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O professor de História Sidney Aguilar descobre durante uma aula, por intermédio de uma aluna, algo assustador: tijolos marcados com a suástica, o símbolo nazista, em uma fazenda da região.
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AprendizadoTranscrição
00:00:28Transcrição e Legendas Pedro Negri
00:00:58Legendas Pedro Negri
00:01:28Legendas Pedro Negri
00:01:36Legendas Pedro Negri
00:01:37Em 1998, eu estava dando uma aula sobre nazismo na Alemanha, sobre Segunda Guerra.
00:01:47Uma aluna disse que na fazenda da família, numa casa que tinha sido demolida, foram descobertos uma série de tijolos
00:01:57com o símbolo que ele estava mostrando para ele sobre o nazismo, o símbolo da swastika.
00:02:31Legendas Pedro Negri
00:03:01Legendas Pedro Negri
00:03:15Legendas Pedro Negri
00:03:15Legendas Pedro Negri
00:03:15Tchau, tchau.
00:03:52Tchau, tchau.
00:04:26Tchau, tchau.
00:04:39Fazenda Cruzeiro do Sul eu conheci em 1991.
00:05:00Por um mero acaso da vida, certa feita eu estava tratando dos porcos.
00:05:15E em uma de criaporco dentro de uma casa velha, aconteceu de um belo dia lá, por causa de arrebentar
00:05:23a parede.
00:05:23Eu vi o tijolo no chão. A partir daí foi um susto, assustador mesmo.
00:05:31Um frio na barriga, muita náusea, muita curiosidade, irritação.
00:05:41Por quê? Tem que ter por quê.
00:05:46Quando eu vi aquela sóstica, eu já imaginava que alguma coisa de errado tinha acontecido nesse local.
00:05:56Aí eu comecei a perguntar para os mais velhos, né?
00:06:00Os vizinhos, os ex-empregados da fazenda, que eu ficava sabendo.
00:06:03Fulano trabalhou aqui. Opa, vou lá trocar ideia com ele.
00:06:09Eles tinham medo, porque eles eram poderosos demais, né?
00:06:14Eles tinham poder e isso inibia qualquer manifestação.
00:06:18Eles me tratavam como tonto, como louco, bobo.
00:06:21Enfim, as piores coisas pelo fato de eu persistir em curiosidade de saber o quê, por quê esse tijolo está
00:06:29aqui.
00:06:30E isso só veio a se revelar depois de 12, 14 anos, que o professor Sidney documentou tudo isso.
00:07:03Na época, quando eu fiz a primeira visita à fazenda Cruzeiro do Sul, eu também fui visitar um antigo empregado.
00:07:15E ele me reportou um comentário sobre a transferência de crianças, de meninos, de um orfanato católico aqui do Rio
00:07:24de Janeiro, lá para a região.
00:07:25E ele se referia aos meninos como genericamente negros, majoritariamente negros.
00:07:34E aquilo me chamou muita atenção, porque eu tinha uma coincidência a princípio entre a profusão de suásticas
00:07:43com transferências de crianças órfãs ou abandonadas negras da capital do país para o interior de um outro estado.
00:08:01Seu Aloysio foi um dos meninos órfãos retirados em 1933 do orfanato Romão de Matos Duarte, no Rio de Janeiro.
00:08:26São Aloysio, o que o senhor se lembra da viagem lá do Rio para a Campina do Monte Alegre?
00:08:33Você sabe que não tem nem jeito de responder nada, porque eu fico irritado quando botam essas coisas assim na
00:08:40minha cabeça.
00:08:58As memórias que vieram à tona não eram agradáveis. Definitivamente não eram agradáveis.
00:09:15A minha infância foi roubada.
00:09:19Nem seu case.
00:09:21Secure-ps
00:09:24An INCLUSÕES
00:09:25Amém.
00:09:25Demã o shopping.
00:09:29холод� лес.
00:09:32Amém.
00:09:46Abril cafkoposu!
00:09:47Ap consolida a shopping!
00:09:47Amém!
00:09:50Carrocessele Oculpa!
00:09:54Antes de voltar à Campina do Monte Alegre, mergulhei na busca por mais documentação.
00:09:59Queria entender o que estava acontecendo.
00:10:02Fui aí que me deparei com a família Rocha Miranda.
00:10:09Uma família influente da elite brasileira desde os tempos do Império.
00:10:14Era a família do Barão de Bananal, político, grande fazendeiro e escravocrata.
00:10:21O filho do Barão, Luiz da Rocha Miranda, adquiriu em 1916 uma grande propriedade em Campina do Monte Alegre,
00:10:29que seria depois partilhada entre os filhos do segundo casamento.
00:10:34Suásticas nazistas no interior do Brasil, transferências de grupos grandes de crianças negras.
00:10:41Aquilo era muito estranho.
00:10:47Que sociedade era essa que não só aceitava a transferência de crianças
00:10:54e o compartilhamento de ideologias com o nazifascismo,
00:11:00e que aceitava tais ideologias e tais práticas como sendo não só comuns, como louváveis.
00:11:25O Brasil, no final dos anos 20, começo dos anos 30, passava por uma grande ebulição.
00:11:31Esse período é o mais racista da nossa história.
00:11:36Pouco mais de 40 anos, o Brasil tinha abolido a escravidão.
00:11:41Fomos a última nação do Ocidente a fazer isso.
00:11:44E também, fomos o país que mais importou escravos no mundo.
00:11:48Foram pouco mais de 4 milhões ao longo de três séculos.
00:11:52Em 1888, com a abolição, não houve qualquer política de integração social.
00:11:58Essa população, agora liberta, continuava excluída.
00:12:10O início do século XX, foi quando a gente teve a primeira geração,
00:12:17ou a primeira ou segunda geração, de negros não escravizados.
00:12:23Ou seja, negros da terra.
00:12:25Então, o que fazer com esse povo?
00:12:27Acabou o escravo, mas aí, como que nós vamos inferiorizar os trabalhadores?
00:12:37No início do século XX, as teorias da superioridade racial branca floresciam.
00:12:43E chegam aqui como resposta aos anseios dos antigos escravocratas.
00:12:51A eugenia, portanto, apareceu como uma proposta científica, política e cultural aceita.
00:13:03Ela era uma pseudociência que estudava as condições mais propícias para a evolução da espécie.
00:13:12Você pode fazer testes genéticos, testes químicos, físicos, pode testar a dor.
00:13:20Eugenia é um paradigma da normalidade, que diz que o diferente é anormal.
00:13:25E por isso tem que ser exterminado e eliminado do contexto.
00:13:40As teorias eugenistas estavam tão impregnadas na sociedade
00:13:44que foram incluídas no texto da Constituição de 1934,
00:13:48que definia como responsabilidade do Estado brasileiro fomentar a educação eugênica.
00:13:54A eugenia, senhor presidente, visa a aplicação de conhecimentos úteis e indispensáveis
00:14:02à reprodução, conservação e melhoria da raça.
00:14:21Nós temos uma época de eclosão de mobilizações de direita.
00:14:28Você tem condições internacionais que possibilitam a oligarquia e essa burguesia nascente brasileira
00:14:41escorar-se, seja no movimento de massas à direita, seja num grande líder que seja capaz
00:14:48de interiorizar tudo isso, de catalisar.
00:14:52O presidente Getúlio Vargas, que ficou no poder entre 1930 e 1945,
00:14:59flertou com os regimes fascistas da Europa.
00:15:02Tinha acordos econômicos com a Alemanha.
00:15:06Nós tivemos um partido nazista brasileiro com dezenas de milhares de membros.
00:15:11O segundo maior partido nazista fora da Alemanha.
00:15:39O segundo maior partido nazista brasileiro com dezenas de milhares de membros.
00:15:43Promoveram congressos, encontros, simpósios, competições ou concursos.
00:15:55A campanha pela defesa da raça vem sendo desenvolvida em todo o território nacional
00:16:00com o mesmo entusiasmo patriótico e a mesma orientação científica.
00:16:04As crianças que sistematicamente venciam esses concursos tinham características definidas
00:16:12pelos eugenistas como sendo características superiores, mais evoluídas.
00:16:16Dentre elas, né, a brancura.
00:16:20A menina Miriam Martins Peri, que conquistou o primeiro lugar, utiliza logo o seu prêmio.
00:16:28Naquele período, o racismo se espalhava em muitos segmentos da sociedade brasileira.
00:16:33A primeira grande empresa que vem pro Brasil é a Light, que tinha motorneiros negros que
00:16:40conduziam os bondes, só que eles não podiam aparecer nas fotografias e nem nas comemorações.
00:16:46Então, quando tinha visita, né, dos presidentes, dos homens de Estado, ele era retirado do bonde
00:16:54porque ele não poderia aparecer nas fotografias.
00:16:58É tudo higiene.
00:17:00Precisava higienizar o povo brasileiro.
00:17:03É um período crucial e que tem repercussão até hoje.
00:17:26Quase tudo que gira em torno da figura do negro, sobretudo no cinema, maquiagem, figurino, nome,
00:17:36as situações que ele tem que representar, etc., o confinam a uma identidade que é uma identidade
00:17:45não só de ser negro, mas, sobretudo, de ser secundário, inferior, etc.
00:17:50Ô, dona Clodomira!
00:17:52Ô, dona Clodô, a mamãe mandou pedir se a senhora podia fazer o favor de emprestar uma raba, uma terrina.
00:18:04Oh, dona Clodomira!
00:18:06Ah, lá!
00:18:13Oh!
00:18:14Você tem o parafuso fora do lugar!
00:18:16Olá, Sebastião!
00:18:18Como vai?
00:18:19O que é isso?
00:18:20Você está com dor de dente?
00:18:22Uhum!
00:18:23Leve esta!
00:18:24Mas, cuidado, não vá quebrar!
00:18:26Ih, eu levo, dona Clodô!
00:18:28É melhor!
00:18:29Vamos, Sebastião!
00:18:31Anda, Sebastião!
00:18:35Fiquem sonhando com o passado!
00:18:44Esse era o Brasil que os meninos do orfanato Romão Duarte nasceram e cresceram.
00:18:54A sombra do passado escravocrata e as teorias de inferioridade racial oprimem, amedrontam
00:19:00e fazem calar até hoje.
00:19:03Por isso, foi tão difícil romper o silêncio do seu Aloysio.
00:19:07A última barreira entre nós caiu quando eu mostrei para ele os documentos do orfanato
00:19:13em que aparecia o nome de sua mãe.
00:19:16E diz o seguinte, Sr. Aloysio, filho natural de Maria Augusto da Silva.
00:19:23É.
00:19:28Sabe, eu ensinei, tem dia que eu fico ali embadasado ali pensando, imaginando, daí eu fico revoltado.
00:19:36Sabe por quê?
00:19:37Porque eu nunca tive carinho nem de pai nem de mãe.
00:19:40Foi do mundo.
00:19:54Seu Aloysio quis voltar ao orfanato Romão de Mato Duarte, depois de quase 80 anos de sua saída.
00:20:01E aí
00:20:27E aí
00:20:33Amém.
00:21:01Amém.
00:21:31Amém.
00:21:52Aqui era estudar e brincar.
00:21:58Bola, bicicleta, patinete, essas coisas.
00:22:04Estava com 10 anos.
00:22:07Como é que foi esse dia que ele foi lá escolher?
00:22:13Ah, pois aquele dia foi a família desmirando em peso, né?
00:22:21Eles vieram aqui no orfanato.
00:22:25Levou um sacão de baldeiro de sua mãe.
00:22:27Eles ficaram no passador do alojamento nosso.
00:22:31Eles jogavam um punhado de bala sem espalmar lá.
00:22:45E aí fomos catar as balas, tudo aí.
00:22:49Mas não sabia o porquê.
00:22:55Ele separou 20 de um lado e o resto ficou do outro.
00:23:00Com a varinha ele apontava, pulando, aquele pulando lá.
00:23:04Põe do lado.
00:23:05O outro fica pra cá.
00:23:08Eles estavam procurando os meninos mais fortes?
00:23:12É.
00:23:12Não era que nem um gado isso.
00:23:14Um comprador ia comprar tudo aí e faz a escolha, né?
00:23:19Era um...
00:23:20No meu sentido, não tinha ninguém.
00:23:23Não tinha ninguém por mim, nada.
00:23:29O que chamou a atenção foi que um único tutor
00:23:35assumiu a responsabilidade da transferência de 50 menores.
00:23:39Recebida a respeitável irmã superiora da Casa de Expostos, o menor,
00:23:44Aloysio da Silva.
00:23:47O senhor reconhece essa assinatura aqui, senhor Aloysio?
00:23:52Não recomendo.
00:23:53Osvaldo Rocha Miranda.
00:23:56Miranda?
00:23:56É.
00:24:04Para o educandário, com seus problemas de superlotação
00:24:07e com significativos índices de mortalidade apontados nos documentos,
00:24:12a retirada de 50 crianças foi bastante cômoda.
00:24:16Sobretudo, vindo do filho de um dos maiores benfeitores da Irmandade de Misericórdia do Rio de Janeiro,
00:24:22Luiz Rocha Miranda.
00:24:27Ao que me consta, não eram educadores.
00:24:31Não eram professores.
00:24:33Não eram assistentes sociais.
00:24:36Não eram pediatras.
00:24:42Na extensa e ramificada família Rocha Miranda, apenas quatro irmãos se envolveram nos acontecimentos de Campina do Monte Alegre.
00:24:53Renato Rocha Miranda era industrial conhecido e respeitado.
00:24:57Tinha negócios com empresários alemães.
00:25:00Durante as décadas de 1920 e 30, foi diretor da Companhia Próspera e manteve relações comerciais com o poderoso grupo
00:25:09alemão Krupp,
00:25:10o maior fabricante de armas da Europa e que pertencia a Alfred Krupp, ministro da Economia do Terceiro Reich.
00:25:23Otávio Rocha Miranda atuou na construção civil e no transporte.
00:25:28Foi sua companhia que urbanizou o futuro bairro de Ipanema.
00:25:32E foram de suas mãos que Alfred Krupp adquiriu a fazenda Retiro Feliz,
00:25:37que abrigou sua primeira esposa e seu único herdeiro depois da Segunda Guerra Mundial.
00:25:45Os irmãos Sérgio Rocha Miranda e Oswaldo Rocha Miranda tinham seus interesses mais ligados à agropecuária, aos aviões, aos iates
00:25:57e às caçadas.
00:26:03A fazenda Cruzeiro do Sul acabou nas mãos de Sérgio, onde apareceram as tais suásticas.
00:26:13O Sérgio da Rocha Miranda foi assumido nazista.
00:26:17Os outros três irmãos, Otávio, Renato e Oswaldo, eles pertenceram à cúpula da Ação Integralista Brasileira.
00:26:28Os integralistas, o AIB, era uma organização autônoma, brasileira, fascista.
00:26:34Os integralistas marchavam, tinham uniforme, tinham banda, tinham a saudação de Ana Uê.
00:26:40Uma expectativa de construção de um mundo corporativo em torno de valores nacionalistas excludentes e exclusivos.
00:26:48Os integralistas sempre falavam, nós não somos fascismo, nós não somos nazismo.
00:26:54Não porque os nomes eram nomes ruins, mas porque nós somos uma alternativa brasileira e o fascismo é italiano e
00:27:01o nazismo é alemão.
00:27:07A partir de 1932, junto aos negócios agropecuários, estruturou-se na fazenda Santo Albertino e na fazenda Retiro Feliz,
00:27:16de propriedade da família Rocha Miranda, uma base da Ação Integralista Brasileira.
00:27:31A Ação Integralista Brasileira
00:28:18Ação Integralista Brasileira
00:28:21Terminou tudo lá, a superiora pediu uma sessão para ficar separado dos outros, para não misturar.
00:28:32Ali esperemos oito dias.
00:28:35Quando completou os oito dias, já veio dois caras de polícia, o trutor nosso,
00:28:42levou lá para a estação Dom Pedro Fimena, para a gente embarcar.
00:29:10Dom Pedro Fimena
00:29:22Desembarquemos aqui, daqui para o Mudei, duas charretinhas para levar dez pessoas até Santa Bertina.
00:29:40E quando chegamos a matar Santa Bertina, era aí que nós fiquemos gelados.
00:29:48Fiquemos sem destino, sem nada, sem rumo, sem nada.
00:29:58A gente falava um para o outro, e agora, como é que a gente faz?
00:30:01A gente tem que dar um jeito de fugir.
00:30:04Mas o trutor, nós já tínhamos um aparelho de cachorro preparado para isso.
00:30:10Fugir.
00:30:21Os meninos viviam em alto grau de isolamento.
00:30:26A fazenda ficava distante da vila mais próxima.
00:30:31E pouco contato, as crianças que lá viviam, tinham com a comunidade das cidades mais próximas.
00:30:45Nas cidades de Campina do Monte Alegre, municípios cercados pelas fazendas desses irmãos,
00:30:54eles eram e, em grande medida, ainda são considerados benfeitores importantes.
00:31:11Segundo sua Luiz de Silva, a sua versão dos acontecimentos
00:31:15foi sistematicamente, ao longo de décadas,
00:31:21digamos, desmentida por uma cultura local
00:31:27que via no sobrenome Rocha Miranda
00:31:30os principais benfeitores históricos da localidade.
00:31:34Não falaram nada sobre o que era aquilo.
00:31:38Porque tem gente que tem medo de falar isso, não é?
00:31:41Não pode, não podia falar.
00:31:44E os pais nossos já diziam, não, o que é que você não fala nada.
00:31:48Não pode falar essas coisas.
00:31:50Coisas que nem assim ali do nazista.
00:31:53E que Deus o livre vai falar uma coisa dessa?
00:31:56Porque a gente sabia que eles vieram do rio,
00:32:00eles vieram de trem, aquela coisa tudo.
00:32:03Até a gente achava uma aventura, uma coisa bonita, né?
00:32:07A gente não sabia como que funcionava.
00:32:10E por que ele só escolheu meninos negros?
00:32:14Ele quis preto só, porque branco ele não quis.
00:32:20Trouxe tudo eles aí.
00:32:21Só preto.
00:32:23Mas o senhor não sabe dizer por quê?
00:32:25Não sei dizer por quê.
00:32:32Quando a turma andava de carroça de roda de ferro,
00:32:35eles desciam de avião,
00:32:37traziam grandes políticos
00:32:39para fazer as cortesias de fazendeiro,
00:32:43praticar caça.
00:32:44Eles praticavam muita caça de perdiz,
00:32:46de bichos aí, né?
00:32:48Com os adeptos dos grandes centros.
00:32:50A gente de São Paulo, Rio de Janeiro,
00:32:51vinha com eles para praticar.
00:33:10A gente de São Paulo, Rio de Janeiro,
00:33:44Sobre o senhor Aluísio,
00:33:46recaía, sim,
00:33:49uma responsabilidade imensa.
00:33:52Por ser até aquele momento
00:33:54o único vivo conhecido.
00:33:57E isso era a minha grande angústia de pesquisa, né?
00:34:01Que a vítima não fosse mais uma vez vitimizada.
00:34:04O senhor Aluísio,
00:34:05vamos tentar lembrar o nome dos meninos?
00:34:09É, tem que...
00:34:10Alguns que nós temos lembrando tudo aí.
00:34:13Vamos lá,
00:34:14quem que o senhor se lembra, senhor Aluísio?
00:34:15Os nomes.
00:34:17Nome, apelido, não importa.
00:34:18O nome tem o Jorge Cabide,
00:34:21tem o Agimiro,
00:34:23o Costa já morreu.
00:34:25Na primeira entrevista com o senhor Aluísio,
00:34:29ele já se lembrou
00:34:32de um número significativo
00:34:34de nomes
00:34:36a quem ele se referia
00:34:38como os irmãos que ele teve.
00:34:39Tem o Olímpio,
00:34:42a gente chamava de Pepeto.
00:34:43Muitos desses
00:34:45apareciam nos documentos
00:34:46que eu havia encontrado.
00:34:48Entre esses,
00:34:50que estava na memória,
00:34:51o do senhor Aljimiro.
00:34:53Se tinha Aljimiro,
00:34:54o Aljimiro já falei.
00:34:57E nessas memórias do senhor Aluísio
00:34:59sobre o senhor Aljimiro
00:35:00também tinha uma informação.
00:35:02Esse não tiver,
00:35:03se não morreu,
00:35:04ele deve estar aposentado na Marinha.
00:35:13O Aljimiro,
00:35:13eu tenho certeza
00:35:14de se eu encontrar com ele,
00:35:15eu conheço,
00:35:16eu reconheço ele.
00:35:33Quatro Arjimiro dos Santos
00:35:35passaram pela Marinha do Brasil
00:35:38naquele período.
00:35:40Mas foi no sul do Brasil,
00:35:42na cidade de Foz do Iguaçu,
00:35:44que achamos mais um menino
00:35:45do Romão Duarte.
00:36:28O primeiro contato
00:36:30foi com o Darlay,
00:36:31filho mais velho do senhor Aljimiro.
00:36:35A primeira reação do Darlay
00:36:37foi, obviamente,
00:36:39de surpresa e desconfiança.
00:36:42e eu fiquei muito mais surpreso ainda
00:36:45quando ele começou a me mostrar
00:36:47a pesquisa dele
00:36:49que eu já tinha feito,
00:36:50enfim,
00:36:51sobre a história
00:36:52da infância do meu pai,
00:36:54que até então
00:36:55era desconhecida para mim.
00:36:57Casei com 19 anos.
00:37:01Isso tem quanto tempo?
00:37:03Agora já tem,
00:37:04já estou com 78 anos.
00:37:07Faz a conta aí.
00:37:11A senhora sabia
00:37:12da infância dele,
00:37:14da vida dele
00:37:15no Edu Candari
00:37:16na fazenda?
00:37:19Não, na verdade,
00:37:20não sei de nada,
00:37:22não sabia.
00:37:23Ele não era de falar
00:37:24do tempo antigo.
00:37:28Nunca comentava nada, quase.
00:37:31Então, não sabia de nada.
00:37:34até que diz que ele é
00:37:36dois anos mais velho do que...
00:37:38também nunca a gente
00:37:39ia pensar isso.
00:37:45Eu só lembro muito.
00:37:52Amante, avante,
00:37:55o furo é de uma despertada.
00:38:00Amante, avante,
00:38:03o mundo me envolve.
00:38:07Mas já que é a primavera
00:38:10e a pátria espera
00:38:12é o novo sol.
00:38:25É.
00:38:26Eu até que ali, velho.
00:38:29Eu cantava esse rio, né?
00:38:30De manhã e à tarde.
00:38:32Tudo formado assim.
00:38:34E vocês usavam uniforme?
00:38:36Era obrigado, né?
00:38:37É ficar guardado lá no alojamento, né?
00:38:40Quando chega fim de semana,
00:38:42então tem que vestir ele, sabe?
00:38:44Assistir a reunião e tudo lá.
00:38:46E o senhor tocava na banda?
00:38:47Tocava, meio forçado,
00:38:49eu não gostava.
00:38:50Que instrumento o senhor tocava?
00:38:52Ali eu toquei diversos instrumentos,
00:38:55bombarguino, sax,
00:38:58clarineta, requinta.
00:39:04Fazia um santo bestilhinho.
00:39:07Era dos roxibiranda.
00:39:10Três roxibiranda.
00:39:12Aí eu tratava de cavalo.
00:39:15Fez cavalo porraçando ele.
00:39:18Tratar de cavalo é capinar,
00:39:19capi, capi horta.
00:39:22Capi horta,
00:39:23pra estar bem limpinha.
00:39:26Era agricultor, então, também?
00:39:28Se fosse o agricultor,
00:39:29não estava aqui.
00:39:32Até a primeira vez que ele ia.
00:39:42As alegações,
00:39:46segundo as memórias dos sobreviventes,
00:39:48é de que eles iriam para uma escola,
00:39:51eles iriam aprender o ofício,
00:39:54aprender o trabalho,
00:39:56iriam se divertir,
00:39:58porque tinham muito espaço,
00:40:00que, segundo o senhor Luísio,
00:40:01que iriam caçar passarinho,
00:40:04que iriam dar cavalo.
00:40:06Mas tiveram apenas
00:40:08um ano de escola.
00:40:10E dali pra frente,
00:40:12a vida
00:40:13se restringiu sempre
00:40:15ao trabalho,
00:40:16em ritmo de adulto,
00:40:18do amanhecer ao entardecer.
00:40:22O dia-a-dia do senhor,
00:40:24como é que é?
00:40:25Eu não vejo,
00:40:26levantar de manhã cedo,
00:40:27né?
00:40:29E tá,
00:40:29tomar um boi lá.
00:40:34Cinco horas da manhã,
00:40:35ia tomar banho.
00:40:36E dia de inverno,
00:40:37era pior,
00:40:37porque caía gelo,
00:40:38porque tempo.
00:40:39Aí,
00:40:39ficava tudo em fila.
00:40:41Ia para o mochê de papai,
00:40:43para pegar as ferramentas,
00:40:44para ir trabalhar.
00:40:46Os homens do mapa,
00:40:47nós ficava neutro.
00:40:49chovesse ou não chovesse,
00:40:51tem que ir.
00:40:59Nós olharam a branco,
00:41:01aquela praga,
00:41:02com a barba de bote.
00:41:03Nós arranquemos tudo.
00:41:04Ficamos a mão sangrando.
00:41:09Depois da lavoura,
00:41:11vinha aqui na cocheira,
00:41:12cuidar dos cavalos.
00:41:14Acabamos os cavalos,
00:41:15bem cuidado dos carnívoros,
00:41:17lá na grama.
00:41:25Esclareceu a cama.
00:41:27Esclareceu a cama.
00:41:36Esclareceu a cama.
00:41:37Vocês eram remunerados?
00:41:39Não.
00:41:42Não ganhava nada?
00:41:43Era só a comida e mais nada.
00:41:48O salário você recebeu pelo trabalho?
00:41:50Não.
00:41:51O salário,
00:41:51não existia esse negócio de salário.
00:41:54O salário é assim,
00:41:55nada é o que eu estava recebendo até hoje.
00:41:59E assim vem a vida.
00:42:04Está dormindo?
00:42:07Enquanto o senhor Argemiro dava risada
00:42:10da própria desgraça sofrida
00:42:13e da sua capacidade de resistir e sobreviver,
00:42:17o senhor Aloysio mostra
00:42:23dor,
00:42:25sofrimento e revolta
00:42:28nas memórias de infância.
00:42:29Porque se é um dia de hoje
00:42:30que eu encontro
00:42:31um desses um aí,
00:42:34eu tiro a porra.
00:42:37Porque ele está aguardando
00:42:38o meu sentimento.
00:42:42Ainda eu peço a Deus,
00:42:43eu agradeço a Deus,
00:42:45tudo aí,
00:42:45porque eu sou muito revoltado aí
00:42:47e não encontrar com essa gente
00:42:50porque senão eu faço.
00:43:06Menor é uma expressão
00:43:08que se transformou
00:43:10num estigma social,
00:43:12menor é a caracterização
00:43:14de um contingente
00:43:16que está disponível
00:43:18a ser adestrado,
00:43:20que tem rebaixamento cultural,
00:43:23rebaixamento escolar,
00:43:25rebaixamento intelectual,
00:43:26ou seja,
00:43:27o lixo.
00:43:33Uma forma de lidar
00:43:34com o indesejável,
00:43:35com o perigo,
00:43:36é eliminar.
00:43:37A outra é
00:43:39institucionalizar.
00:43:41Institucionalizar onde?
00:43:42Nos abrigos,
00:43:44você vai institucionalizar
00:43:45no exército,
00:43:46você vai institucionalizar
00:43:47na marinha
00:43:48e você vai institucionalizar
00:43:49nos chamados institutos
00:43:50para meninos desvadedos.
00:43:56Presidente da República
00:43:58faz uma visita
00:43:59à Fundação Matos Duarte,
00:44:01uma das instituições
00:44:02mais antigas
00:44:02do Rio de Janeiro
00:44:03e das que maior soma
00:44:05de benefícios
00:44:05tem semeado.
00:44:06A Fundação,
00:44:07que é mantida
00:44:08pela Santa Casa da Misericórdia,
00:44:10já recebeu,
00:44:11educou e formou
00:44:12para o serviço útil
00:44:13da pátria
00:44:14cerca de 60 mil pessoas.
00:44:31A impressão que ficou
00:44:33para mim
00:44:33é que o que era bom
00:44:35para o Estado,
00:44:37o que era bom
00:44:38para a Irmandade
00:44:40de Misericórdia,
00:44:41o que era bom
00:44:42para o orfanato
00:44:44do Romão de Matos Duarte,
00:44:47por que não haveria
00:44:48de ser bom também
00:44:49para os meninos?
00:44:52A longo prazo,
00:44:54ficou evidenciado
00:44:55que, de fato,
00:44:57pode ter sido bom
00:44:58para todos,
00:44:59mas não para os meninos.
00:45:17Havia castigo,
00:45:18Sr. Luiz?
00:45:19Castigo?
00:45:20Para nós, havia.
00:45:22Chegou a ser surrado?
00:45:23Chegava a ser surrado?
00:45:24Nossa,
00:45:24isso!
00:45:30Nós fomos muito judiais,
00:45:32muito maltratados também.
00:45:39Os válidos vão me matar,
00:45:41vocês válidos vão me matar.
00:45:43cortavam,
00:45:45para deixar secar,
00:45:47tiravam aquela casca,
00:45:48passavam o olho dentro.
00:46:10Até me acorda
00:46:11de um chicote,
00:46:13fica até cortado,
00:46:15deixar aquele esbergão
00:46:16na gente.
00:46:20O povo veio tomar
00:46:21o açúcar
00:46:22daquele negócio
00:46:22deus do lixo.
00:46:24Só escutavam o grito.
00:46:35Ficavam de braço aberto,
00:46:37joelhar em cima
00:46:38de grão de milho e tudo.
00:46:39Às vezes também,
00:46:41né?
00:46:42Palmatória,
00:46:42como é que é?
00:46:44Palmatória.
00:46:45Como é que é a palmatória?
00:46:46Mostra pra mim.
00:46:46Palmatória é uma bandeira,
00:46:48assim,
00:46:48tem um cabo,
00:46:50tem um cabo de furo.
00:46:51caramba.
00:46:53Caramba,
00:46:54andar ali,
00:46:54de tomar,
00:46:55estendia a mão e ia,
00:46:57pá!
00:47:01Três bolos,
00:47:03atravessar cinco.
00:47:19Mas a gente que era escravo dele ali, não era fácil não, eu andava sempre afastado
00:47:28deles. Quando a gente não podia fazer nada, não tinha liberdade pra nada. É, quando fazia
00:47:39a meia desordia aí, o lugar que eles me levavam era isso. Não tinha nada, ficava quieto ali,
00:47:48não tinha o que fazer.
00:48:00Uma coisa mais ruim que tem é quando a gente fica lembrando o passado, tudo aí.
00:48:26Porque eu acho que teve mais coisas ruins do que boas, né? Nesse período de quando
00:48:33ele era novo, então é melhor esquecer, né? Já passou, já passou. Mesmo agora que
00:48:42já tá, vamos dizer, no fim da repa, que adianta tá lembrando essas coisas? Eu acho assim,
00:48:48não sei.
00:48:48Não sei.
00:48:48Não sei.
00:48:48Não sei.
00:48:49Não sei.
00:49:05Não sei.
00:49:08Não sei.
00:49:17Não sei.
00:49:19Não sei.
00:49:26Não sei.
00:49:37Não sei.
00:49:45Não sei.
00:49:47Eu acho.
00:49:59Quando chega a década de 40 e a Segunda Guerra Mundial, acontecem mudanças na política brasileira
00:50:06e o país passa a ser foco do interesse internacional.
00:50:12O Vargas fez esse jogo muito bem no âmbito internacional
00:50:16com os alemães e com os Estados Unidos.
00:50:19Ele foi muito astuto, toda essa diplomacia brasileira foi muito astuta,
00:50:24porque era assim, quem dá mais leva.
00:50:33É política isso, não é?
00:50:36Polisqueiros.
00:50:40As fazendas da família Rocha Miranda também passavam por mudanças.
00:50:44Os meninos do orfanato, a essa altura, já eram adolescentes.
00:50:53E Renato Rocha Miranda, filho, o Renatinho,
00:50:57que se tornaria o futuro herdeiro das terras,
00:51:00estava cada vez mais presente.
00:51:02Ele era muito safado demais.
00:51:05Pegar o dinheiro só para fazer bagunça.
00:51:08Ele era solteiro, o único solteiro da família.
00:51:11Acho que não era muito certo, não.
00:51:14Não era muito certo.
00:51:15Não é muito certo.
00:51:17O Renato, quando veio morar na fazenda,
00:51:20ele era rapaz de 19 anos, já era bico,
00:51:22quando ele veio do Rio.
00:51:29O Renato, o pai dele, disse que ia matar ele,
00:51:32que não havia o que lhe dasse.
00:51:34Daí veio o major, que era o doutor Osvaldo,
00:51:38que era tio e gostava muito do menino.
00:51:40Daí disse, não, pera, tem a cama.
00:51:42É, rapaz, é assim mesmo, moço e tal.
00:51:45Eu vou levar ele para a fazenda.
00:51:46E daí o tio que trouxe ele.
00:51:49É a história que ele contou para a gente, né?
00:51:53E o tio forçando, e ele aceitando a proposta,
00:51:56e ele obedecia.
00:51:57E até que acabou doando a metade da fazenda para ele.
00:52:01E vendeu a outra parte.
00:52:30O senhor tem aqui.
00:52:35conhecimento das...
00:52:36Aqui é o Renatinho.
00:52:38Aqui é o seu Renato.
00:52:43Outra pessoa aqui.
00:52:46O senhor se recorda na foto?
00:52:50Estou descontado, aquele lá, esse daqui, ó.
00:52:52Parece o dois.
00:52:54Está vendo?
00:52:58Viu, Timir?
00:52:59Eu estou recolhendo, parece que é o dois esse daqui,
00:53:02não é?
00:53:04Quando o senhor fala número assim,
00:53:05por que o senhor fala número?
00:53:06Todo mundo era numerado.
00:53:08Era numerado.
00:53:09E vocês se chamavam pelo nome ou pelo número?
00:53:12Eu bem chamava pelo nome, pelo número.
00:53:15E qual que era o número do senhor?
00:53:17Na primeira turma, foi sete.
00:53:20Era por escala, né?
00:53:22Sim.
00:53:22Da mãe.
00:53:23Depois, como formou cinco anos,
00:53:24eu fui para vinte e três.
00:53:26Com o menino, vinte e três.
00:53:39A história do senhor José Alves de Almeida,
00:53:42que foi conhecido como Dois,
00:53:45diferente dos demais meninos
00:53:47que viviam na fazenda,
00:53:49nos tratos com animais,
00:53:52com as plantas,
00:53:53com a agricultura,
00:53:56o Dois tinha uma vida mais ligada
00:53:59ao campo doméstico,
00:54:01às relações mais próximas
00:54:02com a família Rocha Miranda.
00:54:07Ele não deveria estar no grupo que foi
00:54:10para a campina de Monte Alegre.
00:54:12O meu pai, a madre pediu para ele
00:54:15dois, a madre chamava ele de Zé Pretinho,
00:54:19vai levar para mim uma carta no correio.
00:54:21E ele disse para ela,
00:54:22ah, não vou, porque vou fazer não sei o quê.
00:54:24Isso, ele já tinha nove anos.
00:54:26Daí ela disse que falou para ele,
00:54:27ah, você não vai,
00:54:27eu vou pôr você na lista
00:54:28para o major levar você para a fazenda.
00:54:32Ele, quando chegou aqui,
00:54:33ele foi trabalhar na roça?
00:54:35Foi uns dias só.
00:54:36Depois a mãe do senhor Renato veio
00:54:37e já tirou ele.
00:54:38Escolheu ele lá no meio da roça,
00:54:40escolheu ele e tirou ele de lá.
00:54:43A senhora pode dizer para a gente
00:54:44por que ele foi escolhido?
00:54:45Por que a Maria da...
00:54:48Maria da Glória.
00:54:49Maria da Glória escolheu ele.
00:54:51Porque ela gostou do jeitinho dele.
00:54:55Ele era muito delicado,
00:54:56era uma pessoa,
00:54:57assim, muito comunicativa,
00:55:01então ela escolheu ele.
00:55:20Daí foi escolhido para ficar aqui,
00:55:22daí levaram ele para o Rio.
00:55:23Ele ficou lá na casa deles no Rio,
00:55:25tomava conta de umas crianças deles lá, né?
00:55:31Ensinaram ele a cozinhar,
00:55:32ele foi um bom cozinheiro.
00:55:37Como se fosse um treinamento para ele.
00:55:39Levou ele lá, treinou,
00:55:41cuidou, ensinou tudo o que ela queria
00:55:43que ele fizesse para o filho dela aqui.
00:55:45Daí o dois veio e ficou com o filho para cá.
00:55:48Renatinho Rocha Miranda e o dois
00:55:51tinham praticamente a mesma faixa etária.
00:55:58Antes, no leito de morte,
00:56:00a Maria da Glória,
00:56:01antes de morrer,
00:56:02pegou na mão dele e na mão do seu Renato
00:56:03e disse,
00:56:04dois,
00:56:05você e o Renato,
00:56:06até a morte,
00:56:07vão estar juntos.
00:56:09E nunca um vai largar do outro.
00:56:13Como ele não era casado,
00:56:15então o papai era o dono da casa.
00:56:17Eu costumo dizer que o papai foi
00:56:20um Chica da Silva
00:56:22homem, entendeu?
00:56:23Que viveu, fez,
00:56:25ele fez exatamente aquilo que ele quis
00:56:27a vida dele inteira.
00:56:30Ele não tinha o que reclamar,
00:56:32porque ele viveu mais dentro da casa
00:56:34da fazenda, dos patrões.
00:56:36Lá ele era muito feliz,
00:56:38eles tratavam ele muito bem.
00:56:44Daí, quando você vem pra dentro
00:56:46de uma família
00:56:47criado como se fosse filho,
00:56:49é diferente dos outros, né?
00:56:51Então, meu pai era,
00:56:52na época,
00:56:53era considerado chique.
00:56:58Sempre gostava de usar terno,
00:57:00não é?
00:57:02Cravata, sapato,
00:57:03ele foi muito maidoso.
00:57:05Xingava, dizia que a gente era burro,
00:57:06que não sabia nem comer,
00:57:08que era caipira mesmo.
00:57:10Ele não falava nada
00:57:11de palavras erradas, não.
00:57:17Quais as lembranças que ele tinha
00:57:18dos outros meninos?
00:57:19Ele comentava sobre os outros meninos?
00:57:22Comentava,
00:57:23porque eles foram amigos, né?
00:57:25Desde quando vieram,
00:57:26ia na fazenda que eles moravam,
00:57:29moravam tudo junto,
00:57:29então eles sempre se viam, né?
00:57:32E os dois comentavam,
00:57:34ainda orientavam onde eles moravam,
00:57:36e dava opinião, né?
00:57:40Comia, essas coisas,
00:57:41todos os dois iam lá
00:57:42e tomavam conta, entendeu?
00:57:44Ele foi criado como se fosse
00:57:47filho,
00:57:47e os outros,
00:57:49ele sabendo que ele tinha
00:57:50os outros meninos lá,
00:57:51o papai também respeitava eles,
00:57:53e eles também respeitavam o papai,
00:57:55tá aí o senhor Aluís que pode falar.
00:57:57Ele gostava de vocês?
00:57:59Tratava bem vocês?
00:58:00Não.
00:58:03Por que você achava?
00:58:04Ele fingia que tratava a gente bem.
00:58:13Nós dizia,
00:58:14Deus, você não vai morrer
00:58:15e se enterrar no caixão de olho,
00:58:17porque não vai, não.
00:58:18Você vai no caixão da prefeitura.
00:58:21E disse o peito.
00:58:23Ao mesmo tempo
00:58:25que nós temos, portanto,
00:58:27um menino que se constitui jovem
00:58:31com padrões comportamentais,
00:58:34estéticos,
00:58:36muito ligados à casa grande,
00:58:40é também,
00:58:42me parece,
00:58:43uma consonância
00:58:46entre os familiares e amigos
00:58:48que não deixava
00:58:50de ser
00:58:53um emprestador de serviço.
00:59:03Ele não tinha salário.
00:59:05Isso eu posso
00:59:07te assegurar.
00:59:09Mas ele tinha
00:59:10tudo como eu disse pra você.
00:59:21O Brasil tem essa característica
00:59:23cultural interessante
00:59:24e trágica
00:59:26que é de você
00:59:28salva explorando.
00:59:30Quando você pega
00:59:31uma criança
00:59:32de 10, 12 anos,
00:59:34família pobre,
00:59:35e põe na sua casa
00:59:36pra ela limpar a casa,
00:59:38lavar a louça,
00:59:39passar,
00:59:41você acha que está salvando
00:59:42aquela criança
00:59:43da pobreza.
00:59:44e aí sendo
00:59:45num regime
00:59:45de escravismo
00:59:47cotidiano,
00:59:48né?
00:59:49Deus,
00:59:49que eu me lembro
00:59:49por gente,
00:59:50como dizem,
00:59:51eu já me lembro assim,
00:59:52meu pai nunca teve salário,
00:59:53não.
00:59:54Eu, Deus,
00:59:55dos 12 anos,
00:59:56eu precisei trabalhar.
00:59:57Então,
00:59:59eu trabalhava,
00:59:59Deus,
00:59:59dos 10,
01:00:00nós já trabalhava.
01:00:01Trabalhava lá
01:00:01de plantar uma grama,
01:00:03de fazer uma coisa,
01:00:04fazer outra,
01:00:05pra ajudar,
01:00:06sempre nos fazer da casa,
01:00:07né?
01:00:08Porque ele não tinha,
01:00:09meu pai não tinha salário.
01:00:10Como que a gente
01:00:10tinha sobrevivido?
01:00:11Na escola,
01:00:12tudo, né?
01:00:15O quê?
01:00:16É só que o seu Renato
01:00:17dava, né?
01:00:18Ele dava,
01:00:19mas dava assim,
01:00:20dentro do limite possível,
01:00:21você tinha que trabalhar.
01:00:22Eu trabalhava pra gente
01:00:23poder ter roupa,
01:00:24você não ia ficar pedindo
01:00:25a vida inteira
01:00:26pros outros,
01:00:26as coisas, né?
01:00:30Aos soldados do Brasil.
01:00:33Em 1942,
01:00:34o presidente Getúlio Vargas
01:00:36escolhe um dos lados
01:00:37da guerra
01:00:38que se alia aos Estados Unidos,
01:00:40graças a diversos
01:00:41acordos comerciais
01:00:43e incentivos financeiros.
01:00:45E quando fecha
01:00:46com os Estados Unidos,
01:00:47ele também está fechando o quê?
01:00:49A construção da indústria
01:00:50de bens e capital
01:00:51no Brasil.
01:00:55Essa decisão
01:00:56afetaria diretamente
01:00:58o destino
01:00:58dos meninos na fazenda.
01:01:06com a declaração
01:01:07de guerra ao eixo,
01:01:08as suásticas nazistas
01:01:10e as referências
01:01:11sistemáticas
01:01:12à ação integralista
01:01:13brasileira
01:01:13começam a ganhar
01:01:14ares de crime.
01:01:19E nada mais coerente
01:01:23que se tentasse
01:01:25apagar
01:01:28essas memórias materiais,
01:01:29posto que
01:01:31inclusive prisões
01:01:33estavam acontecendo
01:01:34por este envolvimento
01:01:39ideológico.
01:01:44A geração anterior
01:01:46do senhor Renato,
01:01:49pai
01:01:49e do senhor Oswaldo,
01:01:51já havia inclusive
01:01:51sofrido perseguições
01:01:54inclusive de cárcere.
01:01:56houve a caça às bruxas
01:01:58e segundo diz
01:01:59alguns velhos
01:02:00da região,
01:02:01o doutor Sérgio
01:02:02foi avisado
01:02:04e ele
01:02:05pegou a comitiva dele.
01:02:07Foi para
01:02:07o presidente
01:02:08Wenceslau
01:02:09que eles tinham
01:02:10propriedade também
01:02:10do presidente Wenceslau
01:02:11e lá foram
01:02:12para o Mato Grosso.
01:02:13No outro dia
01:02:14o mesmo caminhão
01:02:15levou ele até
01:02:15uma certa fazenda
01:02:16no Uruguai.
01:02:18Posterior do Uruguai,
01:02:19Estados Unidos
01:02:20e ficou lá
01:02:21por um ano e tanto,
01:02:22segundo diz
01:02:22os mais velhos.
01:02:26no tempo da guerra
01:02:27não tinha valor
01:02:28o gado dele
01:02:28com essa marca.
01:02:30Era marca de alemão.
01:02:32Depois,
01:02:33primeiro,
01:02:34esse gado
01:02:34ficou lá na fazenda.
01:02:36Foi ficando
01:02:36velho e foi ficando.
01:02:47de fato,
01:02:49se até então
01:02:51ter
01:02:51meninos
01:02:53e adolescentes
01:02:55negros
01:02:56dentro de uma espécie
01:02:57de juventude
01:02:58integralista
01:02:58parecia coerente.
01:03:01No momento seguinte,
01:03:02aquilo passa
01:03:03a se tornar
01:03:03algo
01:03:07escandalosamente
01:03:09desinteressante.
01:03:23O Anantim
01:03:24mandou
01:03:24o fiscal
01:03:25geral
01:03:26recolher nós
01:03:27e pular no
01:03:27terreiro da fazenda.
01:03:29Aí ficamos
01:03:29todos quietos ali
01:03:30esperando.
01:03:32Aí ele disse,
01:03:32olha,
01:03:34aqui eu vou fazer
01:03:34uma escolha
01:03:35de quem vai ficar
01:03:35comigo.
01:03:37então quem vai ficar
01:03:38comigo é o Dô.
01:03:39Dô e você
01:03:39fique pra cá.
01:03:41Agora o resto
01:03:42foi a mesma coisa
01:03:43de abrir a porteira
01:03:44e solta esse gado
01:03:45pra fora.
01:03:45Foi isso que aconteceu.
01:03:47Agora um olhar
01:03:48pra cada outro.
01:03:50Como é que nós
01:03:51vamos fazer?
01:03:51Ah, não sei.
01:03:54O que será
01:03:55que vai acontecer
01:03:55com nós?
01:03:57O que será
01:03:58que vai acontecer?
01:04:02essa repetição
01:04:03no seu Aloysio,
01:04:05no seu Agimiro,
01:04:06nos seus Alves de Almeida
01:04:07sobre o silêncio
01:04:10acerca do período
01:04:11que vai
01:04:11da saída
01:04:12do orfanato
01:04:14até
01:04:14a liberação
01:04:16dos meninos
01:04:18é revelador
01:04:19de traumas.
01:04:46A memória
01:04:48que ficou
01:04:49uns parentes
01:04:50sobre o dois
01:04:51que são dores
01:04:52diferentes
01:04:52e voltas
01:04:54diferentes.
01:04:58Ele morreu
01:04:59muito cedo,
01:04:59meu pai,
01:05:00morreu com 57 anos.
01:05:03Eu acho
01:05:03que quando ele casou
01:05:05ele ainda
01:05:06não estava,
01:05:07não bebia
01:05:09muito.
01:05:18Ele,
01:05:19por alguma coisa,
01:05:20teve uma depressão
01:05:21que eu não sei
01:05:22o porquê
01:05:23e ele foi
01:05:24se desdeixando,
01:05:25se desdeixando
01:05:26e terminou
01:05:27como ele terminou.
01:05:33Ele devia ter
01:05:35alguma coisa
01:05:35dentro dele
01:05:36que ele nunca
01:05:36pôde falar.
01:05:37então eu acho
01:05:38que a parte
01:05:39que ele se aliviou
01:05:39foi na bebida.
01:05:46Ele morreu
01:05:47com ele
01:05:48a história,
01:05:48nunca
01:05:49pôde contar.
01:06:16você veja
01:06:17uma pessoa
01:06:18na situação
01:06:18da mamãe.
01:06:20Foi
01:06:21mulher
01:06:22e mãe
01:06:23do meu pai.
01:06:27Ele largou
01:06:28de tudo,
01:06:29abandonou tudo.
01:06:29Eu que cuidei dele
01:06:30até o fim
01:06:31da vida dele.
01:06:34o papai morreu
01:06:35dentro da fazenda
01:06:36achando que era dele.
01:06:37Ele não se preocupava
01:06:38em ter nada
01:06:39para a gente,
01:06:39entendeu?
01:06:40Ah, eu vou ter
01:06:41alguma coisa
01:06:41para os meus filhos,
01:06:43fora disso daqui.
01:06:46Então ele,
01:06:47ele,
01:06:47é isso que eu quero
01:06:48que você entenda,
01:06:49ele viveu
01:06:52aquilo
01:06:52como se fosse
01:06:53dele.
01:06:57Ele teve direito
01:06:58à herança?
01:07:00Não,
01:07:01direito à herança
01:07:02não teve.
01:07:02Se teve,
01:07:04foi,
01:07:05o testamento
01:07:06foi rasgado,
01:07:07alguma coisa
01:07:07foi feita.
01:07:08Ele achava
01:07:09que ele tinha
01:07:09direito à herança,
01:07:10porque ele foi
01:07:11criado como filho.
01:07:18Nós temos
01:07:19uma elite
01:07:20que você tem
01:07:20que tirar o chapéu.
01:07:21É uma das mais
01:07:22brilhantes do mundo.
01:07:25Não cedem nada,
01:07:27nunca cederam nada
01:07:28na história.
01:07:29e o mais forte
01:07:30tem direito
01:07:30a fazer
01:07:31o que ele quiser.
01:07:32Ele está
01:07:32acima de qualquer
01:07:33justiça.
01:07:48Seu Admiro
01:07:49possuía algo
01:07:50bastante diferente
01:07:51dos outros meninos.
01:07:54Ele fugiu.
01:07:56Ele fugiu
01:07:57antes da liberação.
01:07:59Ele fugiu.
01:08:02Ele fugiu.
01:08:18Ele fugiu.
01:08:28O que que eu saí?
01:08:29Que me convide sair?
01:08:31Fazer o que lá?
01:08:32Notei que aquilo não tava fazendo mais nada.
01:08:35Tirei o time.
01:08:37Andei a PEC sovendo.
01:08:39Ficar fazendo o que lá?
01:08:40Vegetando?
01:08:42Porque se não ia ter futuro de nada ali.
01:08:44Ficar em fazenda.
01:08:46Andei da fazenda até aquele Rio Paranapanema.
01:08:49Não tinha ponte.
01:08:51Travessei a nado ali e fui embora.
01:08:58Mas foi que há quantos anos quando o senhor fugiu da fazenda?
01:09:01Aí.
01:09:03Esse dia tem mais ou menos o que?
01:09:08Quinze anos mais ou menos.
01:09:09Já tinha cabeça no lugar.
01:09:12O que é menor não dá pra fugir.
01:09:15Porque se o Capataz pegasse...
01:09:17Tá roubado.
01:09:19Tava roubado.
01:09:23Tava roubado.
01:09:33Depois, quando eu saí, que foi difícil.
01:09:36Que eu fui tanto no lugar.
01:09:37Eu fui engraxado na Vida Paulista.
01:09:41São Paulo?
01:09:42Conhece, né?
01:09:44Daí que foi indo.
01:09:46E o senhor dormia aonde nesse período?
01:09:49Na calçada.
01:09:51Forrava o jornal lá.
01:09:53Dormia na calçada.
01:09:54Bem na praça.
01:09:57O senhor foi morador de rua, então?
01:09:58Fui.
01:09:59De casa não.
01:10:00Vou de casa, estou sendo agora.
01:10:17O senhor dormia a noite, por quantos anos?
01:10:19Nem sei.
01:10:21Não comprei bem, não.
01:10:23Acho que foi bastantinho.
01:10:24É o que é a costuma, depois.
01:10:36Em São Paulo, Brasil.
01:10:38Crowds are massed for the presentation of colors
01:10:40to units of the Brazilian Expeditionary Force.
01:10:43Soon to go overseas to join democracy's fight.
01:10:47Eu estava ali engraçando, quando escutei.
01:10:50O Brasil entrou em guerra, papapá, tatatá.
01:10:52Eu larguei a caixa com tudo, peguei o trem,
01:10:56me apresentei na cena de marinha.
01:10:58E fudei, tem marinha fumaça, tem no Rio de Janeiro.
01:11:01Aí me apresentei, não, pode vir, papá.
01:11:03E dali me mandaram pra escola, lá vão.
01:11:29A possibilidade de morrer na Segunda Guerra não era pequena.
01:11:37Talvez ele já não suportasse mais a vida da rua.
01:11:44Talvez qualquer coisa parecesse melhor do que aquilo.
01:12:01É, fogo já.
01:12:03Me apresentei minha vida.
01:12:04Tomara que ninguém passe, nunca passei.
01:12:18Saber que isso tudo parecia muito natural pra época
01:12:20é o mais revoltante.
01:12:22Aquilo foi aceito socialmente.
01:12:26Por estarem à margem da sociedade,
01:12:28estavam disponíveis a esse tipo de exploração.
01:12:41De repente, podemos estar naturalizando como fizeram
01:12:46nossos ancestrais dos anos das décadas de 1920 e 30,
01:12:50sem que sequer percebamos os acontecimentos.
01:13:01Os dez anos que ficaram lá não foram tempos de inserção social.
01:13:06Não lhe faltavam somente recursos econômicos e formação escolar.
01:13:12Faltavam uma experiência de convivência no mundo comum, no mundo público, no mundo urbano.
01:13:21Afinal de contas, não tinham liberdade de frequentar a cidade, de ir e vir.
01:13:31Quando eles foram liberados,
01:13:33a maioria absoluta deles simplesmente pegou o trilho do trem,
01:13:39alguns com a esperança de voltarem ao Rio de Janeiro
01:13:43e seguiu adiante.
01:13:46As notícias que temos
01:13:48são de miséria,
01:13:50alcoolismo,
01:13:51exclusão e abandono.
01:14:04As faladas, vamos embora, vamos sumir.
01:14:08Agora eu bobo, fiquei.
01:14:10Agora eu já estava acostumado aqui, no ambiente aqui e tudo aí.
01:14:14Eu fiquei.
01:14:18É porque eu acreditava que eu era um homem sem...
01:14:23sem futuro nenhum.
01:14:26Sem futuro nenhum.
01:14:27Sem futuro nenhum.
01:14:54conhecimento.
01:14:55Se você interested me.
01:14:56Sem futuro nenhum.
01:14:59Isso aí.
01:15:23Assições em relação.
01:15:25Amém.
01:15:53Amém.
01:16:23Amém.
01:17:02Amém.
01:17:23Amém.
01:17:56Amém.
01:18:23Amém.
01:18:53Amém.
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