- há 2 semanas
Um papo com uma das mais importantes escritoras brasileiras, Bernadette Lyra, sobre mulheres na literatura, Espírito Santo, cinema e, claro, literatura.
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora, Vitrine Literária, com professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó,
00:24aqui pela página de vídeo do Folha Vitória, pela TV Vitória, pelo Spotify.
00:32Bem, nós estamos aqui para mais uma vez bater um papo sobre literatura e hoje é realmente um dia muito
00:41especial.
00:42É uma edição muito especial. Mas por que ela é tão especial assim?
00:46Você vai dizer, ah Grijó, você diz que todos são especiais.
00:50É, mas eu vou dizer que esse é mais. Por quê?
00:52Primeiro, porque eu levei muito tempo para convencê-la a vir aqui.
00:56Segundo, porque a minha relação com ela extrapola a relação de fã e ídolo.
01:04No caso, eu o fã, ela o ídolo.
01:07De ídolo literário, de uma figura que foi muito importante quando eu entrei na faculdade.
01:12Ela foi minha professora e depois ela me ajudou muito, fez o prefácio do meu primeiro livro.
01:17Nós vamos conversar sobre isso.
01:18E é, indiscutivelmente, uma das autoras mais importantes da literatura brasileira contemporânea.
01:25E quando eu falo contemporânea, eu não estou falando só do século XXI.
01:29Eu estou falando que ela está nesse topo, nesse cume da pirâmide, ela está desde os anos 80.
01:38Quando ela trouxe, quando eu pelo menos li o primeiro livro dela, intitulado As Contas no Canto.
01:44Eu estou falando justamente de Bernadette Lira, que nos dá a honra de estar aqui hoje.
01:49Vamos bater um grande papo sobre a produção literária, sobre o trabalho dela com o cinema.
01:54Ela que é professora da UFSS.
01:56Ela é professora também na USP.
01:59Ela ensina cinema e ensina literatura.
02:02Imagino que você esteja aposentado dos dois.
02:03Eu estou.
02:04Mas nós vamos conversar sobre isso.
02:06de como a literatura e o cinema podem se ajudar, literariamente.
02:11E, claro, falar sobre toda a trajetória dela com 15 livros ligados à literatura.
02:17Bernadette, minha querida, minha querida amiga.
02:19Ah, com um dado interessante.
02:20As relações da família Lira com a família Grigó são anteriores a nós.
02:26Porque o pai de Bernadette, seu Álvaro Lira, era muito amigo do meu pai.
02:30Os dois se gostavam muito e se encontravam muito em Constituição da Barra.
02:34Nós vamos falar sobre Constituição da Barra também, porque é a terra de Bernadette.
02:37Bem, eu já falei demais.
02:40Agradeço demais a você por você estar aqui.
02:42Foi muito bom.
02:43Eu tenho insistido para você vir.
02:45E espero que você curta o programa.
02:49Posso começar com uma pergunta bem provocativa?
02:52Claro, pode sim.
02:53Então, vamos lá.
02:53Obrigada pelas palavras.
02:55É o seguinte, Bernadette.
02:58Você é romancista e você é contista.
03:02Há uma história, há quase um meme verdadeiro de que o Cortázar, que é um dos seus ídolos,
03:11que é também meu, aliás, foi você que me apresentou o Cortázar,
03:15que o Cortázar teria dito que o conto derruba o leitor por nocaute,
03:21enquanto que o romance se derruba por pontos.
03:24Eu quero saber de você o seguinte, você é uma mestra dos dois gêneros,
03:29o conto e o crônico, o conto e o romance.
03:33A sua preferência em trabalhar a personagem, a trama, está no conto ou está no romance?
03:41Eu tenho a impressão que, na verdade, eu sou uma contista fazendo romance.
03:46Porque o romance, ele vem na literatura com toda aquela ideia de que o humano toma lugar de uma espécie
03:58de mitologia do divino.
04:00Você sabe muito bem que o romance vem para trazer as peripécias do humano em contraponto com a literatura da
04:10Idade Média.
04:11Então, quando ele vem, ele desbanca todo um aparato religioso, um aparato de Deus, que tudo vinha do céu,
04:19que coloca no homem o poder de gerenciar a sua vida, as suas ações.
04:27Eu gosto do romance, mas eu tenho a impressão que os meus romances,
04:33inclusive o Upiana, que está aqui, que foi finalista do prêmio Oceanos.
04:41Ah, sim, né? Foi finalista do Oceanos, né?
04:43Sim, então, três mil e tantos romances de onze países.
04:47E ele ficou entre os dez primeiros.
04:50Não foi o finalista do primeiro lugar, mas ficou entre os dez, o que já é uma Laura muito respeitável
04:57para mim
04:58e muito proveitosa e querida.
05:01Bom, o próprio Upiana, ele não tem aquela estrutura do romance fechado,
05:07que conta uma história, que, na verdade, o romance conta a história de pessoas, dos homens.
05:15E eu não tenho um fôlego muito longo para a história das pessoas.
05:20Eu sou, assim, de pegar fragmentos das histórias.
05:24Por isso eu digo que eu sou mais uma quantista.
05:27O próprio Upiana é feito de histórias variadas.
05:30Vários suicídios de mulheres, inclusive.
05:33Isso.
05:34Porque o livro é extremamente do partido feminino.
05:38O livro é sobre mulheres.
05:41De uma velhinha até uma jovenzinha.
05:44E todo, e muito semeado de suicídios, que fez, inclusive,
05:51amigos meus chorar, aquela coisa toda, e me perguntar por quê.
05:56Porque, na verdade, as pessoas confundem muito a vida do autor com as suas personagens.
06:02Eu não estou fazendo autoficção nesse livro em nenhum.
06:07Eu acho, ou estou, sei lá, não sei bem.
06:09Mas, de toda maneira, eu sou mais contista.
06:12Porque eu penso que o conto, não aquele conto tradicional de Tchekov,
06:18aquela coisa que eu admiro muito, mas aquele conto mais para o Donald Bartelme.
06:24Que corta, que traz uma espécie de beleza poética para o cenário mais comum da vida.
06:32Eu não faço uma literatura engajada, porque eu acho que a literatura, de qualquer maneira,
06:39por si só, ela já se engaja no social.
06:42Ela já é parte do social.
06:44E eu costumo dizer, Grigior, que eu acredito que eu tenho o dom de fazer conto.
06:50Porque o dom é uma palavra...
06:53Muniz Sudré, que foi meu orientador na UFRJ, do mestrado,
06:57ele dizia, dom é uma palavra africana que precisa ser resgatada.
07:02Eu achei isso muito bom.
07:04Não que seja uma palavra africana, mas que é uma palavra aplicada na África
07:09pelos Grigior africanos.
07:11Eu fui pesquisar o que era dom e tal, porque ele dizia isso a meu respeito.
07:14Então, ele dizia que eu tinha o dom.
07:17Não o dom para a literatura.
07:19Eu tinha o dom para a literatura, mas eu tinha o dom do conto.
07:23E ele diz isso no prefácio de um livro meu, que não está aqui, eu acho, não.
07:30Ou Corações de Cristal.
07:32Ou A Vida Secreta dos Estradentes, que saiu pelo José Olímpio.
07:35Saiu pelo José Olímpio do Rio.
07:36Eu tenho esse livro.
07:37Muniz Sudré fez um prefácio lindo para aquele livro.
07:40Ele era meu professor de mestrado lá, quando eu fiz o mestrado,
07:45e meu orientador, e fez o prefácio.
07:47Mas ele dizia isso, que eu tinha o dom do conto.
07:49E eu acho isso muito bom.
07:50Eu acho aqui, acho que está num deles, nas contas, no canto.
07:56Não, é no próprio Corações de Cristal, em que o Antônio Vilaça, Antônio Carlos Vilaça,
08:06um crítico respeitado do Rio, do Pen Club e tal, que eu conheci pessoalmente, morei no mesmo hotel em Santa
08:12Tereza que ele.
08:13Era velhinho, adorava o velhinho.
08:16E ele diz assim, no prefácio, não, não, na orelha do livro.
08:22Não, não, nem é ele, é o José J. Veiga, que diz.
08:25Que era um grande, um grande contista e um grande romacista, né?
08:29Muito, muito.
08:29José Jacinto Veiga.
08:30Isso.
08:31José J. Veiga foi, ele tirou o Jacinto, porque a numeróloga disse que precisava tirar o Jacinto.
08:37Aí ficou só o José J. Veiga, mas voltando, ele diz assim, esse livro tem contos de extrema delicadeza e
08:47beleza,
08:47e tem muito cobrão de nome feito que não encosta nesses contos.
08:51Exatamente, eu me lembro disso.
08:52E se encostar leva a tom.
08:53É, eu me lembro dessas palavras.
08:54Desde então, eu não sei se foi isso, se foi assim, sabe, eu fiquei tão, oh, oh, oh, que eu
09:00resolvi que eu sou contista.
09:02Respondendo a sua...
09:03Você respondeu sim, mas você, no meio dessa sua resposta, você falou uma coisa que sempre me intrigou muito
09:09e que eu já trouxe a discussão aqui com outras mulheres, né?
09:13Ah, eu falei isso com a Aline, eu falei isso com Marcela Guimarães, eu falei isso com Carla Guerson.
09:19Que bom, você estava com um tipo de menina muito forte.
09:21É, eu trouxe, eu trouxe, eu sempre trago mulheres aqui porque eu acho que as mulheres falam sobre algo que
09:28a gente não conhece,
09:29que nós homens não conhecemos, que é justamente o universo feminino.
09:32Isso.
09:33Só que é um dado interessante.
09:34Concordo.
09:35Você escreveu O Jardim das Delícias, As Contas do Canto é um livro em que as mulheres são muito expostas.
09:42Muito.
09:43O Jardim das Delícias também.
09:45Também.
09:45É, é, é, é, exato.
09:47O, o, o, a panelinha de Ibreu, a Capitoa, o Piana.
09:52Parte das Felicidades.
09:54Esse eu não li ainda.
09:55Uh!
09:56Memórias das Ruínas de Creta.
09:58Ou seja, o seu livro, os seus livros trabalham muito esse universo.
10:02A minha pergunta para você é a pergunta que eu fiz para elas.
10:06Hum.
10:06Existe uma literatura feminina?
10:08Não.
10:10Existe um modo feminino de fazer literatura.
10:14Qual a diferença?
10:16Você não, eu, eu, por exemplo, eu falo de mulheres porque já, o homem para mim é o outro lado
10:21da lua.
10:22É aquele lado oculto.
10:23Existe, está lá, eu sei que existe, mas eu não vou me aventurar no meu foguete.
10:28De jeito nenhum.
10:29Uma boa metáfora, né?
10:31Eu penso assim, a gente fala, na verdade, daquilo que a gente conhece.
10:36Então, a menina, desde novinha, ela sente o peso de ser mulher.
10:42Sem dúvida que sente.
10:44Depois, a adolescente sente mais ainda.
10:47Quando ela começa a menstruar, por exemplo, ela sente a diferença.
10:51Por que que meu irmão não menstrua e eu menstruo?
10:53Por que que eu tenho que ficar de cama esses dias e ele não?
10:56Por que que eu sofro dores e ele não?
10:58Depois, a menina, depois a mulher engravida.
11:01O homem não tem essa experiência.
11:03Por mais que, tecnologicamente, hoje seja possível, essa cogitação de que o homem possa dar à luz, é diferente.
11:13Seria uma coisa, se isso fosse possível, uma formação de útero sintética.
11:20Sei lá, de repente, do jeito que a tecnologia está indo, a biotecnologia é possível.
11:25Mas, de toda maneira, ser mulher é diferente de ser homem.
11:31Não há dúvida.
11:33Não é pior nem melhor.
11:35Mas são experiências diversas.
11:37Então, você contradiz, por exemplo, a ideia de que Chico Buarque de Holanda consegue incorporar aquele lado feminino e escrever
11:44como mulher?
11:45Na verdade, ele é um homem que tenta escrever sobre mulher, mas é uma tentativa infrutífera?
11:51Ou é uma tentativa que ele consegue realizar?
11:54Eu adoro Chico.
11:55Sim, eu sei.
11:56Mas, na verdade, ele é um homem e continua um homem.
11:59Inclusive, com as escolhas dele, se separou da Marieta.
12:03Ele, quem se separou, segundo ela, é ele que quis ser a separação, casou com a menina mais nova.
12:10É muito difícil uma mulher fazer isso, porque ela mesma, nas entranhas, ela tem uma outra chama diferente daquela chama
12:20que anima os homens.
12:21E os homens, realmente, eles são maravilhosos.
12:28Mas, não...
12:31Eu sou fã.
12:33Mas, na verdade, eles não têm o toque da mulher.
12:39Tudo bem.
12:40Não tem nada a ver com delicadeza.
12:42O Chico é delicado.
12:43Sim.
12:44Mas a delicadeza não é essa essência, esse dom do feminino.
12:50Mas você tem personagens femininas que são altamente fálicas.
12:57Quais são elas?
12:58Ué.
12:59Em A Panelinha de Breu.
13:01Ah!
13:02Você tem uma personagem.
13:03A Panelinha de Breu, para quem não sabe, está aqui, ó.
13:06Está aqui na minha mão.
13:07Então, quem está nos vendo, pode ver a capa.
13:10A Panelinha de Breu, ele está todo riscado, porque ele caiu no vestibular nos anos 90 e eu dei aula
13:16sobre esse livro.
13:17Então, eu fiz anotações nele.
13:19Em A Panelinha de Breu, você tem personagens femininas que são muito fortes, que se mostram como mulheres.
13:26Como mulheres, não como homens.
13:27Não que elas sejam masculinas.
13:29Eu entendo.
13:29Elas são fálicas.
13:30Eu estou te entendendo.
13:31Então, a minha pergunta é, um homem não pode ser delicado como mulher, mas uma mulher pode ser fálica?
13:36Pode.
13:37E aqui em Panelinha de Breu, que você disse que elas são fálicas, tem uma que resolve abortar.
13:42Sim.
13:43E isso é uma coisa que só uma mulher mesmo podia decidir.
13:46E ela decide.
13:48Mas ela, coitadinha, primeiro tenta se suicidar, mas ela não encontra nas vigas de um lugarzinho para jogar a corda.
13:56Ela tenta botar a cabeça no forno, mas o forno é elétrico.
14:01Então, a minha personagem feminina, que talvez seja essa, não sei se é.
14:05Porque tem travesti também.
14:07A minha Maria Ortiz é travesti.
14:08Maria Ortiz é travesti, é.
14:09Porque ninguém tem aquela voz para cantar.
14:12Mas você...
14:13A figura de Maria Ortiz, que é uma figura muito presente na sua vida, na sua literatura,
14:21a figura de Maria Ortiz, historicamente, é a figura fálica.
14:24Ela é uma figura...
14:25É uma heroína.
14:25Ah, tá.
14:26Eu estou te entendendo.
14:26Ela é uma figura que desafia o homem e vence a estrutura masculina.
14:35Há controvérsias.
14:36Porque, para mim, Maria Ortiz, uma frágil menina, jogar uma panela de água fervendo, foi assim que eu aprendi.
14:45Depois é que eu transformei em panelinha de breu.
14:49Jogar na cabeça bem capacitada de um troço de soldados holandeses, que eram soldados mais bem armados.
14:56Isso, é o que a história diz, né?
14:57É o que a história diz.
14:58Como é que ela ia espantar aqueles holandeses com um balde de água fervendo.
15:03A história é sempre uma história.
15:06Então, também, essa coisa de Maria Ortiz ser forte, ser fálica, ser isso, ser aquilo.
15:12Eu até gostei da sua posição de chamar a minha Maria Ortiz ali de fálica.
15:19Ou ela mesmo, a figura feminina da Maria Ortiz, que virou Nossa Heroína Mó.
15:25Nossa Heroína Mó, né?
15:26Parece que tinha até um grupo em Vitória chamado Comando de Caça aos Comunistas.
15:32CCC.
15:33CCC.
15:34E tinha a Maria Ortiz.
15:37Sim, santíssimo.
15:42Uma vez eu comentei isso até com o Nami.
15:44O Nami foi meu aluno também, né?
15:46Não sei se foi da sua turma.
15:47Não, foi não.
15:49Bom, então, voltando aqui para minhas mulheres, isso não tem a ver com isso que eu estou
15:57chamando de uma literatura que tem um ar do feminino, mas eu não acredito em literatura
16:04feminina, para responder como as meninas, não sei como elas responderam.
16:08A Aline, eu adoro.
16:09O Vermelho dela é um livro genial.
16:12É um livro fortíssimo, inclusive.
16:14Isso é.
16:15Vermelho é um livro que eu orientei, né?
16:17Porque eu estava na época do Cicardes, eu orientei o Vermelho, que é um livro que
16:21eu adoro também.
16:22Eu adoro aquele livro.
16:22Eu também gosto muito.
16:23Aliás, eu adoro a Aline.
16:25Ela me chama de Vó Honorária.
16:28Porque um dia, numa cerimônia lá, numa festinha que elas fizeram ali, cachaçada literária,
16:34lógico que eu fui, né?
16:35Tinha até um drink com o Jardim das Delícias, chamado Jardim das Delícias.
16:40E a Aline, eu falando que a Andréa Delsfuego, que é uma das maiores escritoras do país
16:50atualmente, né?
16:51Que tem o prêmio Saramago, né?
16:55Premiada.
16:56E agora, a pediatra dela, o último livro dela, um romance maravilhoso, é uma pediatra que
17:03odeia crianças.
17:04E Andréa saiu muito, me saiu otimamente.
17:09E ela, ela me chama de Avó Cósmica.
17:14E eu contando nesse evento que estava, inclusive, o Blanc, estávamos juntas, a Aline...
17:21Saudoso Sérgio.
17:22É, o saudoso Sérgio.
17:24A Aline disse, ah, eu também quero ser sua neta.
17:28Sua neta.
17:30Bernadette, me adota por avó.
17:32Aí, daí, eu disse, claro, né?
17:33Como não adotar?
17:35E hoje, nós nos tratamos assim.
17:37Eu sou avó honorária e ela é minha neta honorária.
17:41Você, existe um conto, um conto, eu amo esse conto, eu gosto demais desse conto.
17:46Um conto em o Jardim das Delícias, em que você pega os pecados capitais...
17:51Ah!
17:53Uma mulher contando moeda, outra mulher...
17:57Comendo ajustadoramente.
17:58Ela é diabética, está comendo doce.
18:00Come doce.
18:01E, de repente, vem um anjo preto, uma moto e fuzila todo mundo.
18:05Fuzila.
18:06É, está simplesinho o conto.
18:08Aí que entra uma questão interessante, que é a seguinte.
18:11Você nunca, você nunca, pelo menos o que eu conheço nos seus livros, que são quase todos,
18:17você nunca se ateve ao universo literário só.
18:20Você expande, talvez até muito por conta da sua relação com o cinema,
18:25você expande para o pictórico, para a imagem.
18:29E você usa, justamente, o quadro de Jerônimos Bosch.
18:35É.
18:35Você usa o vermelho de Bosch.
18:37Eu uso vermelho.
18:37Esse vermelho é o vermelho de Bosch.
18:38Foi escolher a minha sacada.
18:39O Jardim das Delícias está aqui, para quem puder ver, está aqui.
18:42É o segundo livro de Bernadette, salvo engano, anos 80.
18:46É.
18:48Essa ligação sua com a imagem levou você ao cinema, ou você já vinha com essa ligação
18:54com o cinema, antes de se tornar uma escritora?
18:57Bom, você está usando aí o cinema, uma palavra que me é altamente cara.
19:02Você é professora disso, né?
19:04Sou professora, sou doutora em cinema pela USP.
19:07Isso, eu sei disso.
19:07E pós-doutora pela Sorbonne em cinema também.
19:10Ótimo.
19:11Mas deixemos as láureas de para trás e vamos conversar, que está muito mais gostoso.
19:16Essa conversa nossa está ótima.
19:18Meu avô, Manoel Cunha, tinha um cineminha em Conceição da Barra, à beira do Rio Cricaré.
19:25Seu avô por parte de mãe?
19:26Parte de mãe.
19:28Filho de uma mulata belíssima, que não tinha sobrenome, que ela era filha de uma escrava.
19:34Olha só.
19:35Eu digo aqui o nome da minha bisavó com o maior prazer.
19:39Geraldina Maria Júlia, sem sobrenome.
19:43Era mãe do meu avô.
19:45E meu avô, um poeta também, perdido lá nos confins de Conceição da Barra e Itaúna.
19:53E um homem que tentava movimentar socialmente a cidade.
19:59Muito também por causa da ascendência dele.
20:03Ele tinha a avó que tinha sido escrava, aquela coisa toda.
20:07E ele fez um cineminha.
20:11E eu era carregada no colo de minhas tias e de minha mãe, minha mãe menos.
20:17Mas ela tinha também os gêmeos pequenos.
20:20Eu era carregada no colo de minhas tias por tal cineminha, que era o chão de cimento, era um barracão.
20:27Eu tenho até hoje a lente, porque era uma máquina onde se vertia um líquido misterioso.
20:35Era uma coisa que eu não sei.
20:36Os filmes vinham de navio da Bahia, porque a gente, no Conceição da Barra, não tinha muita ligação com o
20:43final do Espírito Santo, com o fim, como a gente chamava, o sul.
20:47A gente tinha com a Bahia, porque era mais fácil.
20:50O navio vinha.
20:51Sim, sim, é verdade.
20:52Muito mais fácil.
20:54E portavam, vinha pelo mar, entrava pela Barra do Cricaré, chamava-se São Mateus, porque o jesuíta Anchieta resolveu rebatizar,
21:04achando que era um desaforo índio, botar nome em Rio.
21:06Mas os índios chamavam ele de Cricaré e ele voltou, agora você chamava Cricaré, ainda bem.
21:13Então, o cinema sempre me impressionou, desde quase bebê.
21:17Eu ia no colo.
21:19A gente não via aqueles filmezinhos antigos, mudos, alguns mudos, sim, mudos.
21:25E Dona Menininha tocava o bandolim na hora das cenas.
21:31Enfim, acho que isso ficou.
21:35Ficou.
21:35Porque você é uma soma confusa de tudo da sua vida.
21:40Você é feita de fragmentos, né?
21:41Todos nós somos feitos de fragmentos.
21:44E essa ideia do cinema como lugar de deleite, acho que ficou cravado em mim.
21:50E eu sempre gostei, continuei apaixonada pela imagem, pela imagem-movimento, porque também
21:59eu penso assim, a imagem-movimento é uma arte, o cinema é uma arte com a imagem-movimento
22:06que tenta a vida, tenta reproduzir a vida, porque a única arte que tem movimento é o cinema,
22:15se você reparar.
22:16A fotografia, ela é estática.
22:17Ela é estática.
22:18Então, eu já fiz a minha tese de doutorado, foi sobre Júlio Bressani, né?
22:25Claro, grande, grande cineasta.
22:26E em comparação com o Machado de Assis.
22:29Eu fiz o jogo entre os dois, duas figuras culturais do país.
22:33E o Júlio Bressani...
22:37Foi o Bressani que filmou Padre de Oliveira?
22:42Filmou o quê?
22:42Os Sermões.
22:44Foi o Bressani, não foi?
22:45Foi, né?
22:45Foi.
22:45E filmou o Memórias Póstumas.
22:47Memórias Póstumas, claro.
22:47Que é um filme maravilhoso.
22:49Sem dúvida.
22:50Mas voltando, como é que ele faz a abertura do Memórias Póstumas?
22:57Ele chama só de Brás Cubas o filme.
22:59Ele passa o microfone em cima de um esqueleto.
23:04Vai passando aquele microfone e vai capturando aquele sonho, batendo no osso do esqueleto.
23:09Porque ele diz vida, vida, vida.
23:13Ou seja, o cinema, ele imita.
23:17É uma arte que conseguiu, através da mecânica, imitar a vida.
23:23Então, eu acho que o cinema me interessou sempre muito por isso.
23:26Me chamou essa atenção.
23:28Quando, agora, é uma retrospectiva afetiva que eu tenho.
23:35Quando eu resolvi fazer o doutorado, eu já tinha um mestrado no Rio, na UFRJ, com o
23:41Nisso Dress, sobre o Ticumbi, de Conceição da Barra.
23:44Conceição da Barra.
23:46Conceição da Barra está sempre no meu horizonte.
23:48Eu sei.
23:48Vamos conversar sobre isso.
23:51Mas, eu cheguei na USP, ia fazer doutorado em televisão.
24:01Eu tinha pensado, vou fazer televisão.
24:04Toninho Neves estava aqui.
24:06O pai dele era meu médico de garganta.
24:09E ele fazia comigo o doutor Raul, o pai de Toninho, que era um cineasta.
24:16Ah, vai fazer televisão.
24:18Ah, Toninho falou que você devia fazer televisão.
24:22Falei, eu vou fazer doutorado em televisão.
24:24Cheguei lá, quando eu vi o curso de doutorado em cinema, falei, não, eu vou fazer cinema.
24:31Ismael Xavier.
24:33Isso.
24:34Olha, tem o Ela, que foi meu orientador, um espanhol que veio da Ribor, no Brasil, com a ditadura espanhola,
24:45ele veio para cá.
24:49Enfim, eu me dediquei a isso, ao cinema.
24:52Ótimo.
24:52E eu acho que só responder...
24:54Nós vamos continuar no próximo programa.
24:56Nós vamos ter mais um programa com você, hein?
24:57Oh, Celso.
24:58Vamos parar aqui agora.
24:59Eu vou interromper, Bernadette.
25:01Nós vamos parar o programa e vamos retomar para a próxima semana.
25:07Então, fique ligado, porque essa foi a primeira parte do programa especialíssimo com Bernadette Lira, que vai ter uma continuidade.
25:15Então, lembrando, na próxima semana, Bernadette Lira, parte 2.
25:20Até lá, gente.
25:22Como no cinema, né?
25:23Isso.
25:25Você ouveu Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
25:32Tudo sobre literatura contemporânea.
25:34Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
25:41Tchau, tchau, tchau, tchau, tchau.
25:44Tchau, tchau, tchau.