- há 3 semanas
Um papo sobre literatura policial, suas características, a comparação com outras vertentes literárias, os autores, os teóricos, e principalmente a relação desse gênero com a literatura erudita de J. L. Borges, o autor argentino.
Categoria
🗞
NotíciasTranscrição
00:01Começa agora Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:20Olá pessoal, tudo bem?
00:22Hoje, na edição de hoje do Vitrine Literária, é sempre bom lembrar que o Vitrine Literária está disponível a todas
00:29as pessoas.
00:30Pelo YouTube da Rede Vitória, pelo podcast.
00:35Então é só você acessar que você vai ter contato com o que se discute sobre literatura aqui no programa.
00:42Hoje, a gente vai falar de um tema que é muito querido a mim, é muito caro a mim, que
00:48é a literatura policial.
00:50Para muita gente, literatura policial é sub-literatura.
00:53Para outros, é literatura de qualidade, é literatura bem feita.
00:57Quando se pensa em literatura policial, a gente pensa, claro, em Sir Arthur Conan Doyle, que é o criador de
01:05Sherlock Holmes.
01:06Pensamos também na mais bem-sucedida escritora da história da humanidade, que é a Agatha Christie, que também fez literatura
01:14policial,
01:15que criou o grande Hercule Poirot, que é o detetive belga, que fez um belíssimo trabalho em vários livros.
01:22Bem, tanto Sherlock Holmes quanto Hercule Poirot, ou seja, tanto Arthur Conan Doyle quanto Agatha Christie, são figuras universais.
01:32Mas é claro que existe também a literatura policial que é mais ligada aos Estados Unidos e que nos influenciou
01:39diretamente.
01:40Com Raymond Chandler, com Dashiell Hammett, que são figuras muito importantes.
01:45Chester Himes, que é um autor ligado à alegritude.
01:49Bem, nós vamos conversar sobre literatura policial hoje com uma pessoa que é especialista em literatura policial,
01:57que escreveu um livro, um livro que está aqui na minha mão, que vocês podem ver.
02:02Claro que quem estiver nos assistindo pelo YouTube vai poder ver o livro.
02:07Quem estiver ouvindo o podcast vai ouvir o título.
02:11Borges, dois pontos, literatura policial e o Evangelho segundo Marcos.
02:17Essa figura que está aqui é a professora, mestra, está aqui, Inês Aguiar dos Santos Neves,
02:24querida amiga e uma figura que destrinchou um livro de minha autoria.
02:33Um livro chamado Histórias Curtas para Mariana M, que saiu em 2009.
02:38Foi adotado por Inês nas turmas dela da universidade.
02:40Eu estive lá batendo papo com todo mundo.
02:43E depois, quando o livro se esgotou, a Inês ficava me cobrando que ele joga.
02:46Quando é que é? Quando é que você vai fazer uma reedição?
02:48E, claro, a reedição saiu nesse ano com a nova edição, nova capa, mas com o mesmo conteúdo.
02:56Então, mas como a estrela do programa, não sou eu, e nem é Histórias Curtas para Mariana M,
03:01a estrela do programa é Inês, eu definei se apresentar rapidamente e já vou lançar para você uma pergunta, Inês.
03:11Literatura policial é subliteratura realmente?
03:14Ela é vista como algo mais fácil, mais simples, menos trabalhada intelectualmente?
03:23É subliteratura de verdade?
03:25Não, né? Eu acho que não.
03:28Borges acha que não, você acha que não, nós achamos que não.
03:32E até porque vem dessa inclinação do homem, desde sempre, ao enigma.
03:39Então, decifra-me ou devoro-te, né?
03:43Então, o homem sempre gostou de decifrar ou não decifrar enigmas e desde então, e eu acho que ela nasce
03:52daí, né?
03:52Até sob esse signo duplo do enigma e da imaginação lá em Pou, né?
03:59Você falou de...
04:00Ah, sim, sim, é verdade.
04:01É, deixando de lado é de cara no Pou, né?
04:03Você falou de...
04:04Que é o pai da literatura policial.
04:05É o pai da literatura policial.
04:06É, esqueci, foi falha minha.
04:07Falha minha.
04:08Apesar de não ter um volume, né?
04:10Foram só três contos, eu acho, de...
04:13Eu acho, não.
04:13É a Rua Morgue, né?
04:14A Rua Morgue, a Carta Roubada...
04:16A Carta Roubada...
04:17E Marie-Rogée.
04:19Ah, é, o Ministério de Marie-Rogée, é verdade.
04:20Todos os três são fantásticos e todos os três inauguram aquela fórmula que eu acho
04:27que é por isso que as pessoas tendem a julgar a literatura policial como uma baixa literatura,
04:34né?
04:34Porque é uma fórmula, você, né, sempre mais ou menos, principalmente a clássica, né,
04:40dessa vertente de Pou, Conan Doyle e Agatha Christie, vem com essa fórmula toda certinha.
04:47O resumo da investigação no final, né, os suspeitos que não são, né, não é,
04:55os suspeitos óbvios que depois não são suspeitos mais, é aquela fórmula toda.
05:00Mas, eu acho que é por causa disso, mas depois com o romance no ar e com o romance de
05:06suspense,
05:08essa fórmula de Pou vai assumindo, nossa, uma variação enorme, né?
05:15Ela vai mudando e vai enriquecendo, umas continuam sempre as mesmas, né, não vai te surpreender,
05:24mas a boa literatura policial, sem ser aquela, né, que cai nessa fórmula sem muita novidade,
05:32surpreende, eu acho que surpreende bastante.
05:35Se você estivesse diante de um público leigo que nunca leu literatura policial e dependesse do seu juízo
05:44sobre alguns autores policiais, quem você diria, leia esse porque é um autor importante, é um autor representativo,
05:54que autores policiais você encara como escritores de verdade?
06:00não necessariamente escritores policiais, escritores de verdade e o público leigo ou o público que nunca teve acesso
06:09à literatura policial, que autores você acha que deveriam ser lidos?
06:14Olha, eu gosto muito de Agatha Christie, eu acho que esses clássicos para o leigo é o que funciona melhor,
06:21depois, né, assim, o leigo padrão, aí você vai ver o interesse de cada um, né,
06:26eu como professora, você, a variedade tem um alcance melhor, né, mas eu sempre começo com o Paul,
06:33eu sempre começo com a Rua Morgue e eu acho fantástico, eu sempre imagino os leitores daquela época,
06:41porque hoje eu acho que é meio que está na mente das pessoas já, né, a Rua Morgue, o crime
06:46do quarto fechado,
06:47e, né, o, o, o, no final e tal.
06:52O desfecho da Rua Morgue me surpreendeu, mas eu confesso a você que eu esperava...
06:57Mais.
06:58Não, é difícil dizer, eu espero mais de Edgar Allan Poe, né?
07:01É.
07:01Complicado, né, dizer, eu esperava mais de Edgar Allan Poe.
07:04Eu esperava mais do desfecho, eu esperava mais do, do, do, do,
07:09que houvesse algo além do que aquela figura, daquele orangotango, né?
07:14Sim, orangotango é muito fácil, foi fácil resolver.
07:17Eu não sei se foi fácil, mas...
07:19Mas eu acho o processo muito bom, né, porque, exatamente, nasce o Dupan ali, nasce o investigador.
07:26Isso, isso.
07:26E aquelas falácias todas, aquelas vozes, né, tudo, eu acho, o processo leva ao nascimento dessa literatura
07:36sob esse duplo signo da imaginação e da lógica, né, e do enigma,
07:41porque ele vê o que as pessoas não veem, né, o óbvio é descartado, mas não, por ele, né,
07:50porque é uma pessoa diferente, é um excêntrico, né, então é sempre assim, é aquele ângulo que a maioria não
07:56vê.
07:57Ele vê porque é uma, né, ele caminha à noite, ele deduz, ele gosta de, desse tipo de atividade intelectual.
08:07E que, como eu acho que Chandler que disse, né, que não há atividade nem aventura mais emocionante do que
08:14aquela do intelecto.
08:15E é isso que eu acho que chama, né, o leitor, qualquer, as pessoas ainda gostam de literatura,
08:23seja no filme, né, que hoje, ou nas férias, que hoje a gente tem que falar, né, ou no livro.
08:30O cinema, o cinema, ele utilizou muito, né, tanto que o Dashiell Hamilton foi roteirista,
08:36o Raymond Chandler também foi roteirista, né, Chester Himes foi roteirista,
08:40quer dizer, o cinema, ele utilizou muito, mas você foi muito mais fundo.
08:45É aí que entra a pensadora, a professora, porque você escreveu um livro que é fascinante,
08:54vou mostrar aqui de novo, pra vocês, que é fascinante esse livro, que está, inclusive, é pela editora Cândida, né?
09:00É.
09:00Ou seja, está em catálogo.
09:01Tá.
09:02Pode ser encontrado no catálogo da editora Cândida.
09:04Que é você pegar um autor mundialmente famoso, mundialmente, que tem apenas um livro policial,
09:13em parceria com Adolfo Bioca Salles, né?
09:16São as crônicas de Bustos Domec, que quando eu li, eu fiquei sabendo de uma coisa sensacional,
09:22porque o Bustos Domec são os nomes dos avôs deles, né?
09:26Um era Bustos, o outro era Domec, aí eles juntaram, e você pegou esse autor, que é um erudito,
09:33o Borges conseguia, né, o argentino Borges conseguia juntar o erudito com uma fala mais popular,
09:41mas era um erudito, e você pega Borges, você pega o Evangelho segundo Marcos e a literatura
09:48policial.
09:49Eu queria muito que você falasse sobre esse, esse menage, sobre esse, esse, esse triçal
09:58que você criou aí, né?
09:59Borges, literatura policial e Evangelho.
10:03Como é que você fez isso, Inês?
10:04É, bom, vou tentar lembrar.
10:06Ah, é, tá, tá.
10:07Fale só para você lembrar, então.
10:09É, que eu tinha Borges, e foi, né, no mestrado e tal, e eu quis falar de Walter Benjamin,
10:18mas eu acabei ficando reprovada na entrevista, porque eu não conhecia Walter Benjamin bem,
10:24então eu queria estudá-lo, né?
10:26Aí eu acho que eu falei, ah, lendo Borges, eu falei, ah, vou para a literatura, a gente
10:33lendo o Evangelho segundo Marcos, eu lembrei daquele romance de Hillary Quinn, aí veio a ideia
10:38do texto encarnado, né, que era do, daquela questão de se, né, um texto virar, ser posto
10:46em prática, né, um texto virar ação, virar carne, né, o verbo, e aí, enfim, quando
10:52a gente está estudando, vão surgindo as coisas e veio o GSS Van Dyne, que também tinha
10:58esse verbo encarnado, essa transformação, essa transmutação de texto em ação, né,
11:05dentro da história, claro.
11:06Sim.
11:07É uma história do, né, aquela que o menino vê na biblioteca do avô, uns anais de crime
11:15e começa a executar a família, né, copiando, e o de Hillary Quinn também, assim, o de Hillary
11:22Quinn é, acho que é o filho mais novo, acho que é o neto também, que acha um esboço,
11:30um rascunho de um livro policial, de literatura policial, só que ele ainda não tinha tirado
11:35os nomes, então os nomes são os nomes da família, e aí ele também usa aquilo e transforma.
11:41E o de Borges, né, é, também eles ficam presos, né, depois de uma enxurrada, e é Borges,
11:49em três páginas, ele constrói um mistério, não é nem mistério, mas é uma, é, um enigma,
11:57né, e aí o estudante de medicina, lendo a Bíblia, lendo a Bíblia, daí o verbo encarnado,
12:07os tropeiros que estão lá na casa, nessa estância que ele fica preso, que ele não
12:11conhece, está esperando um primo e tal, eles ficam tão impressionados com aquele texto
12:16da, o evangelho, né, que eles pedem para ler de novo, de novo, de novo, aí no final
12:22eles acham que tem que crucificar o cara e crucificam o cara, então também é um texto
12:26que se faz carne, e aí cruzou, né, fez, deu para fazer a triangulação, e aí a gente,
12:34eu fui descobrindo que Borges era, não só um leitor, mas um grande admirador, né, e não
12:42só um escritor, mas um grande admirador, ele fazia aquelas resenhas, né, de vários
12:49autores policiais, agora eu não vou me lembrar, mas, é, e aí juntou, deu tudo, foi tudo
12:57fechando, e foi, né, fomos fazendo a...
13:02Você, você coloca no seu livro uma noção com a qual eu concordo absolutamente, mas o
13:10que eu penso sobre isso é irrelevante, eu quero saber o que você pensa, você coloca
13:14a ideia de que, de que um texto gera outro, né, a ideia de que não há criação, o que
13:22existe é uma reprodução, o que existe é uma imitação, é um texto dando origem a
13:29outro. É, você fala isso, você fala isso, sobre o Palinho do Sexto, isso. Você, você
13:37crê que a literatura policial tem esse vigor literário suficiente para gerar outro livro
13:45policial? Sim, sim, acho que sim, assim, quem fala isso é Borges, se eu bem me lembro,
13:53né, assim, dessa transformação de texto. Sim, eu quero ouvir o que você tem a dizer sobre
13:56isso. Mas eu acho que sim, e ainda mais hoje, que a gente está nesse intermediático,
14:03né, a gente transforma agora, não só em um texto filmico, né, num texto digital, num
14:13texto, num meme, sabe, eu acho que hoje a amplitude é maior, você pode transformar...
14:21Outro dia, eu acho que eu passei por um filme que juntava, mas tem uns que sim, eu acho
14:26over, né, mas eu acho que sim, que ela cabe ainda várias releituras de uma mesma história,
14:36né, clássica ou não, eu acho que essas releituras enriquecem, algumas enriquecem, algumas
14:44são meio piada, né, meio, enfim. Mas eu acredito nisso, assim.
14:54Eu acho que é o Van Dyne que fala que o fundamental numa história policial é você dar dicas
15:01para o leitor. Você vai dando dicas para ele.
15:05Ele tem que ser justo.
15:06É, mas você tem que ser justo. Você não pode enganar o leitor. Você não pode, né,
15:11nem subtrair uma informação, nem no final, na hora do desfecho, colocar uma informação
15:17que você não tinha dado. Você não pode fazer isso com o leitor. Esse jogo, me parece
15:23que a literatura policial, ela só funciona com essa cumplicidade do leitor.
15:28Sim.
15:29Não é isso?
15:29Sim.
15:29Ou seja, é um diferencial já em relação a uma literatura mais filosófica, uma literatura
15:35histórica.
15:36Sim.
15:36Como é que você vê isso aí? Essa obrigação de o leitor participar.
15:40Ah, e outra coisa.
15:41Ah.
15:43Nos anos 80, eu só lembrar aqui, estávamos eu, seu pai e Zé Carlos de Oliveira, na UFIS,
15:49quando Zé Carlos de Oliveira, o grande coronista, né, Zé Carlos de Oliveira, e seu pai
15:53aqui, que o ciceroneava, embora Zé Carlos de Oliveira fosse capixaba.
15:58É, e eu me lembro que a gente conversando sobre literatura policial, seu pai falando
16:04muito de Graham Greene, né, e eu não vou esquecer isso, e o Zé Carlos de Oliveira
16:09falou, só existe um romance policial que não foi escrito ainda, aquele em que o leitor
16:14é o culpado.
16:16É, que é uma frase ótima, né?
16:19É, ótimo.
16:19Bem a labor.
16:20É, bem a labor.
16:21Então, a minha pergunta para você é, o leitor é um cúmplice?
16:25Sim, sim, eu acho que sim, porque dependendo de como a narrativa vai, né, tô tentando
16:32lembrar se ainda o leitor não foi o culpado.
16:36É, eu não conheço, eu não conheço.
16:37Mas já foram, né, até o...
16:38Eu conheço em que o narrador é o culpado.
16:40Que é Larry Queen, não é?
16:41Debson Jorge Afonso, Debson, no começo dos anos 80, escreveu um conto chamado A Festa,
16:51alguma coisa assim, não me lembro, em que no final o Calizeu já sei quem foi o culpado.
16:58O culpado é o contista.
17:00Aí Debson termina assim, eu termino o conto.
17:03Muito bom.
17:04Muito bom.
17:05E o Debson nos deixou há pouco tempo, né?
17:07Faleceu há pouco tempo.
17:08Agora, Larry Queen também tem um...
17:11Tem esse, eu não conheço.
17:11Eu acho um dos últimos, eu não me lembro o nome, mas é...
17:15Eu acho que é o último de Philo Vance, não, qual que é...
17:19Enfim, mas o leitor, eu acho que ele tem a participação ativa, eu acho que ele é enganado,
17:25às vezes você mesmo faz isso em Mariana M, você engana o leitor, né, mas acho que
17:31esse logro faz parte do jogo ficcional, eu avisava sempre para os meus alunos, faz parte
17:41naquele prefácio, né, que você fala, não é história de amor, não é história de
17:46amor, não é verdade, é.
17:47Aí eu falei, não acreditem nesse narrador, nem nesse autor.
17:51Não é o autor, é o narrador, ele que é culpado, né?
17:54O mentiroso é ele.
17:55Então, tudo faz parte desse jogo, dessa mistificação, desse jogo ficcional, e o leitor, ele aceita,
18:05né, ele aceita fazer parte disso e muitas vezes ele vai ser ludibriado, mas ele tem
18:10que ficar muito atento.
18:12O Van Dyne, acho que foi o que mais escreveu em termos de regras, né?
18:15É, ele escreve regras, né?
18:17Eu, inclusive, cito, Mariana M, eu cito as regras, né?
18:21E são regras interessantíssimas, né?
18:22Você não pode usar bola de cristal, não pode usar...
18:25Não pode ser essa pessoa, não pode ser aquela.
18:27Você não pode ter um monte de assassino, um monte de vítimas.
18:33O ideal você tem uma vítima só, né?
18:35Bem interessante.
18:36Não pode ter amorzinho, né?
18:37E depois o Noir vai fazer diferente.
18:42Mas ele fala várias regras e ele, né, quer que seja um jogo justo para o leitor também.
18:49Mas o discurso, você sabe como é que é, então, no começo, pelo menos, a gente tem...
18:56A gente não, né?
18:57O autor vai levantar suspeitos, né?
19:01Que depois, evidentes, quase óbvios, mas que depois vão cair ou não, né?
19:10Mas essa é a arte, eu acho, de você, né, acender algumas partes e depois ir mostrando que, né, outras
19:21partes.
19:22E o leitor, o leitor já acostumado, ele já vai saber que aquela, aquele início, né, daquelas evidências circunstanciais, já
19:31vai, né, passar o...
19:33Eu não sei se você leu o Fomovolat.
19:35Li?
19:36Leu o Fomovolat, aquele ali é, assumidamente, porque a gente não vai conversar sobre ele aqui, inclusive.
19:42Mas o que é um bom texto policial?
19:45O que um bom texto policial tem?
19:47Ele tem um bom detetive?
19:48É um detetive intelectual?
19:50É um detetive mais popular?
19:52É um detetive que fala a linguagem, uma linguagem mais seca, mais simples?
19:58É uma morte?
20:00É uma morte?
20:01É um crime?
20:02O que é um bom texto policial?
20:04Olha, eu gosto da coisa amarradinha.
20:07Eu gostava de Agatha Christie, Agatha Christie pelos ambientes, né, porque ela viajava muito,
20:14era casada com um arqueólogo, eu acho, né, então no Egito era muito legal, ela colocava um...
20:20É o segundo marido dela, o primeiro era da Força Aérea, é o segundo marido dela, né?
20:24Então eu gostava muito dessa imagem que ela construía, dessas imagens, né, desses países distantes que ela construía.
20:33Mas eu acho que a engrenagem, né, o enigma, o processo, como eu te falei, o Paul, né, aquela coisa
20:41do...
20:41Ah, eles estão falando, um falava, né, então acho que isso tudo, a atividade do intelecto é o que tem
20:49que ser estimulado, eu acho.
20:51Porque é o que mais me interessa, né, como que ele vai destrinchar isso para chegar lá e, ah, é
20:57um orangotango?
20:58Ok, mas faz todo sentido ser um orangotango.
21:01É, é verdade.
21:02Né, porque ele, uma voz incompreensível, né, o francês achava que era espanhol, o espanhol achava que ninguém se entendia
21:11ali,
21:12a questão do alto, do quarto fechado, da violência toda, então tudo casa ali bem.
21:19Ah, era um orangotango, ah, pô...
21:21Mas tinha que ser.
21:22É, mas tinha que ser, não poderia ser outra pessoa, outra coisa ali, né, e o navio, e o jornal,
21:29e tudo,
21:29então todos, são vários pedacinhos, é um quebra-cabeça, que vão se encaixando e eu acho que eu gosto assim.
21:38Mas se você tivesse de escolher a linguagem, você pegaria a linguagem de Agatha Christie ou a linguagem de...
21:44Ah, tá.
21:44Deschel Hemet, por exemplo?
21:45Sei.
21:46Que são linguagens bem diferentes, né?
21:48Diferentes, é.
21:49Eu acho que, é, hoje em dia, hoje eu leio um livro contemporâneo, um livro mais antigo, você sente uma
21:57diferença, né?
21:58Então, o contemporâneo, poético ou não, é mais fácil de ler.
22:04E um, um, do século passado, você tem que se, né, depois de umas dez páginas, você...
22:12Se localiza, né?
22:13É, mas eu gosto, eu gosto dessa dicção diferente.
22:18Europeia ou norte-americana?
22:19Que também, também tem essa diferença, né?
22:21Tem, tem.
22:22Impressionante como é que rouba uma polícia.
22:23Você já leu, tem um livro, policial não, mas uma época, tinha uma autora aqui, filha de Lílian, Carmen Filgueiras,
22:33ela lançou um livro, Réu de Janeiro, que é policial.
22:38E ela foi lá...
22:38Não, não conheço esse livro.
22:39Pois, então, muito bom.
22:41E aí, ela foi lá falar do Réu de Janeiro, aí eu falei do Réu de Janeiro e comparei com
22:46a Baixa de Matias, de Azambuja, Suzano.
22:51Sim.
22:52É 1800, é quase junto com a Rua Morgue, é 1850, alguma coisa.
22:58E, é claro...
22:59Existe um eco aí?
23:01Existe, existe, porque é uma investigação.
23:03E foi intencional?
23:05O quê?
23:07Ela se baseou nisso?
23:08Não, não, não.
23:10Mas eu fui buscar lá, porque eu tinha que falar alguma coisa, aí surgiu esse...
23:15A Baixa de Matias, e é um título enorme, o vice-rei, lá, lá, lá, lá, lá, lá, romance histórico
23:23jurídico.
23:24Então, há uma investigação, não havia instituição policial em 1856, sei lá, como já havia nos Estados Unidos, em 1841,
23:33mas aqui não havia, mas havia um juiz.
23:35A investigação é feita pelas testemunhas, há os suspeitos ilegítimos, que, inclusive, há até as vítimas que não morreram, sabe?
23:47Então, é muito, é muito bom.
23:48E a linguagem é uma linguagem que eu saborei, essa linguagem divergente, né, da comum, que a gente...
23:56Então, é de 1800 e, sei lá, blau, mas é interessante, é saborosa, é divertida, e o livro é, né,
24:04é outra realidade, outro pensamento, mas, ainda assim, é uma investigação.
24:09Maravilha, maravilha.
24:11Inês, pasme, nosso tempo acabou.
24:13Ah, sobrevivi.
24:14Nosso tempo acabou, sobrevivemos.
24:16Olha só, só pra terminar, quem quiser adquirir o livro Borges, dois pontos, Literatura Policial e o Evangelho segundo Marcos,
24:25é só buscar no site da editora Cândida, www.loja.editoracândida.com.br, e lá você vai ter acesso a
24:37esse livro aqui, e a outros livros policiais, inclusive, Histórias Curtas para Mariana M e Fama Volat, que são deste
24:44que vos fala.
24:46Gente, olha, Inês, muito obrigado, querida, muito obrigado, muito obrigado, muito obrigado, valeu mesmo, espero que você volte, para a
24:52gente conversar sobre literatura policial do Espírito Santo.
24:56Isso, isso.
24:57Beleza?
24:58Gente, olha, foi um grande prazer, valeu, querida, valeu quem nos assistiu, quem nos ouviu, um grande abraço, até a
25:05próxima semana.
25:07Você ouviu Vitrine Literária, com professor e escritor Francisco Grijó, tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades
25:21e bate-papo com autores e editores.
25:23Transcrição e Legendas por Quintena Coelho