00:00Da Voz mostrou que comércio e geopolítica voltaram a ditar o ritmo da economia global.
00:12Entre ameaças de tarifas, disputas por energia e minerais críticos e reações da Europa,
00:18o mercado tenta precificar mais incerteza para exportações, importações e investimentos.
00:24Para analisar o impacto deste novo cenário, a gente vai conversar agora com o Cláudio Finkelstein,
00:30conselheiro técnico da Associação de Comércio Exterior do Brasil e professor da PUC.
00:35Oi Cláudio, muito boa tarde para você. Professor, seja bem-vindo ao Radar. Tudo bem contigo?
00:41Graças a Deus, tudo bem. Boa tarde a você e a todos os nossos ouvintes.
00:45Muito obrigado.
00:46Professor, a gente chegava aí, eu tinha uma expectativa que Davos poderia trazer só debates importantes
00:53na discussão multilateral do comércio para a gente avançar e de repente entrou na pauta basicamente
01:01a tensão Europa e Estados Unidos com Donald Trump ameaçando a questão da Groenlândia,
01:07ameaçando mais tarifas à Europa. Como é que o senhor analisa isso?
01:11A gente deixa de avançar em debates talvez mais importantes e fica sempre patinando na mesma esfera
01:17que são essas ameaças de Donald Trump?
01:21A verdade é que agora o rei está nu, vamos colocar assim.
01:27O discurso do premier canadense, o Mark Chorning, talvez seja o que defina este encontro de Davos.
01:37a ruptura do atual sistema comercial global. Alguns estão dizendo que acabou a globalização,
01:46que os países vão se reindustrializar. Eu, pessoalmente, não acredito nisso.
01:51Aliás, a voz corrente no meio empresarial global é que não existe.
01:55Mas que novas regras surgirão que este novo comércio global vai obedecer a uma lógica imposta pelas grandes nações
02:08e pelas grandes nações, leia-se, Estados Unidos de um lado e China do outro
02:12e também com um pouco de geopolítica Europa-Rússia, nós estamos vivendo um momento de redefinição.
02:21Quando ele fala, olha, o sistema internacional está em uma fase de ruptura,
02:29é que, na verdade, já está assim, desde o momento que a presidência norte-americana do Trump
02:35começa a utilizar tarifas e também outras restrições não tarifárias,
02:41o mundo como a gente conheceu, como a gente administrou,
02:44sob a edge da Organização Mundial do Comércio, com regras muito claras,
02:49ainda que por vezes não cumpridas, está passando por uma mudança.
02:56Professor, o que muda na prática, e eu vou focar nas empresas brasileiras neste momento,
03:00com esse ambiente podendo as tarifas voltarem, né?
03:05Porque aí você cria menos previsibilidade no comércio global.
03:09E aí eu já te emendo.
03:11A indústria brasileira, as empresas brasileiras poderiam se beneficiar,
03:14porque uma briga entre Estados Unidos e Europa, eles deixam de comprar produtos entre si,
03:18ou pelo menos diminui esse fluxo comercial.
03:22E aí poderiam vir comprar também mais do Brasil, aumentar esse comércio com o Brasil?
03:27Sim, isso já está acontecendo.
03:29Algumas commodities, principalmente na área agrícola,
03:33alguns metais também, que eram fornecidos a um mercado,
03:37estão sendo desviados a outro.
03:39Mas, além disso, o que o Brasil tem conseguido fazer é criar comércio.
03:45A gente não pode esquecer que o Brasil responde por uma parcela muito pequena,
03:491,2% da pauta de comércio global.
03:52Então, a verdade seja dita, nós não somos muito relevantes nesse mercado.
03:58No entanto, em algumas áreas, nós temos uma expertise e estamos ampliando esses mercados.
04:04Quando a gente faz negócios com os outros parceiros,
04:09nós estamos mantendo aquela mesma lógica.
04:11Por quê? Porque a gente dá para o contrato.
04:13E o contrato determina X, Y ou Z, e esta lógica está sendo seguida.
04:19Nós temos uma negociação em curso com a União Europeia.
04:23A desfeito de ter sido assinada no último fim de semana,
04:27já está subjúdice pela Corte Europeia.
04:30Ou seja, nós teremos um atraso,
04:34mas as oportunidades que abrem de comércio bilateral,
04:39porque, ainda que China e Estados Unidos juntos representem metade da pauta de comércio global,
04:45ainda existe uma outra metade.
04:47Ou seja, devemos focar nessa outra metade,
04:51não só porque os mercados estão abertos,
04:54como também as regras para que esse comércio flua,
04:58elas são muito mais concretas.
05:01Agora, negociar com o Hemisfério Norte, etc., Europa,
05:05está ficando cada vez mais difícil.
05:08Como que os exportadores e importadores,
05:10perdão, devem se preparar para oscilações de custos,
05:14prazos e rotas nos próximos meses?
05:17É muito difícil prever.
05:19Eu vou...
05:19A minha bola de cristal realmente...
05:24Os contratos que existem,
05:27eles serão cumpridos da forma que foram criados.
05:29Obviamente, podem aparecer barreiras que vão trazer um risco e, eventualmente, danos pra alguém.
05:37Se você tivesse já um negócio entabulado,
05:40uma produção já colocada,
05:44às vezes embarcada, às vezes ela está...
05:46Veja, a última previsão era de entrar tarifas no dia 1º de fevereiro.
05:51Dependendo de onde foi a venda,
05:54isso já está em curso há mais de 20, 30 dias.
05:58Imagine você tem uma exportação com uma regra,
06:02e aqui eu estou falando dessa regra tarifária,
06:04e no momento que chega para a liberação alfandegária,
06:08aquele projeto que tinha na sua composição de preço X,
06:12ela agora é X vezes 30.
06:14Alguém vai perder muito dinheiro nisso.
06:17Dependendo de como for redigido o contrato,
06:20e qual for a lei aplicável,
06:22esta é uma daquelas obrigações que vai terminar em juízo.
06:25Arbitragem, normalmente.
06:27Professor Cláudio Finkelstein,
06:29queria muito agradecer a sua participação aqui no Radar.
06:32Um forte abraço para o senhor e um excelente final de semana.
06:36Eu que agradeço a você e a todos os nossos ouvintes.
06:39Obrigado, professor.
06:40Obrigado.
06:41Obrigado.
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