- há 2 semanas
Segunda parte do papo com uma das mais importantes escritoras brasileiras, Bernadette Lyra, sobre mulheres na literatura, Espírito Santo, cinema e, claro, literatura.
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora, vitrine literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, essa é a segunda parte da entrevista com Bernadette Lira.
00:25Vocês se lembram de que na semana passada nós tivemos um programa de 25 minutos no qual nós conversamos sobre
00:33alguns livros de Bernadette,
00:35sobre a visão dela sobre o conto, a visão dela sobre o romance, o trabalho dela com o cinema.
00:39Aliás, o trabalho dela com o cinema foi o que fechou justamente o primeiro programa.
00:45Lembrando que Vitrine Literária com Francisco Grijó está disponível no Spotify, no YouTube, na página de vídeo do Folha Vitória,
00:53aqui pela TV Vitória.
00:54Então eu vou dar continuidade a partir do meu questionamento com Bernadette.
01:00Bernadette que é doutora em cinema pela USP, doutora em cinema pela Sorbonne, ou seja, Bernadette tem uma autoridade para
01:08falar sobre cinema,
01:09porque é professora de cinema também.
01:11Mas o programa é sobre literatura.
01:14Isso quer dizer, eu vou falar de literatura e de cinema porque são artes que se comunicam.
01:19E o que eu havia dito na primeira parte da entrevista, de que há um livro de Bernadette chamado O
01:26Jardim das Delícias,
01:27que é um livro tremendamente cinematográfico.
01:30Há, por exemplo, um conto cujo título eu acabei de esquecer, mas é um conto no qual as coisas se
01:37invertem.
01:38Um pai chega em casa cantando porque foi despedido, o cachorro pensa, a mãe...
01:43Ou seja, é também cinematográfico, é dramático no sentido de que ele trabalha a ação, trabalha a questão teatral.
01:51Há um conto chamado Lobos Essenciais, que eu acho uma obra-prima, mas todos eles, pelo menos na minha leitura,
01:58têm uma ligação muito forte com o cinema.
02:01Então, a gente continua a partir daí.
02:04Aí você me falou, Bernadette, que o cinema está na sua vida antes da literatura.
02:09Mas você pegou toda a...
02:12A teoria cinematográfica não atrapalha você?
02:15Ao invés de ajudar você na confecção do texto, ela não tolhe, ela não limita você?
02:23Não, por quê?
02:25Aquilo que a gente disse, na vez passada, sobre o cinema estar muito na minha vida, faz parte,
02:33é um desses tijolinhos que me constroem.
02:37Eu sou feita de pedacinhos, de fragmentos, de fragmentos de minhas lembranças, das minhas memórias,
02:45fragmentos de mim mesma, da minha vida, da minha vida.
02:47Como disse o Oswald de Andrade, sete vezes partida.
02:55Muitas vezes partida, minha vida.
02:57Mas a teoria não me atrapalha, porque, na verdade, não sei, eu sou muito de contar histórias, Grijó.
03:05Curtas.
03:06Curtas, porque é por causa dessa ideia de fragmentação que eu tenho.
03:11Porque eu penso assim, a respeito do cinema, é uma arte maravilhosa, é aquilo que traz vida,
03:19como eu já falei da vez passada com você.
03:22Traz, não, encena a vida.
03:24A fotografia, por mais maravilhosa que seja, ela é fixa.
03:30Ela tem vida dentro dela, mas ela congela.
03:34O Roland Barthes dizia que a fotografia se aproxima da morte, né?
03:37Porque aquela cena não vai se repetir.
03:40Interessante, porque o cinema se faz em tese com a fotografia.
03:44É, sem fotografia não tem sentido.
03:46Então, ou seja, a morte que gera vida, né?
03:49É, é boa, boa a sua colocação.
03:51Agora, além do cinema, Bernadette, existe a história.
03:55A história.
03:56E você é uma apaixonada por construção da barra,
03:59mas você é uma apaixonada também pelo Espírito Santo.
04:02E como?
04:03Você escreveu um livro intitulado A Capitoa, que é o Espírito Santo,
04:09que é a figura da mulher.
04:11Você fala um pouco desse livro pra gente?
04:12Falo.
04:13É a segunda edição, a capa não é da primeira.
04:17Pra quem está vendo aí, ó, A Capitoa, pra quem está nos vendo, né?
04:20A Capitoa, depois Bernadette vai falar onde a gente pode encontrar os livros dela.
04:26Tem cidade.
04:26Isso é o mais difícil.
04:27Fique ligado, porque a gente vai falar disso aí.
04:28Mas a Capitoa trata da vida de uma mulher mais do que da vida de dona Luísa Grimaldi,
04:37Grinalda Grinaldi, que é a terceira donatária da Capitania do Espírito Santo,
04:43com três sobrenomes, porque eu não encontrei nas minhas pesquisas históricas pra fazer.
04:48Eu levei quatro anos pesquisando pra fazer um livrinho desse tamanho.
04:53A Capitoa era como os índios, os juízes, os meirinhos, os padres,
04:59chamavam dona Luísa, que alguns dizem que é Grimaldi,
05:04outros que é Grinalda, outros que é Grinaldi.
05:08O sobrenome varia por causa da época.
05:11Ela é de 1500 e lá vai pancada,
05:16ela veio pra aqui com o marido, o segundo donatário da Capitania do Espírito Santo,
05:21Vasco Fernandes Coitinho, filho, não era o velhão.
05:25Não era o velhão. Velhão foi o primeiro, né?
05:27Era o filho, porque os filhos legítimos dele não queriam vir pra cá.
05:31E aí ele veio, ele era o filho da amante do pai,
05:36que o pai trouxe a amante porque a mulher dele também não quis vir pra cá.
05:42Uma insurreição familiar.
05:44O Espírito Santo já nasceu assim.
05:47Maravilha, né?
05:48O nosso estado é maravilhoso.
05:49Olha, Grinaldi, eu sou apaixonada mesmo pelo Espírito Santo.
05:52Eu, quando eu morava em São Paulo, né?
05:55Agora que eu tô pousada em Vitória.
05:59Se vou sair, não sei, mas eu tô mais quieta aqui um pouco.
06:02É a idade, o tempo, o cansaço.
06:04Então, Vitória é meu abrigo, é meu cais.
06:07É o cais da minha vida, sete vezes partida.
06:11Na verdade, quando o avião passava por cima do Rio Itabapuana,
06:16eu, ah, o Rio Itabapuana, gente, estão entrando no Espírito Santo.
06:21Eu me dava conta que, de vez em quando, eu fazia essa cena dentro do avião.
06:26Todo mundo olhava espantado.
06:27Aquela senhora ali, tava quietinha.
06:30De repente, ela, ah, o Rio Itabapuana.
06:32Como se o Rio Itabapuana.
06:34Porque era, como batia meu coração quando eu vi.
06:36E isso se traduz na sua literatura, não só em A Capitua.
06:39É, não só.
06:40Não só.
06:41Não só na vida de Dona Luísa.
06:43Mas, essa Capitua, eu queria que você falasse isso pro leitor,
06:48até pra, pra, pra, não pra dar um spoiler pra ele,
06:52mas pra mostrar a importância dessa figura.
06:56É.
06:57Porque, ao escrever sobre essa mulher,
07:00você não tá escrevendo só sobre uma mulher.
07:02Você tá escrevendo sobre as mulheres.
07:05E é uma mulher fálica.
07:06Ela é uma mulher que, ela não foi assim, tão poderosa como se pode imaginar.
07:12Mas, ela tem, ela veio, eu sempre me, sempre, o que me moveu,
07:18eu chamo de partícula preciosa.
07:21Aquela, aquele momento em que alguém que vai escrever alguma coisa tem uma intuição.
07:26Ou é um olhar de alguém, ou é uma passada de mão no cabelo de outro,
07:31ou é uma criança que corre, mas dá alguma coisa que sacode você.
07:36Eu chamo de partícula preciosa.
07:38Eu raramente pergunto pras pessoas que vêm aqui, Bernadette,
07:41de onde elas tiram as ideias.
07:43Eu acho que eu nunca perguntei, pra nenhum poeta, nenhum prosador,
07:47qual é a inspiração dele.
07:49Que eu acho uma pergunta absurda.
07:51É.
07:52Porque tudo é inspiração.
07:53Tudo.
07:53Mas a questão é, é, o...
07:56Você tem a ideia e você se dedica a pesquisar.
08:00É, eu pesquiso.
08:01E depois da pesquisa você reúne, como o Mário de Andrade fazia,
08:04você reúne todos os dados e começa a escrever.
08:06É isso?
08:07Grijal, eu pesquiso.
08:08Tem a partícula preciosa que eu chamo,
08:11que o que me chamou a atenção foi exatamente isso.
08:14Por que uma mulher dessa vem pro Espírito Santo acompanhando o marido,
08:17quando ela era uma dama da corte portuguesa.
08:21E isso aqui era um lugar de mosquito, lama, índio,
08:29bárbaros, perigo, e ela vem.
08:31Ela vem com ele.
08:33Tá nos dois testamentos, no testamento dele,
08:37o que tem, o que existe aqui no Espírito Santo,
08:40no arquivo municipal lá, no arquivo do Estado lá,
08:44existe uma cópia de um testamento dele que ele diz,
08:49queira Deus que eu chegue na minha capitania do Espírito Santo
08:53para onde vou com minha mulher e toda a minha casa.
08:57Sim, toda a minha casa.
08:58É bem sagrado isso, né?
09:01É, toda a minha casa.
09:02Então, ela veio com ele, sim,
09:04tá comprovado ali no documento.
09:06Sabe o que eu descobri?
09:08Ela era...
09:09Ela não podia ter filhos.
09:12Ela não tinha filhos.
09:14E na época dela, e eu digo isso aí nesse livro,
09:16A mulher que não tinha filhos, era tido como mula.
09:20Não podia procriar.
09:22Era uma mulher de segunda mão.
09:25Era um arranjo que o homem tinha em casa
09:27para fazer, lavar a roupa, passar, cozinhar, etc.
09:31Eu digo isso aí.
09:32E aí eu pensei, ela não tinha filhos.
09:35Quem sabe?
09:36Quem sabe o que moveu essa mulher
09:38para vir para cá, para essa capitania bárbara,
09:43cheia de índios degradados.
09:45Talvez, a esperança de que aqui
09:48ela pudesse procriar.
09:51Ela pudesse engravidar.
09:52Talvez.
09:53Porque tudo meu é talvez.
09:55Eu não afirmo nada em lugar nenhum.
09:57Eu mesma sou uma incógnita para mim mesma.
10:00Mas, de toda maneira,
10:01talvez.
10:02Olha que coisa mais linda.
10:03Ela tivesse essa esperança.
10:06E ela vem com ele.
10:08Mas aí, ela não tem filhos,
10:11continua sem os filhos.
10:12Eu penso que essa mulher
10:16não foi uma mulher
10:17assim, tão...
10:21Porque, na verdade,
10:23a felicidade é uma invenção dos desesperados.
10:28Está sempre onde não está.
10:31O desespero leva a pessoa a pensar
10:33que existe a felicidade.
10:34Ela não existe.
10:34A felicidade é o não ter felicidade
10:38como uma meta.
10:41É ser por si, com todos os seus problemas,
10:44suas dores e amores.
10:46Ser feliz a si mesmo.
10:49Estou sendo um pouco budista aqui,
10:51porque eu ando lendo muito
10:52Bill Mishu Han,
10:54um filósofo budista.
10:56Não tem problema nenhum.
10:58Mas, de toda maneira.
11:00Aí, a Dona Luísa
11:01tem isso.
11:02Esse livro é uma ficção.
11:05É apoiado em pesquisas históricas.
11:07Eu dei aula em Portugal,
11:09na Universidade do Algarve,
11:11e aproveitei para ver,
11:12sondasse lá,
11:13eu tinha alguma coisa sobre ela,
11:14porque ninguém sabia nada.
11:16Agora, se...
11:16Encontrou coisa sobre ela?
11:18Tem um testamento,
11:19um outro testamento dele também,
11:21sobre...
11:21Mas, sempre sobre a vista do homem.
11:24Nada.
11:24E ela nasceu em Nisse,
11:26que na época era Nisa,
11:29que era Itália,
11:30não era França.
11:32Ela não é portuguesa de nascimento.
11:35Isso eu descobri lá.
11:37Mas, ela vem com o marido
11:40e supõe-se,
11:41supõe-se que ela tinha uma cara bela,
11:43portanto, ela tinha uma tensa real.
11:45Isso eu descobri também.
11:46O rei pagava a ela alguma coisa.
11:49Ou seja,
11:50ou o pai dela foi guerreiro
11:52naquelas guerras luzas,
11:55ou ela foi casada
11:57antes dele.
11:58Porque o marido
11:59podia ter deixado.
12:00E essas dúvidas
12:02em cima do histórico,
12:03uma mulher que não tem
12:04um sobrenome fixo,
12:06porque alguns dizem
12:07que é Grimaldi,
12:08da ilustre família dos Grimaldi.
12:10Eu pesquisei até dizer,
12:11chega,
12:11não tinha uma...
12:16Luísa,
12:17na época dela,
12:18na família Grimaldi.
12:20Ora, ora, ora.
12:21E ela tem um sobrenome...
12:24Ela tinha o nome italiano.
12:27Luísa foi o nome dela português.
12:29Que aqui eu falo
12:31de um acróstico do nome dela,
12:33Ludovica.
12:35Ludovica, que vem de Luís, né?
12:37Que vem de Luís.
12:38É um acróstico,
12:39está aqui nesse livro.
12:40Levo sempre meus cuidados
12:43uma formosa donzela.
12:45Do bem que triste pus nela
12:47o coração transpassado
12:49vive a morrer dia a dia,
12:51inimigo do meu fado.
12:53Conheceu-me,
12:54conhecia,
12:55a ela só.
12:56Ei, amado.
12:58É Ludovica,
12:59não?
12:59Todos os acrósticos, né?
13:02Está aí, olha só.
13:03Capitou a upiana,
13:04panelinha de breu,
13:06Corações de Cristal,
13:07ou a Vida Segreta das Enceradeiras,
13:09que tem que,
13:11independentemente de me chamarem
13:12de machista ou não,
13:13me vem à cabeça
13:15a ideia feminina.
13:18Coração de Cristal,
13:19quer dizer,
13:19um coração mais frágil.
13:21Frágil.
13:21E a Enceradeira,
13:23que durante muito tempo,
13:25infelizmente,
13:26foi relegado às mulheres.
13:28As Contas no Canto,
13:30em que você...
13:32Existe um pequeno conto
13:35chamado
13:35A Cançoneta da Bela Casada,
13:37que é uma beleza.
13:38Gosto.
13:39Eu acho muito difícil, Bernadette,
13:41não admitir
13:43que a sua literatura
13:45é uma literatura que tem
13:47como sujeito
13:48à figura feminina,
13:49é óbvio.
13:50Mas e como objeto?
13:51E como objeto?
13:53Os seus livros,
13:54claro, você quer,
13:55como eu também quero,
13:57como todo escritor quer,
13:59que seja lido por todos.
14:00Mas me parece
14:02que alguns contos
14:03vão ser melhor compreendidos,
14:05ou mais bem compreendidos,
14:07se forem lidos
14:08por quem conhece
14:09o universo feminino.
14:12Não sei,
14:13Grijal.
14:14Eu vou até aceitar isso aí.
14:16Não, eu não sei.
14:17Não, olha só.
14:17É uma visão que eu tenho.
14:19Não é necessariamente
14:20a verdadeira.
14:21é uma impressão que eu tenho.
14:23Mas que elas todas,
14:25eles todos falando de mulher,
14:26é verdade.
14:27Né?
14:28O Corações de Cristal
14:30é de cabo a rabo
14:32mulher.
14:33Começa com uma menina,
14:35uma ginasta
14:35e acaba com uma velhinha
14:37num lugar lá de velhinha,
14:39no asilo.
14:41Ele é de cabo a rabo mulher.
14:43Corações de Cristal
14:44é um livro,
14:45ou a vida secreta das enceradeiras,
14:46já é por isso mesmo.
14:47Você acertou.
14:48É essa coisa da pseudo-fragilidade,
14:53da delicadeza.
14:54O que eu quero dizer é o seguinte,
14:56eu não acredito
14:56numa literatura feminina,
14:58porque pensam que literatura feminina
15:01é a de delicadeza,
15:03flores, aroma,
15:04coelhinho no jardim.
15:06Não, mas aí não leram,
15:06né, Lida Pinhon,
15:07não leram,
15:08mas é Fábio de Stelis,
15:10Bernadette Lira.
15:11Obrigada.
15:11Vamos botar nesse ilustrismo.
15:13Poxa, né?
15:14Mas existe ainda
15:16uma mítica disso.
15:18Mas a gente sabe
15:19que essa mítica
15:20é a mítica social, né?
15:21O país, infelizmente,
15:23é um país assim,
15:24meio ainda colonizado.
15:27Aliás, sempre foi colonizado, né?
15:29Os índios que eram os donos da terra
15:31não tem nem vez até hoje,
15:33coitado.
15:35Mas, enfim,
15:36voltando aqui
15:37para a ideia das mulheres,
15:39me apraz falar sobre as mulheres,
15:42falar sobre o que eu conheço.
15:44Como eu te falei,
15:45da vez passada,
15:46o homem para mim
15:46é o outro lado da lua.
15:49Eu tenho, sabe,
15:53todo o respeito.
15:55Gosto, por exemplo,
15:57o Cortázar
15:59para mim
16:00é um gênio
16:02da literatura.
16:03Eu amo o Cortázar.
16:04Amo.
16:05Amo os livros dele.
16:07Bartelme,
16:08dona de Bartelme,
16:09é uma coisa fantástica.
16:10Que é pouco conhecido no Brasil, né?
16:11Muito pouco.
16:12E revolucionou a literatura americana.
16:14Exatamente.
16:14Acabou com aqueles romanção,
16:16M.G.A.,
16:17botou tudo no chinelo.
16:18Há pouco tempo saiu
16:19uma tradução do Pai Morto,
16:20que é boa.
16:21Eu tenho.
16:21É uma boa, né?
16:22Eu tenho.
16:22Eu tenho tudo dele,
16:23que eu pude.
16:24E tem esse e tem Vida de Cidade.
16:26É, Vida de Cidade é uma coisa.
16:27Mas saiu agora,
16:29saiu há pouco tempo,
16:30eu até comprei.
16:31Grandes Dias.
16:32Grandes Dias eu tenho.
16:33Porque são os Forte Stories
16:34e Six Stories.
16:36E eu comprei,
16:36em Portugal,
16:37eu comprei todos os contos dele
16:39num volume só.
16:4060 contos.
16:41É 60 contos.
16:43E eu comprei na França
16:44alguns que eu não tinha achado
16:46fora do Brasil.
16:48Eu me lembro que,
16:48na sua casa,
16:49eu vi o Le Roi.
16:50É, Le Roi.
16:51E eu tenho como The King.
16:52Ah, mas o Le Roi é maravilhoso.
16:54É, ótimo, ótimo.
16:54Nós já estamos aqui.
16:55Pois é, são homens.
16:57São homens.
16:57Donald Bartel me ensinou uma coisa.
17:01Nenhum escritor inventa palavras.
17:03As palavras,
17:04elas estão aí.
17:05Elas são,
17:05elas são eternas.
17:07São as mesmas.
17:09Só basta você escolher.
17:10Drummond já falava isso também.
17:11Você tem que revivê-las.
17:13É, que revivê-las.
17:15Né?
17:16Encandecê-las, eu acho.
17:18Pra mim é isso.
17:19Eu tenho uma técnica especial
17:21pra fazer minhas histórias.
17:23Isso eu reconheço.
17:24Fale pra nós sobre isso.
17:26É.
17:27Uma técnica especial.
17:28É.
17:29Eu não repito.
17:32É.
17:32Primeiro,
17:33se eu tenho que sacrificar alguma coisa,
17:35quando eu vou fazer uma revisão de um conto,
17:37eu sacrifico todos os coitados dos adjetivos.
17:41Bartel me fazia isso.
17:42Ah, Bartel me ensinou isso.
17:45Me ensinou.
17:46Eu aprendi com ele.
17:48Adjetivo só entra na história,
17:50se for muito essa de Queiroz.
17:52O Salinger dizia,
17:54dizia naquele livro dele,
17:56ótimo,
17:58salvo engano é,
18:00carpinteiro,
18:00levanta a comeira.
18:03Ah, carpinteiro.
18:03É, é o pra cima com a viga moçada
18:05que saiu depois, né?
18:06É, pra cima com a viga.
18:06Isso.
18:07E nesse livro,
18:08os dois irmãos estão conversando,
18:10e ele fala,
18:11ele diz,
18:12mas por que você vai sacrificar os adjetivos?
18:14Qual é o problema em escrever com muitos adjetivos?
18:18Então, vem duas figuras
18:20que têm visões diferentes,
18:21o Bartel me e o Salinger,
18:22que eram da mesma geração.
18:23É, mas o Salinger...
18:24É, é...
18:25O Bartel me é um pouco depois, né?
18:26O Bartel me é um pouco depois do Salinger.
18:28Mas também o Bartel me,
18:29não é que ele não use os adjetivos,
18:31é que ele faz uma...
18:33Ele renova o adjetivo de um jeito
18:37que você não percebe que aquele adjetivo já é batido.
18:39É uma coisa fantástica aquele escritor.
18:42E ele mudou a literatura americana,
18:45eu acho isso.
18:46É, ele...
18:47Eu tenho um apreço maior por Vonnegut.
18:50Bom, eu já sei dessa sua paixão pelo Vonnegut.
18:53É, que é antiga.
18:54Que são duas figuras diferentes.
18:56É.
18:57Mas eu gosto muito do Bartel também.
18:58Salvo engano,
18:59quem me apresentou o Bartel foi você.
19:00Eu acho que sim,
19:02porque quem me apresentou o Bartel foi o Tatajiba.
19:04É você que me apresentou o Bartel.
19:05Fernando Tatajiba,
19:06que éramos amicíssimos.
19:07Eu sei.
19:08Eu sei disso.
19:08Amicíssimos.
19:09Amicíssimos.
19:11Tatajiba era um gênio.
19:12É.
19:13Eu ouvi-se pouco.
19:14Era um Kafka...
19:17Capixaba.
19:18Que ele tinha um sentido do sinistro incrível.
19:22É.
19:22E nós conversávamos muito.
19:24Eu li depois...
19:26Antes de ler O Sol e o Sol da Boca,
19:27eu li os contos que ele publicou na revista Letra.
19:30Isso, eu me lembro desses contos.
19:32E depois eu fui ler O Sol e o Sol da Boca,
19:33que é sensacional.
19:35Sensacional.
19:35Mas e Conceição da Barra?
19:37Bom, aí chegamos na minha terra.
19:39Conceição da sua terra.
19:40Meu coração.
19:41Uma terra dos seus livros.
19:44É.
19:44Né?
19:45Aquela ideia do Dostoiévski,
19:47de que você quer escrever sobre o mundo,
19:49escreveu sobre sua aldeia.
19:51É.
19:51Sua aldeia.
19:51Ela é você.
19:52É.
19:53Ou o rio da minha terra.
19:55Essa relação...
19:56Não é o Tejo, mas é o Tejo.
19:58Exato.
19:58Não é o Fernando Pessoa?
19:59O Fernando Pessoa.
20:00Mas a questão é,
20:01não é só a terra,
20:05não é só o afeto.
20:07É.
20:07Me parece, posso estar enganado,
20:09que você vê uma Conceição da Barra
20:12que a gente não conhece.
20:13Eu acho que nem eu reconheceria hoje a Barra.
20:16Porque eu tenho a Barra cristalizada dentro de mim.
20:20Eu tenho a Barra,
20:22aquela Barra toda da minha infância,
20:24aquela Barra toda de areia.
20:26Eu chamo a Barra de mim a flor de areia.
20:28Porque era areia, areia,
20:30mar, areia, mar e areia.
20:32Mais nada.
20:34Aqui vai todo o meu afeto quando eu digo isso.
20:37É toda a minha paixão por aquilo.
20:39Você tem uma crônica belíssima sobre isso.
20:41Pé no chão,
20:44areia quente,
20:46mar aberto,
20:47seis quilômetros de praia,
20:49que nós temos lá,
20:50mar morno,
20:51por causa da corrente marinha,
20:55cheiro de mar,
20:57barulho de mar,
20:58o cricaré,
20:59aquela coisa lenta,
21:01que vai indo, vai indo, trazendo.
21:03Você conheceu a bugia antes de ela acabar, né?
21:05Conheci a bugia antes de ela acabar.
21:07Antes de ela passar por cima dela.
21:08E acabar com toda aquela casa de veranista
21:11que fizeram lá indevidamente,
21:13que devem ter escavado,
21:14qualquer coisa facilitou.
21:16O mar passou por cima.
21:17Hoje a praia da Barra,
21:19para que ela exista,
21:21ela teve que ser cerceada
21:24entre pedras.
21:26Eu nunca vi uma pedra
21:27quando eu era criança.
21:29Pedra, pedra.
21:30Não existia no horizonte.
21:32Era só lonjura,
21:34reta.
21:35A reta do horizonte,
21:37mar e céu.
21:39Porque a Barra não tinha.
21:40Era só areia.
21:41Não tinha pedra.
21:42Não tinha um rochedo.
21:44Não existe.
21:45Então tudo isso cresceu em mim.
21:47Eu acho que eu devo
21:48tudo o que eu sou,
21:50tudo, tudo, tudo,
21:50a ter nascido em Conceição da Barra.
21:53Porque ela formou,
21:54ela me formou.
21:56Ela me deu
21:56a devida
21:59doçura
21:59para encarar
22:01a areia quente.
22:04Ela me deu
22:05a devida
22:08propriedade
22:08para encarar
22:09os delírios.
22:12Porque é uma cidade,
22:14o Clebinho,
22:16o Kleber,
22:16ex-professor da UFSS,
22:18você sabe quem?
22:19Sei.
22:20Autor de livros,
22:21do livro
22:21Negros do Espírito Santo.
22:23O Kleber
22:23era muito meu amigo.
22:24Ele foi comigo
22:25à Barra uma vez
22:26para ver o Ticumbi.
22:27E ele falou
22:28com o Bernadette,
22:29se eu tivesse nascido
22:30nessa cidade,
22:32a minha vida
22:33teria sido outra.
22:35Porque ele tinha
22:35muitas mágoas na vida,
22:37porque ele era
22:37homossexual,
22:38aquela coisa toda.
22:42A Barra é mágica.
22:44Ele mesmo dizia,
22:45ele mesmo disse isso,
22:46a cidade é mágica.
22:47Tem uma certa magia
22:49que vem daquele rio,
22:51daquele mar,
22:52daquele céu
22:52muito azul,
22:55daquela estrela da tarde
22:56enorme,
22:57pendurada no céu,
22:59quase do tamanho
23:00da lua.
23:01Isso se traduziu
23:02na sua literatura
23:04a partir de
23:05Renato Pacheco,
23:06a partir da oferta
23:07do altar,
23:08do qual você é
23:08personagem, inclusive.
23:11Você seguiu
23:12um caminho,
23:13um caminho
23:14em colocar a Barra
23:16como personagem.
23:18Ela está em tudo.
23:19Você vai ver a Barra
23:20na minha noveleta nova
23:23que vai sair
23:24em maio.
23:26Está com o livro
23:26para sair?
23:27Ele está pronto,
23:29está na editora.
23:30Ele é
23:31a história da menina
23:33e o que acontece
23:34depois.
23:36Opa,
23:37por falar nisso...
23:38E a Barra?
23:39Tudo é Barra.
23:40Sem nome,
23:41não dou o nome da Barra,
23:42mas os entendidos
23:44entenderão.
23:45Me diga uma coisa,
23:48quais livros
23:49seus estão
23:50à disposição
23:51do leitor?
23:52É internet?
23:54O Piana
23:56está.
23:57Quem quiser comprar
23:58o Piana,
23:59que está aqui
23:59na minha mão,
24:00quem quiser comprar
24:01o Piana,
24:02consegue onde
24:02esse livro?
24:04e ele saiu
24:05pela editora Lápis,
24:06que é a editora do Gelson.
24:07É a editora do Gelson.
24:08Mas onde que ele encontra
24:09para comprar esse livro?
24:10Gente,
24:10eu fico meio confusa.
24:12Eu costumo
24:12dar como referência
24:14para quem quiser
24:15meus livros
24:15a minha assessora
24:17de comunicação,
24:18que é a Lívia
24:19Corbelari.
24:20Porque a Lívia
24:20sabe onde
24:21ela vai caçar
24:22o livro
24:23para te mandar.
24:24Tudo bem,
24:24então.
24:25Então,
24:25vamos fazer o seguinte.
24:26Ela viria aqui hoje,
24:27mas ela foi chamada
24:28para uma reunião.
24:29Não tem problema.
24:30Quem estiver interessado
24:32nos livros da Bernadette
24:33vai entrar no Instagram
24:35e vai procurar
24:36Lívia Corbelari.
24:38Lívia Corbelari
24:39é a assessora
24:40de imprensa
24:40de Bernadette.
24:41Ela vai dar
24:42todas as dicas,
24:43vai mostrar
24:44todos os caminhos
24:45para você chegar
24:45à literatura
24:46dessa escritora.
24:47Agora,
24:48Guananira
24:48tem a editora Maré.
24:51Ah,
24:51a editora Maré.
24:52Guananira
24:53sai pela editora Maré,
24:55que você encontra também
24:56a editora Maré
24:57no Instagram.
24:58Isso.
24:58Ok?
25:00Você falou
25:01que está saindo
25:01que talvez
25:02saia alguma coisa
25:03para a Cousa.
25:03O Saulinho já esteve aqui.
25:04Mas ainda
25:05estamos pensando.
25:07Ótimo.
25:07O Saulo
25:09já tem até
25:11prefaciador
25:12agendado,
25:12que é o Vitor Sei.
25:14Ah,
25:14sim, sim.
25:15Porque é mais de
25:18trechinhos
25:18sobre literatura.
25:20Eu não sei fazer
25:21teoria da literatura.
25:23Eu não sei dar
25:23aula de teoria.
25:24Você foi meu aluno,
25:25você sabe.
25:26Que bom.
25:27Minhas aulas
25:27são pequenas
25:28histórias.
25:29Como agora
25:29a nossa conversa
25:30foram pequenas histórias.
25:34Infelizmente,
25:34acabou.
25:35É.
25:35A gente podia
25:36ficar mais um
25:36programa ainda.
25:37Gente,
25:38olha só.
25:39Foi um privilégio
25:40conversar com Bernadette,
25:41que é minha querida amiga,
25:42que,
25:43devo dizer,
25:44quando eu fui
25:46tomar posse
25:47na Academia
25:48Espírito Santo
25:49texto de letras.
25:49Foi Bernadette
25:50que leu um
25:51belíssimo texto
25:52que me emocionou
25:52muito sobre mim,
25:54sobre minha obra.
25:55Me deixou,
25:56assim,
25:56muito,
25:57muito emocionado
25:59mesmo com isso aí.
26:00Eu devo muito
26:01à Bernadette.
26:02Agradeço demais
26:03a presença dela.
26:04Sei que vocês,
26:05olha,
26:06tenho certeza
26:06que vocês
26:07aproveitaram muito.
26:08E o que eu tenho
26:10a dizer a vocês é,
26:10leiam os livros
26:11da Bernadette,
26:12porque realmente
26:13vale a pena.
26:13Bernadette,
26:14querida,
26:15muito obrigado
26:15pela participação.
26:16eu é que agradeço,
26:17viu?
26:18Um grande beijo pra você.
26:19Pra você.
26:20Valeu.
26:21Valeu, querida.
26:22Valeu, gente.
26:23Um grande abraço
26:24e até a próxima.
26:27Você ouviu
26:29Vitrine Literária
26:31com o professor
26:31e escritor
26:32Francisco Grijó.
26:34Tudo sobre
26:34literatura contemporânea.
26:36Temas,
26:37autores,
26:38obras,
26:38debates,
26:39análises,
26:40curiosidades
26:41e bate-papo
26:42com autores
26:43e editores.
26:43Tchau.