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O economista Otaviano Canuto, economista e ex-vice-presidente no Banco Mundial, analisou o impacto das tarifas de Trump, que podem chegar a 50% no aço brasileiro. Para ele, o Brasil enfrenta incertezas e precisa buscar diálogo direto com os EUA.

Acompanhe a cobertura em tempo real da guerra tarifária, com exclusividade CNBC: https://tinyurl.com/guerra-tarifaria-trump

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Transcrição
00:00E a gente segue agora falando das tarifas, justamente a continuidade do tarifácio do governo de Donald Trump.
00:06Eu vou conversar sobre isso com o economista e ex-vice-presidente no Banco Mundial, o Sr. Otaviano Canuto,
00:12que também já foi diretor executivo no FMI, vice-presidente no Banco Interamericano de Desenvolvimento
00:17e atualmente é membro sênior do Policy Center for the New South.
00:22Boa noite, Otaviano. Bem-vindo aqui de volta ao Times Brasil.
00:26Boa noite, Otaviano. Prazer estar aqui.
00:28Prazer o meu. Felipe Machado, como o senhor pode ver, já está aqui para participar também da conversa.
00:35Bom, Otaviano, depois de uma breve suspensão ali, né, de parte das tarifas de Donald Trump,
00:40a justiça americana foi lá e restabeleceu temporariamente a validade dessa cobrança.
00:45Na avaliação do senhor, a tendência é de que Donald Trump vai poder administrar as tarifas do jeito que ele quiser
00:51ou ele pode ser de fato parado, barrado aí por tribunais dos Estados Unidos?
00:55Não, barrado não.
00:59É preciso, Natália, manter claro o seguinte, o pedaço do pacote dele que foi objetado pelo tribunal
01:09foi aquele no que diz respeito àquelas tarifas recíprocas do dia 2 de abril.
01:18Porque elas tiveram como uma fórmula, uma justificativa, a contribuição diferenciada dos países
01:28para o déficit comercial dos Estados Unidos, ou seja, com quem tem déficit com os Estados Unidos
01:34ganhou apenas os 10% básicos, como foi o nosso caso,
01:37e quem tem superávit com os Estados Unidos que recebeu tarifas diferenciadas
01:43proporcionais à participação em termos de superávit com os Estados Unidos, né.
01:51E com efeito, a interpretação legal é que a lei que foi utilizada para esse pacote
01:58não compreendia situações de balanço de pagamentos ou de balanço comercial
02:04como uma situação de emergência, né.
02:07As outras tarifas anunciadas pelo Trump, essas não tiveram problema, né,
02:14aquelas que são para as quais foram utilizadas outras seções da lei.
02:18A razão pela qual o Trump não quis utilizar, ou não poderia utilizar as seções que utilizou
02:29para as tarifas, as tarifas sobre o aço, sobre automóveis, as tarifas que ele usou também
02:36na primeira vez, no primeiro mandato sobre a China, é que elas seriam limitadas,
02:42elas não teriam, digamos assim, aquela discriminação, aquela fórmula que ele utilizou
02:49para as tarifas recíprocas, né.
02:52Pois bem, o ponto é que existe uma alternativa que é a de reeditar as propostas de tarifas
03:04utilizando outras cláusulas.
03:06O Peter Navarro até aludiu a possibilidade de uso de uma cláusula lá da Lei Smith-Hawley,
03:13de 1930, né.
03:16É que esses outros mecanismos existentes, eles são mais limitados, eles, por exemplo,
03:22permitem que a tarifa seja elevada até 50% e por um certo período,
03:29a outra cláusula permite até 15% e assim por diante,
03:33e para poder ter a liberdade que o Trump teve para estabelecer aquela tabela de tarifas,
03:40com algumas delas ultrapassando patamares, como a coisa chegou até, no caso da China,
03:46foi a 145 e assim por diante,
03:49essas leis que foram utilizadas para as proteções setoriais não poderiam ser utilizadas.
03:56Agora, eventualmente, ele pode refazer isso, vai tentar continuar fazendo negociação
04:08com a ameaça de que poderia implementar em última instância as tarifas quando foram estabelecidas lá no dia 2.
04:21O ponto é que, na verdade, quer dizer, o mercado está trabalhando com uma convergência,
04:30na verdade, fora as tarifas setoriais, desculpe, de aço, alumínio,
04:36eventualmente, o mesmo dispositivo legal vai ser utilizado para produtos farmacêuticos e outros.
04:43No caso das tarifas recíprocas, a linha básica de 10% é aquilo com o qual o mercado está estimando que se vai chegar,
04:55que já são tarifas bem mais altas do que aquelas que vigoravam antes do governo Trump.
05:03Mas, de qualquer maneira, não tão, digamos assim, arbitrárias e malucas como aquelas tarifas recíprocas do dia 2 de abril.
05:11Certo. Felipe, sua pergunta para o Sr. Otaviano.
05:15Sr. Otaviano, boa noite. O presidente Donald Trump anunciou que pretende mudar as tarifas do aço de 25% para 50%
05:23e isso afeta totalmente o Brasil. O que o Brasil pode fazer a respeito?
05:27Quer dizer, como é que o Brasil pode se planejar, sendo que, de repente, o presidente Donald Trump acorda de mau humor um dia,
05:33já muda as tarifas? Como é que a gente pode se planejar?
05:35O que o Brasil tem que fazer agora? Tem que tentar negociar, tem que retaliar de volta,
05:40tem que tentar buscar a OMS para reclamar, a OCDE? Qual é o seu papel do Brasil?
05:46Olha, a OMS não tem dente para morder, no caso.
05:52Então, o recurso à OMS é muito mais simbólico do que o que arregou uma coisa efetiva.
06:01O 50%, o novo patamar de aço que ele colocou, assim como o patamar de tarifas que ele jogou na ameaça com a Europa,
06:16ele está contando com essa possibilidade aberta nessas cláusulas que mencionei,
06:21que não foram afetadas pela decisão da quarta-feira, porque nessas deu para encaixar legalmente,
06:29o que permite até os 50%.
06:32Então, isso continua sendo parte, é meu juízo,
06:36supondo-se que a história do escalar para descalonar,
06:42que é a história do uso das tarifas como instrumento de negociação transacional,
06:51que venha, de fato, acontecer.
06:53Em algum momento vai ter a hora em que vai se abrir uma conversa, inclusive bilateral, com o Brasil.
07:01Ele pode ir postergando o prazo de aplicação dessas tarifas,
07:08caso ache que o problema não é a rigidez do tempo ou a falta de vontade da outra parte.
07:19Acho que o Brasil não tem alternativa a não ser tentar, em algum momento,
07:26alguma conversa, para tentar, talvez, no nosso caso em particular,
07:32repetir procedimentos como aqueles que foram adotados na época do primeiro governo Trump,
07:37quando ele aplicou tarifas também sobre produtos de aço e alumínio.
07:43Observe que no acordo Estados Unidos-Reino Unido,
07:50teve lá justamente uma cláusula de troca de tarifa de automóveis por uma cota,
07:56uma cota dentro da qual as tarifas não se aplicariam.
07:59E, não por coincidência, o volume acertado com o Reino Unido,
08:06de importações livres do Reino Unido,
08:10coincidiu com o volume anual de vendas do Reino Unido no ano passado.
08:18É claro, isso não é igual ao quadro anterior,
08:24mas a verdade seja dita é que o resultado desse processo vai ser algo em que
08:31as tarifas enfrentadas por exportadores para os Estados Unidos vão estar mais altas do que antes.
08:38Sra. Taviani, rapidinho para a gente fechar,
08:40ouvindo o senhor falar do resultado, de uma solução,
08:43eu fico pensando se, de fato, a gente vai chegar a isso
08:46ou se a ordem, agora, o momento é esse,
08:50enquanto o Donald Trump estiver lá,
08:51a gente vai estar vivendo esse cenário de incertezas,
08:53afinal, essa conversa já vem desde janeiro, né?
08:58Sim, eu não sou otimista quanto ao fim desse período de...
09:07Estabilidade.
09:07Estabilidade.
09:09Veja, olha, ele voltou a fazer essas ameaças, etc e tal,
09:15talvez não com a contundência do dia 2 de abril,
09:19apesar do fato de que cinco dias depois do 2 de abril,
09:24cinco dias depois do lançamento das tarifas recíprocas,
09:27a percepção de mercado já estava tão ruim
09:31que chegou a contaminar os títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
09:36A gente assistiu a uma coisa que a gente só via no passado,
09:41no caso de economias emergentes às voltas com fuga de capital,
09:46está certo?
09:47Quando a gente está saindo,
09:48porque só quando o capital está saindo, fugindo,
09:51é que você tem juros subindo,
09:54tentando segurar capital,
09:55ao mesmo tempo é que a moeda local desvaloriza.
09:58Isso não é, está longe de ser uma coisa
10:00que só ia acontecer com os Estados Unidos,
10:05ou com outras economias avançadas.
10:07E a gente viu aquilo,
10:09e também não foi por coincidência que naquele mesmo dia
10:12o secretário do Tesouro faz a visita à Casa Branca,
10:15é ao lado, aqui em Washington,
10:19e o Trump anuncia a postergação das tarifas recíprocas.
10:23E aí a coisa acalmou mais.
10:25Ou seja, aquilo foi um sinal
10:27de que os sinais emitidos por mercados,
10:31particularmente mercados de títulos do Tesouro,
10:34são escutados pelo Trump.
10:36E depois daquele escalonamento com a China,
10:41tivemos lá a pré-negociação,
10:45pelo menos de uma primeira etapa,
10:46desse acordo entre Estados Unidos e China.
10:49Mas o homem é tão imprevisível
10:51que agora está acusando a China
10:53de ter quebrado o pacto,
10:55e voltou a elevar o tom
10:59e o patamar de tarifas
11:01na conversa com a Europa,
11:03e assim por diante.
11:05Então, essa volatilidade de humor
11:09do imperador na Casa Branca
11:13é algo que acho não vai ser fácil
11:20de deixar para trás.
11:22Tem certeza que continua.
11:25Muitíssimo obrigada,
11:26senhora Otaviano Canuto,
11:27pela participação com a gente.
11:29Boa noite.
11:29Tchau, tchau.
11:31Tchau, tchau.
11:33Tchau, tchau.
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