00:00Uma grande comitiva brasileira, que inclui o presidente Lula, está na Índia num esforço para ampliar o intercâmbio comercial.
00:07A gente vai falar sobre as oportunidades no país mais populoso do mundo com o coordenador da BMJ Consultoria, o
00:13Vito Vilar.
00:14Vito, seja muito bem-vindo ao nosso programa.
00:19Obrigado, Marcelo. Obrigado a todos pelo convite. É um prazer estar aqui.
00:22Bom, por que o nosso comércio com a Índia, na sua opinião, é tão pequeno se a gente comparar, por
00:27exemplo, com o comércio do Brasil com a China,
00:30e o do Brasil com os Estados Unidos? 15 bilhões mais ou menos com a Índia, 150 com a China,
00:35100 com os Estados Unidos.
00:37Bem, eu acho que isso tem uma diferença bastante clara, porque tanto a Índia quanto o Brasil ainda são países
00:43que ocupam a mesma faixa etária de desenvolvimento econômico da sua sociedade.
00:49Além disso, tanto a Índia quanto o Brasil são países fundamentalmente protecionistas, a Índia tem muito mais do que o
00:55Brasil.
00:55Pela primeira vez a gente tem observado a Índia, por exemplo, abrindo o mercado para importações, por exemplo, vindas da
01:02União Europeia,
01:03e até mesmo esse acordo que foi assinado com os Estados Unidos nas últimas semanas.
01:07A Índia, assim mesmo, é um país que não depende necessariamente de insumos ou produtos que o Brasil exporta.
01:13Por exemplo, a sua frota de automóveis, por exemplo, consome etanol, mas eles preferem produzir localmente.
01:22A sua alimentação é baseada em produtos que não necessariamente o Brasil oferta.
01:27E quando oferta, existem barreiras tarifárias e não tarifárias muito difíceis de serem acessadas pelas exportações nacionais.
01:34E isso não só pelo Brasil, isso ocorre por diversos países do mundo.
01:37A Índia é um país protecionista na acepção da palavra.
01:40Então, essa viagem que o Lua faz, essa viagem que é uma das maiores comitivas já colocadas,
01:46viagens internacionais, 11 ministros, diversos outros representantes da indústria, do setor de serviços,
01:51vão à Índia para tentar liberalizar essas relações e também expandir o pequeno acordo de, entre aspas,
01:58livre comércio que existem entre o Mercosul e o país asiático.
02:02Bom, se a gente pensar que pode haver um entendimento político para destravar um pouco essa negociação,
02:08para diminuir um pouco esse protecionismo, que áreas você enxerga que seriam áreas propícias
02:13para ter mais vendas e mais compras da Índia?
02:17Bem, acho que fundamentalmente o Brasil é uma potência da agroindústria.
02:21Então, todos os setores que tendem a exportar para a Índia nesses ramos,
02:26eu acho que podem se beneficiar nesse sentido.
02:29Não falo, obviamente, necessariamente dos setores mais campeões do Brasil, como a carne,
02:34que obviamente a Índia tem restrições até religiosas por essa questão,
02:39mas, obviamente, produtos agrícolas, soja, milho, até mesmo feijão, algumas, café,
02:47tendem a serem exportados por uma economia que cresce,
02:50que é uma economia que aumenta a sua renda per capita da sua população.
02:53É um efeito que a gente compõe, por exemplo, com a economia da China,
02:57com a economia de outros países emergentes que agora suplantam
03:03essa armadilha da renda média, sem a gente poder colocar assim.
03:07Então, são setores interessantes no setor agrícola,
03:11mas também tem outros setores que o Brasil e a Índia tentam se beneficiar.
03:15Aqui eu posso dar destaque, por exemplo, aos setores de defesa,
03:17aos setores de tecnologia.
03:19Agora a Índia lidera as príncipes de inteligência artificial,
03:24setores de serviços, serviços financeiros.
03:27Um dos maiores CEOs do mundo de empresas como o Alphabet,
03:31como o Google, que faz parte do Alphabet, são indianos.
03:35Então, tendem a ter uma proximidade mais interessante com o Brasil.
03:39Agora, você acredita que a gente possa ter um intercâmbio tecnológico maior com a Índia?
03:44A Índia é uma potência para fazer software, por exemplo.
03:47A Índia está muito bem inserida no mercado da inteligência artificial,
03:50como você colocou.
03:52Mas, de que maneira o Brasil poderia, talvez,
03:55trazer um pouco desse conhecimento para cá?
03:59Essa é uma dificuldade bastante interessante
04:01que vários países estão vivendo atualmente.
04:04A gente investe localmente, a gente procura parcerias,
04:07a gente vai se tornar um país dependente da importação de serviços tecnológicos.
04:11São escolhas que estão sendo feitas nesse momento.
04:14O Brasil tenta se colocar atualmente como um hub,
04:17fundamentalmente para um serviço em específico,
04:20que é o de data center.
04:21Pela localização que ele se coloca,
04:23pela abundância de água fresca que nós temos no Brasil,
04:26pela boa aproximação que nós temos,
04:28e um território sem conflitos também,
04:30coloca o Brasil como um hub potencial
04:33para o investimento nesse tipo de tecnologia.
04:35Então, a gente tem visto empresas internacionais investindo,
04:38muitas na região do Nordeste brasileiro,
04:41especialmente no estado do Ceará,
04:43por onde chegam os cabos que ligam o Brasil e o resto do mundo.
04:45Mas, nesse momento, acho que esse é o ponto principal.
04:49O Brasil tentou fazer um investimento,
04:51algum tempo atrás, em chips, por exemplo,
04:53para tentar alcançar a escolha da empresa artificial.
04:56Não foi uma alternativa que se tornou viável a médio e longo prazo.
05:00Então, nesse momento, é voltado para outros olhares também.
05:03O Brasil tem algumas campeões internacionais
05:06no desenvolvimento de softwares.
05:07Dá para citar até a Estefaninha,
05:09a Tots, que são empresas brasileiras desse setor,
05:11que estão bem colocadas internacionalmente.
05:13E tem, inclusive, parcerias já,
05:17investimentos alocados para uma maior cooperação tecnológica
05:21com a União Europeia, Estados Unidos,
05:23e talvez com a Índia também.
05:24Eu mencionei a Alphabet, o Google,
05:27teve um encontro, inclusive, do seu CEO com o Lula
05:32nesse encontro de internet artificial que ocorreu hoje na Índia.
05:36Então, o Brasil tenta se colocar, de fato,
05:38como um hub para esse cenário.
05:39Especialmente, porque a gente tem uma população
05:41de 200 milhões de habitantes
05:42e uma das porcentagens da população
05:45mais bem conectada com a internet ao redor do mundo.
05:48Agora, na sua visão, Vitor,
05:49o fato da Índia também ter fechado um acordo
05:51de livre comércio com a União Europeia
05:53e, portanto, competir com o Brasil
05:56para esse mercado em muitas áreas,
05:57isso dificulta, de alguma maneira,
05:59um entendimento mais ambicioso com o país?
06:03Bem, eu acho que, na verdade,
06:05abrem novas possibilidades, na realidade.
06:07A gente está...
06:08O mundo, na verdade, tem observado, Marcelo,
06:11um protecionismo crescente.
06:12E isso emana, fundamentalmente, dos Estados Unidos.
06:17Muitas economias têm se fechado
06:18por conta de uma abundância,
06:20um overcapacity que vem da China
06:22e começa a derrubar os preços,
06:24principalmente, de mercadores industriais.
06:26Mas, tanto na União Europeia, no Brasil,
06:29a Índia não sofre desses problemas,
06:30porque é um país já muito profissionista,
06:32como eu mencionei,
06:33mas países emergentes sofrem disso.
06:35E a abertura de mercados,
06:36ela tem esse positivo nesse sentido,
06:38de aumentar a competitividade,
06:40de aumentar a pressão
06:41para o fomento de novas tecnologias,
06:43de pressionar tanto o setor privado
06:45quanto o setor público
06:45a investir em áreas que, de fato,
06:47são campeões nacionais,
06:48que, de fato, têm capacidade
06:50de colocar o Brasil ou a Índia,
06:51olhando para o lado deles,
06:53numa liderança dessa corrida tecnológica,
06:55dessa corrida produtiva.
06:56O Brasil, diferentemente da Índia,
06:59ele tem um contrasenso bastante interessante
07:01que a gente não vê nesse momento.
07:03Por conta, muitas vezes,
07:04de interesses que são vinculados
07:06a mais ONGs, ambientalistas,
07:09o Brasil é colocado como um país
07:10que não necessariamente protege
07:12sua armadilha ativa,
07:14suas florestas, etc.
07:15E, por isso, gera dificuldades
07:16no acordo de negociações
07:18de livre comércio com países
07:19que têm um poder regulatório muito alto,
07:21como é a União Europeia.
07:22E, quando a gente olha, por exemplo,
07:24os interesses franceses,
07:26holandeses, austríacos,
07:27holandeses, poloneses,
07:28em tentar barrar a assinatura desse acordo,
07:30em tentar barrar, na verdade,
07:31a ratificação agora desse acordo,
07:33ele surge muito por conta disso
07:34e pela capacidade que o Brasil tem
07:36na sua indústria agrícola.
07:38A Índia é diferente.
07:39Na verdade, o acordo que a União Europeia
07:41fechou com a Índia é muito mais positivo
07:43para os indianos do que para os próprios europeus,
07:44uma vez que o mercado europeu
07:46vai ter completamente aberto
07:47para as exportações indianas,
07:49enquanto a Índia vai abaixar as tarifas,
07:51mas não vai zerar.
07:52Vai ser 5%, 8%, 10% às vezes,
07:54muitas vezes as tarifas
07:55que já são afetadas pelo próprio Brasil.
07:58Acho que um outro acordo, Marcelo,
08:00que tem o potencial de ferir
08:01até mais os interesses brasileiros
08:03a médio prazo,
08:03caso se mantenha dessa forma,
08:05é o acordo que a Índia fechou com os Estados Unidos,
08:07que esse sim tem um potencial
08:09de abaixar as tarifas a zero
08:11até maior do que o que foi assinado
08:12com a União Europeia.
08:13Pinto Vilar, coordenador da BMJ Consultoria,
08:17muito obrigado pela sua participação.
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