé cristã.
05:32É, isso aí eu pude notar.
05:34Não tenho melindres, não.
05:35Eu ponho na boca deles aquilo que eu ouço das pessoas.
05:39Eu sou uma pessoa que procuro ler o ser humano, eu falo para os seres humanos,
05:44então eu procuro conhecer a realidade do homem de hoje.
05:48O que eles falam? O que eles pensam?
05:50Fora da minha casinha, da minha caixinha de padre.
05:53Então, eu coloco na boca desses jovens aquilo que você, do outro lado ali,
05:57questiona enquanto religião, enquanto fé, enquanto dogma, enquanto tudo.
06:02Não tenho melindres.
06:03É, o que me chamou a atenção foi, primeiro, a estrutura da obra.
06:07Você cria um narrador com o nome de Mateus, que também é um personagem bíblico, né?
06:13É um evangelista, né?
06:14Você cria um personagem que é um narrador e que é um padre e que tem a sua idade.
06:22Isso aí eu achei interessante, o fato de esse narrador ser uma continuidade sua.
06:29Ele não é você.
06:30Ele é muito próximo de você.
06:32Próximo, muito próximo.
06:33E esse padre, ele leva jovens para uma jornada, a jornada da juventude.
06:39Eu fui ler sobre a jornada, porque eu não conhecia.
06:41Eu não sabia o que era a jornada da juventude.
06:43Fui ler sobre isso.
06:44É um negócio que já existe há muito tempo e é uma coisa interessantíssima.
06:48Fala a criação desse narrador.
06:50A criação desse narrador baseado na sua experiência.
06:53Então, talvez por falta de conhecimento de escrita, os personagens se parecem muito comigo.
07:00Quem me conhece pregando, às vezes, acha que o padre Mateus, no caso, sou eu.
07:04E eu tento, no percurso da história, desvencilhar um pouco essas características.
07:09Então, tem alguns que perguntam, padre, você tem uma irmã que morreu?
07:11Porque as pessoas pensam que esse padre Mateus seja eu.
07:14Então, na verdade, esse padre Mateus é um sacerdote, é que, embora tenha um conhecimento,
07:19no caso, teológico que eu tenho, e que ele vai, então, levar esse grupo de jovens para a jornada.
07:24A jornada mundial da juventude, ela começou com o Papa João Paulo II, com o objetivo de reunir a juventude
07:30do mundo inteiro.
07:31Eu já fui há três jornadas.
07:33Já fui a Sidney, na Austrália, já fui em Madrid, na Espanha e aqui no Rio de Janeiro.
07:39Há pouco tempo, agora, o Papa Francisco fez em Portugal.
07:42Então, a jornada tem uma metodologia, ela tem um formato.
07:46É aquele formato mesmo do romance?
07:47É, embora eu modifique um pouco a estrutura, porque eu trago um pouco mais high-tech.
07:52Eu atualizo a metodologia da jornada a partir da tecnologia.
07:57Então, eu coloco alguns elementos aqui que não estão.
08:00Mas, quando eu ia para a jornada, por exemplo, saia daqui do Espírito Santo,
08:04a gente ia...
08:04Ah, por exemplo, a jornada é em Portugal.
08:07Então, uma semana antes, a gente ia para um lugar de retiro.
08:11Fazia uma semana de retiro, uma semana de jornada e depois fazia a pós-jornada, que era passear.
08:17Que era muito longe.
08:19Nada mais justo.
08:19Nada mais justo.
08:20Daí foi surgindo a trilogia.
08:22Então, já que eu vou para... A jornada é em Jerusalém,
08:26eu vou uma semana antes na Galileia.
08:29O padre tem a oportunidade na Galileia.
08:31O segundo livro é a jornada que é em Jerusalém.
08:35E a terceira é a consequência depois que é a viagem.
08:38Com os mesmos personagens?
08:39Com os mesmos personagens.
08:41E vão crescendo, vão agregando.
08:42Na verdade, eu não sei como vai terminar.
08:45Que é...
08:45O que, aliás, é um desafio, né?
08:48É um desafio.
08:49Você não tem o roteiro pronto.
08:50Não, não tenho.
08:51Me diga uma coisa.
08:52Você fez, você fez nesse livro, o que a literatura clássica faz.
08:58Se você teve algum tipo de intenção, se você teve alguma orientação, isso não interessa.
09:05O que interessa é a obra em si.
09:07Você pegou dois personagens masculinos, mais ou menos de mesma idade, em que um se converte.
09:15Um entende o que é a água profunda e resolve mergulhar.
09:19Sim.
09:20O outro é aquele que quer retirar.
09:22Ele quer retirar o amigo da água profunda.
09:24Sim.
09:27Essa ideia clássica do romance, do antagonista e do protagonista, ela surgiu do dia a dia também?
09:36Do dia a dia, da prática.
09:37Na verdade, sim.
09:38Padre Mateus leva um grupo de jovens para a jornada mundial da juventude na Terra Santa.
09:43Esse personagem principal é o Diego.
09:46Ele não é religioso.
09:48Ele não vem de igreja.
09:49Ele não tem histórico nenhum.
09:51Ele, por acaso, conhece o padre numa missa porque a namorada o levou para lá.
09:55Isso a gente ouve direto nos atendimentos.
09:58Isso é comum?
09:59Isso é comum.
10:00Pessoas que, por acaso, ouviram a música, ouviram a pregação, ouviram, não sei, por causa da namorada.
10:05Ou por causa do namorado.
10:07Meninas que vão para o namorado.
10:08Os relacionamentos fazem as pessoas mudarem de igreja ou aceitarem igreja.
10:13É o relacionamento.
10:14Ou é amizade ou é namoro.
10:16Quantos casais que, pela relação, levou o outro.
10:20Então, o Diego vai um dia na missa por causa da namorada.
10:24Ele ouve a humilha do padre falando da jornada anterior e ele se encanta com aquilo.
10:30Porque ele não está acostumado com a linguagem religiosa.
10:32Ele acha que a igreja é uma linguagem chata.
10:35Sabe?
10:36Não o atrai.
10:37Nunca foi educado para isso.
10:38E, de repente, ele mesmo se vê e começa a conversar com o padre.
10:42E o padre o convida para a jornada.
10:44Só que tem custos.
10:46Exatamente.
10:47Custos.
10:47E o padre começa a movimentar na comunidade para poder bancar para esse jovem ir.
10:52Só que ele nem imaginava que esse jovem iria chamar os seus amigos, que também não são.
10:59Aí tem um protestante, tem um agnóstico a princípio, que é o Rodrigo, que ele tem dificuldade.
11:07E eles entram.
11:08Só que eles vão para essa jornada com o objetivo de quê?
11:11Vou fazer uma viagem internacional.
11:13A custo mais baixo.
11:14A custo mais baixo.
11:15Nós vamos aturar um pouco esse padre chato falar um pouquinho, as orações.
11:20E depois a gente vaza para o rock.
11:21É essa a ideia.
11:23Essa foi a rede de fisgar.
11:25E eles vão.
11:26Só que no percurso, o Diego, ele vai entendendo.
11:32Porque ele nunca ouviu aquilo.
11:34Diego é um ser humano que cresceu na vida, alheio à palavra de Deus, alheio à religião.
11:41E ele aprendeu que aquilo que ele sabia era a vida dele.
11:44Ninguém nunca falou para ele que pode ser diferente.
11:48E ele entra em choque porque ele sempre achou que a vida, a felicidade, os costumes, era aquilo e satisfazia.
11:55Até o momento em que ele é despertado para algumas situações que jamais alguém disse para ele.
12:02E você retira isso também do dia a dia.
12:04Dia a dia.
12:04Porque a criação literária, a criação literária, ela é do que a gente vê, do que a gente sente, do
12:10que a gente observa, do que a gente experimenta.
12:14A criação literária é isso.
12:15100% dos meus personagens é do povo, é do dia a dia.
12:19É isso que eu queria saber.
12:20100% dos comentários, das indagações, das reclamações é do povo.
12:25Atendimento direto às pessoas em todos os sentidos, virtual ou presencial.
12:30São os dramas, são os dilemas.
12:32Que Deus é esse, onde esse Deus está, diante das minhas dores, das minhas alegrias.
12:37E há um dado que eu achei interessantíssimo no livro.
12:40Já vi em outros livros, mas você é muito mais próximo, né?
12:44Você é um capixaba.
12:46Eu já assistia missas, né?
12:48Em que você capitaneou.
12:50Então, é muito mais interessante quando se lê um texto a partir daí.
12:57O padre Mateus, ele é um didata.
13:00Ele é um didata, ele é um professor.
13:02Porque, além de ele levar os meninos e apresentar a eles,
13:07durante os papos com os meninos e as indagações e as curiosidades,
13:12alguns não gostam, mas a maioria gosta,
13:16ele explica cenas da Bíblia,
13:19ele explica grandes pensadores religiosos,
13:23você cita pensadores com muita propriedade.
13:27Você acha que isso é interessante para o jovem?
13:32O que me atrai, eu sou muito racional.
13:35E eu falo para muitas pessoas racionais.
13:37Eu gosto de fundamentar a minha fé.
13:39Eu gosto de ter pensamentos que fundamentam a minha fé.
13:43O ser humano hoje, embora seja muito volátil, muito, sabe, líquido,
13:48mas muitos querem argumentos, eles querem fundamentos.
13:53E o ser humano hoje, embora seja emocional, mas ele é muito racional.
13:56Então, eu venho trazer respostas concretas e argumentos concretos,
14:01argumentos racionais, embasados, lógico, nos padres da igreja.
14:06Mas você acha que é possível a racionalidade e fé ficarem juntas?
14:10Eu sou assim, filho.
14:11Se não fosse possível, eu não existiria.
14:13Eu sou profundamente racional.
14:15A minha fé, para que eu possa acreditar,
14:18lógico, há um momento em que eu ultrapasso,
14:21olha, a razão vem até aqui,
14:23daqui por diante, então, eu acredito ou não acredito?
14:26Ou eu creio ou não creio?
14:28Por exemplo, a Eucaristia, como padre, ao celebrar a missa, eu consagro.
14:31Eu tenho toda a fundamentação teológica tradicional da igreja,
14:35da tradição, tudo.
14:36Tenho tudo hoje, como conhecimento.
14:39Só que eu não tenho a prova empírica.
14:41Isso.
14:42Eu não tenho a prova empírica.
14:44A ciência, se pegar a hoxa antes e depois da consagração, é a mesma coisa.
14:47Sem dúvida.
14:48Aí chega uma hora em que eu decido, eu vou acreditar.
14:51Aonde, ou seja, a minha razão me levou até aqui,
14:54mas chega o momento em que eu dou um passo.
14:56Não, ou eu acredito ou não acredito.
14:58Mas os personagens são bem interessantes aí,
15:01porque não é uma questão de opção.
15:04Ou seja, eu vou acreditar.
15:06Não.
15:06O Diego, ele é levado a acreditar,
15:11porque ele é convencido pela palavra.
15:14Ele é convencido.
15:15Alguma coisa o ilumina,
15:17e ele, então, vai passar a ser um crente.
15:20Ele é convencido porque a história de vida dele,
15:24que ele achava que era real e feliz,
15:27ele percebe que existe uma outra possibilidade que ele não conseguia,
15:31que ele não sabia.
15:32E ele começa a experimentar, ele dá um passo para aquilo.
15:35E aí, então, ele percebe, pô, é real.
15:38Isso é verdade.
15:40É possível isso, então.
15:42Eu gosto muito quando chega no Mundo das Biaventuranças,
15:45que é o caminho da felicidade.
15:46Todo mundo quer ser feliz aqui.
15:48Todo mundo quer ser feliz,
15:49mas ninguém consegue, às vezes.
15:51Ou, às vezes, o critério que eu tenho de felicidade
15:55não me traz a felicidade que eu quero.
15:58Até o momento em que eu coloco,
16:00a partir de Cristo,
16:01o que é felicidade para o ser humano?
16:04Aí, Diego imaginava que a vida dele feliz
16:07era curtir, balada, não sei o quê,
16:08pegar, namorar.
16:09De repente, ele é jogado no questionamento
16:12em que felicidade é em outro parâmetro.
16:15E aí, o próprio Rodrigo vai questionar,
16:17mas, peraí, você quer me convencer que ser feliz
16:19é ser pobre, chorar, ser aflito, misericordioso?
16:22Pelo amor de Deus!
16:24Essa é a linguagem do ser humano que não entende.
16:26E aí, o Diego vai, aos poucos, entendendo e percebendo.
16:30E ele vai dando sim.
16:31Só que não é fácil.
16:33Ele luta.
16:34Ele luta.
16:35Porque o que eu coloco aqui
16:37é a conversão de um ser humano.
16:41Só que ele está perdendo muita coisa
16:42por causa dessa conversão.
16:44E é difícil eu abrir mão
16:46daquilo que, para mim, até então,
16:48era tão sagrado.
16:49Minha amizade, as pessoas queridas,
16:51que não querem seguir o mesmo caminho que eu.
16:54E, ao mesmo tempo, eu estou encantado.
16:56E ele fica entre o fogo e a espada.
16:59O que eu faço?
17:00Sigo aquilo que eu estou sentindo que é gostoso,
17:03mas que eu não tenho certeza ainda
17:04do que vai aonde vai dar.
17:05Em contrapartida, eu vou ter que perder isso daqui.
17:08A fé traz muito esse dilema, né?
17:09Traz, traz.
17:10A fé traz muito.
17:11Você explora isso bem no livro?
17:12Jesus disse,
17:13vinde a mim, renunciar a si mesmo,
17:15renunciar às pessoas.
17:17Tem a passagem do jovem rico,
17:19que chega para Jesus Cristo e diz,
17:20eu quero, olha,
17:21o que eu faço para conseguir a vida eterna?
17:23Ele fala,
17:25observa os mandamentos e...
17:26Mas eu faço isso, mas ainda estou vazio.
17:29Então, vende tudo o que tens,
17:30dá aos pobres e me segue.
17:32Ele não consegue.
17:33Ele vai para casa triste.
17:35A radicalidade do evangelho é difícil.
17:39Ela exige de nós um desapego.
17:41Nós estamos no mundo,
17:42mas nós não somos do mundo.
17:44Porque muitas vezes nós somos criados
17:46como se o mundo fosse a minha realização plena.
17:49Eu tudo estou aqui.
17:50Os prazeres se confundem com o divino.
17:54Os prazeres têm poderes divinos de saciedade
17:58a ponto de prescindir outra coisa.
18:00Você não coloca, você não coloca no romance
18:03a ideia de alguém que precisa abrir mão.
18:07Não há um personagem, pelo menos eu não percebi,
18:10um personagem que tenha aberto mão
18:12de prazeres, prazeres materiais
18:15e que tivesse abdicado disso aí
18:17por conta da fé.
18:18Você não coloca, né?
18:19Eu senti essa necessidade de ter um personagem
18:23que é aquele realmente que descobriu isso.
18:27Que na verdade é a figura do padre.
18:29Mas do jovem, que é a figura do padre.
18:32Mas o jovem mesmo, um personagem próprio ali
18:35ainda talvez não surgiu.
18:36No segundo, que eu já estou escrevendo,
18:39eu entro um personagem novo que não está aqui.
18:42Que não está no primeiro.
18:43Não está no grupo?
18:44Que não está no grupo.
18:45Que ele vai encontrar,
18:46que o Diego vai encontrar na jornada.
18:48Que ele encontra.
18:49Brasileiro?
18:51Brasileiro de São Paulo.
18:52Brasileiro de São Paulo.
18:54Que ele não sabe ainda,
18:55mas será um seminarista.
18:57Será um seminarista que ele encontra por acaso,
19:00ele fica meio perdido,
19:02ele encontra e ao mesmo tempo
19:04que esse menino leva a pensar.
19:07E que vai encontrá-lo depois mais na frente.
19:09Não vamos nos antecipar.
19:12Por quê?
19:14Eu quero insistir nisso aí.
19:17Onde estão os adultos?
19:18Além do padre Mateus,
19:20onde estão os adultos no texto?
19:22São os leitores?
19:24Os leitores não estão no texto.
19:26Como eu pego a metodologia da jornada,
19:28a jornada é para jovens.
19:29Só?
19:31Geralmente a maioria é jovem,
19:32embora é aberta às pessoas adultas.
19:35O jovem é o momento da transição da nossa vida
19:39que vai dar percurso a tantas situações.
19:41Por isso eu trago os personagens jovens,
19:44que se você for um adulto que for ler esse texto,
19:48vai sentir a sua vida ali de uma forma ou de outra.
19:51É impossível você não se ver,
19:52porque o jovem ali é o cheio da vida,
19:55é o símbolo da vida.
19:57Então, todo mundo tem vida,
19:59seja qual for, na idade adulta.
20:01Eu, por exemplo, encontrei um atendimento na vida,
20:04um adulto de cinquenta e poucos anos,
20:07que tem sucesso, riqueza,
20:10todos os prazeres da vida,
20:12mas vazio.
20:13E vem sentado na minha frente,
20:15um homem muito realizado,
20:16profissionalmente, sexualmente,
20:17e diz,
20:19eu tenho tudo, mas eu estou vazio,
20:21eu não sei.
20:22Tive todas as mulheres e posso ter o que quiser.
20:25E aí eu chego para ele e falo assim,
20:26meu filho, você teve tudo,
20:28mas você nunca teve amor na vida,
20:29você nunca amou.
20:30Você não sabe o que é amar.
20:32E como padre,
20:33eu tenho o convencimento cada vez mais,
20:34e é o meu objetivo,
20:35de ensinar,
20:36não ensinar,
20:37porque também estou aprendendo,
20:38mas trazer para as pessoas
20:40a didática do amor.
20:42O que é amar?
20:44Porque amar pode se confundir
20:46com o desejo.
20:47Sim.
20:48No mundo grego,
20:49nós temos lá três níveis de amor.
20:50Isso.
20:50A filia, o eros e o ágape.
20:52Isso.
20:52Filia e eros,
20:54ninguém ensina.
20:56Filia e eros,
20:57é da natureza humana.
20:59Eu vou ter amizade natural,
21:01ninguém precisa me ensinar,
21:02eu vou ter amizade a você.
21:04Eu vou ter desejo por você
21:06ou por outra pessoa,
21:07naturalmente.
21:08Naturalmente.
21:08Ninguém ensina filia e eros.
21:11Ensina-se o ágape.
21:14E quando Cristo diz,
21:15amar uns aos outros,
21:16o verbo é o ágape.
21:18Ou seja,
21:18agapai-vos uns aos outros.
21:21E é o ágape que,
21:22na verdade,
21:23que é a natureza do ser humano.
21:25Assim como o cachorro nasceu,
21:26talvez,
21:26para latir,
21:28a mangueira dá para a manga,
21:30o ser humano nasceu para amar.
21:31Mas que amor?
21:33Ágape.
21:34Não eros.
21:36O eros faz parte
21:37da nossa natureza.
21:38Nós nascemos e sabemos
21:40que uma hora,
21:41na adolescência,
21:41vai despertar os hormônios
21:43e eu vou querer ter alguém.
21:45Só que uma hora,
21:46eu tenho que aprender
21:47a ser ensinado ao que?
21:48Ao ágape.
21:49E o Diego,
21:50ele vai sendo ensinado,
21:52justamente,
21:53a esse personagem,
21:53que é o ser humano de hoje,
21:55a entender o sentido da vida,
21:57que é o ágape.
21:58E ele,
21:59num certo sentido,
22:00o ágape,
22:01ele vai anulando um pouco
22:03o eros
22:03do Diego.
22:05Do Diego, né?
22:07Eu só posso dar esse spoiler.
22:09Eu pensei,
22:10quando comecei a escrever,
22:11pensei que talvez o Diego
22:12virasse um padre no final.
22:15Eu já descartei essa possibilidade.
22:17Eu não ia gostar dele padre, não.
22:18Não, por quê?
22:18Eu acho que é outra coisa.
22:19Mas eu sou um leitor.
22:21Não, não, não.
22:21Eu não quero,
22:22porque se dá a ideia
22:22de que a conversão
22:23só se leva para esse lado.
22:25Eu quero colocar o Diego,
22:27um ser humano,
22:27no mundo.
22:28Lógico,
22:29a princípio,
22:29ele vai,
22:31não vai perdendo o seu eros,
22:33mas ele vai entendendo
22:34o lugar do eros.
22:36Qual o momento agora?
22:37O momento agora
22:38não é o eros.
22:39Eu estou com vontade
22:40de outra coisa.
22:42Eu estou com desejo de...
22:43Tem um desejo em mim
22:44que me dá um prazer
22:45muito maior
22:46e eu quero me entregar
22:48inteiramente a ele.
22:49Só que ele vive
22:50um conflito profundo.
22:52Padre Anderson,
22:53o nosso tempo acabou.
22:55Já?
22:55Não, mas calma.
22:56O nosso tempo acabou,
22:57mas nós vamos ter
22:58um outro programa
22:59agora em seguida.
23:00Caramba!
23:01Então eu vou agradecer
23:02as pessoas que estão
23:04acompanhando.
23:05Nós vamos parar aqui
23:06e vamos,
23:07na semana que vem,
23:09ter a continuidade
23:10desse papo
23:12magnífico,
23:13de aprendizado
23:13muito grande,
23:14pelo menos de minha parte,
23:15e eu espero que da parte
23:16de vocês também,
23:17de aprendizado sobre,
23:19não só sobre
23:21a ideia de fé,
23:23mas também
23:23de como criar
23:24um romance
23:25em cima
23:26dessa temática.
23:28Na próxima semana,
23:29Padre Anderson,
23:30de novo com a gente
23:32aqui no Vitrine Literária
23:34com Francisco Grijó.
23:35Até a próxima,
23:37fique ligado,
23:37porque ele vai voltar,
23:38ok?
23:39Um abraço, gente!
23:41Você ouviu
23:43Vitrine Literária
23:44com o professor
23:45e escritor
23:46Francisco Grijó.
23:47Tudo sobre
23:48literatura contemporânea,
23:50temas,
23:51autores,
23:51obras,
23:52debates,
23:53análises,
23:54curiosidades
23:55e bate-papo
23:56com autores
23:56e editores.
23:57Música
23:58Música