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Em Davos (SUI), a tensão entre Estados Unidos e União Europeia aumentou com as ameaças de tarifas de Donald Trump e o impasse sobre a Groenlândia. A União Europeia sinaliza retaliação com sua “bazuca” comercial, incluindo instrumentos além de tarifas. O professor Carlos Braga, da Fundação Dom Cabral e ex-diretor do Banco Mundial, analisa o impacto dessa guerra comercial potencial nos investimentos globais, cadeias de energia, indústria e tecnologia.

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Transcrição
00:00Em Davos, a tensão entre Estados Unidos e Europa subiu de tom.
00:04Emmanuel Macron acusou Washington de pressionar aliados e disse que o bloco precisa estar pronto para reagir com suas ferramentas comerciais.
00:13O debate ganha força com o impasse sobre a Groenlândia e o risco de uma guerra de tarifas.
00:19Para analisar esse cenário, eu vou conversar agora com Carlos Braga, ele que é professor da Fundação Dom Cabral e ex-diretor do Banco Mundial.
00:26Professor Carlos, prazer recebê-lo aqui no Radar. Boa tarde para o senhor. Tudo bem contigo?
00:32Boa tarde, tudo bem.
00:35Professor Carlos Braga, que momento para essa turbulência entre Donald Trump e Europa?
00:41Porque amanhã Trump estará desembarcando lá em Davos, na Suíça, que hoje eu poderia dizer é a capital econômica do mundo,
00:48onde todas as discussões da economia e finanças globais estão acontecendo.
00:54Professor, o que isso pode ter de reflexo, essa volta da guerra comercial Estados Unidos e Europa,
01:00e também as ameaças à Groenlândia, podem ter de reflexo na economia mundial neste momento,
01:05e que vão estar ali em debate em Davos?
01:07Certamente, tudo isso está contribuindo para um aumento significativo do nível de incerteza nesse momento.
01:19A gente pode ver o que está acontecendo, seja nos investimentos de risco, a bolsa americana, as bolsas europeias,
01:28e também o preço do ouro e da prata, que continuam a avançar dramaticamente.
01:34A ironia é que o tema esse ano do encontro em Davos é a spirit of dialogue, o espírito de diálogo, né?
01:44Se há uma coisa que certamente o senhor Donald Trump não está avançando, é um espírito de diálogo, né?
01:53É aquela história, my way or the highway, você tem que concordar com aquilo que eu estou recomendando.
02:01Nesse momento, sejam as ações na Venezuela, sejam as ameaças com relação à Groenlândia,
02:10sejam as ameaças com relação a novas tarifas contra a Europa e outros países, né?
02:19Obviamente estão aumentando essa situação de incerteza, vamos ver, né?
02:24O que acontece amanhã, o senhor Trump chega em Davos, essa é a terceira vez que ele visita Davos,
02:32e é o centro das atenções.
02:35De certa forma, está, vamos dizer, extraindo o oxigênio de todas as outras discussões
02:42que estão acontecendo entre os cerca de 3 mil participantes no evento em Davos.
02:48Professor, a gente tem observado, né, Trump ameaçando um tarifácio nesse primeiro momento,
02:54a partir de fevereiro, de 10% sobre produtos europeus, que pode aumentar para 25% no meio do ano.
03:01E na contramão, a Europa também ameaçando uma retaliação aí de uma bazuca, né, tarifária.
03:09Até onde a União Europeia vai conseguir reagir sem transformar essa tensão em guerra comercial?
03:14Há espaço neste momento para sentar à mesa e negociar?
03:19Bem, como se sabe, né, tem aquela famosa expressão taco, né, Trump always chicken out.
03:28Quer dizer, o Trump sempre se acovarda, ele faz ameaças exageradas e depois chega a um acordo.
03:38Mas, nesses últimos meses, ele foi bem além disso.
03:42O caso mais óbvio é a situação da Venezuela, né.
03:46No caso das relações com a Europa, nesse momento, se a gente recordar o que aconteceu ao longo de 2025,
03:57primeiro, os Estados Unidos, lá no Liberation Day, 2 de abril do ano passado,
04:02o senhor Trump ameaçou a União Europeia com tarifas bastante elevadas, né.
04:09Acabou iniciando uma negociação que, no final de julho, levou ao acordo,
04:16que era um acordo que, teoricamente, chamado Turnberry Agreement,
04:22que, teoricamente, iria estabilizar as relações comerciais entre Estados Unidos e União Europeia.
04:30De acordo com esse acordo, que era um acordo desigual, né,
04:34os Estados Unidos passaria a ter acesso livre às suas exportações ao mercado europeu
04:40e, em troca, a Europa iria enfrentar tarifas de 15% nas suas exportações para os Estados Unidos.
04:49É importante lembrar que a Europa, a União Europeia, mais especificamente a Comissão Europeia,
04:56vinha analisando a situação e tinha preparado uma bateria de retaliação de tarifas
05:04que poderiam afetar cerca de 93 bilhões de euros dos produtos americanos exportados para a União Europeia.
05:15Com um acordo, isso foi colocado na prateleira.
05:18É bem verdade que esse acordo ainda não foi implementado,
05:22porque está passando pela burocracia do Parlamento Europeu.
05:26Mas, nesse momento, com as ameaças do Sr. Trump,
05:30com relação a impor, a partir de 1º de fevereiro,
05:3410% sobre as exportações da União Europeia,
05:38indo a 25% por volta de 1º de junho,
05:43o que a União Europeia está fazendo é retirar da prateleira o armamento,
05:51digamos assim, de retaliação.
05:54Além disso, o presidente Macron já ameaçou não apenas tarifas,
06:01mas ir além disso, porque a União Europeia criou,
06:04em alguns anos atrás, ou em 2004, se eu não me engano,
06:15em 2023, o Anti-Coercion Instrumento.
06:20Quer dizer, um instrumento anti-chantagem, anti-bullying, se quiserem.
06:25E esse instrumento vai além de tarifas.
06:30Poderia também ter um impacto sobre, por exemplo,
06:34investimentos americanos na Europa,
06:37questões de propriedade intelectual.
06:40Então, o Sr. Macron também subiu o tom.
06:43Não estou dizendo que isso vai acontecer,
06:45mas, certamente, a situação da Groenlândia
06:48é uma situação muito complicada nesse momento.
06:52Professor, a gente estava num momento que parecia
06:54que entrávamos no modo calmaria, né?
06:58Depois do Liberation Day no ano passado.
07:01E, de repente, essa tensão por uma volta da guerra comercial
07:05está de novo nos radares.
07:07Esse embate pode mudar investimentos e cadeias globais de energia,
07:11indústria e tecnologia?
07:12E eu vou citar um só.
07:14Existe um acordo com uma gigante farmacêutica do Reino Unido
07:18que iria investir bilhões de dólares, por exemplo, nos Estados Unidos.
07:21Isso poderia também ser revisto?
07:24Certamente pode ter implicações para decisões de investimento,
07:29particularmente aí nas relações bilaterais,
07:32se, vamos dizer, essa situação de conflito evoluir.
07:38E o problema com o Sr. Trump é que ele é totalmente imprevisível.
07:43Ele, naturalmente, é um adepto,
07:46não que ele jamais tenha lido Tucídides,
07:49mas é o general de Atenas, na Guerra do Peloponeso, né?
07:55Que dizia, basicamente, que os fortes fazem o que eles têm a força para impor.
08:02E os fracos têm que aceitar o que eles podem aceitar.
08:08Isso daí no contexto de um cerco de Atenas à Ilha de Melos.
08:12Ora, o que os Estados Unidos estão fazendo, de certa forma,
08:16é exatamente essa abordagem.
08:19E eu imagino que, no caso da União Europeia, vai ocorrer resistência.
08:27Agora, a gente tem que lembrar, por exemplo,
08:28o Sr. Trump também tinha ameaçado bombardear o Irã,
08:33alguma semana retrasada,
08:35se a repressão, as manifestações continuassem, né?
08:41E isso não aconteceu, e a repressão, como a gente sabe, continua.
08:45Então, tudo isso é algo, digamos assim, aberto.
08:51O Sr. Trump, amanhã, às dez e meia horas do Brasil,
08:55estará fazendo aí a sua intervenção,
08:59incluindo, provavelmente falando sobre a Groenlândia,
09:02e, na quinta-feira, ele também vai fazer uma apresentação
09:08sobre o Conselho de Paz que ele está querendo criar aqui.
09:11Inclusive, convidou o presidente Lula para participar
09:15e vários outros presidentes ao redor do mundo.
09:19Vamos ver o que vai acontecer.
09:21A conferir.
09:23Professor Carlos Braga, obrigado, viu,
09:25pela sua participação aqui no Radar.
09:26Grande abraço para o senhor e uma ótima semana.
09:29Foi um prazer. Tchau, tchau.
09:30Tchau.

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