- há 2 semanas
Um papo com o Editor da editora Cousa sobre edições, livros, literatura do ES, divulgação, autores.
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, mais uma edição aqui do Vitrine Literária pelas plataformas da Rede Vitória, podcast, YouTube,
00:28página de vídeo do Folha Vitória, sempre um bate-papo sobre literatura, de preferência literatura feita aqui no Espírito Santo.
00:38Então o Vitrine Literária com o Francisco Grijó, como vocês sabem, é um programa voltado especificamente para a literatura
00:45e para as conexões que a literatura tem, certo? Cinema, música, comportamento e assim por diante.
00:52Eu trouxe aqui ao programa, em edições anteriores, o Alfredo Andrade, que era editor da Cândida,
01:00e o Saulo Ribeiro, que era editor da Cousa.
01:03O Saulo agora, que estava à frente da Cousa, ele ficou um pouco tratando de outros assuntos
01:11e quem hoje responde como editor da Cousa, que é uma das maiores editoras do Espírito Santo,
01:18se chama Gabriel Nascimento.
01:19E o Gabriel está aqui do meu lado para conversarmos sobre edição, sobre autores, sobre livros,
01:27sobre o ego de alguns autores ou de todos os autores, né?
01:34Sobre literatura do Espírito Santo, sobre difusão, sobre distribuição de livros
01:38e sobre, acima de tudo, sobre literatura.
01:41Então, muito obrigado, Gabriel, por você ter aceitado o programa, ótimo.
01:46Eu acho que as pessoas têm muito que ir para compreender o que vem a ser a edição de um
01:51livro, as etapas.
01:53Mas eu quero começar a perguntar a você o seguinte, justamente o que eu citei.
01:59Ser autor e produzir um livro e publicar um livro num país que, segundo constam as estatísticas,
02:10é um país que lê pouco.
02:11E, além do fato de ele ler pouco, existe hoje a ideia do e-book.
02:18Publicar livros físicos, como vocês da editora Cousa fazem, ainda vale a pena?
02:25Guilherme, eu queria primeiramente agradecer por estar aqui.
02:27Depois de ter assistido os programas, passar da plateia para o palco, é uma boa experiência.
02:33E é muito gratificante.
02:35Em relação a essa perspectiva do livro e de como é ser um trabalhador do livro,
02:41eu acho muito legal quando a gente que trabalha com o livro se chama de trabalhador do livro.
02:45Eu acho que essa perspectiva é muito interessante.
02:48Eu gosto muito do Saulo quando ele trata da literaluta, que hoje em dia a literatura é na base do
02:54jiu-jitsu.
02:54A gente tem que pegar o leitor pelo braço para fazer ele conhecer aquilo que a gente tem para propor.
03:00Existe uma ilusão muito grande de que o livro por si só, ou melhor, o texto, por ele ser bom,
03:04ele se basta.
03:05E isso não existe.
03:07Nem tudo que é muito bom está sendo publicado.
03:09Nunca foi em toda a história do livro.
03:12Aquilo que ficou para a gente na Antiguidade Clássica, a gente não tem a confiança de que aquilo era o
03:17melhor que havia.
03:18Muita coisa se perdeu.
03:19Perfeito.
03:19Então, essa ideia de que a publicação garante a qualidade é uma falácia.
03:25E estarmos, enquanto trabalhadores do livro, num contexto em que a leitura muda,
03:32e mais especificamente no caso de Brasil, de uma história da leitura em que ela vem como uma prática de
03:38elite,
03:38que nunca foi uma prática popular, então existe um hiato de políticas públicas voltadas para o livro,
03:44para a formação de leitores, para o consumo do livro, é desafiador.
03:49Eu acho que é desafiador.
03:50Não tanto por conta das novas dinâmicas de leitura.
03:55Quando eu pego, por exemplo, o texto enquanto virtual, aquele texto que não é físico,
04:01que acontece por meio de um e-reader, por exemplo, como o Kindle,
04:06eu acho que a gente não chegou ainda de tudo que ele pode mostrar.
04:10O livro virtual ainda é um espelho do que é o livro físico, só que em outro suporte.
04:15Mas enquanto hipertexto, enquanto possibilidade de conexões que o meio virtual pode proporcionar
04:19àquilo que é o texto, a esse arranjo de símbolos, a gente ainda não conseguiu chegar lá.
04:24Ou melhor, talvez as redes sociais sejam esse texto, que a gente lê em rede,
04:28que a gente, ao tempo todo, não encerra o que está lendo,
04:32que sempre a leitura leva a outros caminhos.
04:33Isso acontecia de uma forma analógica com outras possibilidades.
04:37Talvez a biblioteca seja o maior exemplo disso.
04:39É você olhar o seu livro do lado e aqueles livros, por algum motivo, pela ordem que estão,
04:44seja implícita ou explícita, eles se conectam de alguma forma na mente do leitor.
04:49E hoje em dia, no mundo do hipertexto digitalizado, ele acontece de outra forma.
04:54Eu acho que a principal situação que eu encontro hoje em ser trabalhador do livro
05:02está diante de um mundo em que ele pede da própria apropriação de tudo aquilo que é arte em si,
05:09ou de tudo aquilo que é texto, se a gente expandir o limite do texto,
05:12como tudo aquilo que eu, diante daquilo, eu tento dar sentido.
05:15É um mundo que é muito desafiador.
05:18Eu, ao contrário do que as pessoas falam sobre a leitura não ser tão praticada,
05:25talvez a leitura literária de fato não seja tão praticada, do jeito como a gente conhece, do jeito clássico,
05:31mas eu desconfio que as pessoas nunca leram tanto,
05:33ou que nunca se houve tanto esforço para poder decifrar o mundo,
05:37para poder decifrar códigos, para poder entender, dar um sentido daquilo.
05:41O mundo não é tão mais explícito, mas, em contrapartida, eu acho que as explicações nunca foram tão simples.
05:46A gente sai de um mundo que ele parece extremamente curioso,
05:50no sentido de que ele precisa ser decifrado, com muito afinco, com muita ânsia,
05:54mas que as explicações simples, elas bastam.
05:57A gente trocou uma complexidade, que antes a gente julgava que seria talvez até um obstáculo da leitura,
06:03alcançar a complexidade do livro seria um elemento de distinção,
06:06para entrar numa leitura que talvez ela seja muito mais simples.
06:09E como se essa leitura mais simples fosse suficiente.
06:12Você diria que hoje, porque as evidências, ou talvez nem as evidências,
06:18mas as estatísticas dizem que o brasileiro está lendo menos.
06:22Pelo que você está me falando, você acha que existe hoje uma gradação maior?
06:27Ou seja, o brasileiro está lendo mais hoje? Você acha?
06:30Eu vou pegar o parâmetro geracional do meu irmão,
06:34que é o que eu tenho um exemplo mais empírico,
06:36mas que eu acho que é extremamente frutífero para discutir.
06:39O meu irmão lê livros muito menos do que eu, muito menos.
06:43Ele não... Se eu fui...
06:44Ele é mais novo?
06:45Bem mais novo, 10 anos.
06:47Então a gente tem uma diferença...
06:4810 anos mais novo ou ele tem 10 anos?
06:5010 anos mais novo.
06:51Perdão, ficou ambíguo.
06:52É, ficou ambíguo, né?
06:53É, mas ele é completamente o meu oposto.
06:58Se eu tenho, hoje em dia, uma estante lotada de livros e trabalho com muita paixão,
07:03com muito desejo, ele é o completamente oposto.
07:07Ele pega um livro e fica todo empolado, não gosta.
07:11Entretanto, isso não faz com que ele tenha menos contato com os textos escritos.
07:16A rede social, o fluxo de informação que ele consome, no ritmo que ele consome, é muito maior do que
07:21o meu.
07:22Mas não é literatura.
07:23Mas não é.
07:24Evidentemente não é.
07:25Quer dizer, pode até ser, mas as chances de haver literatura de qualidade numa rede social, as chances são menores.
07:32Certo?
07:34Quer dizer, o seu contato...
07:35É, eu quero ouvir você falando sobre isso.
07:37É uma percepção minha, que não precisa ser acerta.
07:41Mas o seu contato com literatura é um contato diário e obrigatório.
07:46Sim.
07:47O contato do seu irmão com literatura, ele pode ser um contato fortuito.
07:51Ele pode encontrar ou não.
07:53E se ele encontra, ele detecta literatura?
07:56Essa é uma questão interessante.
07:57Eu acho que...
07:59Eu não sei se o mundo contemporâneo...
08:01Ou melhor, se...
08:03E aí que está.
08:04Eu acho que...
08:06O mundo em que a gente se encontra é um mundo em que aqueles conceitos,
08:10que eles estão bastante enraizados a respeito do que é literatura,
08:14eles estão sendo o tempo todo tensionados.
08:16Certo.
08:16Porque existem muitas pessoas falando.
08:18Certo.
08:18E até eu acho que o vitrínio literário reflete muito isso, né?
08:21Quando ele traz o Chacal, por exemplo,
08:24quando ele traz um editor para falar de literatura,
08:26eu acho que esses pontos são tensionados.
08:28Quando você abarca a literatura enquanto um sistema,
08:30aquele é muito mais amplo do que necessariamente aquilo que é canônico.
08:34E isso eu acho que é o grande ganho.
08:36A literatura como uma forma de incerteza, como um termo polissêmico,
08:39em que ele significa, em uma certa medida, dentro da escola, o currículo,
08:43porque a literatura é um objeto curricular,
08:45eu, como trabalhador do livro, tenho a literatura como um trabalho,
08:48o autor, no caso, mais especificamente no seu caso, a literatura, uma criação...
08:54Professor.
08:55Exato.
08:55Professor, né?
08:56Professor de literatura também.
08:58Aí você tem no leitor a literatura enquanto prazer, enquanto um desejo, enquanto um gozo.
09:03Então, a literatura como polissemia, eu acho que ela ganha muito quando a gente consegue expandir essas fronteiras.
09:11E por que eu trago isso?
09:13Porque se, por um lado, aí voltando ao exemplo do meu irmão, ele lê muito pouco,
09:17ele tem muito contato com ficção, em vários níveis.
09:20E aí eu fico pensando numa potência criativa, que aí cabe a gente julgar pra onde isso caminha,
09:28em questão de profundidade e complexidade, sabendo também que esses termos são subjetivos,
09:33e eles têm, compreendem-se, uma relação de poder,
09:37mas o meu irmão está muito mais ligado a outras linguagens,
09:40a outras formas de dizer e se expressar, que talvez eu não tenha tanto acesso.
09:43Eu não consigo mais ignorar, inclusive como editor,
09:47a possibilidade de plataformas como, por exemplo, o TikTok falando de livros,
09:50um booktuber falando de livros, um perfil do Instagram que fala de livros.
09:53São dinâmicas que são muito diferentes da crítica literária tradicional que eu tenho acesso.
09:58Então, ao mesmo tempo, canais no Instagram ou do YouTube,
10:03que criam pequenas esquetes que as pessoas consomem.
10:07Eu acho que existe essa dimensão da literatura que ela se cria
10:11de acordo com as possibilidades tecnológicas de criação da sociedade.
10:16Então, eu acho que o êxtase que eu tenho quando eu leio um bom livro,
10:20eu acho que isso é muito comum a todo leitor, né?
10:22Essa sensação de que ali você encontrou alguma coisa,
10:24que você não sabe muito bem o que é,
10:26mas você sentir imediatamente a vontade de ler pra alguém.
10:28Eu acho que esse é o ápice da literatura, o desejo de ler pra alguém.
10:32Ou de que alguém leia pra que tenha a mesma sensação que você.
10:35Eu acho que isso se repete muito no consumo do cinema, por exemplo.
10:40Aí, se isso é de qualidade ou não, se isso é cultura de massas ou não,
10:44acho que é um ponto melhor pra conseguir aprofundar o assunto.
10:50Eu não vejo a minha experiência de gozo com a literatura
10:53diferente da experiência que um adolescente tem, por exemplo,
10:57ao acompanhar a narrativa da Marvel no cinema.
10:59Aquele momento de êxtase dele que é o máximo,
11:01em que você não consegue se conter,
11:04porque aquilo em que você provoca algo que...
11:06Eu tenho uma frase do Paul Valery que eu acho que é sensacional,
11:08que é o mais profundo é a pele, né?
11:10Então, assim, quando aquilo causa o arrepio na pele,
11:13aquilo é literatura.
11:14E aí, eu acho que quando a gente expande
11:17essa noção de literatura pra uma noção polissêmica,
11:20aí a gente começa a entrar em questões que talvez sejam muito mais interessantes.
11:22se tudo isso é literatura,
11:25então a gente entra em outros critérios de qualidade,
11:27em outros critérios de complexidade.
11:28Como que esses elementos ajudam a complexificar a vida, a existência,
11:31se essa é a função da literatura, e podemos discordar disso também.
11:36E como que isso, então, acontece dentro desse sujeito que vê,
11:39a ponto dele olhar pro mundo de uma forma diferente.
11:41Como que isso cria elementos transformadores?
11:43Ótimo.
11:43Perfeito?
11:44Você trabalha como editor.
11:46O editor é aquele agente que vai, evidentemente, discutir com o autor,
11:54que vai propor alternativas pro autor,
11:57que vai sugerir, né?
12:00Sugerir capa, sugerir formato, sugerir corpo das palavras.
12:06Esse trabalho de edição de livro em Vitória,
12:11ele tá bastante, a meu ver, ele tá bastante superdimensionado.
12:16Eu acho que há, né, um número de pessoas produzindo e publicando.
12:21Como é que é lidar com...
12:22Porque eu sou autor e eu sei como é que o meu editor lida comigo.
12:26Como é que é lidar, você que lida com novos autores, inclusive,
12:30autores que estão trazendo uma nova literatura,
12:32uma literatura arrojada, uma literatura inovadora,
12:36como é que é lidar com esses autores?
12:38Porque eu sempre pensei o seguinte,
12:40lidar com o artista, o artista se sente um semideus, né?
12:44Ele é, por princípio, um semideus.
12:47Como é que é lidar com esse ego?
12:50É uma questão que eu acho que é muito delicada,
12:54porque criar algo, eu acho que é uma questão que é muito sensível.
12:57Ainda mais numa...
12:59A nossa dinâmica social que coloca na figura do autor
13:02essa imagem de quem responde pela criação, né?
13:05Eu acho que é importante também a gente desnaturalizar isso.
13:09A autoridade da criação na figura do autor ou na figura do artista,
13:12ela é muito recente.
13:13A maior parte da história da humanidade, nós, enquanto humanidade,
13:17mesmo a gente não se comportou assim, diante das criações.
13:21Então, essa figura do autor eu acho que é uma figura curiosíssima.
13:24E eu entendo, enquanto editor, que, de fato, você gestar um livro,
13:29e aí eu acho que é, de fato, uma gestação.
13:31Eu acho que o processo de criação do livro,
13:33ele é lento, ele é demorado, ou melhor, ele é o tempo que o livro pede.
13:37Então, ele envolve momentos que você tem muita atenção para dar para ele,
13:42ele envolve correção, ele envolve releitura, ele envolve crítica,
13:46ele envolve um todo que é muito complexo.
13:49E eu acho que a gente, enquanto editor, tem que ter muito cuidado
13:53quando interfere na criação de alguém,
13:55porque é sempre um vínculo muito pessoal.
13:59Eu acho que tem algumas dimensões do livro, inclusive,
14:02que elas passam por uma desambiguação dessa figura do editor.
14:08E tem um escritor que eu gosto muito, o Alejandro Zambra,
14:12que ele, ao tratar da relação com o editor dele,
14:14ele diferencia esses dois fazeres como um, o editor, que é o editor literário,
14:19o outro como o que está, ou o que se convencionou a chamar de publisher.
14:23E o editor é esse que tem esse papel,
14:26de um acompanhamento mais pessoal com o leitor,
14:28de sugestão, de interferência, muito grande,
14:31mas que trabalha numa solidão.
14:33O Alejandro Zambra coloca essa imagem da solidão.
14:34Então, existe uma conexão de solidão
14:36entre a solidão de quem escreve e a solidão de quem edita.
14:39Ao contrário, o publisher, ele é a pessoa que não pode ser solitária,
14:43porque o publisher é um produtor cultural.
14:45Ele tem uma cadeia, inclusive, existe uma cadeia, né?
14:47Exato, aquilo que hoje em dia se chama de network, todos os contatos.
14:51Então, o publisher é aquele que vai organizar o lançamento do livro,
14:55ele vai organizar a figura pública do livro.
14:57Esse movimento que acontece extra-textual.
15:01É o publisher que define revisão, que define capa?
15:06Não, é o editor, editor com o autor.
15:09São os elementos culturais.
15:10Mas, nos Estados Unidos, se chama todas essas funções de publisher.
15:15E lá você tem esse cara que, por mais que ele interfira,
15:18e talvez interfira muito pouco no texto,
15:19a função dele é justamente voltada para o mercado.
15:22Enquanto o editor, que é essa figura que existe em outros lugares,
15:26em outras tradições editoriais,
15:28talvez menos voltadas ao mercado, menos absorvidas da lógica neoliberal,
15:31é essa figura que talvez ele seja muito mais preocupado com esse conteúdo textual,
15:34com essa forma do texto.
15:35E aí, talvez o que ele tenha mais para oferecer é a bagagem literária que ele carrega,
15:38como leitor, como curador de literatura.
15:43Eu acho que em Vitória,
15:45ou melhor, o cenário literário do Brasil,
15:48e talvez do mundo, em alguma medida,
15:50por conta dessas dinâmicas de comércio do livro,
15:53incluindo a Amazon,
15:54é uma dinâmica que forçou
15:56quem trabalha com o livro
15:57a inaugurar uma nova cadeia.
16:00O que eu quero dizer com isso?
16:02Antes, você tinha uma editora que cuidava da produção do livro.
16:05Então, você não precisava de um publisher.
16:07Porque quem ia fazer o trabalho de fazer esse livro chegar nos lugares
16:11era um distribuidor.
16:12Hoje é complicado.
16:14Hoje, esse distribuidor, ele não existe.
16:17Ou melhor,
16:18ele existe em pequenos índices quando você precisa de trabalhos muito específicos,
16:22como uma organização pública precisa fazer licitação
16:25para a compra de materiais.
16:27Aí, obviamente, você não vai conseguir fazer uma licitação para cada editora,
16:30porque a editora é exclusiva. Você precisa de distribuidores competindo
16:32para poder que aquela licitação ande.
16:36Então, você tem essa figura do distribuidor nesse sentido.
16:38Mas, dentro da cadeia do livro,
16:40em relação àquilo que o leitor consome,
16:42essa figura parou de existir.
16:43Hoje em dia, a livraria trabalha muito mais, por exemplo,
16:45negociando com as próprias editoras.
16:47Só que, se antes você negociava com um único distribuidor,
16:49agora você precisa negociar com dez editoras.
16:52É um mecanismo de distribuição do livro
16:54que ele toma outros contornos.
16:56Você acha que a rede social tem esse papel hoje?
16:59Ela consegue alcançar?
17:02Eu acho que, se ela alcança, ela também esconde.
17:05Eu acho que tudo tem dois caminhos.
17:08E eu penso que a gente está num momento em que esse sistema literário
17:15está se reconfigurando para essas novas dinâmicas.
17:19Então, eu tenho um modo de leitura que é muito diferente.
17:22Hoje, isso é uma matéria na Folha, inclusive, foi a capa da Ilustrada,
17:24sobre a quantidade de páginas dos livros.
17:27Que até a última década, o número de livros com mais de 400 páginas
17:31era, salvo engano, 48% das vendas.
17:34E hoje em dia, ele caiu para 10.
17:36Então, você tem que livros com 400 páginas ou mais,
17:39eles estão sendo menos lidos.
17:40Velocidade.
17:41É.
17:41Ao passo de, então, o consumo dessa literatura mudou.
17:44O que é muito comum também,
17:46eu já tinha ouvido falar com mais propriedade,
17:47no mercado da música, né?
17:48O serviço de streaming mudou o consumo da música.
17:50Sim, o filme, a ideia do filme, o filme longo,
17:54o filme com três horas e meia,
17:56as pessoas já têm uma certa rejeição.
18:00Não importa se é de Scorsese,
18:02não importa se é de um grande...
18:03Não importa.
18:04Eu falei Scorsese porque Scorsese faz filmes longos.
18:08O filme de duas horas, ele é perfeitamente...
18:12Ele é rapidamente digerível.
18:15Palatável.
18:15Isso.
18:16A mesma coisa é o livro, né?
18:17Pelo que você está me falando.
18:18Quer dizer, um livro de 400 páginas,
18:20que vai demandar muito tempo para a leitura,
18:22ele parece estar sendo um pouco rejeitado.
18:24É, o que é curioso, né?
18:25Que tem muitos livros de menos páginas,
18:26você demora muito mais para ler,
18:27porque exige muito mais de você
18:30do que necessariamente um livro de 400 páginas.
18:32Mas eu acho que até vem isso.
18:34O que as pessoas esperam de uma experiência literária?
18:36E eu não tenho como...
18:37É absurdo pensar, eu acho,
18:39que a literatura, ela é um objeto estático.
18:43que se lê...
18:44Vamos puxar Machado de Assis,
18:46que eu acho que é um nome longe de qualquer contestação.
18:49Eu acho que é absurdo pensar que se lê
18:51Memórias Próximas de Blas Cubas
18:53do mesmo jeito que se lê quando foi lançado.
18:55Claro.
18:55O leitor é outro.
18:56O modo como aquele livro impacta.
18:58E o sistema literário é outro.
18:59Então, eu penso que, da mesma forma,
19:02não é tanta quantidade de páginas.
19:04Eu penso.
19:05A quantidade de páginas é um sinal.
19:06Como a gente lê esse sinal,
19:07são outros caminhos.
19:09Mas, o que esse leitor, ele espera
19:12quando ele vai ao livro?
19:14E, ao passo, também a gente pode expandir.
19:16O que as pessoas estão esperando
19:17de qualquer experiência?
19:19Por que as pessoas se movem
19:20em relação àquilo que é
19:22uma razão de desejo delas?
19:24E até que ponto o livro...
19:25Aí você tem dois caminhos.
19:27Até que ponto o livro ou a literatura,
19:28ela tem função de corresponder a isso?
19:30E até que ponto o livro ou a literatura
19:32tem uma função de questionar esse papel?
19:34E todos os dois caminhos,
19:36eles são meritórios.
19:36Não existe demérito nenhum.
19:38Muito pelo contrário.
19:39E aí entra, eu acho,
19:41o jogo das pequenas editoras.
19:42Que aí é o papel,
19:43tanto meu, do Saulo,
19:46com a Coza,
19:47com o protocultural,
19:47que é essas atividades
19:48que ele está mais dedicado,
19:49do Alfredo na Cândida,
19:50da Marília,
19:51toda essa galera eu percebo que...
19:53Do Binda, Gustavo Binda.
19:54Do Binda com a Maré.
19:55Nós somos todos parte
19:56de um grande sistema
19:57em que, por mais que pareçamos muitos,
20:00não somos.
20:01Eu acho que essa perspectiva
20:02é bacana, por quê?
20:04Dentro de um sistema literário,
20:06e aí eu quero dizer
20:08que o sistema literário
20:08eu trato mais ou menos
20:09naquela perspectiva do Cândido,
20:11para deixar isso mais nítido,
20:13que o livro só,
20:14o autor não se basta,
20:16o texto não se basta,
20:17você precisa de todo um sistema
20:18que faz com que isso circule,
20:19com que isso crie
20:20uma identidade.
20:22Então,
20:23eu preciso do comentário do texto,
20:25eu preciso de uma crítica literária,
20:26eu preciso do leitor,
20:27eu preciso de um sistema
20:28de formação de leitores.
20:29Perfeito.
20:30Então, tudo isso se encaminha
20:31para esse sistema.
20:33Quando eu percebo que
20:34o meu serviço,
20:35junto com os outros editores,
20:36eles formam,
20:37uma pequena parte
20:38desse sistema literário,
20:39significa que,
20:41de alguma forma,
20:42e aí eu não sei precisar como,
20:43eu sei que acontece,
20:45nós somos o canal
20:46em que
20:48aquele texto
20:49que foi gestado por alguém,
20:50ele encontra um caminho
20:51de frutificar,
20:53ele encontra um caminho
20:53de chegar
20:54a quem deseja,
20:55de alguma forma,
20:56aquilo que está naquele livro.
20:59E aí,
21:01esse encontro
21:02que se dá com o editor,
21:03e aí é muito curioso
21:05quando você puxa os editores,
21:06elas têm muitos perfis, né?
21:07O livro da Cousa
21:07é um livro da Cousa,
21:08o livro da Pedregulha
21:09é um livro da Pedregulha,
21:10o livro da Cândida
21:10é um livro da Cândida.
21:12Então, isso cria identidades
21:13em que nós também temos
21:14os leitores da Cousa,
21:16assim como a Pedregulha
21:17e a Cândida
21:17têm os seus leitores
21:18que vão buscar
21:19no seu catálogo
21:20aquilo que é a identidade
21:21daquele editor.
21:22Porque o livro,
21:23ele é um produto
21:24necessariamente coletivo.
21:25A literatura,
21:26ela não se faz sozinha.
21:27Então, eu tenho muita consciência
21:29de que os textos da Cousa,
21:31eles são textos da Cousa.
21:32Que se eles fossem tratados
21:34por outras pessoas,
21:36eles teriam um caminho diverso.
21:37Isso não faz deles melhores
21:38nem piores.
21:39Só fazem com que eles aconteçam
21:41de uma forma diferente.
21:43E eu fico pensando
21:44que se não fosse esse trabalho
21:45que nós temos
21:46que às vezes é muito pequeno,
21:47porque um livro,
21:48para a gente,
21:49tem uma tiragem muito grande
21:50quando é de 300 exemplares,
21:51o que parece que não é muito,
21:53mas para a gente
21:53é uma imensidão
21:55em 300 exemplares,
21:56é que não é justo,
21:59eu penso,
22:00se a literatura é um direito,
22:02que ele seja cerceado
22:03das pessoas.
22:04Então,
22:05que as pessoas
22:05tenham o direito
22:06de ler aquilo
22:07que as pessoas escreveram
22:07é uma função
22:08das pequenas editoras.
22:09E que as pessoas
22:10possam publicar
22:10e se dar o direito
22:11de ser lidos
22:12é uma função
22:12das pequenas editoras.
22:13Sim,
22:13mas isso demanda
22:15dinheiro.
22:16Sim.
22:17Certo?
22:17O livro é caro hoje,
22:19a produção de um livro hoje,
22:20vamos colocar,
22:21de 500 exemplares
22:22de um livro
22:23de 200 páginas,
22:25é hoje,
22:26você diria,
22:27é uma produção
22:27que poderia ser barateada
22:29e se ela podia ser barateada,
22:31como?
22:31Com papel,
22:32papel reciclado,
22:33como?
22:34Eu acho que ela podia
22:35ter,
22:36Greg,
22:36eu acho que
22:39eu acho que
22:41a falta de uma política pública
22:42de manutenção do livro
22:43e aí cabe pensar
22:44literatura enquanto sistema
22:45é o que mais pesa
22:47na gente que trabalha
22:48com o livro.
22:49Porque
22:50um livro,
22:51para a gente produzir
22:52um livro de 200 páginas,
22:53miolo preto e branco,
22:54um padrão,
22:55mesmo de livro de literatura,
22:57500 exemplares,
22:58considerando todos os serviços
22:59que a editora faz,
23:00revisão,
23:00designer,
23:01o próprio processo editorial,
23:02registros
23:03e a impressão,
23:04a gente não vai conseguir
23:05fazer esse livro
23:06por menos
23:07ou por um valor
23:07muito aproximado
23:08de 10 mil reais.
23:09É um valor
23:10que eu acho muito caro.
23:12Mas aí eu percebo
23:13que se eu tivesse condições
23:14de imprimir mais,
23:15o preço, por exemplo,
23:16já caía.
23:17Só que eu não tenho condição
23:18de imprimir mais
23:19se eu não tenho
23:19mais que 500 leitores.
23:21Entende?
23:21Eu não tenho condição
23:22de pensar
23:25de outra forma
23:26esse livro
23:27se a minha própria
23:27comunidade leitura
23:28não me dá condições
23:29de elaborar novas estratégias.
23:31E aí eu acho
23:31que tem algumas soluções
23:32que são interessantes.
23:33Porque
23:34o que a gente está falando
23:35é de financiamento.
23:36O financiamento
23:37para produzir o livro.
23:38E a gente,
23:38enquanto trabalhador do livro,
23:39teve que se virar com isso.
23:41Algumas editoras
23:41estão adotando as estratégias,
23:42por exemplo,
23:43da pré-venda.
23:44Você recebe o texto,
23:45você trata o texto,
23:46mas aquele caminho
23:47para finalizar
23:48ele fica suspenso,
23:49ele fica aguardando.
23:50Eu arrumo um jeito
23:50daquele livro se financiar,
23:52eu vendo ele
23:52antes de ser lançado,
23:53antes dele ser produzido,
23:54para que essa venda
23:55de todos aqueles
23:56que querem ler
23:56possa pagar
23:58a impressão do livro.
23:59É uma inversão,
23:59na verdade.
24:00e é uma lógica.
24:02Na verdade,
24:02a gente que trabalha
24:03com livro,
24:03então a gente trabalha
24:04na função de estratégias.
24:06Os livros,
24:07por exemplo,
24:08eu tenho e volto a dizer,
24:10não necessariamente
24:10aquilo que foi publicado
24:11é muito bom,
24:12não necessariamente
24:12aquilo que vende
24:13é muito bom.
24:14É muito bom
24:14quando essas coisas
24:15se encontram,
24:15mas às vezes
24:16não é o caso.
24:17E aí,
24:18cabe até a estratégia
24:18de você começar a perceber.
24:20Eu tenho um livro
24:20que é altamente vendável,
24:21mas eu tenho um livro,
24:22por exemplo,
24:22Poesia,
24:23que as pessoas leem muito pouco,
24:24que é muito bonito
24:25e que vale a pena
24:25a editora ter no catálogo.
24:26Então,
24:27eu vou produzir um livro
24:27que seja altamente vendável
24:29para financiar o livro
24:29de poesias
24:30que eu acho que merece
24:30ser publicado.
24:34Nosso tempo acabou,
24:36mas eu quero fazer
24:38uma colocação.
24:40Nós temos muitos jovens
24:43que têm talento
24:46para escrever,
24:46mas que não obtiveram ainda
24:48uma oportunidade.
24:50Se eles quiserem enviar
24:51os originais para a Cousa,
24:53como é que eles fazem?
24:55A gente tem umas datas
24:57que a gente abre chamadas.
24:58Eu recomendo
24:59que espere chamadas
24:59porque a editora
25:01é uma loucura.
25:02Quando a gente abre chamadas
25:02chega muita coisa.
25:04Então,
25:05a gente receber originais
25:06é uma coisa
25:06que demanda muito trabalho.
25:08E, querendo ou não,
25:09um livro que chegue,
25:10que ele seja muito bom
25:11para a gente,
25:12se ele chegar
25:13num momento errado
25:13em que a gente não saiba lê-lo,
25:15ele também vai passar batido,
25:16o que é um crime com o autor.
25:17Claro, claro.
25:17Porque é trabalho
25:18que o autor faz.
25:19Então, eu recomendo
25:20que espere chamadas.
25:21Você pode acompanhar
25:21pela rede social,
25:22a gente sempre divulga
25:23pelo Instagram
25:24e Facebook,
25:25o arroba Editora Cousa.
25:26Só procurar que a gente está lá.
25:27E, abrindo a chamada,
25:29envia que aí
25:29a gente vai estar
25:30com toda a nossa equipe
25:31voltada
25:32para poder fazer
25:32essa curadoria
25:33com a atenção
25:34que a gente pensa,
25:35pelo menos,
25:36que o texto merece.
25:38Gabriel,
25:38que papo ótimo, cara.
25:39Que aprendizado.
25:40Muito obrigado, cara.
25:41Muito obrigado mesmo.
25:42Espero que você volte aqui
25:43para a gente conversar mais,
25:45para que a gente possa
25:46abordar outros assuntos
25:48que vão conectados
25:50à ideia de edição,
25:51mas que vão extrapolar.
25:52Isso aí.
25:53Muito obrigado, valeu.
25:54Te agradeço muito.
25:55Pessoal, espero que vocês
25:56tenham gostado do bate-papo.
25:58Eu gostei muito.
26:00E, Gabriel,
26:01tenho uma última palavra.
26:02É toda sua.
26:03Eu que agradeço, professor.
26:04Acho que é uma sensação
26:06muito gostosa
26:06essa de passar da plateia
26:07para o palco.
26:08Quando o senhor fez o convite,
26:09eu fiquei muito feliz
26:10e muito animado.
26:11Estou até nervoso
26:12antes de começar.
26:13É isso.
26:14Voto, meus votos
26:15no Vitrine Literária.
26:17Estava até conversando contigo.
26:18Acho que é isso.
26:19O sistema literário,
26:20enquanto todo,
26:21ele precisa disso.
26:22Ele precisa de espaços
26:23para poder se falar
26:24de literatura.
26:25Beleza.
26:26Pessoal,
26:27até semana que vem
26:27na próxima edição
26:29do Vitrine Literária
26:29com o Francisco Grijó.
26:30Valeu.
26:31Um grande abraço.
26:33Você ouviu
26:34Vitrine Literária
26:36com o professor e escritor
26:38Francisco Grijó.
26:39Tudo sobre literatura
26:41contemporânea.
26:42Temas,
26:42autores,
26:43obras,
26:44debates,
26:45análises,
26:46curiosidades e bate-papo
26:48com autores e editores.