- há 2 dias
Categoria
🗞
NotíciasTranscrição
00:00Vamos começar pelo começo. Me conta como surgiu a Jai de Mauá.
00:04Olha, eu tenho uma formação em economia e direito.
00:07Um sócio, o Guilherme Ferreira, que fundou a empresa comigo,
00:11tem formação em direito à economia, então só mudou a ordem aqui dos tratores,
00:15nos conhecemos na faculdade, na USP,
00:16e tínhamos uma vontade de buscar gerir investimentos que misturassem esses dois conhecimentos.
00:21Economia e direito são muito, umbilicalmente, influentes um ao outro, né?
00:26E tínhamos muita oportunidade aqui no Brasil.
00:28O Brasil é um país que tem toda essa dinâmica de que a gente consegue produzir uma crise cada dois,
00:32três anos,
00:33a gente consegue ter muita insegurança jurídica,
00:35e nisso tem oportunidades aqui para a gente poder fazer investidores,
00:39podendo colocar seu capital em ativos muito diferentes,
00:42muito correlacionados com o resto da sua carteira.
00:43Então essa vontade de aplicar esse conhecimento nesse país aqui foi a motivação de nascer a gestora.
00:49Mas vocês surgiram para investir em special seats, special situations.
00:55O que é isso? Me explica para o nosso ouvinte.
00:57Olha, o desafio de explicar isso de uma maneira bem simples e também não muito longa
01:01é que existiam alguns economistas que queriam fazer com que investimentos tivessem descorrelações com a carteira
01:08e entre o próprio investimento. O que significa isso?
01:11Então você investe, por exemplo, compra um crédito inadimplido, né?
01:14Então você tem uma dívida defaultada de uma companhia, por exemplo,
01:17que o seu avalista, o empresário ou o diretor ali, um avalista,
01:21ele tem, por exemplo, um ativo que é uma fazenda.
01:23Então você está comprando um crédito defaultado pelo preço que você acredita que está certo,
01:28que você pode fazer uma recuperação daquele crédito, dar um retorno
01:30e que a garantia que você vai buscar, o ativo que você vai buscar é aquela fazenda.
01:35Então não só em relação a um portfólio diferente, que você tem investimentos em bolsa,
01:39tem investimentos em infra, tem investimentos em ativos fora de um país,
01:44você também tem uma diversificação dentro do próprio ativo.
01:47Você está comprando um crédito contra uma empresa que se você precisar, você vai buscar uma fazenda,
01:51portanto você tem um setor ali de uma fazenda agro que não tem nada a ver com aquele setor,
01:57por exemplo, que a companhia que defaultou aquela dívida tem.
02:00Então situações especiais são situações fora das condições normais de temperatura de pressão.
02:05Para o ouvinte aqui que deve ter lembrado isso da faculdade ou da escola,
02:09condição normais de temperatura de pressão no investimento é o quê?
02:12Eu quero comprar um imóvel, eu chego em termos comerciais, eu contrato um escritório de advocacia,
02:17se a diligência, se toda a documentação está em ordem, eu compro.
02:22O que é a situação especial no caso do exemplo?
02:26Olha, a documentação não veio toda adequada, existe uma discussão de posse, por exemplo,
02:31existe uma discussão de um dano ambiental, existe uma discussão de uma dívida trabalhista
02:36que está penhorando parte do imóvel, mas não o todo, no sentido de valor, etc.
02:41é quando começa uma situação especial.
02:44Então você busca, obviamente, um desconto, que você acredita que o desconto,
02:48o custo do carrego daquele ativo, no caso do exemplo aqui, o imóvel, a solução,
02:52então o termo de ajuste de conduta, porque existe um remédio para aquele dano ambiental,
02:57existe uma solução onde você vai pagar para aquela posse que você quer resolver,
03:02aquela pessoa que está dentro do imóvel, mas precisa tirar,
03:04que você faz um acordo, gasta um valor ali para retirar aquela pessoa do imóvel,
03:08e depois de tudo isso, você vendendo imóvel, dá um retorno para aquele que investiu.
03:13Então a situação especial é uma situação que sai das condições normais
03:17de temperatura e pressão aqui para quem nunca investiu entender com clareza.
03:21E aí tem a parte imobiliária, tem a dívida estruturada, que é um empréstimo,
03:25uma companhia que está com dificuldade, já não pega mais dinheiro do banco
03:28com a mesma facilidade, mas tem boa geração de caixa, tem um bom negócio,
03:31tem o financiamento de litígio, litígio por definição é uma situação especial,
03:35duas partes não encontraram uma forma de resolver o seu problema, foram até o judiciário,
03:38então tem uma série de oportunidades que sempre são situações que estão fora
03:42da situação normal.
03:44Alexandre, pelo que você está comentando, atuar em situações especiais
03:50é um negócio mais para advogado do que para economista,
03:54eu imagino que você deve ter uma equipe grande de advogados na gestora.
03:58Olha, precisa dos dois e precisa de outros também.
04:01Quando você tem uma situação dessas especial, ou seja, um crédito defaltado,
04:06um litígio que você está financiando, um imóvel com problema, uma reestruturação
04:10de dívida de uma companhia que passou por uma dificuldade, mas você ainda tem um bom
04:13negócio, ele ainda parece viável se houver uma redistribuição das perdas em relação
04:18ao crédito que é impossível de pagar naquele momento, etc.
04:21Tudo isso, sem dúvida nenhuma, tem uma retaguarda jurídica, uma análise jurídica,
04:26a gente trabalha muito com os advogados, etc.
04:27Mas não pode esquecer que é um investimento e tem um negócio ali por trás.
04:32Então, eu diria que é uma boa combinação entre análises de investimento,
04:36às vezes, dependendo do caso, engenharia, arquitetura, litígios que têm temas específicos,
04:42então precisam de especialistas específicos, mas o grupo que a gente trabalha é um grupo
04:46que mistura bastante economista e advogado, você está certo.
04:49Alexandre, então me explica uma coisa.
04:51Está claro que nessas situações o risco de um calote é grande.
04:57Não é fácil, imagina, investir nessas espécies de ativos para obter um retorno
05:01e ainda você tem o risco de não ter esse dinheiro no final do dia.
05:04Como você faz para analisar esses investimentos, para tomar uma decisão para fazer esse investimento?
05:11Olha, eles são muito diferentes, né?
05:12Então, eles têm princípios parecidos, mas dependendo do tipo de investimento
05:16de situação especial, a análise muda bastante, né?
05:21Então, em essência, ela é uma situação especial e você tem que se perguntar
05:25por que eu devo fazer, por que parece barato, né?
05:28Então, às vezes, você está comprando uma dívida com desconto,
05:30mas será que aquele preço, ele é adequado, né?
05:33Às vezes, você está fazendo um empréstimo novo para uma companhia
05:36que tem dificuldade em pagar as suas dívidas por várias razões,
05:39podem ter sido erros de gestão, pode ter sido um cenário macro que mudou,
05:43o Brasil muda muito a regulação, uma dinâmica geopolítica, né?
05:46A gente teve muito agro sofrendo com guerra na Ucrânia,
05:49quando os insumos ficaram caros, alguns insumos.
05:51Depois teve plano de comod, principalmente com menos crescimento da China.
05:54Então, a primeira pergunta é sempre por que devo fazer
05:57e por que esse preço parece fazer sentido.
06:00A segunda coisa, que eu acho que é muito importante,
06:03é que a gente precisa colocar o pior cenário na sua frente.
06:06Eu acho que o exercício de analisar investimentos e situações especiais,
06:11ele é um exercício de, será que eu estou enxergando o pior cenário, né?
06:14E nesse pior cenário, eu consigo entregar retorno do meu cotista,
06:17ainda que menor do que o melhor cenário?
06:20Então, é um exercício de pessimismo constante.
06:22A gente brinca aqui que a pergunta certa a fazer várias vezes é,
06:26tem alguma coisa que a gente não está enxergando,
06:27que o cenário pode ficar ainda pior do que a gente está prevendo?
06:30Então, se fala muito ou não, como todo processo de investimento se fala muito ou não,
06:34mas acho que a principal razão que nós,
06:36quando analisamos investimentos estressados, investimentos e situações especiais,
06:39é quando a gente entende que o pior cenário, ele faz o nosso cotista perder dinheiro.
06:44E é claro que isso é a análise individual de cada investimento,
06:48mas principalmente de uma análise de portfólio,
06:50onde a chance de tudo dar certo é zero e tudo errado é zero também.
06:53Então, se você fizer a análise correta,
06:56você provavelmente vai chegar no retorno alternativo interessante,
06:59que para o investidor faz sentido,
07:01principalmente porque é algo que não tem muito a ver com o resto dos ativos
07:04que a gente chama tradicionais aqui de investimento.
07:06Mas, por outro lado, quanto pior é melhor para vocês?
07:11Olha, essa é uma pergunta que sempre se faz.
07:15Eu acho que é um investimento que não é necessariamente acíclico,
07:21no sentido de que se existe uma crise, é a hora de você investir.
07:25É o que a gente gosta de colocar aqui na mesa,
07:28que lembra que eu comentei do exemplo da fazenda?
07:31Então, é ideal que vários dos investimentos num portfólio de ativos estressados,
07:36investimentos em situações especiais,
07:38eles tenham proteções em si mesmo.
07:40Então, como exemplo que eu dei aqui,
07:41quer dizer, se eu comprar essa dívida e a companhia não conseguir se recuperar,
07:45ou se ela não conseguir se reestruturar,
07:47eu tenho um outro ativo de um outro setor,
07:49uma garantia que eu consigo fazer com que eu saia do risco daquele negócio,
07:53daquela empresa e ainda proteja o meu investimento, o meu cliente.
07:57Se a resposta é sim, aumenta muito a chance da gente fazer esse investimento.
08:01Então, puxa, macro, o quanto pior, melhor,
08:05depende muito do tempo que você vai fazer o investimento.
08:08Se a gente não está no final de uma crise,
08:11você pode ser um pouco precipitado.
08:14Vamos imaginar aqui, eu não imagino que isso vai acontecer,
08:17mas vamos imaginar aqui situações como a Argentina, como a Venezuela.
08:21Você tem crises prolongadas.
08:24Então, dependendo do momento que você faz um investimento,
08:26se ele não tem essa proteção intrínseca naquele próprio ativo,
08:29como exemplo da Fazenda, na dívida defaultada do que a gente comentou agora há pouco,
08:35se você não estiver no final da crise, você vai ter um custo de carrego,
08:39ou na hora que você vai liquidar essa Fazenda, liquidar outro ativo,
08:43ou a chance daquela empresa se recuperar, ela piora, porque o cenário piorou.
08:48E tem um critério, que é um critério importante, que é juros.
08:52A gente olha a PIB, olha outras coisas, inflação, etc.,
08:54mas o juro acaba comendo bastante, porque a referência de um investimento
08:59é o ativo seguro, é aqui o tesouro, por exemplo.
09:03Então, quando o juro está bastante alto, você precisa entender muito
09:06se está na hora de fazer um investimento, se a gente vai ter uma estabilidade.
09:10Não é necessário que esse juro caia.
09:11Se a gente investir em ativo estressado, em situações especiais,
09:15e o juro caia, ajuda muito, você vai para um cenário ótimo.
09:18Mas o ativo estressado, o investimento em ativo estressado,
09:22ele precisa dar retorno adequado, mesmo num cenário de crise.
09:28Então, sendo objetivo aqui, quanto pior, melhor, não necessariamente.
09:33Agora, vocês não investem apenas em ativos estressados,
09:36vocês começaram há algum tempo um processo de diversificação.
09:40Vocês têm fundo imobiliário, vocês têm crédito,
09:42entraram recentemente no agro, previdência.
09:45Vocês investiram numa série de classes de ativos
09:47que não são necessariamente esse cenário
09:50de que precisa estar tendo problema financeiro.
09:52Por que essa diversificação?
09:54Ralf, existem histórias e histórias diferentes de negócios, de gestoras.
09:59A gente estava aqui conversando sobre a própria história do Filipe agora há pouco.
10:02Acho que, em primeiro lugar, o exercício de fazer ativo estressado,
10:07o investimento em situações especiais,
10:09que era a nossa decisão de início,
10:12algo que motivou o início da gestora, como você bem falou,
10:14ele mostrou para nós, no exercício de comprar tudo aquilo que deu errado,
10:18tudo aquilo que não está nas condições normais,
10:20tempo ele teve pressão,
10:21um exercício muito rico de repertório do que não fazer.
10:26Especialmente quando você fala de crédito.
10:29Então, para nós, depois de alguns anos,
10:31ficou muito claro que a gente tinha um diferencial,
10:34que a gente tinha um repertório,
10:35que a gente tinha uma tecnologia de recuperação de crédito,
10:38mas principalmente de evitar que aquele crédito defaultasse.
10:42Então, vamos dizer assim, a fruta baixa,
10:44o passo sem sair do nosso tabuleiro era dar crédito,
10:48e dar crédito que a gente chama de high yield,
10:50ou crédito mais caro para situações de empresas que já tomaram
10:53ou não têm mais capacidade de tomar nos incumbentes,
10:56nos bancos tradicionais aqui no Brasil.
11:12Legenda Adriana Zanotto
11:14Legenda Adriana Zanotto
11:14Legenda Adriana Zanotto
Comentários