00:00Estamos de volta. A operação Epic Fury, ou então uma fúria épica, que é essa operação militar dos Estados Unidos
00:08contra o Irã, está perto de completar uma semana e a previsão, de acordo com Donald Trump, é que esse
00:15confronto talvez dure aí até mais um mês, quatro, até cinco semanas, ele chegou a dizer.
00:21O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, sediado em Washington, que é um think tank, está completamente descolado do governo,
00:30é uma organização sem fins lucrativos, paralela para a leitura de palcos de guerra, essa instituição publicou um estudo com
00:38a estimativa dos gastos do confronto nas 100 primeiras horas de operação do exército americano.
00:45Bom, segundo eles, esse custo já chegou perto de 4 bilhões de dólares em 100 horas de atividade. Vamos ver
00:54algumas desses números aqui destrinchados?
00:58Nós fizemos uma espécie de uma linguagem gráfica para que vocês possam entender.
01:05Então está aqui, o custo inicial da operação, quase 4 bilhões, nas 100 primeiras horas, mais precisamente, 3 bilhões 700
01:13milhões de dólares, num cálculo que foi feito até o dia 5 de março.
01:20Como é que ele está dividido?
01:22Em linhas gerais, mais ou menos o seguinte, há quem deva pensar, ah, mas esse custo faz parte do orçamento
01:30militar dos Estados Unidos, que é o maior corte do dinheiro público dentro das pastas americanas.
01:38É perto de 1 trilhão de dólares, mas não. 5,3% do gasto daqueles 3,7 bilhões de dólares,
01:47ou seja, 196 milhões de dólares, está dentro do recorte do orçamento da defesa dos Estados Unidos.
01:55Que representa o quê? Custos operacionais, né, o deslocamento das tropas, isso já estava previsto no plano orçamentário, né, que
02:07o Pentágono havia recortado e o Congresso aprovou para 2026.
02:13Fora do orçamento, 94,7% do custo gerado, ou seja, 3,5 bilhões.
02:23O que não estava no orçamento? Munições, perdas de equipamento, reparos de infraestrutura, manutenção ali nos navios, nos aviões, isso
02:34não estava listado no orçamento original.
02:40Avançando, então, os custos, voltando àquele número original de 3,7 bilhões de dólares gastos nas 100 primeiras horas.
02:49Como é que ele está dividido? Entre defesa e ataque.
02:53O ataque ofensivo, bom, vocês perceberam que essa divisão é quase meio a meio, né?
03:00Então, de ataque, já foram gastos 1,5 bilhão de dólares por mais de 2 mil disparos.
03:08E eu não estou falando de disparos de arma de fogo, munição de metralhadoras ou revólveres.
03:13Essas munições disparadas são mísseis ou bombas de gravidade.
03:18Os famosíssimos mísseis Tomahawk, cada um custa 3,6 milhões de dólares.
03:27E as chamadas bombas de gravidade, aquela que a gente vê em filme, em seriado, em reportagem de TV, em
03:35testes do exército,
03:36elas são soltas por aviões bombardeiros.
03:40Mas depois elas têm um sistema de navegação para acertar diretamente o alvo, precisamente.
03:46Cada uma dessas bombas de gravidade guiadas, elas custam 80 mil dólares caras.
03:53Bem mais baratas que os mísseis Tomahawk, mas ainda assim muito caras, claro.
03:58E a defesa aérea, quer dizer, a proteção das estruturas americanas contra disparos dos inimigos,
04:061,7 bilhão, interceptação de mais de 500 mísseis e 2 mil drones iranianos já disparados contra os Estados Unidos
04:17e os seus aliados.
04:19E aí a gente fez um cálculo, 891 milhões de dólares por dia nessa semana de operação.
04:30Isso significa quase 40 milhões de dólares por hora de guerra.
04:37Guerra nunca foi um elemento barato.
04:41A gente tentou destrinchar aqui para todo mundo entender essa riqueza da divisão por números.
04:47A guerra entre Estados Unidos mais Israel contra o Irã entrou no sétimo dia.
04:53Não há previsão de que esse confronto vá terminar tão logo.
04:58O Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, que é um think tank sediado em Washington,
05:04publicou um estudo, a gente mostrou agora há pouco aqui, com uma estimativa dos gastos até então.
05:10E, claro, isso já chega na casa do bilhão de dólares.
05:13Só para vocês terem uma ideia, as primeiras 100 horas custaram quase 4 bilhões.
05:20Isso dá quase 900 milhões de dólares por dia.
05:26Isso para o cofre americano.
05:28A partir desse custo, isso já estava previsto dentro de um orçamento.
05:35Mas outra parte não.
05:36Para a gente entender se isso pode vir a gerar um impacto nos cofres americanos,
05:44como isso pode chegar até o bolso do consumidor, a gente recebe aqui no Fast Money
05:49o professor da FIA Business School, Paulo Feldman,
05:53que vai falar um pouquinho sobre gastos de guerra, orçamento e o que afeta o bolso do americano.
06:01Professor Feldman, é sempre um prazer encontrar com o senhor, particularmente para mim,
06:05alguém que me ajudou muito na minha carreira como jornalista e acadêmico.
06:09Professor Feldman, vou colocar o senhor numa enrascada,
06:12porque nós vamos fazer aqui um exercício de futurologia.
06:15Porque é o seguinte, tem uns números aqui que são impressionantes.
06:19Primeiro, tem um orçamento gigantesco da defesa dos Estados Unidos,
06:23perto de um trilhão de dólares, é a pasta que mais consome recursos dentro dos Estados Unidos.
06:28Mas quando os Estados Unidos entram em guerra, tem ali o que estava dentro do orçamento,
06:34o deslocamento de tropas, os militares que já estão engajados dentro dos porta-aviões.
06:39Isso está no orçamento.
06:40Mas daí, o gasto com bombas, com mísseis, com equipamento destruído, é um custo extra.
06:48Levando essas premissas, a gente já pode esperar um impacto relativamente sensível
06:54ao cofre americano, que já está devidamente endividado.
07:00Tirando a guerra, os Estados Unidos já têm um endividamento que supera o seu próprio PIB ali.
07:07Passa de mais de 100%.
07:09Como é que isso pode afetar a economia americana como um todo?
07:13Obrigado pela participação aqui na nossa programação, professor Feldman.
07:17Marcelo, eu que agradeço o convite, é um prazer estar aqui na Times Brasil e com você.
07:25É um prazer rever, Marcelo.
07:27Veja, guerra é uma coisa muito complicada, porque é fácil entrar, difícil é sair dela.
07:37E esse é o grande problema nesta guerra, porque o Trump tinha uma avaliação que a guerra
07:44ia durar de duas a quatro semanas, era o que ele falava.
07:49Mas, aparentemente, foi um erro de avaliação dele ou de quem o assessorou, porque o Irã não
07:58é a Venezuela, e o Irã está resistindo, vai resistir, e o Irã está criando um problema
08:08muito maior do que se imaginava.
08:11Porque a guerra já praticamente ocupou todo o Oriente Médio, o Irã já atacou vários
08:18países do Oriente Médio, mas agora começa a atacar países fora do Oriente Médio, que
08:24acabam sofrendo os efeitos e eventuais ataques de mísseis ou outras armas americanas.
08:32Então, essa guerra está se expandindo, aparentemente de uma forma não controlável, o que é realmente
08:40preocupante.
08:42Com relação à sua pergunta, é claro que, dependendo da extensão da guerra e do tempo
08:48que ela durar, o contribuinte americano vai sofrer, não há dúvida.
08:55Mas, eu acho que não é só o contribuinte americano, é o mundo inteiro que está sofrendo.
09:02Porque, além dos gastos bélicos que você colocou muito bem, que são exatamente esses
09:08que você está mencionando, há outras implicações muito fortes que também afetam o bolso de todo
09:16o mundo, não só os norte-americanos.
09:19A questão do preço do petróleo, a questão do preço dos fertilizantes.
09:25Veja, petróleo e fertilizante impacta quase tudo.
09:30Então, a grande previsão que se pode fazer hoje é de que teremos um crescimento da inflação.
09:38quase que inevitável que este ano, 2026, nós tenhamos uma inflação aí que não será
09:45muito pequena, da ordem de talvez uns 5%, o que para uma inflação mundial é muito alto.
09:53Fora isso, havendo inflação, há outros impactos, porque aí os bancos centrais têm que segurar
10:01essa inflação.
10:02E o que os bancos centrais fazem?
10:04Os bancos centrais, simplesmente, eles acabam, Marcelo, acabam aumentando a taxa de juros.
10:16Aumentando a taxa de juros, a gente tem uma diminuição do nível da atividade da economia.
10:24Ou seja, a situação está formada para se fechar um ano de forma ruim.
10:39Então, e tem um outro pormenor muito importante, Marcelo, que é o seguinte, nas últimas guerras
10:48que os Estados Unidos entrou, que foi Líbia, Afeganistão, Iraque, essas guerras terminaram
10:57em uma situação ruim para os Estados Unidos.
11:00Por quê?
11:02Porque os países, esses países que tiveram conflito, foram países que ficaram não administrados.
11:12Veja, Iraque, Líbia, ficaram em uma situação pior do que estavam antes.
11:17Porque ficaram soltos.
11:20As lideranças foram eliminadas e quem assumiu as novas lideranças?
11:25Praticamente ninguém.
11:26São países que ficaram devastados e sem liderança.
11:31Isso, se acontecer com o Irã, é gravíssimo.
11:35Por quê?
11:35Porque o Irã tem bombas nucleares, tem as bombas.
11:39Então, quem é que vai comandar as bombas?
11:42E o Irã não só isso.
11:44O Irã tem competência, tem cientistas, tem gente que sabe operar os mísseis, operar as
11:51armas nucleares.
11:53Sem liderança, como que isso vai ficar?
11:57Então, é um problema.
11:59Feldman, a gente traz aqui esse grande personagem do confronto, que é o Estreito de Hormuz,
12:06que dispensa apresentações, a gente está falando disso diariamente, mas os dados são
12:13impressionantes.
12:14Essa aqui é a movimentação de navios, cada pontinho desse é um navio de grande porte
12:21que atravessa o Estreito de Hormuz.
12:24Aqui é uma foto de satélite de um dia comum, dia 1º de janeiro de 2026.
12:28Olha que é feriado mundial, mas mesmo assim o fluxo não arrefece.
12:34Agora, olha aqui o Estreito de Hormuz essa semana, está completamente parado.
12:40A gente tem falado isso diariamente, aqui os dados falam por si, mas o mais importante
12:47está aqui, a participação das reservas de petróleo dos países que precisam do
12:54Golfo, precisam do Estreito de Hormuz para escoar a sua produção de petróleo e gás.
13:01Aqui eu estou recortando fora o fluxo de containers, não estamos falando de carga, de commodities,
13:08de produtos de alto valor agregado, estou pegando combustível.
13:11Então, a gente tem aqui a Arábia Saudita, segunda maior reserva de petróleo do mundo,
13:18com mais de 260 bilhões de barris na reserva, e o Irã, que tem mais de 200 bilhões de
13:25barris de reserva.
13:27Perdem só para a Venezuela com mais de 300 bilhões de barris.
13:30Mas, essa conta dos barris faz mais sentido se a gente olhar para cá.
13:35o quanto esses países, eles impactam o comércio internacional de petróleo.
13:42A Venezuela muito sancionada participa pouco, a Arábia Saudita participa muito, o Irã
13:50sancionado participa pouco, e aqui a gente tem os Emirados Árabes Unidos com uma reserva
13:56muito menor de petróleo, mas também com uma participação bastante efetiva, o tamanho
14:04do comércio internacional a partir desses países, só de petróleo.
14:08Ou seja, aqui também a gente consegue entender, Feldman, que haverá um risco de uma inflação
14:14global, porque o custo de produção vai ser impactado com maior custo de energia.
14:21Agora, a Agência Internacional de Energia falando, calma, tem muito petróleo ainda no mundo,
14:27não é para já, é um discurso para tentar assoprar de uma dor que a gente já está sentindo
14:34na pele, o quanto isso é verdade? Calma, essa inflação não é para já, não.
14:40É, veja, a questão, Marcelo, eles estão falando em sua própria defesa, né?
14:49Porque, efetivamente, nós estamos vendo que o problema é grave.
14:57No começo da guerra, uma semana atrás, se falava que era 20% do petróleo que passava
15:03pelo Estreito de Hormuz.
15:05Agora já se fala que é 30%, e o Estreito de Hormuz está fechado.
15:10Então, o efeito já está na mesa, o barril já está chegando a 90, quase 100 dólares.
15:23Nós vamos sentir esse efeito no Brasil logo, logo.
15:26A Petrobras vai acabar aumentando o preço da gasolina, talvez daqui a duas semanas, no máximo,
15:32talvez antes.
15:33Então, o efeito é claro que existe, e é uma pena que o mundo continue dependendo de petróleo
15:45dessa forma, né?
15:47Porque não era mais para a gente ter essa dependência tão grande, porque houve todo um esforço mundial
15:56para substituir as fontes energéticas que emitem CO2, como o petróleo,
16:05e que são, por exemplo, evidentemente, são causadores do aquecimento terrestre.
16:13Houve todo um esforço para a substituição dessas fontes energéticas por outras fontes,
16:20como ventos, energia solar, sol, etc.
16:26O Brasil é um país que fez a lição de casa e fez muito bem, mas acabou acontecendo.
16:32Primeiro, a guerra da Ucrânia.
16:33A guerra da Ucrânia criou um impacto muito forte na Europa,
16:37que fez com que a Europa não pudesse mais continuar com os esforços
16:44para passar a usar energias renováveis, em primeiro lugar.
16:47E agora, nós estamos com o Trump, que tem uma orientação totalmente contrária ao uso
16:54de fontes renováveis e a favor do uso do petróleo.
16:59Então, essa é uma situação muito ruim para o planeta.
17:05Agora, respondendo a sua pergunta, Marcelo, evidentemente que nós teremos problemas se essa guerra continuar.
17:11Por isso que o Trump, no início, falou que não é só uma guerra para quatro semanas.
17:15Mas não é.
17:17A gente já vê agora que essa é uma guerra que vai durar muito mais tempo
17:21e vai acabar prejudicando o próprio Trump.
17:24Porque o eleitor americano não quer que os Estados Unidos se envolvam em guerras.
17:31E, nesse caso, se envolveu numa guerra que será dificílimo para os Estados Unidos sair dessa guerra,
17:41porque o Trump não vai conseguir o seu grande objetivo,
17:45que é o de colocar um governo que ele tenha algum acesso, como ele fez na Venezuela.
17:52Eu acho que o Trump, em função do que aconteceu na Venezuela,
17:55foi muito fácil para o Trump colocar alguém que fosse praticamente subordenado a ele.
18:00No caso, a Delcia, vice-presidente da Venezuela.
18:03Agora, é uma situação completamente diferente.
18:06O Irã não tem nada a ver com o Venezuela.
18:08O Irã é um país que tem uma força muito grande em termos de política interna.
18:15Quer dizer, há um comando claro que está hoje na mão da Guarda Revolucionária e dos ayatollahs
18:23e não vão deixar o poder com facilidade.
18:27E os Estados Unidos não terão condições de tirar esse pessoal do poder no Irã.
18:32Então, o pior que pode acontecer nessa guerra agora é que ela termine com as outras três guerras
18:41que os Estados Unidos entrou, sem liderança.
18:44E aí, numa situação muito pior, porque quem vai comandar o uso dos mísseis e das armas nucleares?
18:52Então, eu acho que nós estamos, infelizmente, Marcelo, numa situação muito perigosa.
18:59Não dá para ser otimista.
19:00Eu só vejo, essa primeira semana, houve uma piora a cada dia.
19:06E não dá para a gente achar, não, isso vai acabar bem.
19:10Não, não.
19:11Eu acho que todo mundo está preocupado.
19:13A guerra está se intensificando muito.
19:16Israel está contra-atacando.
19:17Os outros países também agora estão mobilizando seus exércitos.
19:22A guerra está muito, muito forte entre o Irã e Israel, principalmente.
19:28O que faz com que os Estados Unidos não possam agora sair mais mesmo, mesmo que queiram.
19:34Então, ficou uma situação armada, infelizmente, muito ruim para o planeta.
19:41Marcelo, é preocupante.
19:42Eu não consigo ter uma mensagem otimista de jeito nenhum, infelizmente.
19:49Temos de ser realistas, no mínimo.
19:51Professor Feldman, sempre um prazer.
19:53Repito isso claramente e publicamente, conversar com o senhor.
19:56É sempre uma aula garantida.
19:58Feldman, queria pedir para nós mantermos o nosso contato periódico aqui.
20:02A gente ainda retoma essa conversa muito em breve, porque os dados expostos mostram que
20:09esse confronto não vai acabar tão cedo e uma das hipóteses, como o senhor muito bem
20:15aventou, que haja uma piora.
20:17E a gente vai ter impacto marinha mercante, petróleo e mais um monte de coisas.
20:22Conversei com o Paulo Feldman, que é sempre um especialista aqui, que nos fornece explicações
20:27precisas, principalmente do cenário internacional.
20:29Feldman, ótimo final de semana, mesmo nesse contexto de guerra.
20:34Espero que, na nossa próxima interação, falemos mais de paz.
20:38Até breve.
20:39É uma honra para mim participar aqui e poder falar com quem nos ouve na Times Brasil.
20:45Muito obrigado, Marcelo.
20:47Obrigado, Feldman.
20:48Até uma próxima.
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