00:00A crise no Oriente Médio já elevou o preço do barril do petróleo em mais de 15%, enquanto o gás
00:05europeu chegou a subir cerca de 40%.
00:08A disparada do petróleo para a casa dos 90 dólares reflete o medo de um desabastecimento global prolongado
00:15e já forçou o tesouro americano a uma intervenção direta no mercado de frete das commodities.
00:20Para saber mais sobre os impactos do conflito na economia global, a gente conversa agora com Ildo Sauer,
00:26que é vice-diretor do Instituto de Energia e Ambiente da USP. Seja muito bem-vindo, professor.
00:32Boa tarde, muito obrigado.
00:34O senhor acredita nessa hipótese de que, de fato, possa haver desabastecimento global?
00:40Veja, nenhum cenário a essa altura pode ser descartado. Por quê?
00:45Porque, neste momento, como já é conhecido, ou seja, explicar há pouco,
00:50aproximadamente 20% do petróleo circula pelo Estreito de Hormuz,
00:58vindo dos países que estão a montante, Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes, Kuwait,
01:06e o próprio Irã parcialmente. Sem esses 20 milhões de barris por dia,
01:12os estoques que existem, especialmente nos Estados Unidos, na China e em menor escala
01:21em outros países, vão se exaurindo. Sobra a possibilidade de aumento de produção
01:27em países que têm mais capacidade, que são exatamente os que estão bloqueados.
01:33A Arábia Saudita rapidamente pode aumentar a produção, e a própria Rússia,
01:37que, por sua vez, já há quatro anos está sendo objeto de sanções.
01:44Como já foi mostrado também, a região mais afetada, que normalmente se abastece
01:52pela proximidade desses países, são os países do Oriente, especialmente Coreia,
02:00China, China, acima de tudo, Índia, etc. China e Índia têm como alternativa,
02:07e têm tido, a Rússia. Então, esse é o quadro.
02:12Os Estados Unidos estão numa posição bastante diferente, isso, em parte, me parece,
02:19que deu motivação a essa, entre aspas, aventura militar dos Estados Unidos, induzido por Israel.
02:31Por quê? Porque nas últimas duas décadas houve um movimento de autossuficiência norte-americano.
02:40Dois movimentos. Primeiro, o petróleo convencional, que não é tão importante nos Estados Unidos,
02:46embora seja equivalente à maior produção mundial, que é a da Rússia e da Arábia Saudita,
02:52a cerca de 10 milhões por dia, mas os Estados Unidos estão próximos de 20 milhões.
02:55De onde é que vem essa diferença? Vem especialmente do chamado shale oil,
03:00que é um petróleo não convencional, e dos líquidos, do shale gas.
03:07Quando se produz gás, há uma fração de secagem que se transforma em líquido.
03:13Então, em líquidos, os Estados Unidos estão produzindo mais de 20 milhões,
03:17que é a sua demanda interna.
03:19Então, me parece que quem permitiu esse ataque, com menos consequências no petróleo,
03:27a não ser a questão do preço, isso é importante ser examinado daqui a pouco, se houver tempo,
03:32Os Estados Unidos, então, talvez, como disse alguém outro dia, quem matou o Hamenei foi o shale americano.
03:42Do contrário, dificilmente me parece, apesar de tudo que o governo Trump já tem feito,
03:48em relação às tarifas, para desestabilizar a ordem econômica mundial.
03:52E agora, recentemente, também a ordem jurídica, rasgando a Carta das Nações Unidas,
03:59detonando os princípios do Acordo do Tratado de Não-Proliferação e tudo mais,
04:04mas a consequência econômica é imediata.
04:07Então, é importante, estou ressaltando esse ponto, porque isso não é muito discutido.
04:10Os Estados Unidos tiveram, talvez, essa possibilidade, com menores consequências,
04:16pelo menos de abastecimento, porque eles hoje produzem o que conseguem.
04:21O shale pode ser expandido também mais rapidamente, que são investimentos de curto prazo.
04:28Havia, quando o preço estava mais baixo, uma quantidade maior de campos já desenvolvidos,
04:35porque o shale é muito particular.
04:37Você investe meio ano, já começa a produzir, e 60% do combustível disponível é extraído no primeiro ano.
04:45O resto é extraído integrativamente a longo prazo.
04:51Então, essa combinação, quem mais pode rapidamente responder em escala mundial?
04:56Como eu disse antes, seria a Arábia Saudita e os que têm campos terrestres,
05:00porque lá, muitas vezes, é possível, tendo logística, aumentar a produção do sistema.
05:06Plataformas como as brasileiras, de Águas Profundas, Golfo do México e tal,
05:13têm um pouco mais de dificuldade, porque elas operam a plena capacidade.
05:17A Rússia também tem produção, ali nos rurais e outras regiões, de petróleo convencional de terra.
05:26Mas tem toda a logística e tal.
05:28Então, respondendo, depois desse longo preâmbulo, a sua pergunta se tem risco de desabastecimento,
05:35evidentemente que sem os 20 milhões de barris por dia, por mais esforço que se faça de redirecionamento origem,
05:43destino, já houve um experimento com as sanções à Rússia, que tinha um fluxo para outros países,
05:51e, de repente, se viu obrigado a redirecionar, especialmente para a Índia,
05:55que então importava o petróleo, que inclusive antes ia para a Europa, refinava e vendia derivados,
06:00que é uma situação tanto quanto esdruxo, eu diria, mas foi assim a consequência da política.
06:07E a China, então, da Rússia, mas também isso tudo tem limites.
06:10De maneira que o preço até me surpreendeu, eu falei outro dia aí com vocês,
06:17e dizia que me surpreendeu nos primeiros dias que o petróleo tinha se mantido em torno dos 80 dólares.
06:22A previsão é que nos próximos dias, a não ser que aconteça uma improvável mudança na circulação
06:31em torno do Estreito de Hormuz, que então vamos ter uma aceleração do preço.
06:38Já tivemos experimentos em que ele chegou a 150 dólares,
06:41ninguém exclui, eventualmente, chegar a 200, o que então seria um choque na demanda.
06:47A outra consequência, como eu disse, é o problema da inflação.
06:51Eu vou recordar o episódio dos dois últimos anos.
06:55Trump visitou a Arábia Saudita, teve aquela reunião importante lá com o Mohammed bin Salman,
07:01uma série de Arábia Saudita entrou nos BRICS,
07:04mas aí a Arábia Saudita só vendia petróleo a dólar, agora vendia a USP,
07:09mas houve um certo acordo. Ano passado, quando o Trump começou a gerar uma grande inflação
07:16por causa do tarifácio, uma compensação que aconteceu foi que a Arábia Saudita, líder da OPEP,
07:23junto com a Rússia, OPEP+, 22 países, 12 da OPEP, mais 10 que compõem junto com os 12 a
07:30OPEP+,
07:30se comprometeu a aumentar a produção, apesar da demanda ter se estagnado por causa dessa situação econômica.
07:37Estagrado, aproximadamente.
07:39Ficou 411 mil barris por dia a mais no ano passado.
07:43Lembra que o mundo produz e consome 100 milhões de barris por dia.
07:47E para esse ano também, no começo do ano, manteve a cota de aumento.
07:50Isso foi meio que um acordo de compensação, com o quê?
07:53Havendo uma produção maior, a inflação americana, os preços começaram a se acomodar.
07:58O preço dos derivados mais baixos meio que criou um equilíbrio para a inflação americana.
08:05Isso agora não existe mais.
08:08Então, consequências.
08:10Provavelmente uma enorme pressão política e econômica nos Estados Unidos.
08:14A Europa já é um conjunto de países vassalos da política americana.
08:20Eles saíram do gás russo, ficaram dependentes de quem?
08:23O GNL norte-americano e, principalmente, também do Catar.
08:28Catar, agora, já parou até a produção.
08:31Então, por isso que o gás, como se explicaram há pouco, aumentou 40% o GNL,
08:37enquanto que o petróleo aumentou os 15% até agora.
08:40Porque o GNL tem uma logística muito mais rígida, ponto a ponto,
08:45navios metaneiros, regasificadores e tal,
08:48enquanto que o petróleo tem uma amplitude maior de petroleiros, de dutos e tal,
08:52que compõem uma organização origem-destino que foi sendo construído ao longo do último século, praticamente.
08:59Por quê?
09:00Porque tem maior flexibilidade como líquido, não tem que ficar 173 graus negativos, etc., etc.
09:10São complicações.
09:11Então, nesse momento, ninguém pode fazer previsão.
09:15Mas me parece que o quadro indica que o Irã, por mais atacado que seja, vai reagir.
09:23Como já reagiu, bombardeou instalações americanas e de empresas americanas nos vários países do Golfo.
09:30Prometeu agora parar.
09:31Mas não necessário, a menos que mísseis e ataques das muitas bases americanas saiam daqueles países.
09:42O Estreito de Urbuns, como foi muito didaticamente explicado há pouco aqui,
09:47ele é um estreito que tem 35 quilômetros.
09:49De um lado está o Irã, de outro lado, o Oman,
09:51que era o mediador da negociação entre Estados Unidos e o Irã,
09:59quando elas foram unilateramente interrompidas,
10:01as negociações para o bombardeio israelense-americano.
10:04Então, o Irã, obviamente, que se começar a atacar os navios que passam por lá,
10:10existe a possibilidade, inclusive, de um bloqueio, não só mediante arma,
10:15mas como obturação dos canais de navegação com navios.
10:20Não acredito que vá chegar a isso, um cemitério de navios obstruindo inteiramente o canal.
10:26Mas é um cenário que não é só físico, não é só a integridade física dos navios.
10:32Há toda uma questão econômica, porque aquilo são investimentos de grande monta,
10:38um navio petroleiro, tem o problema do seguro, nenhum navio desses.
10:41Pelo seu valor e pela carga, 200, 300 milhões de barris,
10:47mil barris por dia, desculpe, barris dentro do navio,
10:51tudo isso é o valor econômico que ninguém vai colocar em risco.
10:56Então, toda a segurança jurídica, a ordem, origem e destino.
11:00Houve um rearranjo desde o início da guerra na Ucrânia,
11:05que foi mais suave do que esse,
11:08porque, mal ou bem, os fluxos de circulação estavam desobstruídos.
11:13Agora, retirar repentinamente 20 milhões de barris por dia de circulação
11:19não é uma tarefa fácil de ser suprida.
11:22É verdadeiro que o Brasil tem subido muito,
11:24só a produção nos últimos anos, o Canadá,
11:27que são os grandes países produtores.
11:29Os dois maiores, fora os Estados Unidos, que eu já citei,
11:31mas ele marginalmente é exportador e importador,
11:34mas o abastecimento dele está garantido.
11:37Depois vem a Arábia Saudita e a Rússia,
11:39com aproximadamente 10 milhões de barris que quer exportar.
11:43Depois tem o Canadá, tem os Emirados, que estão fora do ciclo.
11:48Depois vem o Brasil, já, porque o resto está lá,
11:51a Mirada dos Árabes, a própria Líbia, Iraque, Irã,
11:55e todos eles aí do Oriente Médio.
11:56Então, estou fazendo uma longa resposta sobre o quadro
12:00que, como eu disse, ninguém pode fazer previsões absolutamente definitivas,
12:06mas me parece que o cenário se encaminha
12:09para aumentar a redução da circulação,
12:16aumento de preços, impactos econômicos,
12:19e talvez esses, com uma pressão americana interna,
12:24talvez levem a abreviar o período,
12:29mas ninguém sabe quanto tempo vai demorar essa conflagração,
12:33porque o Irã está determinado a resistir.
12:36Professor...
12:58A análise agora, por favor, vamos falar de intenção, então.
13:03Na sua opinião, entre essas três opções,
13:06você pode escolher uma ou até duas,
13:09os Estados Unidos precisam de petróleo para uso próprio,
13:13eles querem continuar conduzindo esse mercado no mundo
13:17e retomar o seu imperialismo,
13:18ou eles querem mesmo impedir que a China cresça mais
13:22e controle esse mercado?
13:24Veja, como expliquei há pouco,
13:26o abastecimento norte-americano não está em questão,
13:29a produção interna por um período longo.
13:31Então, obviamente, o sequestro de Maduro na Venezuela
13:35e forçar a Venezuela a mudar seu regime regulatório
13:38para que as empresas americanas
13:40passem a ser hegemônicas na produção interna lá,
13:43já sinalizou a primeira coisa.
13:45Querem controlar o fluxo da Venezuela,
13:47que produzia 3 milhões de barris década atrás
13:52e recentemente estava a menos de um milhão,
13:54agora já voltou para um milhão.
13:55Somos auspícios e controle americano.
13:59A China é o maior dependente do petróleo relativamente
14:06desse que está agora obstruído.
14:09Então, evidentemente, bem lembrado,
14:12me parece que além de atender a pressão israelense,
14:17o segundo motivo da atuação norte-americana
14:23vai tentar enfraquecer economicamente a China.
14:29Porque Venezuela, que exportava menos de um milhão de barris,
14:32mas pelo menos neste caso hoje,
14:35a Venezuela poderia ser uma válvula de escape
14:37se não fosse o bloqueio.
14:39Não é mais.
14:40Está neutralizada para a China.
14:42Arábia Saudita, Emirados Árabes, Iraque, Kuwait,
14:47que eram os supridores, fora o Irã.
14:50O Irã tem uma linha alternativa fora de Urmuz,
14:53mas era limitado pela capacidade do oleoduto que vai para lá.
14:57Sobra para a China o quê?
14:59Recorrer à Rússia.
15:00Talvez alguns outros países de menor produção ali da Ásia,
15:03como a Azerbaijão, que também é um produtor,
15:05não se encontra entre os dez maiores,
15:08mas enfim, ali na região.
15:10A China produz mais ou menos 5 milhões de barris por dia,
15:13mas importa muito mais do que isso,
15:17cerca de 6, 7 milhões de barris por dia,
15:19inclusive do Brasil.
15:21Então, me parece que a motivação estratégica
15:26da guerra econômica de tentar neutralizar a ascensão da China,
15:30esse esforço, ele é temporário,
15:33porque não há como manter essa conflagração
15:36por uma série de motivos.
15:38Mas, de qualquer maneira,
15:39essa perturbação que está acontecendo
15:41em relação para a economia mundial,
15:43em função desse ataque,
15:45a inflação que deve surgir,
15:48a deterioração ainda maior das condições econômicas da Europa,
15:52que já sofreu com a ausência da matéria-prima,
15:56especialmente minérios,
15:57e do gás russo barato.
15:59Dependendo do gás americano,
16:00custou triplo, às vezes.
16:02E do catar, que agora não está disponível.
16:04Então, há uma danificação da economia europeia profunda
16:08e uma tentativa de danificar a China.
16:12Eu acho que a Europa está numa condição mais crítica do que a própria China,
16:15porque a busca de alternativas para a Europa
16:19me parece mais crítica do que a China,
16:22que, como eu disse há pouco,
16:24tem como grande alternativa
16:27redifiniu os acordos com a Rússia,
16:29ver se a Rússia pode acelerar a produção.
16:32Para a Rússia interessa muito
16:33manter o fluxo de exportação de petróleo,
16:37ainda mais com preço elevado,
16:39porque a Rússia tem conseguido,
16:41desde o debate da União Soviética em 1991,
16:44com a elevação dos preços do petróleo em 2010,
16:47recuperar a sua economia,
16:49gerar um enorme excedente econômico
16:51ao longo de duas décadas,
16:52que permitiu a reconstrução da economia russa
16:56e do seu armamento e de toda a sua estratégia.
16:59De maneira que esse é o quadro.
17:02Está certo.
17:03A gente falou aqui com o Hildo Sauer,
17:06que é vice-diretor do Instituto de Energia e Ambiente da USP.
17:09Muito obrigado, professor.
17:10Boa tarde. Obrigado.
17:11Muito obrigado pela oportunidade.
17:13Estamos aqui para esses momentos difíceis
17:15que a humanidade vive.
17:16Esperamos que se supere,
17:18mas não vejo a perspectiva muito otimista
17:21para as próximas semanas e talvez meses.
17:23É isso, né, professor?
17:24Muito obrigado.
17:25Obrigado.
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