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No Vitrine Literária será discutido, sem censura, literatura, em sentido amplo, e Literatura Contemporânea e Espírito-Santense em sentido restrito. Professor de literatura e escritor, Francisco Grijó vai trazer conversas com autores, editores, leitores, produtores, e toda pessoa envolvida com livros e literatura.
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:20Olá, tudo bem? Eu sou Francisco Grijó, professor de literatura, escritor e apresentador do Vitrine Literária.
00:30Aqui na TV Vitória, podcast e outras plataformas também ligadas à TV.
00:36Hoje a gente vai fazer uma discussão muito boa sobre negritude, sobre feminismo, sobre mulher na literatura.
00:45Mas antes eu queria trazer para vocês uma discussão que surgiu essa semana num bate-papo entre amigos.
00:52Um amigo meu, poeta e escritor também de grande prestígio aqui no Espírito Santo,
00:59ele me falou que ele havia encontrado num site uma placa que dizia o seguinte
01:09Leiam mais escritores negros.
01:13E ele então virou-se para mim e para outros colegas que estávamos conversando e disse o seguinte
01:18Se eu colocasse uma placa em que se dissesse
01:21Leiam mais escritores brancos, qual seria a repercussão?
01:26Bem, é a partir dessa ideia que a gente vai ter o programa de hoje. Por quê?
01:31Porque além de a gente discutir esse assunto, nós teremos aqui como convidada muitíssimo especial
01:38e já agradeço a ela e, claro, a generosidade dela de estar aqui, chamada Sueli Bispo.
01:47Sueli Bispo é escritora, é poeta, é atriz, é mulher e é negra.
01:53E faz parte desse grupo que, de certa maneira, teve de batalhar muito para ser respeitado,
02:01teve de batalhar muito para ter acesso àquilo que sempre foi muito concedido a outras pessoas
02:09de outras etnias ou até pessoas com mais escolaridade, pessoas que participaram de eventos
02:20que não foram, digamos assim, que não foram concedidos ou que não foram apresentados
02:28a uma determinada comunidade. Então, hoje a gente vai discutir isso.
02:31Mas a questão é, existe uma literatura negra? Existe uma literatura feminista?
02:37Ou existe literatura que serve para todos e que é produzida por todos de forma igualitária?
02:46Eu li um poeta, um poeta angolano, muito interessante, chamado Agostinho Neto,
02:53que trazia uma discussão, na sua poesia, ele trazia uma discussão muito importante
02:59acerca da necessidade de haver uma literatura explicitamente negra.
03:06Uma literatura que explicasse, que mostrasse, que expusesse toda a problemática histórica
03:14ligada aos pretos, ligada ao movimento negro.
03:20Talvez o Agostinho Neto, até por ele pertencer a essa etnia e ser um brilhante poeta,
03:27ele tenha sido ouvido pelas pessoas.
03:29Mas e se for um autor de periferia?
03:33E se for um autor que não teve acesso a uma escolaridade acadêmica tradicional?
03:39Esse autor vai ser lido?
03:41Esse autor vai ser ouvido?
03:43O que é preciso fazer para que essa literatura, essa literatura, eu não vou colocar como
03:51mais vulnerável, porque a literatura não é vulnerável, mas a pessoa que pratica essa
03:58literatura, ela pode ter sido tão achatada socialmente que ela não teve condições de
04:07mostrar a que veio, não teve condições de mostrar a sua arte.
04:11Essa discussão a gente tem que fazer, ela é necessária, não é necessária apenas
04:16para o leitor negro ou para o escritor negro, mas para que todos possam discutir de forma
04:25igualitária e possam então compreender a realidade um do outro.
04:30Nós temos no Brasil, e aqui no Espírito Santo também, uma hegemonia branca no que diz
04:37respeito à literatura.
04:38Eu chegaria até a arriscar e afirmar que existe uma hegemonia branca na arte brasileira
04:47e na arte capixaba, em particular.
04:50Mas e essa hegemonia?
04:52O que ela representa?
04:53O que ela significa?
04:54Ela significa a opressão a alguns setores?
04:58Ou essa hegemonia, ela existe porque historicamente foi concedida a ela meios de acesso aos bens de consumo
05:11cultural, à educação, à universidade, ao ensino básico, ao ensino fundamental e médio
05:19particulares?
05:20E aí?
05:21O que eu quero discutir, o que eu acho que o Vitrina Literária, que é um programa sem censura,
05:28um programa que traz essa problemática para ser discutida, eu acho que isso tem que...
05:35Tem que existir esse espaço, um espaço em que se possa discutir essa questão.
05:40Eu vou passar a bola para a Sueli.
05:45E durante o meu papo com ela, a gente vai discutindo esses assuntos.
05:50Eu vou apresentar a vocês Sueli Bispo, embora ela não precise de apresentações, porque
05:55é uma figura muito conhecida.
05:57Sueli é poeta, Sueli é prosadora, está entrando no caminho da prosa.
06:02Ela entrou há pouco tempo nesse caminho, nesse caminho tortuoso das histórias, mas Sueli
06:09é uma grande poeta, é uma atriz, é uma artista seminal.
06:14E ela está aqui ao meu lado, vai conversar com a gente, vai bater um papo com a gente.
06:18Eu queria saber de você, Sueli, existe uma literatura negra?
06:23E se essa literatura existe, por que que ela deve existir?
06:29Ah, e muito obrigado.
06:30Seja muitíssimo bem-vindo ao programa, é uma honra ter você aqui no Vitrine Literária
06:35e espero que você possa voltar em breve.
06:40Obrigada, muito obrigada por esse convite.
06:43É uma honra para mim também estar aqui, uma honra e uma responsabilidade muito grande
06:48estar aqui ao lado desse grande professor que é você, né, Grijó?
06:54Então, assim, você começou falando, citando o exemplo do seu amigo,
06:58né, que falou de... é uma campanha, né?
07:03É, ele viu, ele viu um... na internet, certamente.
07:07Na internet.
07:07Ele viu, leiam mais escritores negros.
07:09É, está tendo muito mesmo.
07:10É, mas a pergunta é, e se ele colocasse, leiam mais escritores brancos, qual seria a
07:14repercussão?
07:15Como é que nós olharíamos para isso?
07:18Pois é, isso, leiam mais leitores brancos, nem é uma questão.
07:23Nem se coloca, porque você falou aí o tempo todo em hegemonia, da hegemonia branca,
07:30nos espaços, né, culturais, nos espaços de poder.
07:35Então, assim, isso é bem o que... isso é o exemplo do que é o racismo estrutural,
07:44que as pessoas tanto falam hoje em dia desse... é um conceito, né, que o racismo,
07:49essa naturalização dos espaços, né, de determinados grupos em determinados ambientes,
07:56é normal que sejam pessoas brancas que estão lá e pessoas negras estão em outros espaços,
08:02né, de subalternidade, de subserviência.
08:05Então, quando você sai desse espaço e ocupa um outro tipo de espaço,
08:11existe ainda um estranhamento das pessoas, né, de ver pessoas negras em determinados espaços,
08:18e a literatura é isso também, acontece isso muito também.
08:23Então, assim, se deve existir uma literatura negra, eu acho que tem que existir sim,
08:32porque é uma forma de... literatura é literatura, sabe, independente de cor,
08:38mas quando a gente fala literatura negra, é uma forma de se estabelecer nesse espaço,
08:47de chamar atenção para essa questão que existe, sabe, que é a questão do racismo.
08:55Porque se nós somos 50% de uma população e você chega em ambientes e as pessoas negras não estão,
09:06sabe, o que é que está acontecendo?
09:08Então, é... e literatura branca não se precisa falar, né, porque não é uma questão.
09:14É, assim, natural, normal para as pessoas, que seja feita por pessoas brancas, homens principalmente, né,
09:25porque aí a mulher vai para a literatura, a literatura feminina, não existe literatura masculina, não é verdade?
09:32Aí se é mulher negra, aí vem ainda literatura de mulheres negras.
09:39Então, assim, ser literatura branca não precisa se apalar nada, né, porque já está convencido, já se convencionou que é
09:46isso, esse espaço.
09:46Perfeito, perfeito.
09:48Um dia desses, em sala de aula, em sala de aula, eu trabalho basicamente com quem vai fazer vestibular, né?
09:54Então é um aluno que tem entre 17 e 20 anos de idade.
09:57E, em sala de aula, começou-se a discutir uma questão, quem era, quem era a pessoa, quem é o
10:05ser humano mais prejudicado nessa nossa atualidade capitalista?
10:12E aí chegou-se a conclusão de que é a mulher preta e pobre.
10:18E aí alguém trouxe, é a mulher preta, pobre e gay.
10:23Ou seja, é aquilo que, infelizmente, e a gente tem que batalhar contra isso sempre, né,
10:31é aquilo que se coloca como mais vil, como mais errado.
10:37Ser mulher, ser preta, ser pobre e ser gay.
10:41A minha pergunta pra você, partindo dessa ideia, é a seguinte, eu tô aqui com esse livro que eu acho
10:46excelente.
10:48Eu li esse livro já faz dois anos, quando eu entrevistei você pra um programa que eu tenho no Instagram,
10:55chamado Livro Aberto, e que vai ser também veiculado pela TV Vitória, mas em breve.
11:02Só tô dando um spoiler a vocês.
11:03Eu li esse livro, Lágrima, que traz você na capa aos 18 anos de idade.
11:08Quando eu li esse livro, muito me impressionou, porque você se coloca como mulher negra.
11:15É, na capa já tá dizendo, né?
11:16Exato, ótimo. Logo na capa já diz.
11:18O que é ser uma mulher negra numa literatura do Espírito Santo?
11:25Na literatura do Espírito Santo, o que significa ser mulher negra?
11:29Pois é, você também falou aí dessa questão de quem tá mais prejudicado na sociedade.
11:34É mulher negra mesmo, porque ela, em sua maioria, ocupa a base da pirâmide, né?
11:42Então, é peso social, das questões de vulnerabilidade social,
11:50as mulheres negras carregam mesmo isso, né?
11:54Então, é assim, eu ocupar esse espaço, a gente rompe, são rupturas que a gente faz, né?
12:06Com isso que se normaliza, né?
12:11Porque a mulher negra tá sempre nessa posição, é a empregada doméstica e tal.
12:16E você ocupar um outro espaço, a literatura, que é o espaço da intelectualidade, né?
12:22Então, assim, muitas vezes pode causar estranhamento, né?
12:28E também é uma responsabilidade.
12:33Eu vejo como uma responsabilidade também, né?
12:37O que eu tenho que passar pras pessoas, o que eu trago, o que eu vou dizer.
12:44A gente passa a ter uma responsabilidade maior também.
12:47Um dia desses eu ouvi uma discussão...
12:50Não, tá ótimo.
12:51Eu ouvi uma discussão muito boa, porque a Conceição Evaristo,
12:54que é uma figura internacional, né?
12:57Conceição Evaristo é uma figura, é um ícone brasileiro,
13:00que deveria ser mais conhecido.
13:03E é interessante que o Gilberto Gil, que foi laureado pela Academia Brasileira de Letras,
13:11ele e a Fernanda Montenegro, houve até uma certa polêmica acerca disso.
13:15A mesma polêmica que houve quando o Bob Dylan ganhou o Nobel,
13:18como se compositores não pudessem ser tão criativos a ponto de participar de uma academia.
13:24Mas a Conceição Evaristo, ela já se candidatou e ela não foi laureada,
13:32não houve a concessão a ela.
13:35Talvez porque não tenha feito campanha, mas não é só por isso, a gente sabe.
13:39Não, simbolicamente já responde.
13:40Isso, é isso aí.
13:41Eu queria que você falasse um pouco.
13:42Exatamente, a questão da opressão sobre a mulher negra é ainda maior do que sobre o homem negro.
13:49Entendi, então assim, a Conceição, uma escritora premiada, ganhadora de prêmio Jabuti,
13:56já com reconhecimento internacional.
13:59Sem dúvida.
13:59E ela só começa a ser reconhecida no Brasil assim mesmo,
14:03quando ela é reconhecida fora.
14:09Fora na Europa, aí que aqui começa a chamar atenção mais,
14:14e ela depois ganha prêmio Jabuti.
14:15Então, e aí agora, quando ela, há uns anos atrás, três anos já,
14:22ela tentou essa candidatura na academia.
14:26E assim, no programa Roda Viva, na entrevista dela,
14:31ela detalha coisas que ela passou, sabe,
14:37que mostra a falta de respeito com a figura dela,
14:40com essa grande escritora que ela é.
14:43Ela não precisa nem ganhar prêmio, ela já é uma vencedora.
14:47Mas, assim, as coisas que as pessoas, não, porque a gente retira a sua candidatura.
14:51Meu Deus, que coisa absurda, que falta de respeito com a figura da mulher negra.
14:58Sabe, então assim, aí depois, nada contra a Fernandona.
15:03Minha inspiração também, como atriz, eu quero ser, sabe, é meu exemplo também,
15:11como também a grande Ruth de Souza, né, essas grandes atrizes,
15:15que é onde eu me espelho também.
15:19Então, chamaram a Fernanda, tudo bem, maravilhosa.
15:23Sabe, mas houve esse episódio com a Conceição.
15:26E o que isso quer dizer?
15:28E depois, chamaram o Gilberto Gil,
15:32mas isso responde a pergunta que você me fez
15:37sobre a questão da mulher negra.
15:38Sabe, desse lugar que eu culpo, que é da mulher que está na base da pirâmide.
15:43Então, assim, é muito mais difícil sempre ser mulher negra.
15:47Você lê escritores negros?
15:49Leio e eu sou, inclusive, curadora, né, da pretaria Black Books.
15:54Fala disso pra gente. Como é que é isso?
15:56É, a pretaria Black Books, agora, ela está numa fase diferente.
15:59Ano passado, essa coisa aí da pandemia afetou muitas pessoas, né,
16:03e dentro da pretaria, a nossa idealizadora Mirtes mora agora na África, em Cabo Verde,
16:14e também perdeu muitos parentes pra Covid.
16:18Então, assim, tá um pouco diferente, mas a gente faz um trabalho de,
16:25tanto divulgação da literatura negra, de escritores negros,
16:29como também da formação de leitores, né, sobre esse tema e sobre esses escritores e escritoras negros, né.
16:36Então, eu sou uma das curadoras, e aí a gente seleciona os livros que serão,
16:44que são indicados pra leitura, né.
16:48Maravilha.
16:48É um clube de assinantes de literatura.
16:51Você tá com um livro novo, não tá?
16:53Você tá com um livro novo pra sair, né?
16:55É, sim, de poesia, de poema.
16:57Fala um pouco pra gente dele.
16:58É, meu próximo livro é Conversas com o Silêncio.
17:02Esse título, é, esse título, ele foi organizado durante esse período aí da pandemia,
17:09é, em 2020, quando deu aquela coisa de ficar em casa e tal,
17:15e eu fiquei desesperada, porque eu disse assim,
17:17gente, o que que eu faço agora?
17:22Todo mundo, um monte de gente morrendo, adoecendo, morrendo.
17:26Falei assim, gente, eu tenho que salvar meus poemas.
17:28Meus poemas, meus filhos.
17:31É verdade.
17:32Então, já se, e não posso deixar isso perder.
17:35Aí eu tinha tempo pra organizar, organizei, e ali, organizei o livro, né, pra, e agora,
17:45ele ia até, nem ia se chamar esse, não ia ter esse nome, era outro nome.
17:50Mas, esse ano, me veio esse nome.
17:52Eu comecei a escrever muito sobre silêncio, que eu já escrevo, né, isso tá na minha poesia.
17:57É, é verdade.
17:57Já tá na minha poesia.
17:59Então, aí, me veio esse nome, que eu achei ideal também, que tem a ver com esse período, sabe,
18:04que você fica trancado em casa, que você tem que lidar com você mesmo, com seus demônios.
18:11Mas, então, me responde uma coisa.
18:14Não te parece um pouco contraditório ser uma mulher, uma mulher negra, uma mulher que
18:21precisa escrever pra expor, né, pra se expor, pra expor a problemática, ela ter de silenciar?
18:31A ideia de silêncio não te parece um pouco contraditória, não?
18:36Ah, é interessante essa pergunta.
18:39É, não, assim, eu não deixo de falar as coisas que eu tenho que falar.
18:44Tanto falo também das questões étnico-raciais, né?
18:48Perfeito.
18:49Mas, e falo de outros assuntos.
18:50Você já me falou sobre isso, já me perguntou sobre isso no outro programa.
18:56É, e eu falo de diversos assuntos, e eu acho que, é, eu, eu sou negra, falo sobre
19:04essas questões, mas eu não, eu quero falar de outras coisas, e eu me permito, eu tenho
19:09o direito de falar do que eu quiser, e independente de qualquer coisa, é uma mulher negra que está
19:16falando, que se permite falar.
19:19E isso que é muito bom, né, você ter, ocupar esses espaços, ter essa voz, e também a
19:27grande questão é essa, né, de você, é, essa voz que foi por tanto tempo das mulheres
19:34negras, silenciadas por tanto tempo, historicamente, e aí, agora a gente, cada vez mais ocupando
19:42esses espaços, é o grande barato.
19:45Uma coisa...
19:45Mas você me perguntou outra coisa, a questão do silêncio.
19:48É, a ideia do silêncio, você...
19:49Não, o silêncio, pra mim, é um, é um, é um silêncio interno, é um, é uma coisa
19:54que está dentro de mim, que eu me permito viver esse silêncio, e desse silêncio que
20:00vem minha poesia.
20:01Certo.
20:02O silêncio é a força motriz.
20:04É, é uma força motriz, exatamente.
20:06Me responde uma coisa.
20:07Mas eu não deixo de, de, de, de falar o que eu quero falar, não é?
20:11E eu falo na cara.
20:11Sim, eu sei, eu sei.
20:13Não mexe comigo, é que eu falo na cara.
20:16Uma vez, a gente conversando, alguém falou em literatura capixaba, e eu disse que eu não
20:21considerava literatura capixaba porque não existe nenhum ingrediente no texto escrito
20:27por capixabas que o identifique como capixaba, né?
20:31Moqueca é capixaba porque ela tem coentro, ela tem os ingredientes que a identificam como
20:36capixaba.
20:37Mas a literatura capixaba não me parece haver nenhum ingrediente que a categorize assim.
20:43E a literatura negra, existe algum ingrediente típico da poesia negra, da literatura negra?
20:50Porque um branco pode falar tranquilamente, ter um personagem preto, ter um personagem preto
20:55que sofre e ele pode, através desse sofrimento, explorar justamente a indignação disso aí,
21:01um branco pode fazer isso.
21:02Mas a minha pergunta para você é, existe uma literatura preta, uma literatura que a
21:08pessoa vai ler e fala assim, isso aqui é escrito por um negro?
21:12Essa é uma discussão que eu trago na minha dissertação do mestrado, que foi a pesquisa
21:17sobre o poeta Solano Trindade, que eu considero, acho muito importante falar, um dos trabalhos
21:23que eu acho assim, um dos trabalhos mais importantes que eu realizei na minha vida, que foi essa
21:30pesquisa sobre o grande poeta negro, um dos precursores da literatura negra brasileira,
21:35no século 20, antes, já desde o século 19, temos exemplos, temos nomes, Luiz Gama, Lima
21:42Barreto, Cruz e Souza e outros nomes assim, e a Maria Firmina dos Reis também, que é uma
21:48mulher negra, que a primeira mulher a publicar um romance no Brasil, então, mas é uma literatura
21:56negra, então a minha dissertação foi sobre Solano Trindade, que é um dos pioneiros nesse
22:02discurso, e assim, lá tem uma discussão exatamente, o que caracteriza uma literatura negra, falar sobre
22:10nós, que já falaram, mas a forma como se fala também, é uma literatura onde, uma literatura
22:21negra não é um discurso qualquer, é um discurso de afirmação da nossa identidade de uma forma
22:28valorativa, sabe, que valorize a nossa imagem, que tira a gente desse imaginário, dessa ideia
22:40que se faz, outras falas sobre nós, que nos estigmatiza, os estereótipos, né, da figura
22:50do negro, ou é preguestoso, que trabalhamos tanto para a construção da formação desse
22:55país, né, para tudo, e é o preguiçoso, é o molenga, é a mulher negra é a sexualidade
23:02exacerbada, então, assim, quando a gente passa a escrever também, a gente sai desse discurso
23:10que não nos representa do que realmente somos, nós somos muito mais do que isso que falam,
23:18e também é a afirmação da nossa identidade negra, sabe, e se tornar sujeito de um discurso,
23:31então, isso é uma coisa que eu afirmo lá, trago essa discussão falando assim, a gente
23:34deixa de ser objeto e passa a ser sujeito, quando a gente se apropria dessa voz, desse lugar
23:42da literatura. Maravilha. Eu agradeço muito a você, Sueli, mas antes da gente terminar,
23:48eu quero que você diga para a gente onde encontrar seus livros, onde se encontra Lágrima,
23:53que está aqui? Lágrima Fora do Lugar, eu não tenho mais comigo, mas tem na editora,
23:58vocês podem encontrar no site da editora Cousa. Editora Cousa. E esse novo livro?
24:03Na internet, vocês encontram. E esse novo livro? E o novo livro é pela editora Pedregulho,
24:11Conversas com Silêncio, também no site da editora, já tem pré-venda, e o lançamento
24:17será no dia 9 de agosto. Ou seja, já passou, porém, vocês podem encontrar no site da Pedregulho.
24:27Da editora Pedregulho. Isso. E o meu primeiro foi esse aqui, ó, Desnudo Dalmas.
24:32Maravilha. Esse aqui está praticamente esgotado, né? Eu não tenho mais. E também, talvez, em cebos.
24:40Maravilha. Cebos virtuais, cebos físicos, tudo isso.
24:43Pessoal, muito obrigado pela participação, né? Primeiro, da Sueli, e por você que está ouvindo o podcast
24:50e assistindo aqui pela outra plataforma da TV Vitória.
24:56O Vitrine Literária volta em breve. Um grande abraço a todos. Até.
25:03Você ouviu o Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
25:09Tudo sobre literatura contemporânea.
25:11Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
25:19Transcrição e Legendas por Quintena Coelho