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Em entrevista ao Jornal Times Brasil - Exclusivo CNBC, o ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria, Maílson da Nóbrega, apresentou uma visão austera sobre o futuro da economia brasileira. Com uma projeção de crescimento de 1,6% para 2026 — inferior à mediana do Focus e aos 2,3% do Ministério da Fazenda —, o economista afirma que o país caminha para a mediocridade devido à estagnação da produtividade.

Maílson destaca que o crescimento anterior foi impulsionado por um aumento de mais de R$ 300 bilhões (BRL) em gastos públicos no governo atual, efeito que agora se exaure. Para o ex-ministro, a sustentação do emprego pleno é temporária e deve sofrer ajustes conforme a atividade desacelera. Ele enfatiza que, sem reformas estruturais — como a desvinculação do salário mínimo das aposentadorias —, o Brasil seguirá perdendo espaço para nações ricas e emergentes, independentemente do cenário político de 2026.

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Transcrição
00:00E agora eu volto a conversar com o ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria, Maílson da Nóbrega.
00:07Ministro, entre esse 1,8% de crescimento para esse ano previsto pelo FOCUS e a previsão de 2,3
00:14% do Ministério da Fazenda, com qual das duas o senhor fica?
00:18Ora, eu fico com a nossa da Tendências, que é 1,6%.
00:22Mais baixa ainda que a mediana do FOCUS.
00:25E provavelmente a guerra vai mais do que confirmar essa projeção.
00:30O que fica claro é que o Brasil está caminhando para a mediocridade que é determinada pelo potencial do crescimento
00:38do país.
00:39O potencial do crescimento do país é em torno de 1,5% a 2%.
00:42Cresceu 3,4% perto disso nos dois anos anteriores por causa do gasto público.
00:49É bom lembrar que o governo Lula aumentou em mais de 300 bilhões de reais os gastos do governo federal.
00:56E, portanto, eu não me conformo com análises que dizem que a economia vai muito bem.
01:02Como vai bem?
01:04Se nós temos a aspiração de ser um país rico, nós temos que crescer mais rapidamente que os países ricos.
01:10Primeiro para emparelhar com ele e depois até super ultrapassar um ou outro.
01:14Por exemplo, esse ano a economia americana vai crescer 2,2%, 2,4%.
01:20A nossa é 1,6%.
01:21Nós estamos ficando para trás.
01:23Portanto, e a causa disso é a baixa produtividade da economia brasileira.
01:29Ao contrário do que dizem o PT e alguns de seus adeptos, o que impulsiona uma economia não é o
01:35gasto público.
01:36Não é a intervenção.
01:38Não é a empresa estatal.
01:39É a produtividade.
01:41Se uma empresa estatal é produtiva, ela contribui para o crescimento.
01:44Se não é, não contribui.
01:45Então, a produtividade é o principal fator de geração de riqueza do país.
01:49E é nesse ponto que o Brasil fracassou, nesses anos recentes.
01:52A produtividade está estagnada.
01:54Na era que o Brasil crescia 11%, a era do milagre, a produtividade crescia 4,5% a 5%
02:03ao ano.
02:04Agora, nós temos produtividade negativa na indústria.
02:07Só tem um segmento com ganhos permanentes de produtividade, que é a agropecuária.
02:14Por causa da mecanização.
02:15Exatamente.
02:15Então, esse número de 2,3%, ele, na verdade, reflete a caminhada para a realidade, a desaceleração
02:26após o fim do efeito dos gastos adicionais que o governo Lula fez nos dois, três primeiros anos de seu
02:33período.
02:33Então, sem aumento de produtividade, esquece.
02:36O Brasil vai ser uma economia medíocre para frente.
02:38Não vai ser a Venezuela, não vai ser a Argentina da época do peronismo.
02:42Vai ser uma economia medíocre, com alguns setores dinâmicos, o sistema financeiro vai continuar muito sólido.
02:48Mas a geração de riqueza que elimine ou reduz a desigualdade, a pobreza,
02:56e nos coloque na trajetória de um dia nos tornarmos um país rico, com esse crescimento, isso não vai acontecer.
03:03Como é que você está vendo a evolução do emprego e do desemprego?
03:05Porque a gente sabe que até agora os índices estão muito bons.
03:08Tem gente considerando pleno emprego, inclusive.
03:11Mas a gente já viu o Caged de janeiro mostrando que desacelerou o saldo positivo de vagas formais.
03:18Ainda a gente tem um saldo positivo, mas comparado com janeiro do ano passado, caiu.
03:22O senhor acredita que ao longo desse ano a gente vai ter um impacto maior no emprego aqui no Brasil?
03:26Olha, o emprego depende essencialmente da atividade econômica.
03:31Se a atividade econômica desacelera, o normal é esperar que o desemprego também, o emprego também desacelere.
03:38O que acontece, Marcelo, é que as empresas normalmente, quando elas enfrentam um processo de queda
03:45da demanda para os seus produtos e serviços, a demissão é o último recurso.
03:52Ela começa a cortar custos, ela começa a tentar baixar preços.
03:56Portanto, há uma defasagem entre o início da desaceleração e a queda do desemprego mais forte.
04:03Portanto, nós estamos nessa fase ainda que o emprego se sustenta por causa desse fenômeno.
04:08Mas é inevitável que em algum momento o emprego vai se ajustar ao nível da atividade econômica.
04:16E, portanto, a tendência é de terminarmos o ano com a taxa de desemprego maior do que a que vimos
04:22em 2025.
04:23Agora o Vinícius Torres Freire tem uma pergunta.
04:26Ministro, a previsão, então, da tendência é de crescimento de 1,6%, se eu entendi bem, 1,6% neste
04:32ano.
04:32Isso mesmo.
04:33E aí, como é que fica?
04:35Porque esse ano é possível que a gente tenha estagnação agropecuária.
04:40Resultado bom, mas sem crescimento em relação ao ano passado.
04:43Aí a gente fica dependendo de indústria, que aí a gente pode ter alguma coisa de petróleo e minérios,
04:49e serviços sustentados por algum aumento de renda e crédito.
04:52De onde vem esse crescimento de 1,6% no ano que vem?
04:55Olha, haverá algum investimento, haverá um aumento do consumo, haverá um aumento do gasto de governo,
05:03e tantos são fatores que aumentam a demanda.
05:06E isso, a demanda, influencia o resultado do PIB.
05:12O que se deve dizer, Vinícius, é que é um resultado medíocre, mesmo que se duvide que a gente chegue
05:20a isso diante das dificuldades que o Brasil enfrenta,
05:23é um resultado muito medíocre.
05:25E eu acho que nos próximos anos, nós da tendência achamos até que nos próximos anos nós podemos ter nível
05:34de crescimento de 1,5%, 1,4%.
05:36Sem reformas estruturais que aumentem a produtividade, que reduzam os gastos do governo, pelo menos o nível, o ritmo de
05:48crescimento,
05:48o Brasil não vai longe muito no crescimento de sua atividade econômica.
05:53O impacto que o senhor acredita que a eleição desse ano vai ter sobre a economia?
05:57Olha, vai depender muito de quem esteja na frente.
06:01Eu diria que se o presidente Lula, que ainda é o favorito, começar a liderar mais intensamente a corrida eleitoral,
06:12os mercados vão reagir.
06:14A tendência é juros mais altos, ou seja, juros mais altos não.
06:18O Banco Central desacelera a queda do juros, então essa previsão de 12, 12,5% no final do ano
06:25da Selec pode ser modificada.
06:27E provavelmente uma desaceleração do investimento pelas incertezas, porque a percepção será de que o presidente Lula
06:38dificilmente se empenhará em promover as reformas de que o Brasil precisa para fugir da armadilha do baixo crescimento.
06:47Uma delas, por exemplo, e eu diria a mais relevante para o próximo governo, é desvincular definitivamente salário mínimo de
06:55aposentadorias e pensões.
06:56Só o Brasil faz isso.
06:58Em todo o mundo, produtividade, aumento de renda, deve ser para o trabalhador e para os acionistas das empresas, e
07:06não para aposentados e pensionistas.
07:08Aposentados e pensionistas devem ser protegidos contra a inflação, não ganho real, como acontece no Brasil.
07:15Eu duvido que o presidente Lula, no início do próximo governo, se ele for o vencedor, ele vai propor uma
07:21medida como essa.
07:22Aliás, qualquer presidente eleito vai ter dificuldades políticas para propor uma medida dessas, não?
07:27Eu diria, se elegemos um presidente de direita, pode ser o Flávio, pode ser algum desse do PSD, eu acho
07:37que as expectativas melhoram.
07:39Porque o compromisso da direita no Brasil, com todas as bagunças que eles criaram por aí, inclusive uma tentativa de
07:45golpe do Bolsonaro,
07:47eles estão mais afeitos ao credo liberal, da privatização, da abertura da economia, da maior concessão de serviços à iniciativa
07:57privada, do que o PT.
07:59O PT é mais comprometido com a ideia, como eu disse aqui no início, de que o que faz o
08:04Brasil crescer é o gasto público.
08:07O que faz o Brasil crescer é a intervenção do Estado na economia, a liderança do desenvolvimento é do Estado.
08:14É uma ideia que já era velha, nos anos 80, quando o PT foi criado, e ela envelheceu mais ainda
08:22nos anos recentes.
08:24Então, se o Lula liderar as pesquisas, e o sinal for de que ele vai ser o vencedor, eu acho
08:29que os mercados vão azedar.
08:30Tá certo, eu conversei aqui com o ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria, Maílson da Nóbrega.
08:36Muito obrigado pela presença.
08:38Obrigado, Marcelo, obrigado pelo convite.
08:40A gente vai jogar agora um QR Code na sua tela.
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