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  • há 2 semanas
Neste episódio, alteramos a dinâmica do programa. Os entrevistadores serão Alfredo Andrade, editor, e Inês Aguiar Santos Neves, pesquisadora da literatura policial, para uma conversa com Francisco Grijó sobre o seu novo livro: "Joukery-pawkery", romance policial ambientado em Vitória.

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Transcrição
00:01Começa agora, Vitrine Literária, com professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó,
00:24hoje com um convidado razoavelmente especial, que sou eu mesmo.
00:28Mas por que, Grijó, que você vai participar do seu próprio programa?
00:33Porque agora, na próxima quinta, dia 22, eu vou lançar mais um livro, um romance policial, intitulado Joker e Pokery.
00:43Como eu não posso entrevistar a mim mesmo, eu chamei duas pessoas que são muito mais capazes de me entrevistar
00:50do que eu seria.
00:51Que são Alfredo Andrade, editor, o proprietário da Cândida, que é a editora pela qual meus livros saem,
01:00e a leitora e grande pesquisadora da literatura policial, Inês Aguiar Santos Neves.
01:06Os dois já estiveram aqui no programa e hoje estão para me entrevistar.
01:10Muito boa tarde, agora a bola é de vocês.
01:14Boa tarde, pessoal. Mais uma vez, eu fico feliz de estar aqui, agora desse outro lado, literalmente.
01:22E a gente vai falar sobre Joker e Poker, Joker e Palker.
01:29E vou começar pelas epígrafes, mas aí eu já vou começar pelas epígrafes do que hoje a gente pode considerar
01:35uma trilogia,
01:36que começa em Mariana M, histórias curtas para Mariana M, Fama Volat, em 2019, e Joker e Palker, agora em
01:462024.
01:49Os três livros, em suas epígrafes, eles vão falar de um mesmo assunto, que é a arte como falácia.
01:59E não é coincidência, porque a Sônia Marta Simons falou bem, reforçou bem, que a coincidência é uma ilusão.
02:10Então, propositalmente, nós temos essas epígrafes sempre duplas e sempre falando sobre esse assunto.
02:18O primeiro livro, que é Histórias Curso para Mariana M, a epígrafe fala assim,
02:24Exceto, pelo que não se vê, tudo é falso.
02:28Quem fala isso é Gaston Mantrix, que é um personagem.
02:33Isso, isso.
02:34No segundo livro, que é Fama Volat, a gente tem A Arte é a Mais Bela das Mentiras.
02:40Quem diz é Debussy.
02:42E no Joker e Palker, a gente tem, além do título, que já é uma, significa tramóia, embuste, logro, enganação,
02:54a gente tem uma citação de Chesterton, de um conto dele, Queer Feet,
03:00que fala de um grupo muito exclusivo, que janta anualmente num restaurante mais exclusivo ainda,
03:10e tem garçons escolhidos a dedo, que é mais difícil entrar para ser garçom nesse restaurante
03:18do que entrar para o parlamento britânico, e onde os garçons facilmente são confundidos com os próprios convidados.
03:26Então, tem essa coisa aí, essa ideia recorrente de que a arte está relacionada à falácia.
03:34Então, a primeira pergunta é justamente essa.
03:37Eu acho que eu fiz uma grande besteira em convidar a Inês para me entrevistar.
03:43Essa é uma pergunta difícil.
03:44A arte é, em princípio, para mim, isso aí é uma visão pessoal,
03:49ela é, em princípio, algo que é criado a partir de alguém.
03:53Então, que pode ser uma coisa real, pode ser uma coisa fictícia.
03:57Eu sempre imaginei, tanto na arte plástica, quanto na música, quanto no cinema, quanto na literatura,
04:03que a arte nasce da arte.
04:06Ou seja, um texto literário nasce de um texto literário,
04:09um filme nasce de um outro filme,
04:12uma pintura nasce de outra pintura,
04:14mas sempre eu imaginei que a arte pode ser uma grande piada,
04:21ou pode ser uma grande mentira, ou pode ser uma grande falsificação.
04:26Não falsificação no sentido de falsificar uma obra de arte,
04:29mas ela não tem que necessariamente corresponder à realidade.
04:33Então, os três livros, tanto Histórias Curtas para a Mariana M.,
04:37quanto Fama Volat, quanto Jokery Polkery,
04:40os três falam sobre uma organização clandestina que pode existir.
04:46Pode ser que ela exista, e pode ser que ela não exista.
04:49E como ela comercializa um produto que é imune a qualquer tipo de crise,
04:56seja uma crise política, religiosa, financeira, econômica,
05:01qualquer tipo de crise, a arte está acima disso.
05:03Então, eu sempre imaginei o seguinte,
05:05a arte pode ser uma grande mentira, e mesmo assim ela ser muito valiosa.
05:10Então, essa eu acho que é a grande ideia,
05:12tanto de Fama Volat, quanto de Jokery Polkery.
05:16Ela pode valer muito, mesmo ela não tendo tanto valor quanto ela deveria ter.
05:22Como uma falsificação.
05:24Como uma falsificação, exatamente.
05:26Eu acho que é mais ou menos por aí.
05:28Aham, ok.
05:29Aí, Alfredo?
05:31Como editor, minha curiosidade aqui, que eu não perguntei para ele ainda,
05:37porque quando o Grijó me fala que vai me entregar um texto para publicar,
05:43eu não vou nem questionar, vamos colocar,
05:45porque o Fama Volat foi um sucesso.
05:49Esgotou, né?
05:49Esgotou.
05:50Acabou, agora, antes do lançamento, chegando do lançamento, acabou o Fama Volat.
05:54A gente vai ter que fazer outro, mas vai demorar um pouco.
05:59E, assim, o que fez com que você desejasse usar essa mesma organização num outro livro?
06:11Eu não sei te responder essa pergunta exatamente.
06:14Fama Volat nasceu de um livro que eu li, chamado O Clube Bilderberg,
06:22de um jornalista, salvo engano, mexicano.
06:26Eu li esse livro há muitos anos, que saiu pela editora Planeta.
06:30E esse livro falava sobre um grupo de pessoas que se reunia.
06:36E realmente existe isso.
06:38Eles se reuniam e eles definiam como ia ser o Ocidente.
06:41Então, eles definiam que país ia a falência.
06:45Eles definiam qual era a moda que ia prevalecer.
06:48Eles definiam quais seriam os esportes que seriam mais assistidos.
06:55Eles definiam tudo.
06:56Então, esse grupo de magnatas, de pessoas ligadas à comunicação,
07:01de grandes empresários, de pessoal ligado à internet.
07:06Ou seja, isso eu achei muito interessante,
07:08que se fosse verdade ou não, era bem interessante essa ideia de que
07:13existe um grupo que decide como é que serão as coisas.
07:16E eu fiquei pensando na ideia de como é que se comercializa,
07:20como é que se comercializa obra de arte fora do âmbito humano,
07:26essa coisa pessoal.
07:27E eu fiquei imaginando como é que eles poderiam comercializar
07:32através da internet, mas sem a fiscalização.
07:37Sem a fiscalização da Receita Federal, de qualquer país,
07:40ou sem a fiscalização da lei.
07:43Então, eu imaginei a fama volate,
07:46que é uma ironia, né?
07:48Porque fama volate é a fama voa,
07:50e se eles são clandestinos, a fama não pode voar.
07:53Ela não pode ser uma coisa tão grandiosa.
07:55Mas aí eu criei essa ideia de que a fama volate nasceu no final do século XIX,
08:00aliás, no comecinho do século XX,
08:01e ela se estendeu até os dias de hoje.
08:04E é uma organização tão poderosa que é muito difícil ter acesso a ela.
08:08Mas um determinado detetive, hoje delegado, né?
08:11Ele tem esse acesso.
08:13Ele consegue chegar lá.
08:15Hoje me perguntaram por que Vitória.
08:17Ah, eu vi.
08:18Por que Vitória?
08:19Eu perguntaram na rádio.
08:20Ah, Vitória.
08:21Vitória é uma cidade significante por isso.
08:23Por isso mesmo.
08:24Exatamente por isso.
08:25Porque numa cidade como Londres, Tóquio, Madrid, São Paulo,
08:31uma cidade como Los Angeles, Nova York,
08:36já existe uma disposição de haver uma vigília
08:40em relação ao comércio de obra de arte ali.
08:43Mas no Vitória não.
08:46Então Vitória é mais fácil as pessoas ludibriarem a lei
08:50numa cidadezinha que não é vigiada.
08:52Por isso é que se passa em Vitória.
08:54E também porque eu sou daqui
08:56e eu conheço melhor essa geografia.
09:00Com certeza.
09:01Fica muito mais autêntico.
09:02Mais tranquilo.
09:04A delegacia realmente existe.
09:06Sim.
09:06O percurso que o personagem central,
09:10hoje o narrador, que é o Anselmo Rosa Torres,
09:14o percurso que ele faz é um percurso que eu faço,
09:17porque ele sai de Santa Lúcia, onde eu moro,
09:20atravessa Rio Branco para chegar à delegacia,
09:23que realmente existe aqui no Barro Vermelho.
09:25Então tudo isso deu uma verossimilhança,
09:30uma verossimilhança, digamos assim, mais divertida.
09:38Porque escrever sobre um texto,
09:40escrever um texto sobre o qual o leitor tenha,
09:44pelo menos, um certo conhecimento geográfico,
09:47facilita.
09:48Facilita muito.
09:49Até atrai um pouco mais.
09:50O leitor se identifica mais.
09:53O leitor se identifica, exatamente.
09:54E aí vai saborear mais.
09:55Exatamente.
09:56Por aí.
09:57Então vamos a Anselmo Rosa Torres.
10:00Eu fiquei surpreso com isso.
10:03O emblemático detetive seu, cujas iniciais são arte.
10:09Palavra de honra.
10:10Nós estávamos aqui conversando antes de começar,
10:12e Inês falou,
10:14o Anselmo Rosa Torres, as iniciais dele são arte.
10:18Eu não tive tocado para isso.
10:20Quer dizer, isso aí certamente pode ser explicado no divã,
10:26mas eu não tive tocado.
10:28A Sônia Marta Simens vai...
10:29A Sônia Marta Simens e o SMS foi pensado.
10:35Mas, realmente, quando ela diz, a Sônia Marta Simens, que é psicóloga,
10:39quando ela diz, ó, coincidências são uma ilusão, é verdade, né?
10:43Isso aí se aplica também ao autor.
10:44É.
10:45Enfim, ele é um...
10:47Nasce lá em Mariana M, é uma criação de um personagem, de Júlio Albani,
10:52que é o editor da Rua Morgue, e é aspirante, é escritor,
10:57e a gente acompanha o Júlio começando a escrever,
11:02a desenvolver o Rosa Torres, nome plural e tal.
11:06É muito legal aquele acompanhamento.
11:09E, hoje, ele assume as rédeas da sua própria narrativa, né?
11:14Da sua própria narrativa, ele é um narrador.
11:16É, porque em Fambolati, ele é narrador de terceira pessoa, né?
11:20Esse aqui é ele que narra.
11:21É ele que narra e ele também expõe uma cartilha de atuação,
11:26de como... que agora ele é delegado, mas ele fala do tempo de investigador
11:30e que faz assim...
11:32Eu achei que funcionou como uma cartilha de investigação.
11:36Mas, então, como que foi essa evolução?
11:38Ele foi sozinho, porque você fala que manda nos seus personagens.
11:42Eu bem me lembro.
11:43Eu falei que, né, papai, não, ele... os personagens mandam nele.
11:47Não, não, não.
11:48Olha, quando o Reinaldo me falou isso, eu fico imaginando,
11:52Reinaldo, um escritor tão gigantesco, tem medo do seu personagem,
11:57acha que seu personagem... não, não, eu não, eu mando mesmo.
12:00Mas surgiu por causa de Pedro Nunes.
12:03Pierre Nunes.
12:04O Pierre Senun, Pierre Senun, né?
12:06É, o Pedro Nunes é o Pierre Senun.
12:07É, o Pedro, o Pedro falou uma coisa interessante.
12:10Quando ele leu Fama Volat, ele escreveu sobre, né, gostou muito,
12:14o que me deixou muito honrado, e ele falou assim,
12:16Grigio, ó, tá na hora de você...
12:18Não, aí passou isso aí, eu achei bacana.
12:20Quando eu comecei a escrever Joker e Poker,
12:22que inclusive o livro é dedicado a ele, né, dedicado a Pedro,
12:25porque Pedro sempre tira minhas dúvidas.
12:27Eu ligo pra Pedro de madrugada,
12:28Pedro, isso aí, cara, isso existe?
12:30Não, Grigio, isso não existe.
12:33Aí Pedro falou, Grigio, ó, tá na hora de esse investigador virar delegado, hein, cara?
12:39Foi ele que falou.
12:40E na hora a coisa bateu, eu falei, é verdade.
12:42Aí eu fui pesquisar como é que se torna,
12:44como é que alguém se torna delegado, né,
12:45pra dar mais verossimilhança mesmo.
12:47Foi por causa de Pedro.
12:48Agora, a mesma técnica que o Rosa Torres usava em fama volate,
12:56ele usa como delegado.
12:57Só que agora ele tem mais poder, né?
13:00Agora ele tem, existe um delegado titular acima dele,
13:03mas ele tem muito mais poder pra poder, né, fazer as diligências,
13:08pra poder tomar iniciativa.
13:10Então ele vai perseguir a fama volate justamente porque ele pode dessa vez.
13:15Ele não, agora ele não é mais, ele não precisa pedir a ninguém pra ir atrás.
13:21E ele é o homem corruptível que Chandler fala, né,
13:25que ele é a simples arte de matar.
13:26É verdade, é.
13:27É a redenção, porque ele não vai se curvar a esbórnia da sociedade de hoje.
13:32Ele toma Coca-Cola, né?
13:33É, ele toma Coca-Cola.
13:34Ele toma Coca-Cola, ele come croissant.
13:36E uma coisa interessante, ele, ele, em fama volate,
13:40havia uma tensão sexual entre ele e a jornalista.
13:44Andy Ocripócri, até ela resolver, demora um pouco, né?
13:49Até os dois poderem se resolver sexualmente.
13:52Mas ele é um cara, ele é um caretão, ele é uma figura,
13:56ele é uma figura muito normativa.
13:58Ele é um cara bem...
14:00Acredita, é o cara que você acredita.
14:03Isso.
14:03Que vai redimir uma sociedade inteira.
14:05Isso, por aí.
14:05Não vai se curvar, né, vai correr atrás, não tem medo de bilionários endinheirados
14:12que compram tudo, não vai se vender.
14:15Ele não vai se vender.
14:15Ele não se curva diante da sedução das mulheres, né?
14:18É.
14:18Porque a Erta Falati é uma mulher sedutora.
14:21É.
14:22Ele não se curva, ele não se curva nem diante da jornalista.
14:25Embora ele goste dela, né?
14:27Sim.
14:27Ele espera ela nos sonhos.
14:30Nos sonhos, exatamente.
14:31E ele não conta os sonhos, né?
14:32Não.
14:32Não conta os sonhos.
14:33Nem pra ela, nem pra Sônia Marta.
14:36Fica só pra ele mesmo e pra nós.
14:37É.
14:38É.
14:39Não conta pra ninguém, mas conta pra gente.
14:40É.
14:41É.
14:41Mas ele é bom.
14:43É, eu fico curioso aí nesse percurso de Mariana M.
14:47até o Joker e Poker,
14:51porque há mudanças muito grandes de um texto pro outro.
14:57Você pode chamar de trilogia,
14:59mas o personagem que tá no final ali,
15:02que é o narrador desse último,
15:06ele não é o narrador do anterior
15:09e ele é um personagem menor.
15:10Isso, isso.
15:11No início.
15:13E com essa informação ainda que você diz,
15:16de que você manda nos personagens,
15:18isso pra mim é muito diferente.
15:20Eu não vejo isso, esse tipo de afirmação,
15:26de declaração em outros autores.
15:29Lembro muito de um, inclusive,
15:30uma entrevista que eu vi de uma filha de João Baldo,
15:32o Ribeiro, que ele contava.
15:34Ela contando que, às vezes, ele descia nervoso na escada.
15:37Gente, você não...
15:37Menina, você não sabe o que fulano fez.
15:40Fulano era um personagem.
15:42Então, eu vejo muitos autores dizerem que o texto manda.
15:47Então, é essa coisa toda,
15:51inclusive, essa ousadia que você tem nesses romances,
15:57em mudar mesmo,
15:59e contar tantas ficções,
16:03e se defrontar com a mentira,
16:07assim, dentro da ficção,
16:10relacionar a mentira,
16:12isso...
16:12Você tem realmente esse controle?
16:16Alfredo, se eu não tenho esse controle,
16:19eu quero acreditar que tem.
16:20É, só aqui.
16:21Porque é o seguinte,
16:23por exemplo, eu escrevo um trecho do livro.
16:27Se eu não gostar, eu mudo.
16:30Isso, o poder está aí.
16:32O poder do escritor está aí.
16:34Se eu não gostar, eu mudo.
16:35Para o texto chegar a você, que é meu editor,
16:39para o meu texto chegar a uma grande leitora como Inês,
16:42para chegar a qualquer leitor,
16:44eu preciso gostar primeiro.
16:45Eu preciso aprovar.
16:47Então, é justamente a aprovação
16:49que faz eu dizer,
16:51eu tenho controle.
16:52Porque, se eu escrevo,
16:55se Anselmo Rosa Torres
16:57fosse um bandalho,
16:59fosse um sátiro
17:03desesperado por sexo,
17:04e eu não gostasse desse personagem,
17:08eu ia mudar.
17:08Eu gosto de Anselmo Rosa Torres assim.
17:11Por mais que ele queira sair do casulo
17:14e virar um super detetive,
17:16não vai conseguir.
17:17Ele vai ficar onde eu quero.
17:19É esse controle que eu estou dizendo.
17:20Entendi.
17:21Entendeu?
17:21É um controle mais ou menos.
17:23Eu não me lembro de ter
17:27um personagem que
17:29tivesse um destino
17:30que eu não quisesse dar a ele.
17:33Não consigo entender.
17:34Eu juro para você que eu não consigo entender,
17:36João Baldo Ribeiro.
17:37Não consigo entender Reinaldo Santos Neves.
17:39Como é que pode ser dominado
17:41por uma coisa que você cria?
17:43Isso acontece com o filho.
17:45Isso acontece com o filho, né?
17:46Você cria, você dá luz aos filhos
17:48e eles podem te dominar.
17:50Mas só.
17:51Mas isso aconteceu com o Sherlock Holmes,
17:53com o Conan Doyle e o Sherlock Holmes.
17:55Aí a criatura...
17:57Mas aí não dependeu dele.
17:58Mas não dependeu dele.
17:59Dependeu dos leitores, né?
18:01Que começaram a acreditar
18:03que o Sherlock Holmes existia
18:04e passaram a criar
18:07Sherlock Holmes mais importante
18:10do que o Conan Doyle.
18:12Agora, o mais interessante,
18:13quando o Conan Doyle morreu,
18:14o Sherlock Holmes morreu também.
18:15Sim.
18:16Olha o controle dele.
18:17Ele teve que ressuscitar,
18:17ele teve que ressuscitar.
18:18É, mas não ele, né?
18:19Não ele.
18:21Mas, enfim.
18:22Você tem um personagem favorito,
18:24assim, favoritismo?
18:26Eu gosto muito.
18:28Eu gosto muito do delegado titular.
18:30Eu gosto muito do Matoso.
18:31Eu acho Matoso uma figura,
18:33porque é um cara que gosta
18:34de mostrar erudição
18:36e, ao mesmo tempo,
18:37fala palavrão
18:39e é uma figura frágil.
18:41Está querendo se aposentar.
18:42Ele quer se aposentar,
18:44ele quer...
18:44Ele não quer confusão.
18:45Não aguenta mais.
18:46E, ao mesmo tempo,
18:47ele diz,
18:48ó, bicho,
18:49vai atrás dos caras mesmo.
18:50Entendeu?
18:51Mexer com gente endinheirada
18:53é sempre um complicador.
18:55E, geralmente,
18:55a polícia não faz isso, né?
18:57Nenhuma crítica à polícia,
18:58mas o sistema
19:00faz a polícia retroceder,
19:03não sempre, claro, né?
19:05Diante do poder econômico.
19:08E ele, o Matoso,
19:09ele vai em cima.
19:10Aquele discurso que ele faz
19:12quando você foi lá
19:13no caso Montefelto,
19:15você estava do lado certo.
19:17Exatamente.
19:18Agora está difícil.
19:20É verdade.
19:20Então, eu não sei...
19:21Aí, pronto.
19:22Eu gosto dele.
19:23Eu gosto do advogado,
19:24do Silas Rinaldi.
19:26Acho uma figura,
19:27acho uma figura pedante,
19:29achando que é mais do que ele é, né?
19:32É.
19:32Na verdade,
19:34não vou dar o spoiler,
19:35mas o destino dele é complicado.
19:37É, você dá o spoiler
19:39na segunda página,
19:40mas a gente ainda está verde
19:42para o romance.
19:43Ah, exatamente.
19:43Quando eu retomei,
19:45eu vi, eu falei,
19:46nossa, está aqui...
19:47Não, eu digo o que vai acontecer,
19:49mas não como, né?
19:50É, não como.
19:51Não como.
19:52Enfim,
19:53vamos, então, para o jogo.
19:56O jogo,
19:57que dá nome ao livro,
19:58é um item mortal,
20:02e cobiçado,
20:03feito de duas partes,
20:04o tabuleiro e suas peças,
20:06e as regras,
20:08escritas pelo punho,
20:11de Agatha Christie,
20:12ninguém menos de Agatha Christie,
20:13e jogado pelas duas mulheres
20:16mais famosas da Inglaterra na época,
20:19que é Agatha Christie e Elizabeth II.
20:21Elizabeth II.
20:23E eu achei fantástico,
20:25porque, de repente,
20:27esse jogo se alinhou ao jogo ficcional,
20:32e, para mim,
20:34onde as peças eram as personagens,
20:37e no tabuleiro da Ilha de Vitória.
20:39Quase que levantou, assim,
20:40Isso aí foi você que viu.
20:44Não foi intencional.
20:45Palavra de honra que não foi intencional.
20:47Eu estou do outro lado...
20:49Estar do outro lado é meio complicado, né?
20:52Não foi intencional.
20:54Eu não pensei na ideia do jogo
20:56ser comparado ao livro,
21:00as peças seriam os personagens,
21:02e o jogo seria a Ilha de Vitória.
21:05Não pensei nisso.
21:06Achei que só valorizou mais ainda o texto.
21:09Não tinha pensado nisso mesmo.
21:11Porque a escrita é um jogo ficcional.
21:13Certo, certo, certo.
21:14E os personagens estão ali como peças.
21:16Porque foi inevitável a comparação
21:18com o jogo de xadrez, por exemplo.
21:20Sim.
21:20E os personagens, eles têm importância.
21:24E o Rosa Torres seria a rainha ali, então.
21:27Só que a gente não sabe como é que o jogo é jogado.
21:29Não sabe, mas a gente...
21:30E a gente não joga o jogo...
21:32A gente joga o jogo ficcional lendo.
21:35A gente não mexe nas peças.
21:36Não mexe nas peças.
21:37Você mexe.
21:38É.
21:38Você mexe.
21:39O leitor, não.
21:40Mas ele percebe os movimentos.
21:43Então, o Rosa Torres teria um movimento circular
21:45para cercar as peças suspeitas,
21:48que teria um movimento perpendicular,
21:52ou diagonal, tipo um bispo,
21:54para poder despistar o...
21:57E os monumentos, porque você homenageia.
21:59Isso, isso.
22:00Você descreve amorosamente os vários, né?
22:03O Parque Moscoso, o Convento, a Terceira Ponte.
22:07E aí, isso que começa a dar um 3D,
22:10isso que se levanta e parece...
22:13Aí, a minha impressão.
22:14E me pareceu um tabuleiro em 3D
22:17quando você começa a passear com o Rosa Torres, né?
22:20Começa a flanar, tentando ativar o pensamento
22:26para a resolução dos enigmas.
22:28E aí, começa a observar amorosamente, claro,
22:32homenageando os monumentos.
22:34Olha, eu estou aqui maravilhado com essa análise.
22:38Eu realmente...
22:39Realmente, eu estou me sentindo justamente
22:43como vários escritores já se sentiram diante de mim, né?
22:47Percebendo coisas que eu não tive a intenção.
22:50Mas essa ideia é perfeitamente válida.
22:52Agora que eu estou pensando nela,
22:54a ideia de que é um tabuleiro,
22:57o livro é um tabuleiro,
22:58no qual aparecem os monumentos,
23:00porque o Joker e o Joker,
23:02ele é feito com monumentos ingleses, né?
23:04E tem a Rainha da Inglaterra de um lado,
23:07a Agatha Christie de outro,
23:08e o jogo é em cima dos monumentos.
23:11Só que nós não sabemos como é,
23:12porque o item que falta são as regras do jogo.
23:16Agora, eu não vou dar spoiler,
23:18mas o interessante é que no final,
23:20a gente descobre como é que ele se joga.
23:22Ou pelo menos alguém descobre, né?
23:24É, alguém descobre.
23:25Mas, poxa, eu estou maravilhado,
23:27porque realmente eu não tinha pensado nisso.
23:29Que bom que o Rio permite isso, né?
23:31Só enriquece a obra, legal.
23:33Permite, permite.
23:34A pergunta era como você...
23:36Mas você já...
23:36Como você pensou nesse jogo, né?
23:40Mas você falou que...
23:42Não pensou.
23:44Rapaz, não pensou.
23:45Não pensou.
23:46Não, não pensei.
23:48O Joker e o Joker surgiu.
23:50Eu não sei como realmente.
23:51Eu não me lembro como é que pintou essa ideia.
23:55Entendeu?
23:56Eu acho que a ideia pintou durante o processo de criação.
24:01No sentido de que eu precisava de um mote.
24:05Eu precisava de uma obra de arte.
24:09Só não ia dar.
24:09Existem duas obras de arte, né?
24:11Que são as duas obras do Antônio de Oliveira Bernardes.
24:17Estão em Évora, etc.
24:18E essas obras existem realmente.
24:20Sim, sim.
24:21E existe o Joker e o Joker.
24:23Então, eu falo de uma obra de arte e falo de um jogo de tabuleiro.
24:27Mas o jogo de tabuleiro é que é o grande chamariz.
24:31Surgiu, eu acho que, na necessidade de haver um outro item.
24:35Que eu não queria que fosse só uma obra de arte.
24:38Então, surge o jogo de tabuleiro e o nome veio do Chester Himes, que é o Diggery Pockery.
24:44E eu criei o Jokery Pockery.
24:46E o Joke, que é uma expressão ligada a riso, a piada, o Joke.
24:52J-O-K-E, aqui é Jokery.
24:55Mais ou menos por aí.
24:58É o Diggery Pockery.
25:00É, o livro do Chester Himes é Diggery Pockery.
25:02Mas é uma expressão atualizada do Jokery Pockery.
25:07Não sei, não sei.
25:09O Joke, eu não sei.
25:10Não sei.
25:10Não sei quem veio antes.
25:12Essa veio antes, século XIX e tal.
25:15E essa é mais recente.
25:16É Diggery Pockery.
25:20É, eu acho que é maravilhosa a interpretação da leitura.
25:25Eu estou passando aqui, cara.
25:26É uma leitora privilegiada.
25:27É uma leitora qualificada.
25:32Qualificada.
25:33É maravilhosa.
25:33Porque eu não sou leitor do meu livro.
25:34Eu não sou leitor.
25:36Eu escrevi, eu não li.
25:37Não li e nem quero ler.
25:40Eu estou tão envolvido com ele que eu não preciso ler.
25:44Mas assim, quando um leitor qualificado lê e percebe coisas que intencionalmente o autor não queria fazer,
25:50pô, isso só dá ao texto mais valor.
25:55E eu estou aqui maravilhado.
25:56Muito obrigado.
25:57Obrigado a vocês dois.
25:58Agora, sobre aquela sempre eterna pergunta sobre literatura policial,
26:03eu lembrei que Todorov falou em algum...
26:06Ah, na tipologia do romance policial, que quem quer embelezar o romance policial não faz romance policial,
26:16faz literatura.
26:17Faz literatura.
26:18E aí a gente volta à questão, né?
26:21Eu acho o seu romance muito cerebral e altamente artístico e literário.
26:27Até porque a gente estava falando ali, tem as pistas literárias e as pistas criminais.
26:32A experiência recheada de pistas literárias dos seus precursores, da sua biblioteca de referência.
26:38E agora com não só as cenas dos filmes e os precursores literários, mas também as pinturas.
26:46Tem até pintura de Caravaggio.
26:47Isso, tem o Caravaggio, parece.
26:48Que remete a uma enganação.
26:51Uma enganação.
26:52Uma sedução.
26:53Judite seduz o Olofernes, né?
26:57É.
26:57E cortaria a cabeça.
27:00Por uma boa causa.
27:01Gente, eu só tenho a agradecer a vocês.
27:05Porque tem mais coisa para falar?
27:07Não, o mais importante eu botei primeiro para a gente não poder...
27:11Gente, olha, muito obrigado.
27:12Olha só, eu estou aqui encantado em ter conversado com essas duas figuras aqui, Alfredo e Inês.
27:18Agradeço muito.
27:19Espero que vocês perdoem esse cabotinismo de eu usar o programa para falar de uma obra.
27:26Mas eu sempre pensei o seguinte, esse programa está aberto a todos os escritores e como eu sou um, ele
27:32também está aberto a mim.
27:33Certo?
27:34Na semana que vem a gente vai ter um novo convidado aqui.
27:36E não se esqueçam do lançamento do livro Jokery Pokery, quinta-feira, às 19h, no Shopping Jardins.
27:45Eu espero vocês lá.
27:47Você ouviu Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
27:54Tudo sobre literatura contemporânea.
27:56Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
28:03E não se esqueçam do lançamento do livro Jokery Pokery, quinta-feira, às 19h, no Shopping Jardins.

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