O pesquisador da COPPE/UFRJ, Hudson Mendonça, discute o impacto da escalada militar no Oriente Médio, que levou o petróleo Brent a superar os 90 dólares. A análise detalha como o bloqueio do Estreito de Hormuz afeta 20% da produção global e como o Irã utiliza oleodutos terrestres para escoar sua própria produção, minimizando prejuízos internos.
O conteúdo aborda ainda a reconfiguração das alianças dos EUA com Venezuela e Arábia Saudita, a aposta da China em renováveis como proteção estratégica e as projeções de preços que podem atingir 150 dólares por barril.
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00:00Vamos seguir aqui movimentando também, trazendo mais um convidado especialista, porque a escalada envolvendo Estados Unidos e Israel contra o
00:09Irã recoloca o Estreito de Hormuz no centro do risco global.
00:14Já nos primeiros dias da tensão, a cotação do petróleo reagiu, refletindo aumento do prêmio de risco.
00:20Vamos entender então o que podemos esperar do mercado para o petróleo com Hudson Mendonça, que é pesquisador da COP
00:27UFRJ e VP de Sustentabilidade, também da Mindtech Review Brasil. Seja muito bem-vindo.
00:37Obrigado, Soraya. Obrigado, Marcelo, pelo convite. É um prazer colaborar aqui com vocês.
00:41Vamos lá, Hudson, para a gente tentar entender um pouco esse cenário de incerteza do conflito, que aumenta também os
00:49reflexos, inclusive, econômicos.
00:51E a gente pensa já num conflito, já vem o petróleo na nossa cabeça, que disparou mais de 30%, o
00:59petróleo do tipo Brent, superando os 90 dólares por barril.
01:04Existe ali uma projeção de teto, ou seja, esse patamar atual estaria até dentro da expectativa para essa primeira semana
01:14de conflito?
01:17Obrigado, Soraya, pela pergunta.
01:19Eu acho que o primeiro ponto que eu acho que é importante para entender todo esse movimento do preço do
01:24petróleo e aí também das outras fontes energéticas,
01:28é que a gente sempre teve na história, nos últimos séculos, uma visão de energia como um ativo que tem
01:36um componente econômico e um componente geopolítico.
01:39Isso não é de hoje, teve crise, mas crise de petróleo, subidas e descidas de investimentos em renováveis.
01:45E essa crise que está acontecendo agora, numa perspectiva mais ampla, é apenas mais uma crise.
01:52É claro que o Estado de Ormuz é crítico, passa 20% da produção de petróleo, passa por aquele canal,
02:00está exatamente colado ali com o núcleo de onde está acontecendo a guerra.
02:06E, naturalmente, no curto prazo, a perspectiva é que o petróleo continue crescendo, subindo de preço, por causa da diminuição
02:18da oferta de petróleo disponível.
02:20Agora, numa visão de longo prazo, a gente tem um desenvolvimento superinteressante.
02:24Primeiro, a estabilização do preço do petróleo por composições e aumento de produção de outras áreas ao redor do mundo.
02:33A gente viveu no Rio de Janeiro, dois meses atrás, um outro elemento geopolítico que gerou uma certa estabilidade no
02:43preço do petróleo,
02:43que é a Venezuela, que hoje tem as maiores reservas do mundo e uma produção superbaixa devido ao sucateamento de
02:49produção das petroleiras lá.
02:52Claro que esse crescimento de produção e investimentos em campos pode convencer um pouco e ajudar a neutralizar,
02:58até a queima de reserva dos países, a neutralizar um pouco do preço no médio prazo.
03:03No longo prazo, o que a gente enxerga é que pode haver uma retomada do investimento em energias renováveis,
03:12não mais com aquele discurso de precisamos blindar o meio ambiente, o aquecimento global,
03:18mas como alternativa estratégica à volatilidade que o petróleo costuma ter devido à sua localização crítica ali no Oriente Médio,
03:27que é uma área de conflitos há muito tempo, não é de hoje essa guerra, sem dúvida, é um elemento
03:34que muda o jogo,
03:36mas há muitos anos existe conflitos ali naquela região que fazem o preço do petróleo subir e descer com alguma
03:43volatilidade.
03:45Hudson, muito bom dia, Marcelo Favalli falando aqui.
03:48A gente colocou aqui um mapa, pra que todo mundo entenda as perspectivas, e aqui nós sinalamos os ataques que
03:56já houve do Irã
03:58contra estruturas ou de petróleo, ou de gás, ou do sistema industrial, ou de reservas, ou de transporte,
04:06o que está mexendo e deve continuar mexendo com o preço não só do petróleo, como de gás.
04:16Eu vou começar aqui por Israel, não que Israel não esteja diretamente envolvido no conflito, mas está mais distante.
04:26Os alvos do Irã contra Israel são, como nós vimos agora há pouco, mais uma edificação supostamente atingida em Tel
04:36Aviv.
04:36Então, esses alvos são os centros do poder, as capitais econômicas, mas, só pra contextualizar pra quem nos assiste,
04:45e Hudson, colocar todo mundo aqui na mesma página, Israel tem três grandes jazidas de gás,
04:51vive parte do seu PIB e do consumo interno da extração de gás.
04:54Uma delas foi fechada preventivamente para minimização de riscos.
05:01De novo, Iraque tem duas grandes unidades de processamento de gás, em Erbil, e mais outra perto de Bagdá.
05:11As duas também fechadas preventivamente, caso houvesse um ataque, um efeito colateral, minimizar o dano nessa estrutura.
05:20Agora vamos pra outras partes diretamente atingidas.
05:24Aqui, a Riad, a capital da Arábia Saudita, nessa localidade, uma planta de petróleo, outra de gás, atingidas e parcialmente
05:34fechadas.
05:36Cinco navios, do que a gente já tem notícia, foram atingidos numa tentativa, pela proximidade do Estreito de Hormuz.
05:44Alguns foram incendiados, o Estreito continua bastante bloqueado.
05:50E aqui, inclusive, só pra gente delimitar, essa bordinha, aqui é o Estreito de Hormuz.
05:58É essa parte aqui, que tem menos de 55 quilômetros de extensão.
06:04As bolinhas azuis aqui, elas mostram outros centros atingidos.
06:09Perdão, no Bahrein, no Catar, nos Emirados Árabes Unidos e em Oman.
06:13Aqui são oito pontos em terra atingidos, que paralisaram, então, unidades de petróleo,
06:20petróleo também aqui em Oman, no Catar, uma unidade industrial e de petróleo.
06:26Ou seja, a gente continua entendendo que, com o Estreito fechado, Hudson,
06:31e essas unidades parcialmente trabalhando, a gente ainda continua uma perspectiva de alta.
06:38No entanto, os países que compõem ali a OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo,
06:44tentaram minimizar a...
06:46Iam aumentar a produção, né?
06:48É, e até houve um pronunciamento do comando de energia, quando a gente fala de petróleo.
06:54Ah, tem muito petróleo no mercado ainda.
06:57Não sei o quanto isso é um discurso atenuante pra acalmar o investidor,
07:01pra acalmar a população, principalmente de países que dependem do petróleo.
07:06E o quanto isso é fato?
07:07Aqui, o mapa mostra as unidades atingidas, o bloqueio efetivo.
07:13Mas, é isso, concorda com essa análise, Hudson?
07:16Ainda tem muito petróleo no mercado, o OPEP pode liberar um pouco mais de produção?
07:21E essa autoridade da energia falando, não, calma, ainda não é um problema imediato.
07:27O mais, só aqui acrescentando a essa história, pra tua resposta, inclusive, ser um pouco mais ampla.
07:33O ministro de energia do Catar alertou que o preço do barril do petróleo podia ultrapassar ali os 150 dólares.
07:40O que arrastaria a economia pra baixo, né, Hudson?
07:46Marcelo, Zona, eu acho que essa análise que vocês fizeram é super importante pra poder entender o movimento
07:51e, principalmente, reagir a tudo isso que tá acontecendo.
07:54Eu acho que o Marcelo se destacou bem as estruturas das unidades de produção,
07:59mas talvez o fator mais crítico seja o transporte.
08:03Ali na faixa do distrito de Hormuz, embora tenha um pouco mais de 30 quilômetros ali de largura,
08:10as rotas onde os navios passam, cada uma, em cada sentido, tem cerca de 3 quilômetros.
08:16Então, é uma área que é muito fácil de controlar, né, na verdade, de bloquear, né,
08:22através de riscos militares ali, de afundar os navios, como você bem mencionou.
08:26Então, isso, e aí eu acho que a variável chave pra poder entender o quanto essa volatilidade
08:31vai afetar o preço do petróleo de maneira definitiva, é entender a duração do conflito.
08:38O que a OPEP fala, o que a maior parte dos países falam sobre a questão das reservas de petróleo,
08:43capacidade de ajuste de produção, é verdade.
08:46De fato, existem países que têm capacidade de produção que podem expandir essa capacidade,
08:51podem tirar dos seus estoques, diminuir o nível dos seus estoques e injetar mais petróleo nas estruturas
08:59e não afetar de maneira muito grande a demanda num curto prazo.
09:03Agora, se o conflito realmente se estender por um período mais longo,
09:08se o controle ali do Estreito de Jormuz realmente gerar esse risco,
09:11diminuir de maneira mais prolongada,
09:16esse escoamento do petróleo produzido naquela região ali,
09:20a gente tem cinco dos maiores produtores de petróleo do mundo ali,
09:25que escoam toda a produção pelo Estreito,
09:28aí, de fato, você pode atingir valores bem maiores para o barril do petróleo no longo prazo.
09:34Provavelmente, os países da OPEP já estão calibrando essa questão da distribuição dos estoques
09:39e aumento de produção em outros locais
09:41para tentar fazer com que a sua subida não seja uma subida tão rápida,
09:46mas se o conflito se prolongar,
09:48de fato, a gente vai ter um novo cenário de custo energético no mundo.
09:53E é importante entender que isso se soma ao que aconteceu na Venezuela.
09:59A Venezuela hoje é o país com maior renda de petróleo do mundo,
10:02mas tem uma capacidade de produção muito mais baixa do que poderia ter.
10:07A Venezuela já produziu três vezes mais de petróleo do que produz hoje em dia.
10:11O investimento em infraestrutura é um investimento mais longo,
10:14não dá resultado imediato em aumento de produção,
10:16mas a gente tem outros elementos aqui que vão fazer com que essa previsão da subida
10:22e, principalmente, de manter o petróleo em um nível mais alto
10:26precisa ser analisado nos próximos dias com o desdobramento do próprio conflito.
10:31E essa projeção, Hudson, fica ainda mais dificultada
10:36justamente pela difícil missão de se prever quando esse conflito vai acabar.
10:41Só que a gente tem que lembrar que quando a gente olha para o petróleo subindo por causa de uma
10:46guerra,
10:46não é só o preço do barril do petróleo que tem impacto.
10:51Tem impacto em outros setores da economia, inclusive nos alimentos.
10:56Voltando um pouco aqui para o cenário doméstico, para o Brasil também,
10:59quando a gente pensa na economia de uma maneira geral,
11:02já dá para visualizar algum tipo de impacto.
11:05Até a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a ANP,
11:11já sinalizou que tem postos de combustíveis aumentando o valor da gasolina já.
11:18O que você mencionou é super importante.
11:21A gente vai ter reflexos aqui no curto prazo, independente do preço de volatilidade.
11:26A gente, quando tem um fator desse, ele vai fazendo um aumento de preço em cadeia.
11:33A energia está embutida em tudo, todos os produtos e todos os bens e consumos.
11:37Se falou de alimentos.
11:39Ali o cheiro de almoço também é um ponto muito importante para a exportação e escoamento de fertilizantes.
11:46Então, em termos nos alimentos, de fato, o impacto pode ser ainda maior e talvez até mais permanente,
11:52já que esses suprimentos de fertilizantes têm um sistema menos estruturado e menos controlável
11:59do que o sistema de exportação de petróleo e gás,
12:02que a OPEP consegue calibrar a produção conforme a demanda global.
12:07Então, de fato, a gente vai perceber esse aumento de preços aí nos próximos semanas,
12:13independente do quanto esse conflito vai se prorrogar.
12:19Mas se esses aumentos vão se tornar permanentes ou não, aí, de fato, tem essa variável chave importante.
12:27E aí, falando sobre a guerra e o conflito propriamente dito,
12:31alguns dos objetivos já declarados, o presidente Trump falou há pouco tempo
12:37numa conferência com os países das Américas sobre os desdobramentos,
12:41e acho que os objetivos de curto prazo estão sendo atingidos, né,
12:46com a neutralização do programa nuclear e a eliminação das lideranças do Irã,
12:52mas a ocupação, e a gente já viu também isso historicamente muitas vezes,
12:57é um problema de outra natureza.
13:00Então, você ganhar a guerra é diferente de você manter a vitória.
13:04Então, as forças combinadas, já é, os Estados Unidos estão tendo grande sucesso
13:10do ponto de vista militar, mas tem um desafio grande,
13:12que é o que acontecerá depois com o Irã e com toda aquela região.
13:17Isso é um desafio que, se o tempo for muito longo,
13:21de fato, vai ter um processo inflacionário global relevante,
13:26porque o Estadion Muz é uma área crítica,
13:28tanto para a energia quanto para a questão dos alimentos fertilizantes.
13:32Odson, voltando aqui, tudo que a gente está falando é baseado em fatos,
13:36não são argumentos e nem elucubrações nossas, né.
13:40Tem aqui, ó, dia 1º de janeiro de 2026,
13:44que é um dia de feriado mundial,
13:47mas nós pegamos aqui um dia aleatoriamente,
13:49fizemos um mapa a partir de dados de satélite.
13:52Olha a movimentação no Estreito de Hormuz,
13:56que é justamente essa parte que escoa a produção de petróleo do Golfo Pérsico,
14:02mas não só isso, são também carregadores de containers,
14:06levam diversos produtos e tem uma função, né,
14:09o Estreito tem uma função fundamental na marinha mercante.
14:13Dia 1º de janeiro desse ano, né,
14:16eventualmente um dia de feriado global,
14:17mas a gente vê um trânsito muito intenso.
14:20Cada pontinho desse amarelo é um navio de grandes proporções.
14:24Aqui não foram captados pelo satélite, por exemplo,
14:26veleiros particulares, cruzeiros marítimos de turismo,
14:30isso aqui é só carga, petróleo, gás e container.
14:33Está aqui, ó, agora em março,
14:37praticamente vazio.
14:39A gente vê uns pontinhos, mas são navios estacionados,
14:42dizendo, eu não vou atravessar.
14:44Já em trânsito e que tiveram que parar.
14:47Aqui, ó, quantos ficaram represados, por exemplo,
14:50nessa parte mais norte do Estreito, né,
14:54aqui é o sul do Irã.
14:56E para deixar todo mundo entendido,
14:59por que a gente chama isso de Estreito?
15:01Desta ponta aqui, que é a menor distância,
15:05não chegam a ser 55 quilômetros.
15:08Claro, pensando em uma distância a pé, é bastante coisa,
15:11mas em proporções aqui da navegação, isso não é nada.
15:16Até porque a capacidade de disparo do Irã de um míssil
15:20é muito superior a isso, ou seja, ele consegue atingir
15:24qualquer embarcação com muita precisão.
15:27Temos relatos sólidos que pelo menos cinco navios
15:30já foram atingidos.
15:32Hudson, deixa eu voltar um capítulo do que nós estávamos falando.
15:36Você falou de Venezuela.
15:37Temos isso aqui, ó.
15:39Os maiores produtores de petróleo do mundo
15:42em reservas, perdão,
15:46e o quanto eles representam no comércio global.
15:50Disparado, a gente tem a Venezuela,
15:52com mais de 300 bilhões de barris
15:55na sua reserva natural,
15:58mas tem uma participação no comércio exterior
16:02muito pequeno.
16:039 bilhões de dólares
16:05em comparação com a Arábia Saudita,
16:08que tem uma reserva menor,
16:11267 bilhões de barris,
16:13mas que representa quase 200 bilhões
16:17da exportação.
16:21E lembrando, onde está a Arábia Saudita?
16:23Aqui, ó.
16:24No coração, perdão,
16:27no coração desses ataques.
16:28Ou seja, os navios sauditas também estão bloqueados.
16:31Até existe um plano B,
16:34que é escoar por terra,
16:36por gasodutos,
16:38através...
16:38Por terra, né?
16:40Para chegar no Mar Vermelho,
16:41subir por aqui em direção ao Egito
16:43e atravessar o canal de Suez
16:46para chegar nesta parte aqui,
16:49que é o Mar Mediterrâneo.
16:51Só que isso aqui tem um custo gigantesco,
16:53não é um fluxo tão comum
16:54quanto jogar o petróleo
16:56para o Golfo Pérsico.
16:59Como você falou,
17:00infraestruturas, né, Hudson?
17:01Para essas mudanças,
17:03elas não são no estalar de dedos.
17:05Voltando aqui,
17:06e agora eu vou pedir a sua capacidade de análise, Hudson,
17:09para a gente olhar uma situação imagética.
17:12Os Estados Unidos já têm um governo
17:15pós-retirada forçosa do poder do Nicolás Maduro.
17:19Quem sobrou no poder,
17:20um governo muito mais afim dos Estados Unidos.
17:24Alinhamento,
17:25cerimônia no final da semana
17:26de reabertura das relações diplomáticas
17:30entre Estados Unidos e Venezuela,
17:33algo que estava deteriorado nos últimos 25 anos.
17:37A Arábia Saudita já tem uma relação
17:40muito mais íntima agora com os Estados Unidos,
17:42com o Mohammed bin Salman,
17:44que é o príncipe perdeiro,
17:46gastando trilhões de dólares,
17:48sem nenhum exagero.
17:49O investimento saudita nos Estados Unidos
17:50está na casa do trilhão.
17:52Então, também tem uma parceria bastante sólida.
17:55E aqui, em terceiro lugar,
17:57a terceira maior reserva de petróleo do mundo,
17:59o Irã,
18:00mais de 200 bilhões de barris,
18:03o que a gente entende
18:04que os Estados Unidos
18:06estão tentando se aproximar
18:09forçosamente,
18:09como fizeram na Venezuela.
18:12Aí a gente tem aqui
18:13Emirados Árabes Unidos,
18:15que também tem uma relação boa com os Estados Unidos.
18:17A gente consegue entender
18:18que nessa administração americana,
18:21os Estados Unidos estão
18:23tentando voltar a ter
18:25as suas bandeiras fincadas
18:26nas maiores produtoras de petróleo do mundo,
18:29nas maiores reservas.
18:31Tem China nessa equação aqui, Hudson?
18:35Marcelo, esse gráfico
18:37permite uma série de análises,
18:39que são super importantes
18:41para entender todo esse panorama do petróleo.
18:43Como eu disse,
18:44a Venezuela é a maior reserva do mundo,
18:46mas nos últimos 25 anos,
18:47a capacidade de produção da Venezuela,
18:50limitada pela capacidade de investimento
18:52do regime maturo,
18:53fazia e deteriorou.
18:54A Venezuela já exportou,
18:56já produziu muito mais petróleo
18:57do que ela produz hoje,
18:58que é um contrassenso
18:59para um país que tem tanta reserva.
19:02A tendência,
19:03no longo prazo,
19:04é que haja uma recomposição
19:06dos investimentos,
19:07um aumento de produção
19:08e, consequentemente,
19:09um aumento de exportação.
19:11Só que,
19:11como a gente tinha falado antes,
19:13o investimento em infraestrutura
19:15leva tempo.
19:16Inclusive,
19:17a gente já conversou aqui
19:18sobre data centers,
19:19o desafio da energia
19:20é exatamente esse.
19:21Data center fica de 1 a 3 anos
19:22e a infraestrutura de energia
19:25demora 4 a 10 anos
19:26para ficar pronta,
19:26mesmo que estão injetando recursos.
19:29Então,
19:30a gente não vai ter
19:30uma reversão de curto prazo.
19:33Agora,
19:33quando a gente olha
19:34também para o Irã,
19:35ele tem um problema
19:37similar ao da Venezuela,
19:38embora seja um exportador maior
19:42do que a Venezuela
19:43e, obviamente,
19:43bem menor
19:44do que a Arábia Saudita,
19:46ele também teve
19:46limitações de investimento,
19:49dadas as sanções,
19:50dado a maneira
19:51que o regime iraniano
19:52conduzia isso.
19:53Os Estados Unidos
19:55aumentando essa influência
19:57na Venezuela,
19:58ganhando e conseguindo
20:00dominar a infraestrutura
20:01ou tendo uma relação
20:02melhor com o Irã,
20:04a gente está falando
20:04das maiores reservas do mundo
20:06com a capacidade
20:07de investimento
20:08que Israel,
20:10Arábia Saudita
20:11e Estados Unidos
20:12podem fazer
20:15naquelas regiões
20:15caso essas regiões
20:16sejam mais estáveis
20:18do ponto de vista
20:19geopolítico.
20:21Então,
20:21de fato,
20:22aquilo que a gente mencionou,
20:23no curto prazo
20:24o preço do petróleo
20:25e do gás
20:25vai subir,
20:26mas se você olhar
20:27esse gráfico
20:28que vocês estão mostrando,
20:30dá para ver claramente
20:31que tem uma perspectiva
20:32de aumento
20:33de produção global
20:34e exportações
20:34muito grande
20:35no longo prazo
20:36dada a capacidade
20:37de investimento
20:37desses parceiros
20:38da Arábia Saudita,
20:39dos Estados Unidos,
20:40nessa estrutura.
20:42quando você fala
20:43da China
20:43e eu acho
20:43que é super interessante
20:46se chamar dentro?
20:47Sim,
20:48pode continuar,
20:49por favor.
20:51Com a capacidade,
20:52a China fez
20:53uma aposta
20:54que é super interessante
20:55olhar por esse
20:57contexto todo.
20:58A China
20:59é a maior importadora
21:00de petróleo do mundo,
21:01ela importa 20%
21:02do petróleo,
21:03mas ela também
21:04é disparada
21:05a maior investidora
21:06em energias renováveis
21:07do mundo.
21:07Ela é a maior investidora
21:08em energia solar,
21:09igual a soma
21:10de todos os países
21:10do mundo somados,
21:12a maior investidora
21:13em energia eônica
21:14e fazendo grandes investimentos
21:16em eletromobilidade,
21:17ou seja,
21:17substituindo os carros
21:19a combustão
21:19da gasolina
21:20por veículos elétricos.
21:22Isso é uma aposta
21:22que ela está
21:23feita global,
21:23inclusive fazendo
21:25grandes investimentos
21:26de produção,
21:27exportação
21:27e fábricas
21:28ao redor do mundo,
21:29inclusive aqui no Brasil.
21:30Então,
21:31a gente tem
21:31um outro fator
21:32que não está
21:34diretamente ligado
21:35com a produção
21:36e exportação
21:36dos petróleos,
21:37que é a mudança
21:38do padrão
21:39tecnológico
21:40dos automóveis
21:41de gasolina
21:42e diesel
21:43e combustão interna
21:45para os veículos
21:46elétricos,
21:47que é uma grande
21:48aposta
21:48que a China
21:49tem feito.
21:49Então,
21:50a China
21:50tem feito
21:51esse hedge
21:53em relação
21:54à subida
21:55do preço do petróleo,
21:55que ela vai ser
21:56diretamente afetada,
21:57é a maior importadora
21:58de petróleo
21:59hoje do mundo,
22:00mas,
22:00na outra ponta,
22:01ela está investindo
22:02bastante em eletromobilidade
22:03para diminuir
22:04esse consumo
22:07de petróleo
22:07e diminuir
22:08essa pressão
22:09de demanda
22:11para o próprio
22:12crescimento
22:12industrial chinês.
22:13E, ao que parece,
22:14o Irã
22:15quer e tem interesse
22:16de prolongar
22:17ainda mais
22:18essa guerra,
22:18segurando
22:19e fechando
22:20esse estreito
22:21um lugar
22:22completamente estratégico
22:23para o mundo,
22:24justamente para
22:25pressionar ainda mais
22:26os Estados Unidos
22:28e, de alguma forma,
22:29desgastar também
22:30a economia.
22:31Conversamos
22:32com Hudson Mendonça,
22:34pesquisador da COP
22:35e da UFRJ
22:37e também
22:38VP de Sustentabilidade
22:40da MIT Tech
22:41Review Brasil.
22:43Favale,
22:43quer complementar?
22:44Só para a gente fechar,
22:46porque,
22:46talvez,
22:47quem esteja nos assistindo,
22:49Hudson e Soraya,
22:50deve pensar,
22:51mas não é
22:52uma auto-sabotagem
22:54o fato do Irã
22:55fechar um estreito
22:57do qual ele depende
22:58muito?
22:59Então,
22:59ele não depende
23:01tanto assim,
23:02porque,
23:03nos últimos
23:0447 anos,
23:05desde a Revolução
23:06de 1979,
23:07que expulsou
23:08empresas americanas,
23:10holandesas,
23:10francesas,
23:11britânicas,
23:12que exploravam
23:13o petróleo
23:15no Irã,
23:16no mesmo modelo,
23:17como aconteceu
23:18mais recentemente
23:18de Venezuela,
23:19que o chavismo
23:20tirou da Venezuela
23:21empresas britânicas,
23:22majoritariamente americanas,
23:24dessa exportação técnica
23:26e ficava com
23:27parte do substrato,
23:28o Irã
23:29fez isso,
23:30mais acentuadamente,
23:32há 47 anos.
23:34E,
23:34nos últimos anos,
23:35nas últimas décadas,
23:37sabia que o Estreito
23:38de Hormuz
23:39era uma espécie
23:40de uma chave,
23:40que ele podia
23:41ligar e desligar
23:42e causar
23:43um impacto global.
23:45O que os iranianos
23:46fizeram?
23:47Então,
23:47o fechamento
23:47do Estreito
23:48de Hormuz,
23:48não dá para dizer
23:49que o Irã
23:49corta na própria carne.
23:51Eles criaram
23:52dois grandes terminais
23:55de oleoduto
23:55que burlam
23:57o Estreito
23:58de Hormuz.
23:59Eles têm
23:59mil quilômetros
24:00de extensão
24:01e uma capacidade
24:03de bombeamento
24:04de um milhão
24:05de barris de petróleo
24:06por dia.
24:07Ou seja,
24:08não dá para escoar
24:09todo esse petróleo
24:11aqui parado.
24:12Não,
24:13mas o escoamento
24:14é só dele.
24:15Então,
24:16ele produz petróleo,
24:18ele exporta petróleo,
24:19é a espinha dorsal
24:20do PIB
24:21do Irã.
24:22Então,
24:23ah,
24:23eu fechei aqui
24:24o Estreito.
24:24Estou prejudicando
24:25Oman,
24:26Bahrein,
24:27estou prejudicando
24:28a Arábia Saudita,
24:29Emirados Árabes Unidos,
24:31Iraque,
24:32mas eu me prejudico
24:33bem menos
24:34porque ele precisa
24:35atender um cliente
24:37muito
24:40sedento
24:41por petróleo
24:41que é a China.
24:42Quando a gente fala
24:43de informação
24:44que vem do Irã,
24:45preciso ser justo
24:46nisso,
24:47as informações
24:48têm de ser
24:49interpretadas
24:50como o que vem
24:51do pronunciamento
24:54oficial,
24:54não tem imprensa
24:55livre,
24:55praticamente não
24:56tem imprensa
24:56livre no Irã,
24:58rádio,
24:58TV,
24:59jornal,
24:59internet,
25:00é controlado
25:01pelo Estado,
25:02assim como a informação.
25:04Então,
25:04tecnicamente falando,
25:06isso faz sentido,
25:06porque você calcula
25:07pelo calibre
25:08do oleoduto,
25:11ele é capaz,
25:13tecnicamente falando,
25:14de gerar,
25:15de bombear
25:15um bilhão
25:16de barris por dia.
25:17As informações
25:18que se tem
25:19é que eles não chegam
25:20por capacidade técnica,
25:22algum problema,
25:23não dá para bombear
25:24um bilhão
25:25de barris por dia.
25:26Isso oscila
25:27entre 300 mil
25:29barris
25:29e 700 mil
25:30barris.
25:31Mas,
25:32a gente ainda
25:32mantém a história
25:34aqui
25:34no mesmo nível.
25:36O Irã,
25:37sabendo que ele
25:38é capaz de fechar
25:40e abrir o Estreito
25:40de Hormuz,
25:41ele se prejudica
25:42muito menos,
25:43é uma estratégia.
25:45E olha,
25:45o que passa
25:46pelo Estreito
25:47de Hormuz?
25:48Majoritariamente,
25:49o petróleo
25:50da Arábia Saudita,
25:51depois dos Emirados
25:52Árabes Unidos,
25:54só 9%
25:55do próprio
25:56petróleo iraniano
25:57passa por navio.
25:58O resto,
25:59eles conseguem
26:00mandar por terra.
26:01Ou seja,
26:01é uma posição estratégica,
26:03eles sabem disso
26:03há bastante tempo.
26:05Desculpa,
26:06Soraya.
26:06Desculpa,
26:07Hudson,
26:08agora encerrado.
26:09Eu achei importante
26:09a gente fechar
26:10com essa informação,
26:12porque tudo isso
26:13está muito interligado
26:14numa geopolítica
26:15e numa geoeconomia.
26:17o Irã,
26:18então ele não
26:18deu um tiro
26:19no próprio pé,
26:20ele já estava
26:22resguardado
26:23nesse tipo
26:24de ação
26:24contra ele mesmo.
26:28E a gente
26:29queria...
26:29Pode...
26:30Pode...
26:31Pode concluir,
26:33Hudson,
26:33por favor.
26:35Esse ponto,
26:36Marcelo,
26:37a gente teve
26:37no Energy Summit
26:40a presença
26:41do Joshua Vols,
26:42que foi o subsecretário
26:43nos Estados Unidos
26:44para a Oriente Médio.
26:46ele era da administração
26:47Biden e continuou
26:48com o Trump.
26:48Então,
26:48uma pessoa realmente
26:49super técnica.
26:51E ele mencionou
26:52naquele janeiro,
26:53quando a gente estava
26:54fazendo o onboarding
26:54dele como palestrante,
26:56que a geopolítica
26:58ia ser mais importante
26:59do que a economia
27:01quando se tratava
27:02de energia no mundo.
27:03Isso há exatamente
27:04um ano atrás.
27:05A gente vê isso aí
27:06acontecendo de fato.
27:08Esses investimentos,
27:09essa variável
27:09de investimentos
27:10que você mencionou,
27:11a construção de oleodutos,
27:13a questão de outras rotas,
27:15ela tem um componente
27:16econômico,
27:17de fazer a conta
27:18e ver se vale a pena
27:19fazer esse investimento,
27:20que as empresas
27:21vão fazer essa conta,
27:22mas ela tem um componente
27:23cada vez mais evidente,
27:25geopolítico,
27:26de será que vale a pena
27:27fazer esse investimento
27:28para amanhã,
27:28esse investimento,
27:30por exemplo,
27:30ser atingido por uma guerra
27:31ou ser confiscado
27:33ou tomado
27:33por um regime diferente
27:34dos interesses
27:35que o nosso país tem.
27:37Então,
27:37essa variável geopolítica
27:39é importante,
27:40começou o ano
27:41com toda a importância
27:42e vai perdurar aí
27:44pelo menos
27:44para os próximos
27:45meses e anos
27:46nas decisões
27:48de investimentos
27:48energéticos no mundo.
27:50É isso,
27:51uma conversa riquíssima
27:52que tivemos aqui
27:53com o Hudson Mendonça,
27:54pesquisador da COP
27:55e da UFRJ,
27:57também VP de Sustentabilidade
27:58da MIT Tech Review Brasil.
28:00Hudson,
28:01obrigada mais uma vez
28:02pela tua participação.
28:05Obrigado, Marcelo.
28:05Obrigado, Sarai.
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