00:00De que maneira você acha que esse IOF maior pode influenciar o câmbio, os empréstimos para as pessoas jurídicas e também a poupança dos investidores de alta renda?
00:11Bom, inicialmente com o arsenal de majorações de alíquotas que foram feitos, que você até mostrou bem antes de a gente começar a falar,
00:21o efeito seria maior na parte de operações cambiais, principalmente porque as transferências, as remessas para fora do país,
00:33para fundos de investimentos, mesmo de pessoas físicas, seriam tributadas em 3,5%.
00:40Agora com o recuo do governo, menos.
00:43Mas é preciso lembrar as outras duas frentes da medida que vão afetar as empresas do setor real,
00:49porque você tem, por exemplo, um aumento da tributação via IOF para operações de antecipação de recursos de fornecedores ou de financiamentos,
00:59tem a questão do VGBL, os seguros do tipo VGBL, e tem as cooperativas que também passam a ser acima de 100 milhões tributadas nas suas operações.
01:12Então, não é uma medida simples e nem modesta, ela é bastante ampla e pode sim gerar distorções e efeitos sobre a economia
01:22e que nós ainda vamos precisar aguardar para avaliar esses desdobramentos.
01:27E quando a gente pensa também a médio prazo, pelo menos, a gente vê que uma medida como essa usando o IOF é uma espécie de remendo,
01:34porque, obviamente, a discussão sobre a justiça fiscal, ela é uma discussão legítima, mas ela requer mudanças estruturais, por exemplo, no imposto de renda.
01:43Mexer no IOF é muito mais fácil porque você consegue fazer rapidamente ali com o decreto e você não precisa dividir essa receita também com estados e municípios.
01:53Tem razão, Marcelo, porque o imposto de renda e o IPI, por exemplo, você tem muito mais dificuldade de fazer mudanças como você fez ontem no IOF.
02:02Fez ontem e já está valendo hoje, porque o IOF é para ser um imposto regulatório, só que ele está sendo usado para arrecadação.
02:11Então, isso, inclusive, é um problema constitucional, que se alguém levantar e entrar no Supremo, isso pode dar uma grande confusão.
02:18A forma como o governo acaba usando o IOF para arrecadar e não para fazer correções, ajustes de distorções, etc.
02:28É claro que se você olhar o discurso oficial, na coletiva de ontem e mesmo na fala do ministro Fernando Haddad hoje pela manhã,
02:36o foco é sempre, não, estamos fazendo isso para fechar as brechas, para equiparar as alíquotas e evitar distorções.
02:44Mas a gente sabe que o objetivo arrecadatório está muito claro aí, sobretudo nesse momento em que as contas públicas,
02:50eu não digo que estão ruins, mas elas estão muito aquém do necessário, Marcel,
02:57para que a gente consiga restabelecer as condições de sustentabilidade da dívida pública.
03:03Esse é que deveria ser o objetivo principal.
03:05E não uma gestão de apagar incêndios, que é o que, na verdade, nós estamos vendo.
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