00:18AESOP E JUNIOR
00:25Isso, Júnior, você tem que colocar a cadeira no ponto de partida.
00:28Mas, pai, tem certeza que isso vai me tornar o rei das pistas?
00:32Positivo. Tudo bem, tudo bem. Em seus lugares. Pronto. Senta.
00:37Senta?
00:37Isso mesmo. Sente na cadeira.
00:39Ah, pai, eu nunca vou ganhar do Remy Rômulo desse jeito.
00:42Ah, sim, vai sim. Lembre-se, devagar é que se vai ao longe.
00:47O que me faz lembrar...
00:48Outra fábula?
00:49O nome dessa é a lebre e a tartaruga.
00:53Era uma vez uma lebre com, perdoe a expressão, apetite descomunal.
00:57Ela não fazia só as três refeições normais do dia, mas comia uma delas de hora em hora.
01:05Cara, adoro comer, comer. Alô? Alô?
01:09Me liga com a mercearia.
01:10Alô? Mercearia?
01:12Aqui é o senhor lebre.
01:13Não, não é um apelido. Eu sou um tipo de coelho.
01:16Olha, me manda um pacote de nozes, pode ser?
01:19Nozes. Preciso delas imediatamente. Isso mesmo, nozes!
01:22Sem conhecer a lebre, a mercearia tinha contratado um novo entregador que calhou de ser uma tartaruga.
01:29E todos sabemos como as tartarugas são lentas.
01:31Foi só um ano depois que as nozes chegaram ao seu destino.
01:36É o senhor lebre.
01:39É, sim, sim, sim. Eu sou o senhor lebre.
01:41O senhor pediu nozes?
01:44É, eu pedi nozes, mas isso foi um ano atrás.
01:47Eu sei. Por isso é que eu trouxe uma nogueira.
01:54Nogueira?
01:55Oh, Lazeera, eu sei que ele é novo, eu sei disso, mas ele é muito devagar.
01:59É certo, certo, vamos fazer uma coisa. Eu vou lhe dar uma outra chance.
02:02Me manda uma lata de sorvete, é tutti-frutti, e desta vez mais rápido, por favor!
02:06Mais uma vez, a pequena tartaruga saiu da mercearia e mais uma vez, um ano depois, ela chegou à casa
02:12da lebre.
02:14Atrasado de novo, hein?
02:15Peguei muito farol fechado.
02:18Olha, escuta, tartaruga, eu pedi uma lata de sorvete.
02:21De tutti-frutti.
02:22É, isso, isso, isso, tutti-frutti.
02:24Agora você levou um ano pra entregar.
02:26Eu posso imaginar o estado em que ficou o sorvete.
02:30Bom, derreteu um pouquinho.
02:32Dá pra imaginar.
02:33Ainda quero ele?
02:35É claro que ainda quero ele. Me dá aqui!
02:39Olha, eu, escuta, se isso continuar, eu vou fazer minhas compras em outro lugar.
02:42Vou sim, vamos lá. Eu vou dar só mais uma chance, a última.
02:46Você tem banana de dinamite?
02:48Eu vou emendar naquela tartaruga.
02:50Ah, ótimo, ótimo. Bem, me manda uma banana de dinamite.
02:53E aí, me faça um favor. Pode ser?
02:55Ponha um detonador programado para um ano e ligue.
02:59Você me ouviu? Eu disse pra ligar.
03:01Bem, a velha rotina se repetiu.
03:03A tartaruga deixou a mercearia e um ano depois...
03:11Desculpa, estou atrasado, senhor lebre.
03:14O senhor pediu uma banana de dinamite.
03:17É, não só pedi ligeirinho. Arrumei pra tudo explodir em cima de você, por ter sido tão lento com as
03:23nozes e o sorvete.
03:25Bem, eu peço desculpas pela leitidão. Eis a dinamite.
03:32Mandaram duas pelo preço de uma.
03:37Você me ouviu? Quero que o despeça.
03:40Mas, seu lebre, eu preciso do entregador.
03:42Certo, certo. Despeça ele. Contrate a mim. Por acaso, eu sou a criatura mais veloz da floresta.
03:47A segunda mais veloz.
03:49Está querendo dizer, tartaruga, que é capaz de vencer a lebre?
03:53Senhor, eu ganho dela com um pé nas costas.
03:57Assim, ficou decidido que a lebre e a tartaruga iriam apostar uma corrida.
04:00O vencedor ficaria com o cargo de entregador.
04:02No disparo do revólver, os competidores saíram.
04:07Ou pelo menos um deles.
04:09Bem, a tartaruga podia ser devagar das pernas, mas pensava bem rápido.
04:13Ela sabia muito bem do apetite voraz da lebre.
04:20Meu nariz me engana?
04:22Ou será esse o aroma inebriante de cenoura escalopini?
04:26Oi, tartaruga. O que está fazendo? É cenoura escalopini?
04:30É, é cenoura. Há isso aí que você disse.
04:34É, cheira bem. Tem bastante para dois?
04:36Não. Só tem para um.
04:39Eu deixaria para você, mas você tem que disputar a corrida.
04:43Ora, ora. Não se incomode com isso. Eu como agora e corro depois.
04:48Se importa se eu correr enquanto você come?
04:52Não, não, não. Fica à vontade. Eu te alcanço.
04:55É, mas o apetite da lebre levou a melhor sobre ela.
04:58Ela ficou três horas sentada, consumindo cada porção de cenoura...
05:01Aquilo que ela disse.
05:03E quem consegue correr de estômago cheio?
05:06A tartaruga ganhou uma corrida?
05:07Com facilidade.
05:08Ah, agora sei o que quis dizer. Com devagar se vai ao longe, pai.
05:12Tem também uma outra moral, filho. Uma que se aplica à lebre.
05:16Aposto que sei qual é.
05:18Qual?
05:18Comer depressa engorda. Acertei, pai?
05:21É, acertou, filho.
05:31Fim.
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