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  • há 2 semanas
Um papo sobre poesia, produção e divulgação literária com a poeta, divulgadora da literatura e produtora Literária, Lívia Corbellari.

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Transcrição
00:01Começa agora Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:20Olá pessoal, tudo bem?
00:22Mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó pelas plataformas da Rede Vitória,
00:27YouTube, Spotify e na página de vídeo do Folha Vitória.
00:31Como vocês sabem, como sempre aconteceu, vem ao programa poetas, editores, escritores, contistas, romancistas,
00:42professores de literatura, leitores, bibliotecários, ou seja, pessoas ligadas à literatura sempre.
00:50E de preferência, pessoas ligadas à literatura feita no Espírito Santo.
00:54Hoje eu vou bater um papo com uma poeta que eu conheci há muito tempo,
00:59que provavelmente já tinha o pendor pela poesia, mas não havia publicado.
01:05Eu a conheci em 2008, quando ela foi minha aluna, e hoje ela é uma publicitária de sucesso
01:11e é, evidentemente, uma ótima poeta.
01:14Por isso que ela está aqui.
01:16Mas antes eu queria só trazer a vocês um dado importante.
01:20A ideia de ser mulher já foi abordada aqui com figuras como Bernadette Lira, Línea Menenguti,
01:28Sueli Bispo e outras figuras que abrilhantaram o Vitrine Literária.
01:34Hoje eu vou trazer uma poeta que escreveu um livro que fala basicamente sobre isso.
01:41A ideia de ser mulher, o universo feminino, um livro muitíssimo interessante que você,
01:48que está me vendo, consegue ver.
01:50Está aqui.
01:51Carne Viva.
01:52Você que está me ouvindo vai saber que o livro se chama Carne Viva e a autora está aqui do
01:57meu lado.
01:58É a Lívia Corbellari, uma poeta excelente e já pronta.
02:03Ah, Grisó, mas acontece que ela só tem um livro.
02:06Sim, ela tem um livro, mas o livro dela fez com que ela se apresentasse como uma poeta pronta.
02:13Lívia, muito obrigado por você estar aqui.
02:15Agradeço demais sua presença.
02:17Aliás, foi difícil a gente...
02:19Quando você podia, eu não podia e vice-versa.
02:22Lívia, vamos começar com uma provocação para você.
02:27Algumas mulheres que estiveram aqui, algumas poetas ou contistas,
02:30nós conversamos sobre uma literatura que é, que tem como base o universo feminino.
02:38Eu li Carne Viva e Carne Viva é um livro escrito por uma mulher.
02:44E com um dado interessante, há passagens em que você diretamente fala sobre o que é ser mulher.
02:51Existe uma literatura que seja feminina?
02:55Já vamos começar, então, com a provocação.
02:59Mas queria começar agradecendo, primeiro, pelo convite e também pelas suas palavras.
03:04Acho que eu ainda tenho...
03:05Estou me construindo ainda como poeta, escritora desse universo da literatura,
03:10mas muito obrigada pelo convite, pelas palavras de apresentação.
03:13E eu acredito que não.
03:16Eu acho que a literatura...
03:17A não ser que você esteja falando da literatura feminina,
03:20da literatura escrita por mulheres como um gênero,
03:22eu acho que não.
03:24Não acho que é um gênero, um rótulo,
03:26algo que coloque todas as mulheres numa caixinha,
03:28como se tivessem marcas ali que você pudesse...
03:31Igual quando você...
03:32De gêneros literários, o conto tem os seus detalhes,
03:36a poesia, os poemas, o romance.
03:39Eu acho que não.
03:40Eu acho que a literatura é literatura para todos.
03:44Mas eu acho que hoje é importante a gente fazer essas marcações.
03:48Assim como literatura escrita por pessoas negras,
03:53que alguns chamam de literatura negra,
03:55ou literatura LGBT, ou literatura trans,
03:57agora com as pessoas trans também.
04:00Eu acho que é importante talvez a gente fazer esses rótulos,
04:02essas marcações hoje, apesar deles me incomodarem,
04:04porque muita gente se confunde com um gênero,
04:07ou como caixinhas que vão colocando as pessoas.
04:10Mas é importante para as pessoas conhecerem.
04:12Essas são as mulheres que estão escrevendo,
04:14essas são essas mulheres que estão agora escrevendo,
04:18na contemporaneidade,
04:19sejam mulheres cis, mulheres trans,
04:21da questão LGBT, mulheres negras,
04:23todas elas têm a sua voz hoje.
04:26Hoje a gente é publicada, é lida,
04:28ainda temos uma grande jornada a seguir,
04:31pela igualdade, isso em todas as artes, eu acredito.
04:34Mas esse é o que eu penso, nesse momento atual.
04:37Eu concordo em parte com você,
04:40mas quando eu leio, eu li seus textos,
04:43pela primeira vez, há cinco anos,
04:46quando você lançou,
04:48me chamou a atenção o fato de você utilizar referenciais da mulher.
04:54Por exemplo, eu quero que as pessoas ouçam,
04:56e você também,
04:58há um texto seu assim, que eu acho excelente,
05:00talvez um dos meus preferidos,
05:03em que você diz o seguinte,
05:04Ouvi dizer que um útero é do tamanho de um punho,
05:09perigoso,
05:09e como tudo que é perigoso,
05:12tentaram governar.
05:15Isso não é uma fala masculina,
05:17tá?
05:17Mas a mulher é sagrada,
05:19e como tudo que é sagrado,
05:21tentaram matar.
05:23Mas semente é forte,
05:25e persiste erva daninha,
05:28e me encho de hematoma só com os olhares.
05:30Me parece um poema de mulher,
05:34um poema com referencial feminino.
05:35Claro, claro.
05:37Eu concordo com você,
05:38não há uma literatura,
05:38é um rótulo muito resumitivo,
05:41literatura feminina.
05:42Mas, por você ser mulher,
05:45você só saberia se expressar dessa maneira?
05:49Não, claro,
05:50eu acredito que todo mundo fala de algum lugar.
05:52Você, enquanto homem,
05:53vai usar referenciais de homem na sua literatura também.
05:56Então,
05:57mas a gente não discute uma literatura masculina,
05:59como se ela fosse universal,
06:02como se os homens falassem para todo mundo.
06:03Mas eles não,
06:04eles falam também de um lugar deles,
06:06da vivência deles,
06:07de questões deles,
06:08de fantasias deles,
06:10de questões específicas masculinas,
06:12assim como nós falamos de questões específicas femininas.
06:16Cada um fala do seu lugar,
06:17eu, do meu lugar,
06:18enquanto uma mulher,
06:19das vivências que eu tive,
06:20de onde eu vim,
06:21de um lugar geográfico mesmo,
06:22aqui do Espírito Santo,
06:23não poderia falar como uma outra mulher,
06:25de outros estados,
06:27de outros países.
06:27Então,
06:28tudo isso está marcado na minha literatura,
06:31não só como mulher,
06:31mas como capixaba,
06:35jornalista,
06:35trabalhando com rede social hoje,
06:37tudo isso está marcado de alguma forma.
06:39Ou o que acontece no mundo,
06:41o que acontece no Brasil,
06:42também me atravessa de alguma forma.
06:45Tudo isso está marcado do lugar de onde eu falo.
06:48Mas eu acho que é isso,
06:50entendeu?
06:51Os homens também.
06:52Só que eu acho que como a gente,
06:53eu mesma,
06:54desde pequena,
06:54a gente já começa a ler os homens,
06:57desde pequena,
06:57na escola,
06:58são os primeiros clássicos que a gente lê,
07:00acho que a gente já aprendeu a traduzir melhor os homens,
07:03e os homens,
07:04ou todas as pessoas que gostam de ler,
07:06ainda estão aprendendo a traduzir as mulheres,
07:08e aí, às vezes,
07:08coloca um pouco nesse lugar,
07:09como que só as mulheres fossem entender,
07:11como se meu livro fosse um livro
07:14destinado apenas a leitoras,
07:15e eu acredito não,
07:16ele é destinado a todos,
07:18principalmente para os homens,
07:19acho que ele talvez bata algumas coisas mais fortes nos homens.
07:24É, eu conversei com a Sueli Bispo,
07:27foi, salvo engano,
07:29há dois anos e meio, mais ou menos,
07:30logo que a gente começou,
07:32a Sueli é uma poeta extraordinária, né?
07:35E o que eu questionei a Sueli foi o seguinte,
07:39é possível um branco fazer uma literatura como um preto?
07:44Ela disse que não,
07:47porque é complicado você tentar expressar-se como uma coisa que você não é.
07:55Chico Buarque de Holanda,
07:56dizem que Chico Buarque de Holanda consegue se expressar como mulher,
07:59eu acho impossível, tá?
08:02Mas você,
08:03você consegue fazer uma poesia que não seja brotando no universo feminino?
08:09Não.
08:09Já tentou?
08:10Não, e também não quero, sabe?
08:14Eu acho que é isso,
08:16eu falo das minhas coisas,
08:17não tem como eu falar de outras coisas que não sejam as coisas que me atravessam enquanto mulher, né?
08:24Mas eu acredito também que enquanto um romancista,
08:28eu acho que você criar,
08:29se eu quiser escrever um romance na prosa,
08:31criar um personagem que dentro desse livro tenha personagens negros,
08:35personagens talvez de realidade muito diferente da minha,
08:38eu acho que é importante, se eu puder pesquisar,
08:42entrevistar essas pessoas,
08:43conversar, fazer um trabalho jornalístico mesmo de pesquisa,
08:46eu acredito que sim,
08:47que eu posso trazer esses personagens pra dentro como personagens,
08:50agora como eu falar por eles,
08:53eu fazer essa voz,
08:54eu falar enquanto como se fosse uma pessoa negra,
08:56jamais, eu não vivi, não sou negra,
08:58não sei como é viver,
09:00o dia a dia, a rotina,
09:01o que dói,
09:03o que dá prazer,
09:04tudo isso eu não sei viver,
09:06porque eu não sou uma pessoa negra.
09:07Mas eu acredito que enquanto romancista,
09:10sim,
09:10possa criar personagens ali dentro,
09:12a partir de uma pesquisa,
09:14de um interesse mesmo,
09:15de se aprofundar,
09:17de entrevistar,
09:18de fazer esse trabalho como se fosse um jornalista mesmo, sim.
09:21Eu observei nos seus poemas que você tem muito daquela poesia jovem
09:26que foi feita no Brasil na virada dos anos 1960 para 70.
09:33Claro que, obviamente, quando eu estou falando,
09:35eu estou falando só que existe, que me lembrou, né?
09:38Mas você me parece descartar elementos fundamentais da poesia,
09:45como a rima e, portanto, a musicalidade,
09:48mas o ritmo você mantém.
09:50Isso é intencional?
09:52Ou é uma coisa natural?
09:54Não, assim, é intencional no sentido de...
09:57Meus poemas passam muito pela edição.
10:00Eu escrevo, reescrevo,
10:02vou editando, vou trocando palavras,
10:03e essa coisa do ritmo, de falar em voz alta,
10:06é muito importante pra mim,
10:07e às vezes de ir cortando pra...
10:10Porque às vezes eu falo em voz alta
10:12e tá agarrando alguma coisa,
10:14não tá fluindo,
10:15ainda mais por eu ter vindo muito de sarau,
10:16de gostar muito de participar de sarau,
10:18muitos desses poemas nasceram, assim, em saraus,
10:20e aí isso pra sonoridade é muito importante.
10:23Eu gosto muito de música também.
10:25Então eu acho que vem natural no sentido de falar em voz alta,
10:29e ouvir, e ir editando,
10:31mas eles não chegam prontos, né?
10:33Eu gosto muito de editar, de reescrever,
10:35tanto que meus poemas são muito curtos,
10:36por conta desse meu processo de estar sempre reescrevendo,
10:39cortando, enxugando,
10:40até eu achar que é só aqueles três versos,
10:44e aí agora tá pronto.
10:45Você tinha, né?
10:47Fiquei sabendo hoje, por você mesma,
10:49que você não tem mais um programa que eu achava ótimo,
10:53chamado Livros por Lívia,
10:55em que você apresentava poemas,
10:57autores, falava...
10:58Era um programa muito saudável,
11:03e pra quem queria ter uma iniciação na literatura,
11:07no Espírito Santo, por exemplo,
11:09você fazia um belo trabalho.
11:11Você falou pra mim que você acabou,
11:12e agora você tá com um programa chamado Zona Literária.
11:15O que que vem a ser esse trabalho itinerante?
11:18É, na verdade, assim, eu não acho que...
11:20E por que que acabou o Livros por Lívia?
11:21É, eu não acho que tenha acabado.
11:22Na verdade, eu acho que ele foi se transformando, né?
11:24O Livros por Lívia nasceu, acho que em 2013,
11:26na época eu trabalhava com jornalismo cultural, né?
11:28Fui editora do Caderno de Cultura do Século Diário.
11:31Você fez uma entrevista comigo,
11:32quando saiu todas elas agora, em 2013.
11:35Ah, no Século Diário, era editora.
11:37Então foi muito tempo do jornalista,
11:38então eu tava vivendo muito esse universo,
11:40tinha acabado de me formar.
11:41E aí o blog, que era a plataforma mais usada, assim, na época, né?
11:46Era onde eu colocava as minhas resenhas mais aprofundadas,
11:49os meus comentários, assim, dos livros que eu lia,
11:51e principalmente da literatura produzida aqui no Espírito Santo,
11:54que era o momento que eu tava entrando mais em contato, né?
11:56Apesar de eu já ter participado do Cronópio, também,
11:58durante a universidade.
12:00Sim, com o Erli, né?
12:00Com o Erli, que era o orientador.
12:02Eu fiz o número zero do Cronópio, o que eu fiz?
12:04Foi, então, ali eu já tava me experimentando no jornalismo cultural,
12:08aí fiz o meu próprio blog, que era o Livros por Livro,
12:10e ali eu fazia as resenhas.
12:12Mas aí a internet foi mudando muito, né?
12:14Então, aí depois eu fui pro YouTube, fiz um canal no YouTube,
12:17que eu fazia as resenhas escritas,
12:18aí depois ia pro vídeo falar.
12:20E aí também o canal no YouTube,
12:22ele tem uma certa produção, né?
12:25De gravar, de edição, de cenário, de ter luz, né?
12:28A gente tá aqui com várias câmeras,
12:30e o canal no YouTube evoluiu pra ser hoje o que é a TV, né?
12:34Então, as pessoas é uma mega produção.
12:36Você vê que tem canais no YouTube que tá com a mesma produção aqui,
12:39sabe?
12:40Com equipamentos muito bons.
12:42E aí, às vezes, eu não consegui ir me atualizando,
12:44e ter esse tempo dessa produção pra fazer os vídeos no YouTube.
12:48Então, eu acabei indo mais pro Instagram.
12:51Então, no meu perfil pessoal, eu continuo dando as dicas,
12:54continuo fazendo as resenhas,
12:56continuo fazendo postagens, assim,
12:58sobre a literatura produzida aqui no Espírito Santo,
13:00mas de uma forma mais pessoal ali,
13:02no dia a dia, nas postagens ali da rede social, do Instagram.
13:06Mas aí eu acabei indo, saindo um pouco da internet também, né?
13:11Pro Zona Literária, que é um evento
13:13que a gente realiza desde 2021,
13:16foi a primeira edição, né?
13:17A gente tem quem?
13:19É que, na verdade, ele é bem coletivo.
13:21Eu faço ele com outros escritores, né?
13:23Com o Heitor Righetti, que é realizador audiovisual,
13:26que é meu companheiro também,
13:28com a Ingrid Carrafa, que é escritora,
13:30o João Chagas também,
13:32a Aline Dias também tá sempre junto com a gente nos projetos.
13:34A Aline Dias também é aqui, inclusive.
13:36Joane Vailan.
13:37Nossa, é um grande grupo.
13:38O pessoal do Poesia Inútil também,
13:40sempre um grande parceiro.
13:43Então, ele é um projeto coletivo,
13:45e aí eu coloquei esse nome,
13:46que é o Zona Literária,
13:47e a gente já realizou algumas edições
13:49na Biblioteca Municipal de Vitória
13:50e na Telema, aqui no Centro de Vitória.
13:53E é um evento que combina, assim,
13:55sarau, bate-papo, lançamento de livro.
13:57A gente também faz o lançamento de um zine,
13:59com os escritores que participam de cada edição.
14:01A gente lança um zine também.
14:03E aí agora ele se transforma mais uma vez
14:05e virou um cineclube,
14:07que é o Cine Zona,
14:08que também é itinerante, né?
14:09A gente tem realizado aí algumas edições
14:11aqui no Centro de Vitória,
14:12já fomos para Cariacica,
14:15Serra, Conceição da Barra,
14:17Vila Velha.
14:18E a gente vai exibindo filmes baseados em livros
14:21para ficar discutindo aí também.
14:23A curadoria é sua?
14:24É, a curadoria é...
14:26Sua ou é do grupo?
14:27É coletiva.
14:28É coletiva, sim.
14:29A gente está sempre antenado,
14:30tentando descobrir,
14:31e sempre muito privilegiando a produção aqui.
14:34Tanto seja se o filme é feito por um capixaba
14:38ou se é baseado num livro de um capixaba.
14:40Mas a gente também vai...
14:42Maravilha, parabéns, cara.
14:43Parabéns por isso.
14:44Isso aí é um belo trabalho.
14:45Belo trabalho.
14:48Quando você fala em sarau,
14:50a minha ideia de sarau é uma ideia poética.
14:53Você não se aventurou na prosa.
14:55Embora você tenha textos aqui
14:56que tenham o formato da prosa,
14:58mas eles são altamente poéticos.
15:00Você pensa em trabalhar com prosa?
15:02Sim, inclusive o meu próximo livro
15:05que eu estou ali trabalhando
15:06e que eu não consegui ainda lançar
15:08é justamente porque eu estou me experimentando em contos.
15:11Mas eu acabo esbarrando nesse meu processo de edição
15:14e alguns contos viraram poemas,
15:16alguns contos têm só o começo,
15:18outros têm só o final,
15:19a criação de personagens também está sendo um desafio,
15:21mas eu estou tentando entrar nesse universo aí.
15:26É porque há uma coisa que eu sempre...
15:28Eu me lembro que nos anos 80,
15:30a gente conversava muito,
15:31o Bernadette com o Flávio Sarlo,
15:33a gente sentava para conversar,
15:37Sebastião Lírio,
15:39que o poeta vê o mundo de forma fragmentada
15:43e ele consegue pegar aquela fragmentação
15:46e jogar para o texto.
15:47O contista e o romancista
15:49vêem um mundo de forma linear.
15:51Você,
15:53é só conversar com você
15:54que você tem a linearidade,
15:56você não é fragmento,
15:57mas você se dedicou
15:59a fazer uma literatura fragmentada.
16:02Essa propensão pela poesia
16:04é por quê?
16:05De onde vem isso?
16:06Nossa,
16:07é difícil,
16:08mas eu acho que eu acabo
16:10me dividindo um pouco em duas.
16:12Eu acho que esse meu lado jornalista,
16:13que é o mais linear,
16:15que acaba aflorando mais.
16:17E aí eu acho que quando eu fui começar
16:19a escrever minhas coisas,
16:20eu acho que eu iria me distanciar um pouco disso,
16:22que era o jornalismo,
16:23da objetividade,
16:25desse texto mais duro,
16:26do dia a dia,
16:28da notícia.
16:29E aí eu acho que eu fui
16:30me afastando disso.
16:32Quando eu quis,
16:33quando eu virava essa chavinha da literatura,
16:36vinha um outro lado meu,
16:37que é esse lado mais fragmentado mesmo,
16:40de ver as coisas como imagem,
16:43às vezes,
16:44só tentar transpor uma imagem em palavras
16:46e pensar isso também,
16:48meus poemas também,
16:48às vezes ele está num cantinho só da página,
16:51está no meio,
16:51palavras assim mais espaçadas,
16:54pensar também.
16:55Eu queria te perguntar isso.
16:57Essa disposição espacial
16:59que você fez no texto,
17:01eu não tive,
17:02eu não tive,
17:03eu não consegui
17:06compreender,
17:07eu não vi um padrão aqui.
17:09Não, não tem.
17:10E há um poema aqui
17:11que você fala o seguinte,
17:13só queria um sentido,
17:15que me fizesse chegar bem
17:17ao fim do dia,
17:19para me equilibrar nessa corda bamba
17:21e não ter inveja daqueles
17:23que estão no chão.
17:24Há uma certa melancolia nos seus poemas.
17:27Certo?
17:28Mas essa melancolia é por ser mulher,
17:31porque é uma condição
17:34muito complicada no Brasil,
17:37somente nesse Brasil
17:38dos últimos cinco anos,
17:41mas essa melancolia,
17:43ela é intencional?
17:46Trabalhar com ela
17:47é uma ferramenta para você?
17:50Eu acho que é um pouco dos dois.
17:52Acho que é um pouco também,
17:53talvez,
17:54de ser mulher,
17:55mas acho que é muito também,
17:56pelo momento que eu estava passando,
17:57na escrita do livro,
17:59talvez um pouco da minha personalidade,
18:01também,
18:02independente de outras questões.
18:04e é intencional,
18:06porque a minha literatura,
18:08eu tenho muito esse trabalho,
18:09da edição,
18:10da reescrita,
18:11de repensar muito,
18:12então, de alguma forma,
18:13é intencional,
18:13porque não são poemas
18:15que eu escrevo
18:17e pronto,
18:18acabou,
18:19eles nascem como se fossem
18:20uma coisa,
18:21como se fossem um desabafo,
18:22não é assim também.
18:24A minha literatura,
18:24eu gosto muito de trabalhar
18:26a palavra,
18:26de encontrar as palavras
18:28que encaixam ali,
18:29que vão trazer os sentidos
18:31que eu quero,
18:31os sons que eu quero,
18:33então,
18:33ele não é uma questão
18:35tão espontânea,
18:35não é um desabafo,
18:37uma questão de terapia,
18:38a minha literatura é um trabalho mesmo,
18:40eu trabalho muito
18:41para chegar nos poemas,
18:43mas eu acho que tem mais a ver
18:44com essa questão
18:45do que eu estava passando,
18:46assim,
18:47nisso,
18:48esse poema mesmo,
18:49eu acho que ele fala mais
18:50de uma coisa de,
18:54desse esmagamento
18:54do dia a dia
18:55que homens e mulheres têm,
18:58dessa coisa da rotina,
18:59às vezes,
18:59muito pesada,
19:00e você se sentir preso ali
19:03em algum lugar,
19:03de pressões,
19:05de trabalho,
19:05de outras pessoas e tal,
19:07e não conseguir,
19:08assim,
19:09ser você mesmo,
19:10assim,
19:11sempre tem que estar
19:13preso ali,
19:14né,
19:14a que a sociedade impõe,
19:16e eu acho que isso é um sentimento
19:18de homens e mulheres
19:19no que a gente vive hoje,
19:20né?
19:21Mas existe um ponto
19:22que eu queria,
19:22eu acho um ponto polêmico,
19:24realmente,
19:25não só para você,
19:26mas para qualquer poeta
19:27que encare a poesia
19:31como um trabalho.
19:33Uma vez,
19:34chegaram para João Cabral de Melo Neto,
19:35que era um grande poeta cerebral,
19:37e perguntaram para ele
19:39se ele,
19:40se aquilo ali
19:41era inspiração.
19:42Ele disse que não,
19:43que ele escrevia,
19:44sentava e escrevia,
19:46independentemente de pensar
19:47ou não no assunto,
19:48ou independentemente
19:49de aquilo ter tocado
19:50o coração dele ou não.
19:52quando você,
19:53quando você
19:55escreve seus poemas,
19:56ele vem
19:57de algum lugar,
19:58né?
19:59E ele vem,
20:00evidentemente,
20:01sem nenhum tipo de rédea,
20:02e você que vai colocar
20:03essas rédeas depois.
20:05A partir do momento
20:06que você começa
20:07a trocar palavras
20:08e começa a ajustar
20:09o poema
20:09do jeito que você quer,
20:11ele não te parece
20:12menos emotivo
20:12e menos verdadeiro?
20:14Não, não,
20:15não me parece.
20:16Eu acho que
20:17faz parte
20:19do trabalho artístico,
20:20acho que isso
20:20não deixa o trabalho artístico
20:22menos verdadeiro
20:23ou menos emotivo.
20:24Eu acho que
20:25faz parte
20:26de qualquer trabalho artístico.
20:27Um músico,
20:27quando vai escrever,
20:28ele precisa
20:29ter domínio ali
20:30do instrumento dele,
20:31estudar muito
20:33e fazer a música
20:34de acordo ali
20:35com algumas regras
20:36que tem que seguir,
20:36o artista plástico também,
20:38o cineasta também,
20:40quando ele vai filmar,
20:41sabe?
20:41Tudo passa de um trabalho,
20:42assim.
20:43E eu acredito
20:44que não deixa,
20:45eu acho que é só,
20:47faz parte
20:47do trabalho,
20:49da literatura.
20:50Eu concordo com você,
20:51eu concordo,
20:52o trabalho do artista é esse.
20:53O artista não é somente
20:55expressar,
20:56mas também...
20:56De traduzir também,
20:58de botar até
20:58todo o pensamento do livro,
21:00enquanto objeto,
21:01pensar na capa,
21:02uma capa que realmente
21:02vai chamar atenção,
21:04um nome que vai passar
21:05aquela ideia,
21:06sabe?
21:06Acho que todo esse trabalho
21:07faz parte,
21:09assim, né?
21:09Tanto de...
21:10Tanto que eu acho
21:10que é muito diferente
21:11você escrever,
21:12você escrever um livro,
21:13né?
21:13Quando você vai pensar
21:14num livro,
21:14você vai pensar um conceito,
21:15uma capa,
21:16uma equipe,
21:16não é você sozinho,
21:17então já vira um trabalho
21:18coletivo,
21:19é meu nome que tá na capa,
21:20né?
21:20Os nossos nomes
21:21aparecem na capa,
21:22mas tem tanta gente
21:23envolvida na cadeia
21:24de trabalho,
21:24né?
21:25Do livro,
21:25que ele vira realmente
21:27esse produto artístico
21:28e a gente precisa
21:29pensar muito bem
21:30no que a gente vai
21:31botar ali, né?
21:32O que...
21:33vem um novo livro de contos?
21:35Eu é.
21:35Ele vem esse ano ainda?
21:36Não.
21:38Não, tô...
21:38Você demora,
21:39o seu processo de criação,
21:42ele é lento?
21:42Ele é,
21:43eu tô escrevendo esse livro,
21:44acho que desde 2015,
21:46assim, né?
21:47Porque ele tem duas edições,
21:48né?
21:48É.
21:48Tem o Carne Viva,
21:49que é a que eu tenho,
21:50e eu ganhei esse aqui hoje.
21:52Pra quem não está...
21:53quem está nos vendo,
21:54é uma outra capa
21:55com um poema no final
21:58que não está no original,
22:00né?
22:00Um poema,
22:01deixa eu ver aqui,
22:02um poema cujo título é
22:04Memória da Pele.
22:06Eu estou lendo pela primeira vez,
22:08andar por todas essas ruas
22:10não me preparou para o cansaço
22:12de me perder
22:13e me reencontrar.
22:15Estou voltando aos poucos,
22:17mas ainda é tudo muito frágil,
22:19como se a camada que tivesse se formado
22:21por cima da carne viva
22:23ainda não fosse tão grossa,
22:25ainda dói
22:26quando encostam.
22:28Claro que eu só li um trecho,
22:30que também é melancólico.
22:31Que também é.
22:33Me parece que uma marca
22:34da sua poesia é isso, né?
22:37É.
22:38Não, é interessante que eu acho
22:40que vem muito do seu lugar também
22:42como leitor,
22:43porque eu já ouvi
22:44muitas coisas diferentes, assim,
22:46das pessoas que vêm
22:48lendo o meu livro, entendeu?
22:50Já ouvi de melancólico,
22:52já ouvi que ele é muito violento
22:54ou que ele é muito triste também,
22:56já ouvi outras pessoas falando
22:57que ele tem uma coisa do erótico também.
23:00Sim, é um ponto de abordagem.
23:03Então, eu acho muito...
23:03O erotismo existe, né?
23:04Eu escuto muitas coisas diferentes
23:06e eu adoro escutar, assim,
23:08coisas diferentes, assim.
23:09Mas eu não sei se talvez
23:10é a maior marca da melancolia,
23:12mas eu...
23:13É uma marca forte.
23:14Eu gosto de ouvir isso.
23:15Mas a ideia do erotismo
23:17também é muito forte.
23:18É porque...
23:20Primeiro que é muito elegante, né?
23:21A maneira como você trabalha o erotismo...
23:23Eu me lembro que quem esteve aqui
23:24foi o Anaximandra Mourinho,
23:25que escreveu um livro
23:27altamente erótico.
23:28E a ideia do erotismo,
23:30ela é uma ideia que,
23:32dependendo do talento do poeta,
23:34ela pode não ser tão elegante...
23:36Não estou falando em coisas de pornografia, não.
23:39Eu não tenho nada contra pornografia.
23:41Mas estou falando da elegância,
23:43não na terminologia,
23:45mas em como abordar o tema, né?
23:47Você faz isso muito bem.
23:48É bem difícil.
23:50É.
23:50Não é uma coisa fácil.
23:51Não em poesia.
23:52É.
23:53Não em poesia.
23:54Lívia,
23:55olha, que papo ótimo, cara.
23:57Que papo bom.
23:58Muito obrigado.
23:59Eu gostaria que você escolhesse
24:01um poema para ler.
24:02Nós temos ainda um pouquinho de tempo.
24:04Ai, que bom.
24:04Escolha um poema seu
24:05que você queira ler
24:06e leia para a gente.
24:07E outra coisa,
24:08quem quiser adquirir seu livro,
24:10como é que ele faz?
24:11Pode falar comigo,
24:12nas redes sociais,
24:13é arroba Lívia Cor,
24:15com o underline embaixo,
24:16e também no meu perfil
24:18do meu projeto, né?
24:19Arroba na Zona Literária,
24:21que a gente também está
24:21sempre produzindo evento.
24:22Então, segue lá para saber
24:23qual é o próximo evento
24:25que a gente vai realizar.
24:26Escolha um poema aí
24:27e lê para a gente.
24:28Vamos nesse aqui,
24:28então,
24:29para acho que pegar o gancho
24:30aqui do nosso...
24:31da última pergunta.
24:33Sua língua vai cortar lentamente
24:36cada parte minha.
24:37O fogo que lambe tudo
24:39vai encharcar o vão entre nós.
24:41Vamos misturar suor, saliva,
24:44gozo,
24:44até virar chuva.
24:47Muito bom.
24:48Parabéns.
24:49Obrigada.
24:49Muito obrigado por você ter participado.
24:51Muito obrigada também.
24:51Valeu, querida.
24:52E eu posso convidar você outras vezes?
24:53Pode, claro.
24:55Ótimo, ótimo.
24:55Muito obrigada.
24:56Obrigado, gente.
24:56Pessoal, espero que vocês tenham curtido
24:58esse papo com a Lívia.
25:00Eu gostei muito.
25:01Lívia está convidada já
25:02para voltar aqui.
25:03Então, até a próxima edição
25:05do Vitrine Literária
25:06com o Francisco Grinjó.
25:07Um grande abraço
25:08e obrigado pela audiência.
25:11Você ouveu
25:13Vitrine Literária
25:15com o professor e escritor
25:16Francisco Grinjó.
25:17Tudo sobre literatura contemporânea.
25:20Temas, autores, obras, debates,
25:23análises, curiosidades
25:25e bate-papo
25:26com autores e editores.

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