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  • há 3 semanas
Um papo sobre crítica, papel do escritor, Academia de Letras e literatura infantil com Francisco Aurélio Ribeiro, professor, autor e crítico literário.

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00:01Começa agora, Vitrine Literária, com professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó, aqui pela Rede Vitória, podcast, YouTube.
00:29Bem, hoje eu vou direto para o entrevistado, vou para o nosso convidado, que foi meu professor na Universidade Federal
00:37do Espírito Santo.
00:38É uma figura representativa em termos literários e em termos críticos, ou seja, de crítica literária, algo que falta muito
00:48ao Espírito Santo.
00:49Nós não temos mais grandes críticos, aliás, eu diria até que nós não temos mais críticos literários no Espírito Santo.
00:57Nem em jornal, nem na academia, ou seja, está faltando realmente a crítica.
01:02A crítica é importante? Eu acho que sim, é o que nós vamos discutir hoje.
01:06Mas quem é essa figura, Grijó?
01:08Essa figura se chama Francisco Aurélio Ribeiro, que é membro da Academia Espírito Santo Tense de Letras, foi presidente da
01:14academia,
01:16professor aposentado da Universidade Federal do Espírito Santo, professor de teoria literária, professor de literatura brasileira,
01:22escritor prolífico, cronista, contista, só não escreveu romance, acho que você nunca escreveu romance, né?
01:28Não, romance não.
01:28E o Chico Aurélio também escreveu para crianças.
01:32É um autor que tem um lugar consagrado na literatura infantil e na literatura infantil-juvenil.
01:40Então hoje a gente vai conversar com ele, mas eu vou começar a falar justamente sobre a questão da crítica.
01:46Os irmãos Campos diziam que crítica era metalinguagem, ou seja, escrever sobre uma determinada obra é você fazer metalinguagem e
01:55eu concordo absolutamente.
01:57A questão que passa é, quem ainda tem disposição para isso?
02:02Chico Aurélio, nos anos 80, nos anos 1980, Chico Aurélio lançou um livro que foi, que causou muito furor dentro
02:10da academia e também fora dela,
02:12chamado Estudos Literários sobre Literatura Capixaba.
02:17Nesse livro, inclusive, eu sou citado e eu gostei muito do que ele falou sobre mim, porque o Chico Aurélio
02:23foi de uma honestidade muito grande,
02:26eu tinha lançado apenas um livro e tinha aquela natural arrogância dos escritores iniciantes.
02:33E Chico deixou isso claro para mim, nesse livro, dizendo,
02:37Grijó tem um grande futuro se a arrogância da juventude não atrapalhar.
02:41Eu nunca esqueci isso porque foi muito importante ler isso aí,
02:47vindo justamente de uma figura que tinha uma bagagem cultural para poder fazer essa afirmação.
02:54Eu estou aqui com o Chico Aurélio e Chico, eu vou começar conversando com você, justamente, diretamente sobre isso.
03:00Você escreveu sobre crítica literária, você fez crítica literária arguta, inteligente,
03:06para leitores inteligentes, sobre escritores que você considerava importantes, mas você parou com isso.
03:13A questão é, por que você não continua essa ideia?
03:18Grijó, há vários fatores.
03:20Em primeiro lugar, a crítica, ela exige muito.
03:23Ela exige muito conhecimento.
03:25Porque você tem que conhecer não só a obra do autor, como você tem que conhecer uma teoria pertinente àquela
03:31obra.
03:31Porque, na verdade, cada obra te induz a uma leitura, a um tipo de leitura.
03:37Então, eu, na verdade, eu não parei definitivamente com a crítica,
03:40porque eu continuo muito fazendo o prefácio de livro, que as pessoas me pedem,
03:47mas eu só faço isso hoje quando eu tenho interesse em fazer.
03:51Porque não dá mais para você fazer um prefácio de um livro, ou uma crítica de um livro,
03:56de um escritor iniciante, por exemplo, e falar o que eu falei com você, hoje,
04:01sem que eu não seja colocado escanteio.
04:04Ou, como é que se diz hoje, é quando cancelado.
04:07É cancelado.
04:08Sem que eu seja cancelado.
04:10Entendeu?
04:10Porque hoje as pessoas só querem ouvir elogios.
04:13Essa rede social acabou criando um culto do eu, eu, eu, que é uma coisa terrível.
04:21Então, eu acho difícil hoje fazer até crítica literária por isso.
04:26Então, o que eu vejo é muito compadrio.
04:29É guetos se auto-elogiando.
04:33E isso não é pertinente a uma crítica, né?
04:36Pelo menos a crítica no sentido que eu entendo.
04:38A gente estudava muito.
04:40Você começava com Aristóteles e tudo, para poder analisar um livro.
04:44Então, não vejo muito espaço para isso hoje em dia, não.
04:48Não parei totalmente.
04:49Mas não é uma coisa hoje mais que me faz tomar muito meu tempo.
04:53É, mas aí que vem uma pergunta.
04:55Uma pergunta, eu afirmo e considero uma pergunta que vai me satisfazer muito particularmente.
05:04Mas você não acha que, justamente por isso, é que uma figura como você, com toda essa bagagem que você
05:11tem,
05:11e com todo o prestígio que você tem na crítica literária,
05:15não seria interessante você continuar com isso?
05:18Justamente para combater essa ideia desse compadrio?
05:20Pois é, Grijó, mas eu vejo, por exemplo, eu fui um dos fundadores do programa de pós-graduação em Letras,
05:26em 1994.
05:28Vai fazer 30 anos agora que nós criamos o programa de pós-graduação.
05:32Eu fui orientando da Regina Zilberman.
05:36E a Regina, na época, era representante da Letras na Capes,
05:40ela me chamou no dia da minha defesa e falou,
05:43Chico, você tem uma responsabilidade muito grande, o Espírito Santo é o único estado da região sudeste
05:49que não tem programa de pós-graduação em Letras.
05:52Falei, o quê?
05:53Ela falou, é, você tem que voltar para lá e criar esse programa, isso foi em 1990.
05:59Nas universidades públicas, né?
06:00Públicas, públicas.
06:02Mas o Espírito Santo só tem universidade pública.
06:05Não, mas no sudeste...
06:06Não, ela falou, não tinha, ou seja, o Espírito Santo não tinha programa de pós-graduação em Letras.
06:11A questão era essa.
06:13E aí eu vim empenhado nisso.
06:14Mas nós tivemos muito problema no departamento,
06:17porque o nosso departamento era muito mais dominado pela gramática do que pela literatura.
06:22Certo, certo.
06:22Entendeu?
06:23Havia figuras como o Zé Augusto, o Carlos Laé, que eram figuras dominantes.
06:27Vera Marina, Bom Jardim, que eram...
06:28Vera Marina, claro.
06:29Todas ligadas à gramática, ao estudo linguístico da língua.
06:34E nós, você sabe muito bem que nós, da área de letra, ou a gente é gramatiqueiro, ou é literatureiro.
06:41Então, não é...
06:43Ninguém é...
06:45Ou seja, a gente se divide.
06:48Bom, o que eu observo agora, nesses 30 anos do programa de pós-graduação em Letras,
06:54é que o programa não formou críticos.
06:58Então, observem, então eu vejo as dissertações e as teses que são defendidas,
07:04quando, só pelo título, eu não tenho vontade nem de ler.
07:07Porque a pessoa se aprofunda tanto sobre determinadas coisas,
07:12que eu confesso que eu vejo muito, assim, aquilo que Foucault chamava de niilismo de cátedra.
07:19Sabe, me parece que é uma muita teoria sobre nada.
07:24Eu me lembro, Chico, eu me lembro...
07:26Era tão importante o seu trabalho,
07:28que eu me lembro que você foi o primeiro a estudar a minha geração.
07:33Foi.
07:33Eu, Paulo Sodré, Valdo Mota, aquela rapaziada,
07:36que estava começando a escrever,
07:38e que precisava de um olhar sobre ela,
07:41justamente para saber se a gente devia ir adiante ou não.
07:44E você, eu me lembro de várias vezes, você citando,
07:48que aquela geração, a geração que você chamava de geração de 80,
07:52aliás, é um termo seu,
07:53que foi uma grande geração,
07:56que teve Denis Gomes como uma figura, uma mentora e assim por diante.
08:00Você não vê isso hoje?
08:02Não.
08:02Você não vê um grupo de escritores que hoje pode brilhar mais tarde?
08:08O Grijó, o que eu vejo é o seguinte,
08:10aquela geração, ela teve um sentido político muito grande,
08:15porque foi a geração da abertura.
08:17É, é verdade.
08:1879 acabou a censura.
08:20E 80 começou aquele movimento da democracia,
08:24que eles chamavam de ampla e gradual, né?
08:27Lembra?
08:28Tinha uns termos assim que os militares usavam.
08:30Então, aquela geração, a geração de 80,
08:33ela marcou.
08:34Para mim, ela foi definitiva aqui no Estado,
08:38porque ela foi um marco não só literário,
08:42não só de criação literária,
08:45mas também um marco político.
08:46E teve uma série, vamos dizer assim, de fatores.
08:49A própria editora da universidade,
08:52o momento de crescimento que a universidade passou naquilo tudo.
08:57A partir dos anos 90, a gente entra num processo de crise.
09:01Essa crise começa exatamente em 90 com o Collor,
09:05quer dizer, o auge dessa crise foi com aquela desgraça daquele governo do Collor,
09:10depois daquela outra desgraça que foi o governo do Sarney.
09:13Então, tudo isso influenciou muito,
09:15não só a questão cultural,
09:17como também a questão política, vamos dizer assim.
09:20E aí, depois, vem a internet.
09:22A internet,
09:24ao mesmo tempo que ela é uma grande aliada da juventude hoje,
09:28por outro lado, ela matou muito a literatura.
09:32Ela matou porque hoje as pessoas,
09:34elas têm seus blogs,
09:36elas têm seus sites, né?
09:38E curtem.
09:40E aí, aquilo, não existe mais uma geração.
09:43Existem guetos.
09:45Existem grupos.
09:46Você não concorda que a internet difunde mais do que o livro?
09:50Olha, eu acredito que ela difunde a obvialidade.
09:56Ela difunde a superfície.
10:00Eu não acredito que a internet contribua para aprofundar nada.
10:05Por sinal, o que eu observo é que as pessoas estão lendo muito pouco coisas que realmente deveriam ler.
10:12Elas leem muito coisas óbvias.
10:15E eu acho que perde muito tempo.
10:18Um livro demanda muito tempo.
10:20Sim.
10:20Eu li essa semana,
10:23A Guerra Não Tem Rosto de Mulher,
10:25daquela biela russa que ganhou o Nobel de Literatura em 2015.
10:29Eu não lembro o nome.
10:29Esses nomes russos são complicados.
10:31Eu fiquei uma semana lendo o livro.
10:34Lembra-se em estado de transe.
10:37Porque o que ela descreve,
10:38eu nunca tinha lido na minha vida.
10:39A história da guerra contada do ponto de vista da mulher.
10:43A mulher na linha de frente.
10:44A gente sempre viu a guerra como uma coisa masculina.
10:48Então, eu acredito, Grijó,
10:50que para você entrar na literatura,
10:54você tem que ter tempo.
10:56Você tem que se dedicar a ela.
11:00E não é isso que eu vejo nos dias atuais.
11:04Inclusive, vejo até em relação às crianças.
11:07E é isso que te estimula você a fazer crítica?
11:09Muito.
11:10Muito.
11:11Me estimula muito.
11:12Olha, Grijó, para você ter uma ideia,
11:15nós não temos mais livrarias em Vitória
11:17que vendem autor capixaba.
11:19Não tem.
11:20Nós não temos mais livrarias, né?
11:21Não, vamos dizer, as que sobraram,
11:23as que sobraram, as livrarias de shopping,
11:25elas não vendem autor capixaba.
11:26Então, nós não temos livraria.
11:28Os municípios, todos os municípios,
11:31tinham biblioteca pública.
11:32Não tem mais.
11:34Nem todos, os 78 municípios capixabos tinham.
11:37Não tem mais.
11:38Então, estão fechando livrarias,
11:39fechando bibliotecas,
11:40as bibliotecas estão vazias.
11:42Eu tenho ido à biblioteca pública estadual
11:44para pesquisar.
11:46É um deserto.
11:49Então, a coisa migrou, né?
11:52Migrou da palavra impressa
11:54para esse tipo de comunicação hoje.
11:57Todo mundo grudado no celular o tempo todo.
12:00Todo mundo repassando.
12:01Mas é tudo muito na superfície.
12:05Chico, olha só, um dia desses, nós conversando,
12:07eu, você, o Adilson, estava também nesse papo,
12:10o Álvaro, mesmo que fosse uma conversa virtual,
12:13mas nós chegamos a uma discussão que eu falei,
12:16eu quero que o Chico vá ao programa,
12:18para a gente poder abordar isso.
12:19O que é?
12:20O que nós queremos?
12:22O que a academia quer?
12:24O que a academia Espírito Santo de Letras
12:28faz de positivo
12:30para que a gente possa difundir o autor Capixaba
12:34e fazer o autor Capixaba chegar
12:36à cabeceira do leitor?
12:39Eu acho muito difícil.
12:41Até pela experiência que eu tive,
12:43até por esse contexto que a gente vive.
12:46A academia, ela não se moderniza,
12:49ela não está ligada a esse mundo
12:51que a gente está vivendo hoje.
12:53e você sabe, é uma entidade paupérrima
12:56e cada vez, eu acho mais difícil
13:00fazer com que o que a gente faz
13:03chegue a esse público de hoje em dia,
13:05a esse leitor de hoje em dia.
13:07Então, eu confesso para você que eu não,
13:10eu não sei, eu estou chegando,
13:11a velhice eu acho que não cheguei ainda,
13:13porque eu estou com 67,
13:14eu acho que a velhice começa mesmo com 70.
13:17Alguns até conseguem estender mais,
13:19mas eu já estou me preparando
13:21para entrar nessa velhice,
13:22que é essa parte de desalento.
13:23Mas eu já estou bastante desalentado
13:26com o que eu vejo, com o mundo que eu vivo.
13:28Eu sempre acreditei muito na literatura,
13:31no poder transformador do mundo
13:34através da leitura,
13:36da responsabilidade social que o escritor tem.
13:40Eu sou de uma geração
13:42que foi criada lendo esses autores.
13:46Eu sou uma geração do Sartre,
13:48Então, é uma geração que falava o tempo todo
13:51em engajamento.
13:53É, mas você faz uma coisa que...
13:55Ah, desculpe, desculpe.
13:55Não, só para concluir.
13:56Então, o que eu vejo hoje
13:58é que a academia,
13:59ela está tão estilhaçada
14:02como o mundo que a gente vive.
14:03A gente não consegue mais ser um bloco homogêneo,
14:07não, a gente precisa saber
14:08como é que nós estamos.
14:09E outra coisa,
14:11e uma subjetividade muito grande, sabe?
14:15Muito eu, eu, eu,
14:16muito narcisismo,
14:18não só na academia,
14:19mas no mundo que a gente está vivendo.
14:21Por sinal, é o próximo tema da minha crônica,
14:24eu continuo escrevendo,
14:25crônicas no digital.
14:28No próprio tema, eu quero falar disso,
14:30desse mundo extremamente narcísico que a gente vive.
14:33É interessante que você se diz desalentado,
14:38você se diz decepcionado,
14:40mas você continua produzindo biografias literárias
14:46cujo objetivo é justamente
14:51informar sobre algumas figuras.
14:53Eu queria que você mostrasse aqui, Chico, olha só.
14:55Olha, é aquilo que eu digo.
14:56Deixa eu tentar só mostrar.
14:56Eu ainda não entrei,
14:58essa, por exemplo,
14:59essa biografia do Saúde Navarro,
15:01eu fiz durante a pandemia.
15:02ninguém sabia mais quem foi Saúde Navarro,
15:05o nome de uma rua na Praia do Canto.
15:07Eu vou confessar.
15:08Eu vou confessar.
15:08Aqui está a biografia.
15:10Eu vou confessar uma coisa.
15:11Quando eu fui eleito para a Academia de Espírito de Santos e de Letras,
15:15eu fiquei com uma determinada cadeira,
15:18como todos ficam.
15:19E um dos membros anteriores dessa cadeira
15:23era o Saúde Navarro,
15:24que eu fui pesquisar,
15:25e é um pseudônimo.
15:27É um pseudônimo.
15:27É um pseudônimo.
15:28E é o nome de uma rua,
15:29onde fica, inclusive, a minha barbearia.
15:31Álvaro Henrique de Souza.
15:32Exato.
15:33Essa é a minha questão.
15:35Você tem um desalento,
15:37mas, contraditoriamente,
15:39você apresenta ao leitor
15:40figuras que são importantes para a literatura.
15:43Com certeza.
15:43Esse seu projeto de resgate,
15:45esse seu projeto
15:48mostra um Francisco Aurélio
15:50que ainda tem esperança.
15:52Sim.
15:53Não, eu não perdi a esperança,
15:54porque eu acho que eu só vou perder na hora que eu estiver assim.
15:57Descansou.
15:58Aí, sim,
15:58com a de baixo,
15:59uma lápide.
16:01Descansou.
16:02Porque, realmente,
16:03aquilo que eu disse para você,
16:04a velhice tem muito a ver com esse desalento.
16:08Eu não sou um...
16:10Estou me preparando para ser um velho bobo.
16:13Conforme eu vi,
16:13tinha um colega escrevendo nas redes sociais,
16:15que a academia está criando velhos tolos.
16:17Eu não quero ser um velho tolo.
16:19E eu acho que uma das maneiras
16:21que a gente tem de não ser um velho tolo
16:23é exatamente isso,
16:24tentar entender até o que nós somos.
16:26Então, esse projeto de resgate
16:28de pioneiros da academia,
16:32me dá muita satisfação fazer isso.
16:35Então, quando eu escrevi sobre o professor Amâncio Pereira,
16:39eu descobri que o professor Amâncio Pereira
16:41foi o maior escritor da época dele.
16:44E era o primeiro escritor negro do Espírito Santo.
16:47E ninguém falava disso.
16:49Pelo contrário,
16:50a própria família que leva o sobrenome dele
16:52foi branqueando com o tempo,
16:54foi embranquecendo,
16:56e, de uma certa maneira,
16:57apagando essa negritude do...
17:00Mas os filhos dele,
17:02que é Antônio Benedito Amâncio Pereira...
17:04Antônio Benedito é neto.
17:05É neto dele.
17:06É, que foi meu professor.
17:07O Ariolos, que é irmão dele.
17:08Os dois foram meus professores do curso de direito.
17:10Mas são netos dele.
17:12É, eram professores do curso de direito
17:14e eram pretos.
17:14Eram pretos.
17:16Interessante isso.
17:17E nunca tentaram se esconder,
17:19nunca tentaram se branquear.
17:22É, já acerta.
17:23Mas aí o professor Amâncio Pereira,
17:25ele viveu na mesma época que o Machado de Assis.
17:27Eu comparo ao Machado de Assis Capixaba,
17:31pelo...
17:31Sim, pela importância...
17:33Inclusive, já tem um artigo
17:34que fala sobre a questão do humor
17:36em Amâncio Pereira,
17:38enquanto que o Machado...
17:39Eu acho que era a maneira
17:41que eles tinham de rir da época deles,
17:44de rir da sociedade deles,
17:46já que eles não podiam mudar
17:47aquele meio em que eles viveram, né?
17:50Então, e além do importante papel
17:52que ele teve como autor de teatro.
17:54E, segundo Oscar Gamba,
17:57e é verdade,
17:58ele é o primeiro escritor brasileiro
18:01a fazer uma peça de teatro para crianças.
18:041915.
18:05Olha que coisa bacana.
18:07Ótimo, ótimo.
18:07Então, essas coisas me dão muito alento.
18:09E por falar em criança,
18:10você escreveu muito para crianças.
18:13É.
18:14Esse Chico Aurélio,
18:15que escreve para crianças,
18:17é o Chico Aurélio crítico?
18:19É o Chico Aurélio cronista?
18:21É.
18:21Ou é um outro Chico Aurélio
18:23cuja sensibilidade se aflora
18:25e é dirigida para essa literatura infantil?
18:28É, na verdade, Guilherme Jó,
18:30eu criei duas disciplinas na UFES.
18:33Criei a disciplina de literatura infantil
18:34e criei a literatura do Espírito Santo.
18:37Então, esses eram meus dois focos
18:39na época que eu entrei na universidade
18:41como professor.
18:42Primeira coisa,
18:43eu achava que a gente tinha que ler
18:44a literatura que estava sendo feita
18:46no Espírito Santo naquele momento.
18:48porque eu constatava
18:50que era uma literatura
18:51que precisava ser lida.
18:53Então, isso aí
18:55foi importante
18:56na minha carreira de professor.
18:58E também
18:59a questão da literatura infantil,
19:01porque o Brasil
19:02estava vivendo também
19:04o boom da literatura infantil.
19:06Grandes autores surgiram
19:08na década de 70
19:09e estouraram na década de 80.
19:11Ana Maria Machado,
19:12Ziraldo,
19:13Ruth Ross,
19:13Joel Fino,
19:14muitos outros.
19:15E aí acabei
19:17começando a minha carreira de escritor,
19:18na verdade,
19:19com literatura infantil.
19:21O ano que vem faz...
19:22Não, este ano agora,
19:24faz 40 anos
19:25que eu publiquei
19:25meu primeiro livro.
19:27Em 1983.
19:29Foi uma vez uma chave
19:30por uma editora
19:31de Belo Horizonte,
19:32que era muito famosa,
19:33a editora Big Lim.
19:34E agora,
19:35eu nunca, vamos dizer assim,
19:37batalhei para ser escritor
19:38para criança, não.
19:39Foi uma coisa que surgiu
19:40a partir do momento
19:42que eu estava estudando
19:44a literatura do Espírito Santo
19:46e acabei,
19:46nos meus cursos
19:48de formação
19:48para o professor,
19:49acabei produzindo também.
19:53Mas olha,
19:53Alegre Jó,
19:54eu considero a literatura
19:56para criança
19:56uma questão muito séria,
19:58uma literatura muito séria.
19:59Eu acho muito difícil.
20:00Muito séria
20:01e muito difícil.
20:02O que eu tenho observado
20:04é que a literatura
20:06não melhorou muito
20:07a literatura para criança.
20:08Pelo contrário,
20:10muitos escritores
20:11para criança
20:11ainda veem muito
20:12essa literatura
20:13como uma literatura
20:14pasteurizada,
20:15uma literatura
20:16que tem que ser suavizada,
20:18como se envolvesse
20:19um mundo para adulto,
20:20um mundo para criança.
20:21Ou, então,
20:23o livro como instrumento
20:24de didática,
20:25instrumento de ensinamento.
20:28Então, eu pego,
20:29por exemplo,
20:30esse livro meu
20:30que foi premiado,
20:31que ganhou o edital
20:33da Secult,
20:34Clarice e o Beija-Flor.
20:36Primeira coisa,
20:36as minhas histórias
20:37são sempre realistas.
20:40as crianças
20:41me perguntam
20:41onde é que vem
20:42imaginação para escrever.
20:43Eu falo,
20:43vem do mundo.
20:44Vem do mundo
20:45em que eu vivo
20:45e em que você vive também.
20:47Minha netinha achou
20:48um filhotinho de Beija-Flor
20:49e resolveu criar
20:51esse filhotinho de Beija-Flor.
20:52Eu falei,
20:53como é que você vai criar
20:54um filhotinho de Beija-Flor?
20:55Eu sou da roça,
20:56nasci na roça,
20:57já criei muito
20:58bichinho,
20:59passarinho em gaiola
21:00na época
21:01que a gente podia ter
21:02um mel
21:03em gaiola,
21:04mas nunca vi
21:05ninguém criar
21:06um filhotinho de Beija-Flor.
21:06E ela criou.
21:09Aqui tem ela
21:10com o filhotinho
21:11de Beija-Flor
21:12no dedinho,
21:13carregando,
21:13carregava pela casa.
21:15Só que eu tinha
21:15que prepará-la,
21:16ela tinha três aninhos,
21:17eu tinha que prepará-la
21:20que esse Beija-Flor
21:21fazia parte
21:22de um outro mundo,
21:23ele não podia viver ali.
21:25Falei,
21:25ele tem que ir embora,
21:26ele tem que ir para a natureza.
21:27Não, vovô,
21:27ele é meu,
21:28não é seu.
21:29Você criou ele
21:30porque ele caiu do ninho,
21:31a mãe não conseguiu
21:32levar para lá,
21:33você criou,
21:34mas ele tem que voltar
21:35para a natureza.
21:36E aí,
21:38eu tive que,
21:39eu conto essa história.
21:41De uma certa maneira,
21:42acho que é isso,
21:43sabe,
21:44as histórias para a criança
21:45são para preparar as crianças
21:47para a realidade
21:48do mundo
21:49em que elas vivem.
21:50Então,
21:50eu falo da morte,
21:52eu falo das diferenças sociais,
21:53eu falo de tudo
21:54que eu falaria
21:55num conto
21:55que não fosse para a criança.
21:57Tudo é uma questão
21:58de linguagem.
21:59Chico,
22:00eu sempre quis fazer
22:01essa pergunta
22:02para alguém
22:02e eu acho
22:04que você
22:04é a pessoa adequada.
22:06O que você me diz
22:07desses textos clássicos
22:09que são adaptados
22:10para a criança?
22:11A minha pergunta é,
22:13você é favorável
22:14a isso?
22:15Você sente
22:16que isso é uma corrupção
22:17do clássico?
22:18O clássico
22:19deveria ser lido
22:20por pessoas
22:21mais velhas
22:22na época certa?
22:23O que você acha
22:24de trazer
22:25o clássico
22:26para a criança
22:27e reestruturar a linguagem?
22:29O que você pensa disso?
22:30Grijó,
22:31eu já fiquei
22:31muito preocupado
22:32com isso
22:33quando pegaram,
22:34por exemplo,
22:35Monteiro Lobato
22:36e começaram
22:37a reescrever
22:37Monteiro Lobato.
22:38Aí eu falei,
22:39meu Deus,
22:39Monteiro Lobato
22:40é tão recente,
22:41tem 100 anos
22:42que ele escreveu
22:43e já estão reescrevendo.
22:44Valcica Arrasco
22:46reescreveu
22:47Monteiro Lobato.
22:49Depois eu fiquei
22:50pensando o seguinte,
22:51na verdade,
22:52o que está por aí
22:53é a intenção
22:56pedagógica.
22:57Levar o clássico
22:58até a criança.
22:59Eu acredito
23:00que pode ser
23:01um recurso
23:02para que ele
23:03um dia
23:04leia o texto
23:05original.
23:06Da mesma maneira,
23:07quando a gente
23:08lê um texto
23:08de outra língua
23:09e a gente não sabe
23:10a língua original,
23:12você lê
23:12aquilo traduzido.
23:14Mas eu te pergunto,
23:15até que ponto
23:16esse tradutor
23:16foi fiel?
23:17Não é?
23:18Se você lê
23:19um livro
23:19que foi escrito
23:20em francês
23:20ou em inglês
23:21ou italiano
23:21ou russo,
23:23se você lê
23:23um Dostoievski
23:24que foi escrito
23:25em russo
23:25e agora você
23:26lê esse livro
23:27traduzido,
23:27você também não está
23:28lendo o livro
23:28original.
23:30É uma adaptação.
23:32A tradução
23:32também é uma adaptação.
23:34A adaptação
23:34é uma língua
23:35da pessoa
23:36que está lendo.
23:37Então,
23:37nesse aspecto,
23:38eu acredito
23:39que tudo
23:40que leve
23:41à formação
23:42de um leitor
23:43integral
23:43é válido.
23:44por exemplo,
23:46eu não sei
23:47se você viu,
23:48eles estão
23:48fazendo histórias
23:49em quadrinhos
23:50de clássicos.
23:51Sim, sim, sim.
23:51Você já viu
23:52histórias em quadrinhos
23:53do Canaã?
23:54Não, não vi não.
23:54Pois é.
23:55Agora, você imagina
23:56um Canaã
23:57que é um livro
23:59dificílimo de ler,
24:00um livro que tem
24:01uma linguagem
24:02de começo
24:03de século
24:05bastante rebustada.
24:06Expressionista, né?
24:07É.
24:08E aí você pega
24:09o livro
24:09transformado
24:10em história
24:10em quadrinho.
24:11O que eles pegam?
24:12Eles pegam o que é
24:13quadrinável,
24:14vamos dizer assim,
24:15e trazem isso
24:16para o adolescente.
24:16Eu fui a uma escola
24:17semana passada
24:19e os meninos
24:20estavam todos
24:20com história
24:21em quadrinho
24:21na mão.
24:22Aí,
24:23o menino me perguntou
24:24o que você acha
24:25da história em quadrinho?
24:26Eu falei, olha,
24:27para a sua idade,
24:28eu também gostava
24:28de ler história
24:29em quadrinho
24:30na sua idade.
24:30Só espero
24:31que você consiga
24:31superar isso.
24:33É.
24:34Eu espero que um dia
24:35você consiga ler
24:36uma história
24:36que não seja em quadrinho.
24:38Então, eu acho
24:38que é por aí, sabe?
24:40A gente tem que ver
24:41essas tentativas
24:42como formas,
24:44vamos dizer assim,
24:45de se formar
24:46esse leitor
24:47que a gente gostaria
24:48tanto que houvesse.
24:50Chico,
24:51eu vou agradecer
24:53a você
24:53pela sua lucidez,
24:54cara.
24:55e pela sua clareza
24:57para falar.
24:58É invejável,
25:00você está de parabéns.
25:00Foi um privilégio
25:01ouvir você aqui.
25:03Agradeço muito
25:04a sua participação.
25:05Obrigado.
25:05Quero muito
25:05que você volte
25:06para a gente conversar
25:07sobre modernidade.
25:08Sim.
25:09Eu vou agendar com você
25:11para você voltar aqui,
25:12mas infelizmente
25:13o nosso tempo acabou.
25:14Eu agradeço demais
25:15sua participação.
25:16Valeu mesmo.
25:16Se quiser falar
25:16alguma coisa...
25:17Eu sugiro,
25:18Grijó,
25:18que de repente
25:19a gente pode voltar
25:20a falar,
25:21se você quiser falar
25:21sobre literatura capixaba,
25:24literatura do Espírito Santo.
25:25Ótimo.
25:25Até o termo, né?
25:28Porque eu me dediquei muito a isso.
25:30Eu sei.
25:31E hoje eu não tenho mais,
25:33vamos dizer,
25:35a oportunidade
25:36de divulgar isso
25:37para os meus alunos.
25:38Vai ter.
25:38Porque nem para a banca
25:39de mestrado
25:40eles me chamam mais.
25:41Acho que já me consideram velho
25:43até para poder participar.
25:44E também nem faço
25:45muita questão,
25:46sabe, Grijó?
25:46Porque aquele tipo
25:47de tema
25:48que está sendo discutido
25:49não me interessa.
25:50E eu estou
25:51numa fase da minha vida
25:52que hoje eu escolho
25:53o que eu quero ler,
25:55o que eu quero criticar,
25:56o que eu quero analisar.
25:57Obrigado, Chico.
25:58Valeu mesmo.
25:59Muito obrigado.
25:59Eu te agradeço, Grijó.
26:00Muito obrigado.
26:01Espero que você volte.
26:02Valeu, gente.
26:02Também espero.
26:03Um grande abraço.
26:04Uma aula aqui
26:05com o professor Francisco Aurélio,
26:06meu chará.
26:07Um grande abraço
26:08a vocês todos.
26:09E até a próxima
26:10com o Orlando Lopes
26:11que chega
26:13para a próxima edição.
26:15Valeu, gente.
26:17Você ouviu
26:18Vitrine Literária
26:20com o professor
26:21e escritor
26:21Francisco Grijó.
26:23Tudo sobre
26:23literatura contemporânea.
26:25Temas,
26:26autores,
26:27obras,
26:27debates,
26:28análises,
26:29curiosidades
26:30e bate-papo
26:31com autores
26:32e editores.
26:32E bate-papo
26:32com autores e editores.
26:34Transcrição e Legendas Pedro Negri

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